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Vamos analisar os temas e protagonistas que estão a marcar a atualidade no E o Vencedor É, com notas de 0 a 20. Nesta edição de sábado, nas manhãs 360 de fim de semana, juntam-se a nós o Anselmo Crespo, diretor de novos conteúdos da TVI CNN Portugal, e o Luís Rosa, redator principal do Observador. A moderação é contigo, Zé.

Anselmo Crespo, Luís Rosa, sejam muito bem-vindos. É um gosto enorme contar convosco aqui em estúdio. Vamos arrancar a edição de fim de semana de E o Vencedor É, até porque todos os dias há vencedores e todos os dias aqui na Rádio Observador damos notas de 0 a 20. Hoje temos vários protagonistas no menu para graduar e avaliar. E vamos começar pelo ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento. Luís, é um dos teus protagonistas, numa altura em que o ministro das Finanças tem pouca margem no orçamento, o PRR vai tirar 1% do PIB em despesas, é um dos temas que marca aqui a agenda. É também por isso que queres falar do ministro das Finanças?

Vou te dizer que é mais por outra perspectiva. Não exatamente por essa, mas mais complementar, se tu quiseres.

Estou curioso.

Acho que houve boas notícias para o ministro das Finanças esta semana. Em primeiro lugar, a subida da notação da Standard & Poor's para A+, que é uma excelente notícia para todos os portugueses. Esta subida de notação não tem o mesmo efeito que quando nós deixamos a categoria lixo para terreno mais positivo, mas é sempre uma notícia positiva pro Estado, para as empresas e também para os cidadãos. Grosso modo, quando a República emite dívida, se a notação das agências financeiras for muito positiva, isso é mais provável que faça com que os juros sejam mais baixos. É uma notícia positiva para todos, até porque uma das razões da agência de notação financeira Standard & Poor's para melhorar esta notação financeira tem a ver com a descida do rácio da dívida em relação ao PIB. A agência prevê que a dívida desça para 82% face ao PIB.

Gostava de saber se os holandeses e os alemães ainda acham que aqui é só vinho e mulheres.

Exato. Longe vão os tempos da crise financeira e longe vão os tempos dessas declarações do antigo responsável do Eurogrupo, se a minha memória não me falha.

Exatamente.

O sustento orçamental também teve boas notícias. O Estado registou um sustento orçamental de 2,3 mil milhões de euros, portanto subiu, melhorou 1,3 mil milhões de euros face ao período anterior, também são dados da síntese orçamental. Houve também bons números de crescimento do PIB relativos ao segundo trimestre, em termos homólogos, em comparação com o mesmo período do ano passado, a economia cresceu 1,9%. É um bom número face à zona Euro. A zona Euro cresceu no segundo trimestre apenas 1,4%, portanto, Portugal continua a crescer mais do que a zona Euro, o que é também uma boa notícia. Isto não são números espetaculares, mas é muito importante que o governo, seja qual for, consiga apresentar políticas públicas que promovam um crescimento da economia portuguesa acima da zona Euro pra nós recuperarmos poder de compra face à média da União Europeia. Mas também é importante não esquecer que os dados da zona Euro são muito afetados pela Alemanha. A Alemanha continua em contração. É importante também dizer que o principal contributo para o crescimento do PIB advém do aumento da procura interna. Muito provavelmente, a descida mensal do IRS é o principal contributo para essa subida da procura interna, mas obviamente nem tudo são boas notícias. Nós tivemos mais procura, mas o investimento cresceu menos. Subiu apenas 5,6%, quando tinha crescido 6,4% no primeiro trimestre. E aqui entra o PRR que estavas a dizer, a expectativa era que este investimento subisse mais em relação ao PRR, mas se ele desceu, não subiu tanto é porque há aqui um problema com a execução do PRR.

Tem sido muito discutido a questão do PRR e a execução, com vários avisos.

Sim, tem havido muitos avisos e as coisas não têm corrido 100% como o governo quer. Agora, há riscos para o futuro a curto prazo. As negociações pro orçamento 2026 vão começar em breve. Há uma pressão do lado da receita, com a descida do IRS, a subida das pensões, dos salários. Portanto, há aqui riscos em termos de execução orçamental. Vamos ver como é que o governo descalça a bota.

Na verdade, Luís, ontem o António Costa, aqui no E o Vencedor É, dava conta de uma notícia que o Eco avançou, precisamente na linha do que estavas a dizer, que é: o Miranda Sarmento entra nestas negociações pro orçamento de 2026 já com quase 5 mil milhões de euros em despesa alocada, comprometida, portanto, cheques que já estão passados. Grande parte deste valor tem a ver com aumentos salariais na administração pública e aumentos de pensões. Portanto, a margem para negociar neste momento com os partidos é muito diminuta e nestes 5 mil milhões não estão 3 mil milhões de PRR que o governo quer executar. No fundo, a despesa do próximo ano já está altamente comprometida.

É verdade. Mesmo assim, o valor é menor que em relação ao inscrito pra 2025, em que já havia compromissos de 5,7 mil milhões de euros.

Com PRR ou sem PRR?

Aqui não sei dizer, não sei te responder essa tua pergunta.

É que são cinco mais três.

É verdade, tens razão. Tens razão nesse ponto. É verdade, e é esse o risco.

É só no sentido em que, juntando esses dois fatores, e eu acho que esse é provavelmente um dos maiores riscos, para além dos choques externos, que nós andamos sempre à espera que eles venham, mas nunca sabemos muito bem onde é que vêm. Há aqui um equilibrismo por parte do ministro das Finanças que eu acho que vai ser difícil de fazer, que é, por um lado, despesa já comprometida e, por outro, um crescimento económico que está assente, sobretudo, no consumo interno.

É verdade.

Ora, nós sabemos todos, não é preciso ser economista pra saber que uma economia que cresce apenas assenta ou praticamente, não é apenas, também estou sendo injusto.

O investimento está a crescer.

E a balança comercial, apesar de tudo, está favorável. Mas não tão favorável, ou seja, o que está a justificar o aumento do PIB é sobretudo o consumo interno.

Complementando aquilo que tu estás a dizer, se a subida do PIB fosse assente essencialmente na venda para o exterior, na venda de produtos e serviços para o exterior e não tanto na procura interna, seria uma melhor notícia.

E é esse o teto que não deixa a economia portuguesa crescer, porque nós, na verdade, não estamos a conseguir criar mais empresas, mais produto, mais exportações e, portanto, essa é a dificuldade.

Tens toda a razão, mas é importante também notar que nós estamos continuando a crescer acima da zona euro, muito por causa da Alemanha, mas é um dado positivo e é um dado objetivo. Agora, vou terminar com uma nota que eu acho que é importante Que é uma reforma estrutural que eu acho que está a acontecer sem que muitos se apercebam. Sendo que é uma reforma estrutural que tem muitos riscos políticos, que é o fim do reembolso do IRS. Ainda há pouco o PS estava a acusar o governo de eleitoralismo na prática, mas à medida que vão se mexendo nas tabelas de retenção, à medida que o Estado vai descendo o IRS, nós vamos percebendo mais IRS todos os meses, isso significa que no reembolso do próximo ano, esse reembolso ou não vai existir ou vai ser muito menor. Eu acho que isso é uma boa notícia. Eu acho que isso é uma boa notícia por uma razão: porque nós durante décadas tivemos uma coisa que era profundamente injusta e que se calhar a iliteracia de muitos portugueses não faz com que eles percebam que isso estava a acontecer. A questão era que nós estávamos a adiantar dinheiro ao Estado.

Nós éramos o banco do Estado.

Nós éramos o banco do Estado. Nós estávamos a adiantar dinheiro ao Estado em sede de retenção na fonte. Nós adiantávamos ao Estado, mas o Estado devolvia-nos o dinheiro, sem pagar os respetivos juros, no tal reembolso anual. E isso está a acabar. E isso é uma excelente notícia. Agora, há aqui um risco político para o governo: é que se a população não perceber isto como é na realidade, que é como nós agora acabamos de descrever, ou talvez até mesmo o contrário, se perceber que está a perder um 15º mês, então aí há um risco político para o governo. Portanto, o governo tem que se empenhar muito bem em explicar isto que está a acontecer aos portugueses. Uma nota para Miranda Sarmento?

Sim, quero também que te empenhes aqui em dar uma nota.

Sendo objetivo e pelos resultados que são apresentados, e apesar do risco que falamos, eu dou um 14 ao ministro das Finanças, porque teve realmente uma semana claramente positiva com os resultados que apresentou.

A nota 14 deixada pelo Luís Rosa ao ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento. Neste programa, vamos falar de um outro ministro, Fernando Alexandre, ministro da Educação. Anselmo, é um dos protagonistas que trazes para este programa e permite-me a provocação, mas temos uma aula de Cidadania agora no horizonte?

Eu espero, de facto, que as aulas de Cidadania, para já, saiam do radar mediático, porque seria bom sinal. Acho que elas são importantes, mas não exatamente nos termos em que o debate tem sido feito nos últimos anos, não nos últimos meses. E as aulas de Cidadania são só o exemplo mais recente que me levou a trazer aqui Fernando Alexandre ao Vencedor É. Também porque normalmente isto chama-se o Vencedor É, mas podia-se chamar o Perdedor É, porque nós na maior parte das vezes damos notas negativas, não é o caso do Luís agora a Miranda Sarmento, mas a começar por mim. Mas porque eu acho que Fernando Alexandre, já na legislatura anterior achava isso e nesta confirmei isso mesmo, é dos melhores ministros que o governo de Luís Montenegro tem. E é um bom ministro não porque não cometa erros, não porque não tenha tido já tiros ao lado ou declarações em falso, mas porque genericamente Fernando Alexandre tem um discurso muito ponderado, muito sustentado em várias matérias. Neste tema das aulas de Cidadania, que é um tema que divide tanto e toda a gente vai pra sua trincheira e parece que há os que são a favor das aulas de Cidadania e os que são contra as aulas de Cidadania. E então se meter educação sexual, pronto, está tudo estragado, está o caos dentro do Arado, parece que não se pode debater este tema em especial.

Demasiados extremistas, não existe um meio-termo.

Não existe um meio-termo, tu levas um selo na testa assim que abres a boca, ou vais para um lado ou vais pro outro. Não consegues ter um debate, mas isso é um pouco a realidade da sociedade em que vivemos. E eu acho que apesar de tudo, Fernando Alexandre tem conseguido, não é que ele esteja isento de críticas, mas tem conseguido levar este tema de uma forma mais ou menos equilibrada. Tal como o caso da FCT, por exemplo, a extinção da FCT e a fusão que gera logo também uma avalanche de críticas, porque parece que agora o Estado vai deixar de financiar a investigação. A boa nota pra Fernando Alexandre é só porque eu acho que ele diz coisas óbvias. Ele diz o óbvio, não é sequer um tema de ideologia ou de polarização. Ele diz o óbvio, ele diz: "A investigação é muito importante, mas ela de nada serve se não for colocada ao serviço da economia." Isto parece-me dizer o óbvio, não me parece que ele está a dizer nada de especial. Claro, nós agora temos que perceber se essas alterações que estão a ser feitas vão produzir o efeito que o Fernando Alexandre deseja. Temos que escrutinar essa política e acompanhar essa política pra perceber se a alteração melhora ou não melhora o processo. Mas o que está no pressuposto base da decisão política parece-me bastante equilibrado. E claro, Fernando Alexandre, pra mim tem ainda mais mérito porque ele está à frente de uma pasta que, tal como a administração interna durante o período do verão, queima, a educação também.

Em setembro, arranque escolar é dia de jogo para Fernando Alexandre.

E ele vai provavelmente levar muita pancada.

Vamos continuar a ter alunos sem professores.

Claro, alunos sem professores. Ele vai continuar a levar muita pancada e provavelmente não vai conseguir resolver tudo. Mas quando se discute tanto, e eu sou uma dessas pessoas que pede reformas estruturais no país, nem todos estes exemplos que eu acabei de dar são propriamente reformas estruturais, algumas são mais estruturais do que outras.

A da investigação é.

A da investigação eu acho que é. Mas este fim de semana foi notícia também que o Fernando Alexandre quer pegar ou voltar a pegar no tema da avaliação dos professores. Acho lindamente. Acho lindamente e acho que é um ato de coragem se ele o fizer.

Tem quebrado muitos ministros.

Maria Lurdes Rodrigues teve a maior manifestação de professores que este país já viu, por causa de ter tido a coragem de pegar nesse tema. Eu acho bem que Fernando Alexandre o faça. Acho que, aliás, ele tem, até do ponto de vista de personalidade e de feitio, estrutura, parece-me, e a bagagem para poder levar estas reformas, que são importantíssimas, porque nós falamos de educação, andamos sempre aqui na espuma dos dias, dos sindicatos contra o governo, do governo contra os sindicatos, e nunca falamos de educação naquilo que é verdadeiramente estruturante na educação. É que o atraso Do país, o atraso económico, o atraso até civilizacional, deste ou de qualquer outro país, é medido em grande medida pela qualidade da educação. E portanto, se há tema que eu acho que é fundamental e que provavelmente este governo será julgado por isto daqui a muitos anos, como os governos anteriores serão julgados por isto daqui a muitos anos, é exatamente a educação. E portanto, por tudo isso, eu acho que Fernando Alexandre, até agora, entre o deve e o haver, tem tido uma prestação claramente positiva. Acho que os outros ministros do Conselho de Ministros deviam olhar para Fernando Alexandre e ver como é que ele até se comporta em público, em frente aos jornalistas. Não foge, não está numa atitude confrontacional e em pânico de cada vez que tem que falar pra comunicação social, aceita o escrutínio. Acho que os outros ministros deviam olhar pra ele como um exemplo e tentar seguir mais a forma como Fernando Alexandre está na vida política e na vida pública, porque eu acho que é, de fato, um dos bons exemplos deste governo. Queres dar a nota?

Quero dar.

Para já vou dar um 14.

Porque é um início da escola?

Não, porque é um início do mandato e porque eu acho que aquilo que há pra fazer na educação, provavelmente nem numa legislatura se consegue fazer tudo, mas uma legislatura será mais do que suficiente pra nós tirarmos conclusões sobre alguns resultados práticos destas medidas. E volto a dizer, as aulas de Cidadania são um detalhe no meio disto tudo. Mas dou-lhe um 14, porque eu acho que ele, de fato, está muito bem posicionado neste governo.

Fica aqui então a nota deixada pelo Anselmo Crespo ao ministro da Educação, Fernando Alexandre. Temos ainda tempo para falar de Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente da República, que alguém aqui neste painel já considerou que está a agir como um tio nas festas de família. É uma citação contra poder, mas Luís Rosa, o presidente da República, no teu entender, é um vencedor ou um vencido?

Bem, eu acho que é um perdedor. E acho que nós e as nossas empresas é que se arriscam também a perder. O final do meu comentário acho que vai ser mais original. O que eu vou dizer acho que já foi dito aqui em antena e noutros espaços de comentário da comunicação social. São declarações surpreendentes da parte do chefe de Estado. Alguém que tem uma palavra, não conduz a política externa.

É que neste momento, Luís, eu tenho que perguntar qual é que te estás a referir. É que recentemente têm sido bastantes os temas polémicos.

Estou-me a referir às declarações sobre Donald Trump, do ativo russo.

Ativo soviético.

Soviético. Eu que realmente gosto muito de ler coisas sobre a União Soviética, foi fascinante que o presidente da República se recorde da União Soviética e se refira a Donald Trump como um ativo soviético. Passado mais de 30 anos depois do fim dela.

Ele essa parte corrige. Ele diz soviético russo. Portanto, o que me leva a crer que a parte da gafe é só mesmo essa, porque ele tinha intenção de dizer aquilo, só que saiu-lhe soviético em vez de sair russo.

Bem, eu acho que são declarações surpreendentes pelo conteúdo e pela forma. Olha, primeiro lugar, por serem declarações do nosso chefe de Estado, em relação aos nossos principais aliados, e por terem sido proferidas no contexto de uma iniciativa partidária. Ele estava num evento partidário do PSD. É a Universidade de Verão, mas é uma iniciativa do PSD. E a ironia é que foi o próprio governo da AD que teve que vir a terreiro dizer que quem manda na política externa é o Executivo, com declarações do ministro Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, que disse não se revia naquelas declarações e fez questão de dizer que quem conduz a política externa é o governo, não é o presidente da República. Agora, são declarações negativas porque podem prejudicar acima de todos os interesses de Portugal, nomeadamente os interesses das empresas portuguesas no mercado norte-americano, quando nós estamos numa guerra de tarifas. E portanto, Donald Trump tem um perfil muito autoritário e com estas declarações pode prejudicar as nossas empresas. Portanto, isso é um péssimo sinal e pode ser uma péssima consequência das declarações de Marcelo Rebelo de Sousa. Mas o que eu queria assinalar, se calhar não sei se isso já foi dito por alguém, mas parece-me que não, o que eu quero assinalar era o duplo critério de Marcelo Rebelo de Sousa. É que quando foi o caso do irritante, foi precisamente os interesses das empresas portuguesas em Angola, que fez com que o chefe de Estado português, o presidente da República Portuguesa, tenha feito algo que eu nunca vi até ao momento, nunca tinha visto, que era, juntamente com António Costa, primeiro-ministro então, uma pressão inadmissível sobre o poder judicial, uma pressão inadmissível que, na minha opinião, violou o princípio da separação de poderes e uma pressão inadmissível pra que a Justiça portuguesa tratasse de forma diferente um caso judicial em relação a Manuel Vicente, ex-vice-presidente da República de Angola. E tudo por pressão do atual presidente de Angola. Agora está-me a falhar o nome.

João Lourenço.

Do presidente atual angolano.

O atual presidente é João Lourenço.

Exato. O caso tinha a ver com Manuel Vicente, mas a pressão foi do atual presidente de Angola. E aí Marcelo Rebelo de Sousa já olhou pro interesse das empresas portuguesas, já olhou pro interesse comercial e vergou a espinha. Ao fim e ao cabo, ele vergou-se perante a Raposa e Gambola. E Portugal, através do seu chefe de Estado, dobrou a espinha perante Angola, mandando um caso judicial pra Angola, por decisão do Tribunal de Relação de Lisboa, mas por pressão do presidente da República portuguesa e do primeiro-ministro António Costa, mandou um caso judicial pra Angola tratando de forma diferente algo que não devia ter sido tratado. E portanto, eu quero assinalar esse duplo critério do Marcelo Rebelo de Sousa, que agora esqueceu-se dos interesses comerciais, esqueceu-se dos interesses das empresas portuguesas no mercado norte-americano e fez declarações que não são, de todo em todo, aceitáveis, mas na altura, quando foi a questão do caso irritante, fez precisamente o contrário. Portanto, a minha nota, se queres saber, é uma nota negativa, é um oito. Eu espero que Marcelo Rebelo de Sousa não tenha um final de mandato tão, mas está a ter, um final de mandato já é mais negativo do que aquele final de mandato que Cavaco Silva teve e que não foi um bom legado Cavaco Silva, o seu final presidencial. Portanto, espero que o Marcelo Rebelo de Sousa nos poupe a mais episódios destes.

Deixe-me só acrescentar uma coisa muito rápida. Nós já todos tentámos interpretar a cabeça de Marcelo Rebelo de Sousa e provavelmente estamos todos errados, mas eu dava por mim ontem a pensar quando estava a refletir sobre isto: o que leva Marcelo? Há um lado de personalidade que sempre foi assim antes de ser presidente, durante a presidência, há um lado de uma necessidade de dizer coisas que é dele. Mas esta declaração em concreto, como outras que ele já fez no passado, a Sónia Peralta recordava aqui no Fora de Baralho o episódio com o embaixador da Palestina, quer dizer, há momentos em que Marcelo Rebelo de Sousa parece que se esquece que é presidente da República, esquece do fato que veste neste momento. A única interpretação que eu consigo fazer é que Marcelo tem medo da irrelevância, tem horror à irrelevância. E quando sente que está a desaparecer do espaço mediático e este período do fim de mandato é muito propício a isso.

Sendo que ele próprio disse que no final do mandato desaparecerá da política.

Pronto, mas eu não sei o que ele chama final de mandato, se vai ser o último mês, porque ele está a perder poderes, obviamente, já não pode dissolver a Assembleia da República. Portanto, nós já não olhamos para o Presidente da República com o mesmo interesse político com que olhávamos quando ele tinha plenitude de poderes. Isso é normal, não aconteceu só com Marcelo, aconteceu com todos os ex-presidentes. Eu acho que ele tem horror à irrelevância, portanto, ele precisa dizer qualquer coisa chocante que o volte a colocar nas primeiras páginas e nestes espaços de comentário e nas televisões. E isto acontece ainda por cima no dia em que Luís Montenegro está à mesma hora no Parlamento a explicar o horror e a tragédia que foram os incêndios deste verão. E parece que Marcelo levava aquilo planeado. "O que eu vou dizer que suplante o que o primeiro-ministro está a dizer no Parlamento? Já sei, vou dizer que o Donald Trump é um ativo russo." Parece, eu não estou a dizer que foi isto, mas parece, e parece pelos motivos errados.

Pronto, aproveita. Queres deixar uma nota?

A Marcelo? Eu não consigo dar uma positiva a Marcelo neste momento. Quando chegarmos à fase de avaliar o mandato todo de Marcelo como presidente da República, lá faremos esse exercício. Mas eu acho que nós estamos naquela fase em que precisamos de ajudar o presidente a acabar o mandato com dignidade. E portanto, eu acabo com um oito para Marcelo, porque eu temo que estes meses finais vão ser muito penosos para ele e para nós todos.

E será certamente também uma longa análise a ser feita ao mandato de Marcelo Rebelo de Sousa enquanto presidente da República. Luís Rosa, Anselmo Crespo, muito obrigado pela vossa presença no "E o Vencedor É", de sábado, que está de regresso amanhã na edição de domingo.