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" eventor" é na Rádio Observador, também em vídeo no YouTube, hoje com a Judite França, o Nuno Gonçalves Poças e o Anselmo Crespo. Eu sou o Ricardo Conceição e hoje temos de ir ao negócio da TAP, também à manifestação no Porto que acabou com carga policial e ainda outro tema, o Chega, que foi repreendido no Parlamento por ter feito um vídeo em que André Ventura se passeava pelos corredores da Assembleia da República, dando a entender que não estava ninguém a trabalhar naquela sexta-feira. Mas importa saber, Nuno Gonçalves Poças, o que estavas a fazer no domingo à noite? Além de ver o "Casados à Primeira Vista" ou o "Big Brother", não sei qual das duas preferes, mas estavas a fazer o quê no domingo à noite? Por volta das 10:00 p.m., mais ou menos. Tens ideia?

Não.

Não? Não estavas a ver uma entrevista de certo determinado indivíduo.

Não, eu sei onde é que tu queres chegar, mas é que não me lembro mesmo onde é que estava no domingo à noite, porque eu não vi a entrevista em direto.

Não viste a entrevista em direto? Quer dizer, eu estava aqui com esta entrada incrível que inventei agora.

Homem, não o vi é todo a pensar nisto.

Que inventei agora.

Não. Já sei onde é que eu estava.

Pronto.

Estava no jantar de aniversário do meu querido sócio e amigo João Miguel das Chiancas.

Pronto.

A quem mando daqui um abraço.

Um abraço para o Jorge Miguel.

João Miguel.

João Miguel. Peço desculpa, João. Um abraço e parabéns.

Não, mas-

Então quando é que viste a entrevista a Pedro Passos Coelho?

Vi assim que cheguei a casa, às 11:00 p.m. fui logo ver.

Estavas em éseis. Estavas em "polves". E então, a entrevista foi uma boa entrevista?

Foi, claro.

Diz esse "claro" com orgulho.

Foi mais ou menos parecida com aquela entrevista que ele tinha dado em março, ao Eco.

Ao Eco.

Sim. Não senti ali grandes novidades. Mas visto na televisão é sempre mais-

Tem outro impacto.

Talvez. E é mais prazeroso, dá para ver a expressão facial, aquelas coisas.

E sentiste de alguma forma aliviado com aquela quase promessa de: "Se isto correr mal, vocês chamem que eu venho."

Vou tentar responder isso a sério. Não sei, porque o canal não é tão largo quanto se imagina. Para mim é sempre prazeroso e ao mesmo tempo não é, por uma razão: eu passei os últimos 10 anos, quando Pedro Passos Coelho saiu da liderança, e acho que também, vou arriscar aqui que talvez fosse a sua expectativa, de que o seu tempo tinha acabado, tinha feito o que tinha feito e ia à sua vida, e que o país, como continua a andar e vêm novas gerações e novas lideranças apareceriam. A chatice é que não apareceram. Isso deixa-me aborrecido. A vantagem é que apesar de tudo, ainda aparece alguém no espaço público com capital político, experiência política e eventualmente futuro político, com quem eu me consigo rever. Isso dá-me algum gostinho.

Obrigado. Sabem, éseis para te ouvir sobre esta matéria.

É só isto? Sobre uma matéria de facto, não?

Espera, o Anselmo-

Sobre matéria de facto andamos a falar disto há um ano.

O Anselmo é uma pessoa que se deita cedo para tratar do jardim, que eu sei. Às 5:00 a.m. ele está de pé.

As duas coisas: deitar-me cedo e ter tempo para tratar do jardim.

Não sei se no domingo à noite tiveste-

Eu não vi, também vi em diferido, mas porque priorizei ver uma série.

Pelo menos eu estava em casa de um amigo.

Mas vi no domingo, vi no domingo na mesma. Eu tinha dito: "Vais amanhã de manhã." Depois não me aguentei, fui andar para trás, estava farto de receber "pushes": "Tenho que ver isto, despacha isto." E eu acho que foi uma boa entrevista na ótica do próprio, acho que lhe correu particularmente bem. Percebo o que o Nuno diz, de não tinha propriamente grande novidade, o que também diz bastante deste alegado silêncio prolongado. Qual silêncio? Ele está farto de falar. Espero que tenha servido pelo menos para pararem de fazer a pergunta de quando é que volta. Pronto, já se percebeu, volta, só não se sabe quando.

Mas ele já tinha dito isso.

Sim, certo, mas agora foi mais claro. Ele só não sabe o dia e a hora, porque tirando isso-

Nem como.

Nem como.

Não, mas eu acho que aquilo é exatamente a mesma coisa que de há uns meses, que é: "Eu não gostava nada de ter que voltar." Mas se isto não entranhou a área-

"Eu não gostava nada."

"A coisa que me chateia é ter que voltar." Está a apertar o-

Nuno, e deixa-me dizer uma coisa.

Ele disse isso.

Eu respeito até o facto de ele assumir esta coisa da falsa modéstia, do: "Não, eu até não queria, estava aqui tão bem a dar aulas." Não, se ele diz isso sobre ele próprio-

Nos últimos oito anos, acho que foi isso que não lhe passou pela cabeça voltar.

Não sei nos últimos oito anos, eu não sou próximo dele, portanto não faço ideia, não tenho diálogo com ele.

Os anos do silêncio.

O que eu senti quando ele ficou como líder da oposição, porque ele podia ter saído quando o António Costa monta a geringonça e ele Outro líder político provavelmente não teria ficado como ele ficou.

Paulo Portas não ficou.

E Paulo Portas não ficou. Eu imagino que aquele período não tenha sido particularmente fácil, até do ponto de vista pessoal. Porque ele ganha umas eleições e depois não pode governar. E ele ficou no Parlamento a fazer oposição. Já nesse período, eu na altura lembro-me de dizer que ele parecia um primeiro-ministro no exílio. E quando ele abandona, depois da derrota nas autárquicas, a sensação foi que ele continuou a imaginar-se como primeiro-ministro no exílio, mas remeteu-se a um silêncio que ele, aliás, explica particularmente bem na entrevista à Maria João Vilas Boas, quando diz: "Eu entendi que ele não queria dar pretexto ao Rui Rio para dizer as eleições por causa disto." Mas eu acho que ele, e por isso é que eu digo que respeito isso, assume que é um executivo e gosta de executar. Dois, ele quer ser primeiro-ministro, gostou de ser primeiro-ministro, gostava de voltar a ser primeiro-ministro.

Diz que sabe o que é que quer fazer.

E, portanto, independentemente de concordarmos mais ou menos com ele, eu respeito. Não compreendo a tese de que: "Vou aqui fazer um frete e vestir a camisola pelo país só porque o país precisa de mim." Não compreendo.

Não acho que seja só fazer um frete. Acho que mais tarde ou mais cedo, ele percebeu isso, que será inevitável. Acho que gostava muito que isto corresse bem, mas não sei se vai correr.

Isso de ser inevitável parece uma coisa quase-

É, parece o predestinado.

Parece. Se é inevitável.

Eu não acho, mas é o que eu estava a dizer. Eu não acho incrível que de repente, 10 anos depois, tenha de voltar à mesma pessoa. O problema é: em terra de cegos, quem tem olho é rei. E ele ainda por cima tem os dois.

Provavelmente o próprio sente que não teve a oportunidade para terminar aquilo que queria fazer. Sente-se uma promessa por cumprir.

Sobretudo, foi primeiro-ministro num período de assistência financeira. Foi primeiro-ministro com-

E depois quando podia ter.

Mas ainda assim, não acho que seja alguém que esteja virado para 2015 e a patinar na maionese em 2015.

Não, acho que isso já lhe passou. Demorou.

Toda a conversa é para o futuro, do que o país ainda pode vir a ser e não está a conseguir ser.

Mas aí voltamos àquilo que estavas a dizer, o canal é muito estreito.

E depois é a questão que a mim não me interessa nada, que é da giga joga, do sai agora, se não é, depois se o Chega ficar à frente, se não sei o quê. Isso não me interessa.

Essa é a coisa prática.

Sim, mas isso é a coisa prática que, na verdade, dele não depende seguramente. Dele depende explicar às pessoas o que quer.

É muito difícil, nós falávamos isso aqui na terça-feira, pôr o país a falar e a debater com as divergências que se possa ter. É muito difícil pôr o país a debater as reformas ou setorialmente o que se pode fazer na economia, na justiça, na saúde.

Se nós continuarmos sempre a decidir: "Ah, mas e se o Chega ficar à frente?" Que lá se veja.

Fica sempre aqui neste bate-boca do é agora, é depois.

Pois é, mas é que eu acho que é importante. Nós não podemos andar ao mesmo tempo a fazer o discurso "o Chega não conta, o Chega não sei o quê e de manhã é uma coisa e à tarde é outra", e depois, de repente, o que ele está a fazer é precisamente pôr quase todos os partidos, incluindo o Chega, em xeque. As ideias dele são estas e os outros têm que ser chamados à responsabilidade. E o país tem que perceber, de facto, com que linhas é que se cosem. Eu acho que a grande vantagem do Pedro Passos Coelho para a política no país é que ele traz uma clareza que mais ninguém tem, nem o PS, nem o AD, nem o Chega, em que as coisas são todas voláteis e agora é com um, e agora é com outro, e afinal era para fazer aquela reforma, mas agora já não vou fazer. Eu pedi um estudo, mas afinal não é para nada. Ali é tudo claro. E não há pudores, nem constrangimentos, nem cinismos de: "Ai, que eu não vou falar da Segurança Social porque posso perder eleitores, não sei o quê." Não, eu acho que se deve falar sobre isto, fala-se sobre isso.

Queres dar uma nota?

Eu não.

Não? Anselmo e a Judite?

Já demos.

Deixa-me assinalar que o Torriense está a ganhar 1 x 0, um golaço do Torriense frente ao Sanalante, minuto 37 da primeira parte. Judite, vamos aproveitar ainda este largo minuto que resta para te ouvir discorrer sobre a repreensão a André Ventura.

É pena que a repreensão não tenha sanção, porque de facto, só para que as pessoas percebam o que aconteceu, isto foi a 10 de julho, André Ventura publicou nas redes sociais um vídeo de corredores e salas vazias no Parlamento, para dizer que não havia deputados do PSD, do PS, da IL e do LIVRE a trabalhar. E portanto, era uma sexta-feira em que já toda a gente tinha ido embora para fazer um fim de semana prolongado. Entretanto, houve queixas, participações do PS e da Iniciativa Liberal, e o presidente da Assembleia da República mandou abrir um inquérito e a Comissão Parlamentar de Transparência analisou isto durante vários meses, para chegar à conclusão de que Ventura fez uma clara tentativa de adulteração da verdade dos factos, sabendo que nesse dia havia o Congresso do LIVRE a decorrer, e portanto, não havia trabalhos, mas só nesse dia houve cinco audiências dos grupos parlamentares e portanto estava lá gente a trabalhar. Ele também sabe que os deputados estão sentados, na sua grande maioria, num outro edifício que não aquele, e também sabe que as portas que abriu dos grupos parlamentares são pequenos foyers ali à entrada, são pequenos halls. E as pessoas estão depois em salas com portas fechadas.

Exato, dão acesso a outros gabinetes.

Claro. E portanto, eu acho que foi bom o parecer dizer que há uma violação grave dos deveres de deputado e é bom que isso aconteça de cada vez que o Chega decide fazer um número como este.

E a nota?

A minha nota vai para a transparência, para a Comissão de Transparência, e eu vou dar um 16 a este resultado.

Já lá vamos ao que aconteceu no Porto nesta madrugada, até porque daqui a pouco, às 19h, está marcada nova concentração na Praça Dom João I no Porto. Vamos a um negócio da TAP, Anselmo Crespo. Ainda há muito para dizer sobre este negócio? Eu acho que enquanto não se privatizar os 100%, sim, ainda há muito pra dizer. E sobretudo enquanto não confirmarmos nos próximos anos que mais do que o valor que é pago agora pelos 49,9, as contrapartidas que estão associadas a esta compra, se vão efetivamente concretizar. Já não digo que tenham o impacto na economia portuguesa que se deseja, obviamente tenham. Mas sobretudo que elas se concretizam todas. Acho que vamos ter que ficar atentos, porque de fato isto não é nenhuma brincadeira. Mas eu trouxe esse tema por dois motivos. Primeiro, porque do ponto de vista da decisão política e daquilo que eu entendo, que eu acompanho a TAP há muitos anos, aliás, a Judite também. Para terem noção o quão velhinho eu sou, eu fui com a TAP ao Brasil em trabalho, quando a TAP comprou a VEM, ou a VAI, como lhe quiserem chamar. Depois de ter falhado a compra da Varig. Falhou a compra da Varig, ainda bem que falhou, porque se tivéssemos comprado a Varig, se calhar já não havia TAP, mas comprou a VEM, que era a empresa de manutenção e engenharia da Varig e que depois ficou pra TAP e que na verdade, nos obrigou a andar a pagar prejuízos até hoje. E por isso eu acho que, de fato, não faz sentido nenhum o Estado ser dono de uma companhia aérea. Não percebo o discurso da companhia de bandeira e das Caravelas. Não percebo esse discurso. Vivemos em 2026. A concorrência é mais que muita no setor da aviação, a oferta é mais que muita. Acho que há, de fato, um conjunto de condições que têm que se manter, desde logo, porque o nosso território, de fato, tem a Região Autónoma dos Açores, a Região Autónoma da Madeira, e portanto, há um conjunto de garantias que nós temos que ter, que salvaguardem portugueses que são tão portugueses como os que moram no continente. Mas não percebo esse discurso e, portanto, acho que esta venda só peca por não ser os 100%. Acho que o governo fez a única coisa que podia ter feito e, portanto, acho que a decisão foi acertada. Não me vou meter se era melhor a KLM ou se era melhor a Lufthansa, não tenho estudos pra isso. Mas parece-me que a escolha, quer num caso, quer noutro, quer fosse a KLM Air France, quer fosse a Lufthansa, estamos a falar de duas companhias aéreas com robustez suficiente e que eu acho que, de fato, não nos oferecem, pelo menos em princípio, grandes dúvidas sobre a TAP estar ou não estar em boas mãos. Depois, pra terminar, só a dimensão política do porquê que não é possível privatizar a 100%. Agora estava a ver uma notícia do Eco, que dava conta de que o Partido Socialista e o Chega estão disponíveis para conversar com o governo, mas não estão disponíveis para mudar de opinião. Eu acho isso extraordinário. Quer dizer, vou saltar a parte do Chega, senão vou dizer a mesma coisa em relação a este assunto, que digo em relação a todos os outros assuntos. Isto do Chega uma pessoa nunca se sabe o que pensa. Ou hoje pode pensar uma coisa e amanhã pode pensar outra, portanto, não vale a pena perder tempo com isso. Mas sobretudo do lado do Partido Socialista, que teve responsabilidades governativas ao longo destes anos todos, que enfim, nos casos, geriu o dossiê TAP com os pés ou com o pé que tinha mais à mão. Tantas vezes, olha, o caso da Varig e da VEM é um bom exemplo de como a influência e interferência política e esta ideia que os primeiros-ministros muitas vezes têm de que seriam ótimos CEOs e que como são primeiros-ministros, também podem opinar sobre os destinos das empresas, deu o resultado que deu. E chegamos aqui, andamos a pagar prejuízos à TAP estes anos todos, precisamente porque os políticos se armaram em gestores de empresas, quando, na verdade, não têm nenhuma apetência pra isso. E, portanto, acho que o Partido Socialista devia mesmo aproveitar a liderança de José Luís Carneiro ou se quiserem, ao contrário, José Luís Carneiro devia aproveitar este momento para reponderar e repensar a posição do Partido Socialista e decidir se faz mesmo sentido manter este finca-pé, que só se justifica do lado do Partido Socialista, em nome da história do partido e das Caravelas da TAP, que têm que se preservar. E acho que era melhor, de fato, vender os 100%. Caso contrário, eu presumo que Montenegro também não esteja a contar chegar a 2029, uma vez que pediu aos bidders que apresentassem uma proposta para uma privatização a 100% até 2028. Portanto, imagino que Montenegro não esteja propriamente a contar com eleições só em 2029. Por que pediu pra dois anos e não pediu pra três? Era só mais um aninho. E depois o próximo governo logo decide.

E a tua nota, Anselmo?

A minha nota vai pra privatização, pra decisão de privatizar os 49,9%. Eu dou um 15, não dou mais alto, porque acho que agora temos que escrutinar os próximos tempos, mas pra já dou um 15.

Tu queres falar uma coisa sobre a TAP, Nuno? Temos que ir ao Porto.

Não. Eu acho que eu subscrevo mais ou menos aquilo que o Anselmo estava a dizer.

Mais ou menos, só?

Não, porque eu tinha aqui uma nota só por causa da questão dos Açores, das ilhas. Porque, de fato, nós continuamos com duas empresas públicas de aviação a fazer o transporte aéreo de passageiros.

A SATA pra os Açores.

A SATA pra os Açores e a TAP também. E pra Madeira. E não é por causa disso que os Açores não estão agora a passar por dificuldades. É por causa de outras coisas, revisões de taxas aeroportuárias, etc.

Desde que a Ryanair deixou de voar pra lá.

Exato, desde que a Ryanair acabou. E, portanto, ninguém precisa de Caravelas pra ir pros Açores. Havia um senhor irlandês que levava pessoas pros Açores quando tinha condições pra isso.

E era pago.

Pois, exato, mas nós é que temos que saber o que nós queremos fazer. Estamos mais disponíveis pra isso ou pra gastar 3000 e tal mil milhões de dinheiro dos contribuintes pra assegurar exatamente a mesma coisa.

Vamos ao Porto, Judite.

Eu estive a ver as imagens como toda a gente e acho que há alguma assimetria que é difícil de defender, nomeadamente uma intervenção às três da manhã. Acho que é algo que não faz muito sentido. Acho que isso podia ter sido resolvido à luz do dia. Bem sei que a partir da meia-noite e meia não se podem manifestar, mas acho que era preferível ter isso ter acontecido do que o que aconteceu nas imagens que temos visto, que não são imagens muito bonitas de se ver. Entendo também a parte de querer que o protesto acabasse e que as tendas saíssem dali, porque outras pessoas também têm direito a passar na Praça Dom João I e, portanto, o direito à livre circulação também tem que ter alguma devida nota. Acho que as declarações do presidente da Câmara na quarta-feira, antes da intervenção, ter dito que ia ser absolutamente implacável, acho que foi excesso de linguagem. Acho que não devia ter dito isso, porque isso implica necessariamente uma escalada, pelo menos no tom, e acho que era desnecessário que tivesse acontecido. Uma coisa é certa: estavam lá as tendas há cinco dias e iam sendo notícia. Agora, depois disto, o protesto de facto passou a ser central. Hoje não falamos de outra coisa a não ser disto.

A Praça Dom João I é perto do Silo Alto, não é?

É relativamente perto do Silo Alto, sim.

Estava a reconhecer mais ou menos o sítio.

É relativamente perto. Ali nada nem muito longe.

Agora que esta minha dúvida foi satisfeita.

Sabes bem que era perto do Silo Alto. É para reconheceres.

Sei.

Podem continuar.

Por isso é que tenho essa referência.

Isto incomoda-me um bocado. Eu acho que a Judite tem aqui razão num ponto, ou seja, claro que isto podia tudo ter corrido de outra maneira. A questão é que se calhar também era mesmo para não correr.

Mas isso é que eu não entendo.

Pois, mas não era para correr e provavelmente não era pela polícia, porque pelos vistos não foi por falta de aviso, não foi por falta de pedidos, não foi por falta de por favores, não foi por falta de se não se importam. Portanto, quem está há uma série de dias a fazer manifestações, obviamente não vou falar por todas as pessoas que ali passaram pela manifestação, mas aquilo que nós temos visto, agora no Porto como noutros sítios e por essa Europa fora, na verdade, é uma espécie de seis ou sete em um de manifestações. Eu lembro-me até da intervenção que a Catarina Martins fez destes dias ali. A gente junta tudo. Da habitação saltamos para o genocídio e, portanto, quem está a arranjar problemas na habitação é porque está a financiar o genocídio. Eu acho que lhe faltou o clima.

Como agora está um bocado fora de moda.

Está um bocado fora de moda, até porque eu acho que entretanto há mais gelo no Polo Norte e portanto tudo fica esquisito.

Mas isso é como o deputado do Chega há bocado. É tudo gay, é tudo islâmico.

Exato. Mas é que a resposta depois a este tipo de coisas, às tantas acabamos só aqui com os maltinhos de um lado e do outro. Eu acho que se nós não estivéssemos aqui um bocadinho atados ou um bocadinho reféns da agenda que se quer ter com isto, olhávamos para isto com uma coisa muito simples, que é: houve um grupo de pessoas que violou o direito à manifestação, que não cumpriu uma ordem policial, a polícia voltou a pedir, não cumpriram e saíram dali. Isto já me aconteceu à porta de casa. Eu também tinha 17 ou 18 anos, estava na conversa às duas da manhã, estávamos a falar um bocado alto, um vizinho que chamou a polícia, e nós fomos encostados todos à parede com uma shotgun pelas pernas abaixo. Pronto, é a vida. E depois fomos para casa. É assim. Isto acontece todos os dias em todo lado. Mas como está a senhora Catarina Martins e o José Soeiro, e de repente como estamos ali a falar do genocídio e das Mari Carmens e daquelas coisas todas, e portanto, como há uma agenda política por trás daquilo, nós temos que ir atrás disto. Não, não temos. Aquilo que aconteceu foi uma coisa muito simples do ponto de vista policial. Se nós quisermos agora alimentar a narrativa daquilo que se pretende, é porque não se pode estar quatro ou cinco dias a falar em resistência, mas em resistência a quê? Então se calhar a polícia tinha razão, houve resistência.

Se houve resistência, vão detidos.

Pois, exato.

Detidos.

Não sei se foram ou não.

Não.

Não foram. Pronto, então deviam ter sido, se calhar a polícia ainda fez pouco.

Não, deviam ser detidos, não deviam ter levado com um cassetete.

Depende, se não quiserem ser detidos a bem, normalmente é assim que acontece.

Às vezes a pessoa não quer ser detida.

Às vezes a pessoa não quer.

Às vezes acontece.

Eu remataria só com esta ideia. Eu acho que há discussões no espaço público que eu francamente não consigo sequer entender porque é que existem. Há pouco vinha a ouvir os deputados que estavam a entrar aqui na emissão da Rádio Observador e vinha a ouvir o deputado Paulo Muacho. Primeiro a constatar o óbvio. A manifestação é um direito.

A gente sabe, ninguém contesta.

Mas eu não percebo sequer o mas. Se há regras, se as regras têm que ser cumpridas, se os manifestantes sabem que têm uma hora limite e se sabem que lhes mandaram tirar as tendas, então significa que se eles não respeitaram a ordem que lhes foi dada, todos juntos estão a incumprir a lei. Eu não percebo é como é que se vem para o espaço público dizer: "Mas a polícia se calhar não precisava de ter..."

Vem por uma razão, é que nós entramos exatamente na mesma coisa. O esquerdismo dos anos 70 e 80 na Europa fez exatamente a mesma coisa, que era com as greves de fome dos presos terroristas, não sei quê. De repente, tínhamos uma sociedade inteira a discutir os direitos dos tipos que tinham matado outras pessoas. Eu não dou mais para este território.

Mas ouve lá, Nuno, se o Livre, o Bloco de Esquerda e o PCP querem defender a desobediência civil, então que a defendam publicamente.

Não, porque as pessoas são suficientes para isso.

Não venham tentar atirar areia para os olhos das pessoas, porque qualquer cidadão, como tu próprio há bocado deste o teu exemplo, qualquer cidadão sabe que há regras e que se não respeitar as regras, há uma consequência. A não ser que se abra aqui um parêntese e diga: "Exceto se for manifestante."

Não é para o manifestante. As pessoas estão ali pacificamente, é como em França. Já ouvi alguém dizer isso, que as pessoas estão ali pacificamente a queimar coisas, estão pacificamente a destruir coisas e depois vem a polícia chatear.

Os meninos também estavam à volta da fogueira.

No fundo é isto. As pessoas estão ali tranquilas da vida a partir tudo em mais um par de botas e depois vêm agora estes chatos.

Eu aqui sou implacável com o relógio e com as regras.

Está bem. Olha que ele ainda chama a polícia.

Amanhã há mais.

Vamos já de volta