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Gilvence Lourenço, Rádio Observador. À Judite França juntam-se o Anselmo Crespo e o Alexandre Borges. Hoje temos para servir aqui de partida para o fim de semana, final de tarde, temos presidenciais, tarefeiros e ainda o que se passa na Câmara de Sintra. Já vamos perceber isso melhor depois na segunda parte. Para já, vamos arrancar com as presidenciais e Anselmo Crespo. Um artigo de opinião de Cavaco Silva publicado hoje no Observador que até aleija. Se fosse almirante e lesse aquilo, dizia: "Autchs!"
Sim, aleija mais o almirante, diria, do que afaga o ego a Marques Mendes, porque o artigo resume-se da seguinte forma: Marques Mendes tem experiência, Gouveia e Melo não. Pronto, fim da história, acabou o artigo. Na verdade, só aleija Gouveia e Melo porque nota-se claramente que Cavaco Silva escolheu só falar de Gouveia e Melo por antítese a Marques Mendes. Podia ter falado de António José Seguro, podia ter falado de André Ventura, podia ter falado dos vários candidatos. O que não falta nestas presidenciais são candidatos, e ele escolheu Gouveia e Melo. Claro que conhecendo Cavaco Silva, que não é propriamente um naïf nestas coisas, ele fê-lo de propósito, fê-lo para obviamente polarizar esta campanha e esta eleição, dando subtilmente a entender que isto vai ser uma corrida a dois entre Gouveia e Melo e Marques Mendes, ou seja, que será Marques Mendes a ir numa segunda volta e não Gouveia e Melo. Está subentendido naquilo que não está escrito. Mas depois na parte elogiosa a Marques Mendes, eu diria que ele cumpre os serviços mínimos. O que ele diz é tudo factual. Tem experiência de governo, conhece bem as instituições do Estado, já fez isto, já fez aquilo, e eu vou votar nele. Não é propriamente coisa mais-
Encomiástica
Não é. É simpático ler aquilo, se fôssemos os visados, mas não é um grande elogio. Depois ele dedica de facto mais atenção a Gouveia e Melo. E a parte que eu acho que aleija mais é dizer: o facto de ele ter organizado bem a vacinação da Covid-19 não é nada de especial, qualquer militar. Eu próprio andei na tropa e conheci vários que faziam aquilo. E depois, claro, sublinha que Gouveia e Melo não tem experiência, mas ele diz: "Esta campanha nota-se que..." E depois aquilo nunca é muito concreto. Acaba sempre no tema da experiência. Mas enfim, Cavaco Silva esta semana eu acho que fez check ali a duas coisas, que era mandar o recado a Luís Montenegro que queria mandar e despachou o apoio a Marques Mendes, que era uma coisa que já toda a gente sabia que ia acontecer mais cedo ou mais tarde. E agora não me chateiem até eu me apetecer dizer qualquer coisa nos próximos tempos. Enfim, acho que é um tema que nasceu hoje e morre hoje e amanhã já ninguém se lembra dele.
Judite.
Sim, concordo. Hoje ouvimos aqui Francisco Rodrigues dos Santos, exatamente como apoiante de Henrique Gouveia e Melo. Não me parecia que estivesse muito perturbado, pelo contrário, pelo facto de ter sido o eleito para estar na comparação, dá-lhe algum poder. Demonstra que de facto a preocupação está ali e não está noutro sítio. Acho que é um hábito a que Gouveia e Melo se vai habituando. Sempre que se fala da falta de experiência, é sempre acusado do óbvio, de não ter experiência política, pois não esteve na política, portanto não a tem. Mas acho sinceramente que causa zero mosca a Gouveia e Melo um artigo destes.
Mas a resposta de Gouveia e Melo foi: "Sim, isto até é um elogio", mas nota-se ali um desconforto.
Quer dizer, não é muito agradável dizer que não tem qualificações nem habilitações. Dizer: "Não tens habilitações literárias para fazer isto."
Não tem estudos.
É um bocado desagradável, mas acho que do ponto de vista do efeito prático no eleitorado é nenhum.
Alexandre.
Eu por acaso não concordo totalmente com a Judite e com o Anselmo. Isto é, no sentido de que-
Por isso é que tu aqui estás.
É por isso que me pagam balúrdio.
Se concordassem não precisavas de vir.
Exato. Ora bem. Isto era só uma bancada eleitoral, disciplina de voto e tal. Não. Exatamente, foi mesmo isso. É impossível medir isto, como é evidente, mas acho que se há apoios que têm alguma relevância nestas coisas, se há pessoas que têm algum peso na opinião que emitem, passa-se é Cavaco Silva não ser quem é.
Não, mas a questão não é do apoio, a questão é da crítica ao almirante. Acho que isso, para quem decide votar no almirante, não vai mudar de ideias por ter lido isso.
Não tenho a certeza. E com isto aproveito para mandar um beijinho à minha mãe e ao meu pai, não tenho a certeza.
Já o apoio a Marques Mendes é outra coisa. Ter o apoio de Cavaco Silva é um apoio importante para Marques Mendes.
Certo, acho que é. E acho que, antes de mais, temos aqui uma novidade que é: olha, um ex-líder do PSD que apoia mesmo Marques Mendes. Isso é incrível. Desde logo.
É uma notícia.
É uma notícia, exatamente. A segunda é, isto é para o almirante aprender a não dizer que a referência dele é Mário Soares. E depois, ao contrário de uma certa tese, claro, também é impossível quantificar isto, é pura perspectiva que cada um de nós possa ter sobre o assunto. Mas da teoria que dizia que havia um fetiche com as fardas ou os militares e que era isso que apoiava Gouveia e Melo, eu sempre defendi o contrário, por entender que não tínhamos nos últimos 40 anos exemplo de nenhum apoio bem-sucedido a um militar em Portugal. Tínhamos sim a ideia de um perfil autoritário, disciplinador, e desse perfil muitas vezes os eleitores são adeptos, nomeadamente na figura de um Cavaco Silva. E portanto, nesse sentido, Cavaco Silva tem aqueles perfis que nem precisa da farda pra que a gente veja nele essa autoridade.
Um bocado espinho, não é verdade?
Tal e qual. Aquelas pessoas que parece que engoliram uma espingarda, é um pouco isto. Mas esse tipo de atributo, que eu suponho ou suspeito, seja aquilo que se vê que os admiradores de Gouveia e Melo veem nele, fica aqui um bocadinho desarmado.
Achas que pode fazer balançar os eleitores que estão na dúvida nessa altura?
É isso. E acho que não é por acaso que, de facto, juntando ao que a Judite e o Anselmo já tinham dito, Cavaco Silva escolhe falar só sobre estes dois. Para já, desqualifica bastante os restantes e isso acho bem jogado da parte de Cavaco Silva. Mas é isso, acho que quem possa estar na dúvida, a pouco e pouco, quando Gouveia e Melo se apresentou, ou muito antes de se ter apresentado, era larguíssimo favorito e aos poucos vai tirando as fatias de potencial eleitorado que parecia estar ali com ele.
Parecia.
Que parecia. E agora, com esta tomada de posição de Cavaco Silva, parece-me que pode ser mais uma fatia representativa na dissolução de votos que vamos ter. Isto pode representar alguma coisa.
Judite de França, ainda querias falar de Aguiar Branco, presidente do Parlamento.
Eu queria falar de Aguiar Branco.
É a Suíça?
É, é a Suíça, tem que ser, tem que ficar em cima do muro, não pode estar a declarar o apoio a ninguém. Tem uma frase muito boa que é: há candidatos a mais, e eu concordo, de facto, há muitos candidatos. E sobretudo no caso da esquerda, é a esquerda a prejudicar-se a ela própria, como só a esquerda sabe fazer. Que é uma coisa que é muito difícil de entender. É muito difícil entender como é que a esquerda se prejudica tanto com tantos candidatos numa eleição tão renhida. Enfim, concordo com Aguiar Branco, há candidatos a mais, de facto.
Anselmo, não restaria outra posição a Aguiar Branco, porque é o presidente do Parlamento, também manter aqui alguma neutralidade ou não?
E vamos ser honestos, também não precisa propriamente expressar publicamente qual é o seu apoio, que toda a gente sabe qual é. Estavas a dizer que Cavaco é o primeiro presidente, finalmente é um ex-presidente PSD que apoia Marques Mendes. Há dois, há um que já apoia há muito tempo, que é Marcelo Rebelo de Sousa. Portanto, também não precisa divulgá-lo.
Uma pessoa já nem se lembra que Marcelo era do PSD, mas é verdade.
É verdade. Isto só pra dizer. Acho que Aguiar Branco faz bem em manter a neutralidade, mas se Aguiar Branco dissesse que apoiava este ou aquele, isso mudava o quê? Zero. É que estávamos aqui a discutir se Cavaco ainda arrasta algum eleitorado. Aguiar Branco não arrasta ninguém, acho que nem na rua dele.
Sim, acho que não teria esse impacto.
Na rua dele eu não tenho certeza.
Só se for da família.
Acho que lhe fica bem, até porque Aguiar Branco já teve episódios anteriores em que se esqueceu que era presidente da Assembleia da República, em jornadas parlamentares, ou aniversários, ou Rantrês do PSD, já emitiu opiniões, comparando o PS ao populismo do Chega. Já em alguns momentos ele perdeu um pouco a noção desse papel. Acho que ele tem crescido como segunda figura do Estado e nesse sentido fica-lhe bem. Também acho que representa zero do ponto de vista eleitoral, mas fica-lhe bem.
E ainda nesta semana de presidenciais, e já vamos entrar mais a fundo na questão dos tarefeiros, também ouvimos, nomeadamente Gouveia e Melo, Judite, pronunciar-se sobre os tarefeiros. É o tipo de matéria sobre a qual um presidente se deve pronunciar ou não?
É uma boa pergunta.
Agora com o microfone.
É uma boa pergunta. Eu não sei se a matéria, especificamente a questão dos tarefeiros, se o presidente da República se deve manifestar sobre isso. Acho que se deve manifestar sobre o resto. Sobre o facto de a saúde precisar urgentemente, não sei se é de um pacto, se é que toda a gente se sente à mesma mesa e consigam chegar a algum consenso entre partidos. Agora, eu percebo as declarações de Gouveia e Melo, eu estava aqui à procura delas, não faz sentido estar a pagar três vezes mais a um tarefeiro. Gouveia e Melo candidato acho que pode dizer isto sem problema absolutamente nenhum.
Anselmo, só aqui um minuto. Isto não pode criar uma ideia errada nos eleitores de que o presidente tem algum tipo de poder executivo quando não tem?
Olha, ainda bem que me faz essa pergunta.
Obrigado. Já és a segunda pessoa que me diz isto hoje.
Estávamos a ouvir e eu estava a pensar: vocês já repararam a criatividade que os candidatos, não em relação à saúde, mas em relação a todos os outros temas da governação, a criatividade que nós temos assistido nesta pré-campanha presidencial, que os candidatos têm tido para: como é que eu vou falar da governação estando me a candidatar a presidente da República? A mais recente e original, André Ventura: "Quer um debate com todos os candidatos sobre saúde." Olha, está aí uma perspectiva que ainda ninguém se tinha lembrado. Mas na verdade, António José Seguro diz: "Eu já teria chamado o primeiro-ministro a Belém", que é cada um tenta olhar para as competências e pra as funções do Presidente da República e fazer uma interpretação para se poderem distinguir uns dos outros, porque na verdade as funções e as competências são as mesmas, estão na Constituição, não dá pra inventar umas só pra eles. Portanto, cada um deles tenta interpretar aquilo para se tentar distinguir uns dos outros. E portanto, eu acho que eles andam todos um bocadinho aos papéis nisto, porque como são obrigados a falar todos os dias das notícias do dia, depois têm que inventar coisas. E portanto, se desse uma nota, dava já um 20 à criatividade.
20 à criatividade. E alguém quer dar nota a Cavaco Silva? Sim, para mim 15 para Cavaco Silva, porque ao contrário, e provavelmente entraremos neste assunto na segunda parte, por exemplo de Passos Coelho, acho que Cavaco gere melhor os seus silêncios e as suas aparições e portanto acho que tem um 15. E Marques Mendes um 16, que ficou a ganhar com os dois.
Eu vou dar uma nota a Marques Mendes, porque acho que para Marques Mendes é positivo. Dou um 14 a Marques Mendes.
E já voltamos para a segunda parte de "E o Vencedor É". Segunda parte de "E o Vencedor É", hoje com Judite França, Anselmo Crespo e Alexandra Borges. Vamos agora falar de tarefeiros. Anselmo, o país criou um monstro?
Eu acho que sim, acho que o país criou um monstro e vários sucessivos governos, pelo menos desde José Sócrates, foram alimentando esse monstro. Chegados aqui, dá para perceber bem por quê. Eu gostava de deixar, desde já, uma coisa clara: eu não estou longe de achar que os tarefeiros são um problema para o país. Acho que a última coisa que nós podemos fazer é culpar os tarefeiros. Eu acho que este movimento inorgânico e a forma como aquela ameaça velada de paralisar os hospitais públicos foi um tiro no pé para quem aparentemente está a reivindicar melhores condições de trabalho. Acho que o Estado não pode agir sob coação, desde logo. Mas dito isto, eu não acho que os tarefeiros sejam um problema. Os tarefeiros existem porque o Estado quis que eles existissem. Os tarefeiros ganham à hora o que ganham porque o Estado quis que eles ganhassem à hora aquilo que ganham. E se há tanta gente a querer ser tarefeiro é porque é melhor ser tarefeiro do que ser quadro do Estado. Que não haja nenhuma dúvida sobre isto, porque obviamente as pessoas quando nos ouvem, muitas vezes podem interpretar mal as nossas palavras. Mas o Estado criou um monstro, porque foi empurrando com a barriga um problema que sabe que existe desde 2006. Eu até achava que isto tinha nascido em 2009 com José Sócrates. Não nasceu em 2009, nasceu em 2006. Na altura, nasce não exatamente com o objetivo que existe hoje, não era exatamente para tapar os buracos, as debilidades de recursos humanos, nasce com outra função. Mas quando em 2009 começa o aperto financeiro e começam as restrições orçamentais, novamente o governo de José Sócrates dá gás ao tema dos tarefeiros, porque não podia contratar. A forma de não haver falta de médicos era recorrer aos tarefeiros e depois daí para frente, nenhum primeiro-ministro e nenhum ministro quer obviamente ter as urgências fechadas ou ter partos em ambulâncias ou que as pessoas andem a bater de porta em porta dos hospitais sem que haja resposta.
É preciso garantir que tudo continua a funcionar, não é?
É preciso garantir que tudo funciona. E para garantir que tudo funciona, foi-se aumentando o valor hora dos tarefeiros e foi-se criando um negócio à volta disto que toda a gente sabe que existe. E esse negócio está desde logo claro na quantidade de empresas que vendem serviços ao Estado, e esses serviços são a colocação de tarefeiros no Estado. Há duas coisas sobre isto. Primeiro, eu acho que obviamente tem que se pegar neste assunto. Tem que se pegar neste assunto, quer dizer, primeiro pela iniquidade que isto cria, estando no hospital, um médico que é tarefeiro e um médico que é do quadro, e o tarefeiro está a receber muito mais do que o médico que é do quadro. Isto cria situações de iniquidade, para além de que os tarefeiros não recebem todos a mesma coisa, aquilo depende em função do hospital. Mas mais do que isso, quando nós discutimos onde é que estão a ir os 18 ou 17 bilhões de euros para a saúde, uma fatia considerável desse dinheiro está a ir para pagar às empresas que fornecem os tarefeiros, que são 200, 300, 400, o que seja. E, portanto, é preciso obviamente mexer nisto. E aqui entra a capacidade política. O que nós esperamos de um ministro? Nós esperamos que o ministro ataque naturalmente os problemas que existem no seu setor, mas que o faça com bom senso, com razoabilidade e com um plano. Eu elogio a ministra por querer resolver o tema dos tarefeiros, mas se resolver o tema dos tarefeiros é: "Estamos a gastar muito com tarefeiros, vamos aqui cortar o valor hora dos tarefeiros", isso não é resolver o problema dos tarefeiros. Independentemente de eles paralisarem ou não paralisarem. Reduzir o valor hora não resolve problema rigorosamente nenhum, porque não vão nascer mais médicos, por um lado, de um dia para o outro, e por outro lado, porque isso não vai resolver os problemas de iniquidade que existem dentro do sistema.
Nem há uma discussão, pelo menos à vista, uma discussão sobre uma reforma efetiva do sistema.
E o ponto é carreiras. O que nós estamos a discutir são duas coisas naquilo que diz respeito aos recursos humanos.
O que é que queremos fazer.
São duas coisas: faltam profissionais de saúde, numas áreas mais do que outras, e isso leva-nos para um debate que nós provavelmente hoje não vamos ter tempo, que é a corporação chamada Ordem dos Médicos, que é basicamente quem decide que especialidades é que se abrem, que especialidades é que não se abrem, mas faltam profissionais de saúde, em algumas especialidades faltam mesmo, de uma forma dramática. Mas o segundo tema é as carreiras dos profissionais de saúde. E nós estamos aqui a falar de médicos, mas já tivemos este debate sobre enfermeiros. E enquanto não se olhar para o tema das carreiras dos profissionais de saúde, que é verdade, em muitos casos têm que trabalhar num hospital, dois hospitais, três hospitais, trabalham no público, no privado, ainda dão aulas para poder ter um rendimento digno, porque nem todos os profissionais de saúde recebem 400 mil € por quatro sábados. Essa é a verdade. Há alguns que podem fazer isso, mas há outros que não podem fazer isso. Enquanto o Estado não olhar para as carreiras no seu todo e não as negociar e não tiver um plano, que é um plano que não vai poder ser cumprido de um ano para o outro, não é um orçamento de Estado que vai resolver isto, porque não vai haver dinheiro para isso, tem que ser um plano plurianual, não se vai resolver o problema.
Eu não vejo essa visão, nem a ministra a explicar isto.
Judite.
Eu acho que faz falta que a ministra explique que plano é que tem pensado. Um deles é tentar incorporar estas pessoas nas carreiras. Para isso, obviamente, as carreiras têm que ter uma atratividade que não têm neste momento.
Senão eles não vão.
Senão os médicos não vão, compreensivelmente. Mas a questão de reduzir o valor hora é uma das coisas que é preciso resolver. O valor hora não pode continuar no valor em que está porque não há forma de o pagar. Isso é uma das coisas que é preciso resolver e que os médicos tarefeiros não querem e que fizeram um comunicado que foi enviado às redações.
Abaixo de cão.
Abaixo de cão. Basicamente culpando os jornalistas por ter publicado a notícia, que era uma ata feita deles próprios. Uma ata em que diziam que iam paralisar durante três dias. Dizem que os jornalistas têm uma total falta de bom senso ao informar aquilo que os senhores escreveram na ata e causaram o pânico generalizado e infundado. Não, aparentemente, assustamos foi os próprios médicos tarefeiros que perceberam que se de repente passassem para uma greve deste tipo. O problema das greves deste tipo é quando os grevistas ficam muito mal vistos.
Pronto, queda ilegal.
Depois têm aí esse problema, porque os médicos tarefeiros trabalham à tarefa.
Não é só isso, são empresas. Desde quando uma empresa não pode fazer greve?
Exatamente, nem todos são empresas.
Alguns são empresas em nome de individual.
Mas sendo empresa, uma empresa não pode fazer greve.
Não pode fazer greve. E agora gera-se a questão de se associarem numa associação de prestadores.
Sim, já o fizeram.
Estão a fazer.
Acho que vão associar-se numa associação de prestadores ou já o fizeram.
Sim, acho que já o fizeram há umas horas.
Até porque querem ser recebidos pela ministra.
Querem ser recebidos pela ministra.
Tem de haver aqui algum formalismo nisto.
E tem que haver alguém que os represente, como é evidente. Eu acho que neste momento faz falta, não de uma forma sensacionalista, é um facto, e é evidente que é muito fácil dizer que ganham 100 € à hora, que não é verdade, porque é um valor que medeia entre um valor e outro, mas a verdade é que nós estamos a falar de prestadores de serviços sem vínculo laboral e que portanto, um dia podem fazer aquilo que bem lhes apetece, que é não ir trabalhar, por exemplo, e não têm que dar satisfações a ninguém.
Alexandre.
Acho que, apesar de tudo, esta pode ser a oportunidade da ministra virar o jogo tal como ele estava até aqui. E nós quase todos os dias acabamos por falar da ministra Ana Paula Martins e das suas dificuldades e de quanto tempo é que ainda tem no cargo. E de facto, muitas vezes parece que a culpa é da ministra, e ela está cheia de responsabilidades em coisas que temos aqui comentado, mas de facto a ministra está longe de ter o maior problema da saúde em Portugal ou de qualquer ministro que lá passe. E há uma coisa particularmente revoltante quando se olha para o setor, que é ver como até aqui os representantes dos médicos, que são obviamente uma parte importantíssima do que é a saúde, parecem estar de braços cruzados a dizer: "Olhe, resolva lá. Torne as carreiras mais atrativas." E eu sempre me fui perguntando ao longo do tempo, de facto, o que era isto. Ponto um: por que os médicos, por que os profissionais tão decisivos neste setor não têm que ser parte da solução? Por que eles têm que ficar à espera que chegue um governo que resolva os problemas? E o segundo é: exatamente o que é isso de carreiras mais atrativas? E no fim do dia, a triste realidade é que parece só ter a ver com dinheiro. E de facto, porque através da Ordem dos Médicos e dos diferentes sindicatos, os médicos controlam, têm um poder, de facto, sobre a sua atividade em Portugal, gigante, não me parece que exista em mais nenhuma corporação. Eles decidem onde é que se abrem cursos para novos médicos, qual é o número de vagas, em que especialidades ou não. E tipicamente a decisão é não. Tipicamente a decisão é não deve haver mais cursos. Dizem que não há falta de médicos em Portugal. Isto é o que a Ordem diz. Recusam ou tentam, no limite das suas possibilidades, impedir a entrada, a contratação de médicos estrangeiros, embora eles próprios possam perfeitamente ir trabalhar para os estrangeiros se quiserem, dizerem que lá fora a carreira é mais atrativa. E depois chegamos a isto aqui, em que há hospitais que chegam a pagar cinco vezes mais a um tarefeiro do que o médico do quadro. Portanto, é muito difícil resolver isto, é sem dúvida, como diz o Anselmo, e bem, ninguém está aqui a querer encontrar vilões, mas garantidamente a vilã não pode ser só a ministra ou o próximo desgraçado que vá para o lugar.
E anotas?
Eu acho que pelo contrário, se a ministra conseguir resolver este problema, que ninguém conseguiu resolver, e que toda a gente fugiu a resolver, porque é uma chatice de resolver, bom, a ministra pode ter uma boa nota.
Judite, vamos a notas.
Eu aos médicos tarefeiros vou dar um oito, por causa do comunicado que enviaram hoje.
Alexandre.
Um oito também.
Judite, Anselmo.
Bem, eu já dei tantas más notas à ministra, eu vou dar um quatro ao corporativismo do setor da saúde, que não se resume apenas aos sindicatos, os sindicatos já são uma parte, mas que eu acho que bloqueia completamente qualquer hipótese de reforma na saúde.
Vamos aproveitar que de certeza a esta hora há milhares de pessoas no IC19 a ouvir-nos e vamos falar um bocadinho de Sintra, ainda temos aqui uns minutos. Anselmo, Sintra é um caso interessante.
É um caso muito interessante, porque primeiro eu podia citar Santana Lopes e dizer que estava escrito nas estrelas no dia em que Pedro Passos Coelho foi lá apoiar o novo presidente Marco Almeida.
E ele nunca escondeu.
Mas na verdade, eu achei aquilo muito interessante, a decisão de se coligar com o CHEGA, interessante, ainda que infeliz, mas interessante só por uma coisa, porque eu acho que Marco Almeida está a tentar garantir a reeleição daqui a quatro anos.
Com o CHEGA e uma vereadora da Iniciativa Liberal.
Sim, pronto, que entretanto vai deixar provavelmente de ser da Iniciativa Liberal. Mas que pouco conta para o totobola. Ou seja, o que eu acho que Marco Almeida está a fazer é tentar garantir a reeleição daqui a quatro anos
Tentando puxar o Chega para o seu lado e esvaziar aquilo que no fundo é um bocadinho o que Passos Coelho faria se fosse primeiro-ministro sem maioria.
É o abraço do urso.
Na verdade, Luís Montenegro gosta de seguir Cavaco e eu acho que Marco Almeida gosta de seguir Passos Coelho.
É o abraço do urso. Sim, António Costa fez isso também na Câmara de Lisboa, quer dizer, abraça-se aquele que se quer marfanhar e portanto consegue-se fazer um executivo, consegue-se objetivamente governar a cidade. E a verdade é que depois deste acordo, o Chega fica grato. Portanto, parece-me que vai correr bem.
Alexandra, e a ideologia, pá? E a ideologia, pá. Posso fazer uma T-shirt com isso. Lá está, é o abraço do urso, mas não sei, neste caso, quem é o urso. É o urso que se está a deixar abraçar. Porque Marco Almeida, Marco Almeida e Rita Matias, vamos lá ver. Eu sei que não é a Rita Matias que lá vai ficar, mas era ela a líder lá e é a André Ventura.
Teria de sair do Parlamento.
Exato. Não lembra das pessoas serem vereadores? Não, não pode.
O vereador com Pelouro...
Tem que sair do Parlamento?
Sim.
Ok, pensava que só o presidente da Câmara. É por isso que eu venho a esta rádio que eu oiço muito, é porque eu aprendo. Agora, vamos a como é que isto corre, até porque objetivamente, a troco de quê é que o Chega aceita este acordo? E até que ponto é que se vai ou não fazer valer dele? Por outro lado, de facto, acho que isto cria alguns problemas ao PSD de um modo geral, para já não dizer à IL ou ao seu posicionamento em geral nisto. Bem, fica uma coisa que eu acho bastante estranha para o eleitor, lembrar que esta coligação que se apresentava ao eleitorado era formada por PSD, Iniciativa Liberal e PAN. E de repente vamos ter em tão poucos dias uma coligação que é PSD, uma senhora que foi da IL, o PAN e o Chega. Não era aquilo que tinha sido apresentado aos eleitores, sendo que aparentemente o PS estava disponível para a negociação.
Estava disponível para a negociação se fosse só com o PS.
Claro, sendo que já lá estava a senhora que era da IL e o PAN.
E temos casos no Porto, temos casos em Viseu também.
Em que houve esse diálogo. No Porto estás a referir-te ao vereador da Cultura que é do PS. Portanto, aqui vai perfeitamente no outro sentido.
Pôr atenção que o vereador da Cultura, que é do PS, não é do PS, é um independente.
Muito bem.
Porque ninguém da lista-
Mas foi pela lista do PS.
Foi pela lista do PS, mas a verdade é que nenhum dos PS que estavam na lista do PS quiseram. Só Jorge Sobrado é que...
Mas como comentámos aqui, até na noite das eleições, efetivamente, parecia desde logo no discurso de Pedro Duarte, que ele estava perfeitamente a abrir a porta a uma conversa com o PS e não com o Chega. Apesar de poder ter havido uma aproximação natural com o Chega.
O contrário fez Marco Almeida.
O contrário fez Marco Almeida. E isso eu acho surpreendente.
Mas o resultado do Chega no Porto não é equiparável ao resultado do Chega em Sintra. É por isso que eu acho que a jogada em Sintra é muito mais tática do que outra coisa. Quer dizer, aquilo não tem nada a ver com convicções, para além de que as linhas vermelhas já foram na burca e na imigração e na nacionalidade, onde é que elas já vão? Mas a jogada em Sintra é mais tática, porque de facto o Chega em Sintra teve um resultado eleitoral muito melhor do que teve no Porto.
E amanhã, amanhã de manhã, pela fresca, fresca não, 10h30 de sábado, é hora de ir à praça.
Tu vais tarde à praça.
Vou.
A essa hora está tudo escolhido.
Sim, mais ou menos. Eu tenho as minhas bancas.
Eu acho que o Marco aqui de Alvalade vai tarde.
Mas é hora de ir à praça. Um abraço a quem vai à praça amanhã, sábado. E um bom fim de semana para todos. O Vencedor regressa amanhã às 10h30.