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E o vencedor é na Rádio Observador, Constantino França, Raquel Bocasis e António Costa. Bem-vindos.

Olá.

Olá boas e parabéns a vocês.

Obrigado.

Eu que não sou um homem de rádio.

Mas é.

Também és. Sabes que tens a tua parcela.

Isto entranha-se. Sabes que isto entranha-se, depois é difícil largar. A Raquel já vai explicar mais à frente.

Eu sou uma mulher da rádio.

É verdade. Temos muitas coisas para falar, desde a investigação à casa do primeiro-ministro, notícia hoje do Expresso, a este trabalho hercúleo que agora é necessário fazer para recuperar o país. Vamos começar por aí com a Raquel. O primeiro-ministro, para já, a vestir a pele de ministro da Administração Interna, e está a correr-lhe bem?

Mas queres que eu fale do ministro da Administração Interna ou da investigação à casa dele?

Quero que fales do ministro da Administração Interna e depois já vamos à casa.

Eu acho que sim. Acho que depois de um início deste já longo caminho de tempestades que vamos percorrendo, já nem sei, há três, quatro semanas, parece-me que nos últimos dias, e sobretudo, de facto, depois da saída da ministra da Administração Interna e da assunção do cargo pelo primeiro-ministro, que as coisas parecem mais coordenadas e o governo parece mais próximo daquilo que está a acontecer no terreno e com uma comunicação mais assertiva. E neste caso, apesar de nós sermos pessoas da comunicação, isto não significa que nós jornalistas estejamos mais capazes de perceber o que o governo vai dizendo, mas é porque a comunicação em momentos como estes, por parte dos responsáveis políticos, é talvez a arma mais fundamental. Eles não são técnicos, eles não são agentes da Proteção Civil, mas são para quem as populações olham e quem as populações escutam quando se veem em situação de aflição. E, portanto, não é de somenos ser capaz de mostrar empatia, mas também mostrar um rumo. E eu acho que, de facto, desde que Luís Montenegro assumiu provisoriamente estas funções, isso está mais claro. Queria dar aqui uma nota, já o fizemos aqui há uns dias atrás, à ministra do Ambiente, que tem cumprido na perfeição esse papel. Aliás, também não é por acaso que o novo ministro da Administração Interna tem andado sempre com ela ao lado, porque ela conseguiu nestes dias criar um laço com as populações e uma relação de confiança, até pela sua capacidade técnica.

Mais do que o Leitão Amaro, não é?

Sim, muito mais. Acho, aliás, que é o único membro do governo que nós vemos nas reportagens, as pessoas ouvem o que ela diz com atenção e de facto ela tem sido capaz de antecipar os cenários e com isso tem sido capaz de poupar ainda maiores desgraças do que aquelas que já temos. Mas queria juntar também a nova presidente da Câmara de Coimbra, que tem sido também impecável na sua função de comunicar, de transportar calma às pessoas, e serenidade, e de conseguir assim a colaboração das pessoas. E sabemos que nestas alturas em que é preciso bater à porta e dizer: "O senhor tem que sair de casa ou a senhora tem que sair de casa", isso não é fácil.

Claro.

E em Coimbra foram já deslocadas milhares de pessoas e não temos notícia de problemas. Claro que isto é um incômodo para as pessoas, mas isso tem corrido como deve ser e isso deve-se muito ao papel que...

António.

Eu ia acrescentar em relação à presidente da Câmara de Coimbra.

Queria só dizer o nome dela.

Ana Abrunhosa.

Ana Abrunhosa, que tem desempenhado particularmente bem a função e a responsabilidade que tem nesta altura, sobretudo com uma dimensão que às vezes talvez não valorizemos devidamente, que é tratar os portugueses como adultos. Isto é, dizer exatamente o que está em causa, os riscos que existem, os problemas que previsivelmente vão ocorrer, sem escamotear ou sem tentar cuidar nas palavras de uma certa verdade, que depois nos entra pelos olhos dentro todos os dias e infelizmente àquelas pessoas entra pelas casas dentro. E é bom recordar que Ana Abrunhosa também viveu os incêndios de 2017 como presidente da Comissão de Coordenação.

E estava na CCDR.

Presidente da CCDR Centro.

Ainda antes de ser ministra da Coesão.

Ainda antes de ser ministra da Coesão. E portanto, tem uma particular experiência de terreno nessa altura, por razões obviamente também trágicas. E depois, de facto, a função no governo e a natureza. Eu acho que não é só a função no governo, porque isto, de facto, decorre da natureza das pessoas. E eu a conheço há muitos anos da Faculdade de Economia e antes até na CCDR, mas tem uma natureza, de facto, de grande franqueza e de grande frontalidade. Isso neste momento ajuda. Tu aliás, há pouco citavas mais do que o ministro Leitão Amaro, a pergunta é exatamente onde é que anda o ministro Leitão Amaro. Porque, na verdade, desapareceu.

Desde o vídeo.

Desde o vídeo, desapareceu.

Já está a fazer o PTRR.

Não me parece. Eu diria que o que se espera é que seja o ministro da Administração Interna. Esperava-se que fosse a ministra. Obviamente que o primeiro-ministro aparece porque é primeiro-ministro, mas estamos ali a ver o ministro da Administração Interna em exercício. Que era o que esperaríamos de um ministro nestas funções, independentemente de também ser exigível que o primeiro-ministro apareça a liderar e a coordenar.

Estamos a olhar para o PTRR. A Judite.

É do António, o PTRR é do António. Não?

Todos. É meu, mas é de todos.

Pensei que era sobre isso que irias falar.

Eu também quero, mas força.

É para o país todo.

É do país para o país.

Eu quero falar de uma coisa muito específica em relação à questão da recuperação, porque deixo para o António a questão mais macro do PTRR, que também está relacionado com a recuperação do país, que é uma breve nota sobre os trabalhadores em layoff. O governo tinha prometido, num primeiro momento, que os trabalhadores em layoff, estamos a falar das áreas afetadas, obviamente, receberiam 100% do salário bruto, portanto do ilíquido, mas afinal não, afinal há um corte. Pode ler-se a notícia n'O Observador, aplica-se o que está previsto no Código de Trabalho, em que os trabalhadores ganham apenas dois terços do salário.

Bruto.

Bruto. Isto é um recuo em relação ao que tinha sido prometido, por um lado, e numa altura em que as pessoas têm que fazer face a outras despesas, porque aqueles que foram afetados pela destruição da tempestade na zona centro só têm despesas. Os 100% do salário era bem-vindo, mas eu acho que o pior é primeiro prometerem uma coisa e depois voltarem atrás e dizerem que o layoff que se aplica é o layoff que está no Código de Trabalho.

António?

Deixe-me só concluir. Eu acho que as medidas, acima de tudo, têm que ser bem anunciadas e não com avanços e recuos, porque isso frustra as expectativas das pessoas, e as pessoas já estão tão fragilizadas que isso não deve acontecer.

António?

Sim, esse é o ponto, criar falsas expectativas num contexto deste é muito negativo. É incompreensível que o Ministério do Trabalho tenha feito um comunicado e o ministro da Economia, admito, induzido pelo comunicado do Ministério do Trabalho, tenha assumido publicamente numa entrevista, creio que até à RTP, que o regime de layoff simplificado seria mais benéfico que aquele que consta do Código de Trabalho.

Mais benéfico também para as empresas, não é?

Sim.

Mas há ali uma diferença entre os dois primeiros meses e a seguir.

Isso é só para as empresas, os primeiros 60 dias.

E a verdade é que esse tema dos dois meses tem um lado que me parece importante de salientar, que é uma navegação à vista, e quanto a mim desse ponto de vista correta, porque ninguém sabe muito bem como é que isto vai estar daqui por dois meses. Portanto, pode haver necessidade de dar mais apoios ou haver condições para suavizar estes apoios, porque o país retomou a sua normalidade dentro deste contexto. Os dois meses não me impressionam, porque é como as moratórias, estão três meses e nós sabemos que elas vão ter que ser estendidas face à gravidade e extensão dos problemas. Agora, não é compreensível que o governo comunique em cima de uma crise uma coisa e depois decida outra. Isso é muito negativo.

Já vamos voltar para a segunda parte de "E o Venceré?". Vamos continuar a conversar sobre estes temas, também sobre a nova suspeita noticiada hoje em relação à casa do primeiro-ministro. Voltamos já a seguir. Segunda parte de "E o Venceré?", com Judite França, Raquel Bocasis e o António Costa. Estamos na rádio, hoje é Dia Mundial da Rádio, estamos na rádio, "E o Venceré?" é um programa de rádio, mas também estamos em vídeo, porque agora a rádio também se vê, também estamos no YouTube em direto. António, e tu queres ainda falar do cheque que a Brisa vai passar? A Brisa vai mesmo pagar as obras da autoestrada?

Não.

Também estava a estranhar.

Não. Mas não, e isto não é irónico. Não, e não tinha de pagar.

Ok. Então explica-nos.

Vamos lá tentar explicar rapidamente, porque entretanto as obras já começaram e a pergunta que se faz é: mas quem é que paga isto?

É o senhorio ou o inquilino?

Exato, é o senhorio. Que somos todos nós, que concessionamos várias autoestradas, neste caso à Brisa, a uma empresa dentro da Brisa que é BCR, Brisa Concessões Rodoviárias, tem a A1, A5, as mais importantes. Tem mais, mas neste caso há um contrato de concessão. O país tem para aí mais de 20 contratos de concessão e de subconcessões. Este, aliás, é o primeiro, já vem de 1970, início da década de 70, e a última renovação foi em 2008. Nestes contratos de concessão, como é óbvio, há obrigações para o Estado, há obrigações para o concessionário, para o que exerce a concessão. Na verdade, a Brisa seria obrigada a pagar se esta catástrofe, nomeadamente na A1, resultasse de alguma ação ou omissão da própria Brisa. Isto é, eu estou a dizer que não tem que pagar, se vier a comprovar, que é o que parece, com toda a informação disponível hoje, que aquilo aconteceu por causa do dique e com o impacto absolutamente excecional que ele teve naquele terreno, que já é de estrada, não é exatamente de viaduto Portanto, confirmando-se, vou dizer assim, confirmando-se o que nós sabemos, é um fato, eu diria, anormal e fora de qualquer previsibilidade, e que a responsabilidade não pode ser imputada à Brisa, a responsabilidade de não ter a disponibilidade da estrada. O que é isso, ter a disponibilidade da A1? É a possibilidade de qualquer de nós poder lá passar. Em termos técnicos ou jurídicos, se quiserem essa expressão. E aqui é um ponto que às vezes também é esquecido. Não só as obras terão que ser pagas pelo Estado, como a Brisa tem que ser indenizada pelo número de passageiros que deixa de lá passar. Isto é, a Brisa vive de portagens, obviamente, se há menos pessoas a passar na autoestrada, há menos portagens, vai ter que se fazer essa conta e, portanto, no final do dia, confirmando-se, volto a dizer, este é um aspecto importante que fica absolutamente claro, que a responsabilidade não é imputável à Brisa, vai ter que ser o Estado a assumir essa conta. Enfim, nós vendemos a concessão. Nós, o Estado, recebemos eu creio que mais de mil milhões de euros, mil e tal milhões de euros. Em várias fases, a Brisa foi sendo privatizada em tranches e o Estado vendeu. Obviamente que não é possível pedir aos privados pra pagarem aquilo sobre a qual não têm nenhuma responsabilidade.

Ok.

E, portanto, não, à tua pergunta, não. A Brisa vai pagar a cabeça, porque entretanto a estrada tem que ser reaberta, obviamente.

Estou aqui a pensar que, se calhar, eu devia ter sido concessionário e não radialista.

Devias ter ido ao mesmo capital da Brisa.

Mas sabias que aquilo tem os seus custos. Investir em uma autoestrada tem os seus custos.

Há tanto para pagar.

Aliás, é mesmo por isso que o Estado, talvez excessivamente, e nos hospitais até correu melhor do que nas autoestradas, nas autoestradas não correu particularmente bem as famosas PPPs e o seu início, mas a verdade é que o Estado também, todos nós aceitamos que os sucessivos governos fossem fazendo estas parcerias, às vezes de forma não muito equilibrada, porque queríamos logo a estrada e não tínhamos dinheiro pra ela. Convém acrescentar essa falta de dinheiro.

Já que estamos a falar de obras, a Judite de França quer falar sobre o que disse o antigo presidente do LNEC, sobre as peritagens das infraestruturas que têm de ser feitas agora no prazo de um ano.

É isso. O governo deu ao LNEC, ao Laboratório Nacional de Engenharia, pra fazer com caráter de urgência, uma avaliação técnica a todas as infraestruturas que estão nas redes rodoviárias e ferroviárias. Todas, pontes, túneis, viadutos, muros de contenção.

Mas atingidas por esta problema?

Não, todas. Todas as do país.

Eu não sei se é boa ideia, sabes?

Tens medo do que aparece. Não queres ir ao médico porque tens medo do que o médico diz.

Não é isso. Desculpe interromper tão rápido. Está me a parecer que a tutela que decidiu isto, não confia propriamente nas infraestruturas que nós temos. E se eles não confiam, eu também não sei se devo confiar, esse é o meu ponto.

Todas as pontes foram vistoriadas. E, portanto, eu acho que antes ver do que não ver. Só que o problema é: isto é uma tarefa absolutamente hercúlea e é preciso técnicos especializados pra isto, montanhas de engenheiros, geógrafos, enfim, 30 por uma linha. Isto não se faz num ano, mas não se faz com a equipe que está no LNEC.

Não dá pra usar o ChatGPT?

Não, não dá pra usar o ChatGPT. E portanto, o antigo presidente do LNEC, que o Ricardo falava, o Carlos Matias Ramos, que também foi bastonário da Ordem dos Engenheiros, dizia ontem com graça, que se ainda fosse presidente do LNEC, neste momento perdia os poucos cabelos que tinha do nervoso que isto lhe iria causar. É evidente que vão ser contratados serviços, certo?

Vai aparecer orçamento pra LNEC poder fazer isso.

E é preciso contratar empresas, é preciso contratar universidades, que são muito importantes nesta altura.

Eu às vezes acho que tu precisas de demasiada esperança na humanidade.

Vai ter que aparecer, porque o LNEC não tem orçamento pra isso, precisa sozinho.

E o atual bastonário da Ordem dos Engenheiros ontem dizia que mesmo com tudo isso, a tarefa é praticamente impossível. E dizia uma coisa com razão, que é grande parte, ou enfim, uma fatia significativa destas infraestruturas são tuteladas por autarquias locais, por concessionárias e que, portanto, o que faria sentido é que o LNEC faça essa averiguação sobre a fiscalização que essas várias entidades fazem ou não fazem dos sinais de alerta. É no tema em que é preciso uma sinalização, porque tudo é tudo.

Que é preciso fazer alguma coisa, efetivamente.

São estas estradas da Arruda dos Vinhos que a gente vê caídas pelo morro abaixo.

São municipais.

Não é estradas, são as infraestruturas que estão nas estradas, são as pontes, os viadutos.

Eu acho que é estradas também.

Não. São as infraestruturas que estão nas redes viárias. Se fosse estradas, então isso era absolutamente impossível. Mas seja como for, é preciso dotar o LNEC de dinheiro. E dotar o LNEC de dinheiro pra fazer uma coisa que é preventiva Não deve dar jeito nenhum, porque não se vê. É uma obra que não se vê. Aliás, as obras de prevenção, o ideal é que não se vejam nunca.

Claro.

Que não se conheçam. E, portanto, os resultados não vão ser visíveis, mas é dinheiro bem gasto. Deixem-me só acrescentar

Nós queremos ter um seguro muito elevado, estamos disponíveis a pagar. Queremos arriscar e viver com a tensão do risco, fazemos um seguro um bocadinho mais baixo.

A única questão é que no despacho que foi assinado pelo ministro está devidamente autorizado que o LNEC recorra à aquisição de serviços externos, mas não há nada sobre o reforço orçamental. E portanto, é bom que o governo não se esqueça de que é dinheiro bem gasto, e portanto tem lá que pôr dinheiro.

Eu não estou a pedir notas a ninguém neste "Answer". Não me esqueci. Raquel, ainda queres falar sobre a notícia do Expresso que dá conta de nova investigação?

Desculpa, Raquel, porque eu queria dar uma nota sobre o PTRR, que é uma espécie de continuidade do PRR, mas à luz desta novidade. Enfim, vamos ter tempo, seguramente, para discutir com mais profundidade, mas parece-me que é uma boa ideia, porque é preciso ter uma visão holística. E recorrer a fundos vários, isto é, do Orçamento de Estado, fundos europeus, e olhar pra isso tudo de uma forma integrada para dar uma resposta às necessidades do país.

Então queres dar uma nota? Queres dar uma nota mesmo, António?

Quero dar um 13 pelo anúncio, porque é apenas um anúncio, falta saber quase tudo, mas eu acho que é importante que haja uma visão sobre o dia seguinte, para lá desta emergência agora de questão de semanas.

Siddite, tens uma nota?

Tenho uma nota para o LNEC, que merece um 20 pelo trabalho que se avizinha por aí.

Raquel, vamos então à notícia do Expresso.

Sim, eu trago este assunto que, tendo em conta a atualidade, tem passado um bocadinho à margem. E também antecipo já que a minha nota é para o Ministério Público, porque soubemos hoje pelo Expresso que o Ministério Público abriu uma nova averiguação ao processo da construção da casa de Luís Montenegro. Este é um processo do qual nós vimos ouvir falar desde antes de Luís Montenegro ser primeiro-ministro, quando ele ainda era candidato a primeiro-ministro, quando fez aquela célebre conferência de imprensa carregado de caixotes e pastas com todos os elementos referentes à casa. Houve uma averiguação do Ministério Público sobre o processo da casa que foi arquivada. E agora abre-se uma nova averiguação. Eu não estou aqui a querer ilibar de culpas o primeiro-ministro. Se ele tem culpas e se há, de facto, irregularidades, elas devem ser apuradas. O que eu não entendo é o que é que leva o Ministério Público a fazer averiguações sobre averiguações em relação ao mesmo processo.

Neste caso, seria evasão fiscal, não é?

Sim, mas o tema é o mesmo, os documentos são os mesmos.

A casa é a mesma, as obras são as mesmas.

Portanto, de facto, à mulher de César não basta ser séria, também é preciso parecer. E parece que é para manter permanentemente, neste caso, o primeiro-ministro debaixo de foco e debaixo de uma ameaça que pode ou não ter consequências. Quer dizer, há factos novos? Houve alguma denúncia? Aconteceu alguma coisa que justifique que o processo que já foi averiguado agora tenha uma nova averiguação? Porque para quem vê de fora, e eu não sou jurista, como se diz no spot do programa do Luís Rosa, mas para quem vê de fora, para o cidadão comum, isto já nem é levado a sério. Eu ouvi o título desta notícia e pensei assim: "Olha, cá estão eles outra vez." Já não é levado a sério, quer dizer, perde toda a credibilidade. O que é que aconteceu? Por que o Ministério Público abre averiguações em cima de averiguações sobre o mesmo assunto? Então não tivesse arquivado, mantinham no aberto até terem tudo esclarecido. Agora, arquiva, desarquiva, abre, fecha, agora é em Lisboa, agora é no Porto. É uma coisa que eu acho que não contribui em nada pra credibilidade da justiça, nem eu percebo, não vejo nenhuma razão plausível.

E não há uma lógica nisto. Uma lógica até de eficácia.

Sim, quer dizer, haviam uns documentos, aqueles documentos não foram vistos.

Aparentemente não chegavam numa primeira fase, não é?

Sim, mas entretanto hão de ter chegado pra terem arquivado o outro processo. O tema é esse.

É que aqui é um inquérito, da outra vez foi uma averiguação preventiva.

São coisas diferentes.

Já nem sei, mas da outra vez foi uma averiguação preventiva? A averiguação preventiva era a Spinoviva.

Não, foi agora.

Não, antes era a Spinoviva, não era a casa. É que a casa já teve um inquérito. Esse é que é o tema, não é? Portanto, se calhar daqui a um mês vamos ter outra vez um inquérito ou uma averiguação preventiva sobre a Spinoviva. Quer dizer, isto não tem fim.

Eu, por acaso, não tenho a certeza se na questão da casa foi um inquérito ou foi uma averiguação preventiva.

Não foi associada a nenhum.

Esta agora. Ah, ok.

E que o inquérito foi arquivado. E portanto, eu acho que ainda por cima, tratando-se de titulares de cargos públicos com a importância que tem um primeiro-ministro, isto não é bom pra ninguém

Eu também não sou jurista, mas deixa-me só tentar enquadrar aqui. Às vezes esses termos são complicados para quem nos ouve. Um inquérito é uma investigação formal em que o Ministério Público abre uma investigação formal, que tem as regras de uma investigação formal, estará em segredo, enfim, uma série de regras. Outra coisa é esta figura que recentemente conhecemos da averiguação preventiva, que é antes da abertura de um inquérito formal, há uma análise dos dados do caso.

Mas em princípio seriam todos. Todas as coisas que se sinalizam antes de chegar a inquérito, pela sua natureza.

Passaram, foi essa a notícia.

Exato.

Vamos entrar em outra discussão, parece.

Temos tempo.

Eu acho que há um efeito muito perverso, que ressalta, aliás, das palavras da Raquel. Longe de mim agora estar a dar palpites sobre as escolhas editoriais do Expresso, mas a verdade é que, mesmo tendo em conta a catástrofe e a ressaca da catástrofe, a verdade é que mesmo a escolha do Expresso não parece alinhada com a importância da notícia. Isto é, eu não estou a dizer que está mal a escolha do Expresso, editualmente na CAP. É muito importante um inquérito do Ministério Público a um primeiro-ministro de um país, não é uma coisa de somenos. Às tantas, isto já está em funções. Às tantas, isto já está de tal forma vulgarizado. Isto talvez devesse ser uma reflexão para o próprio Ministério Público, porque às tantas há um inquérito, isto passa como se fosse uma coisa: "Olha lá um inquérito."

Mas todos nós temos essa reação, esse é o meu tema.

Não é só do Expresso, é de todos nós, mas a notícia foi dada em primeira mão pelo Expresso. É isso que eu estou a enquadrar. E todos nós: "Olha, mais um inquérito. Está bem, e então o que é que temos que fazer agora? Ok, sim, senhora, temos aqui as consequências das cheias." Não, espera lá, há um inquérito ao primeiro-ministro. Em situação normal, o primeiro-ministro falaria ao país dizendo: "Há um inquérito." Foi informado o primeiro-ministro? O primeiro-ministro foi contactado? Já foi convidado neste inquérito, que agora é conhecido, a prestar declarações? É constituído arguido ou não é constituído arguido? Quer dizer, o Ministério Público abre este inquérito e gere-o como se gere o inquérito a qualquer um de nós. Nós somos todos iguais perante a lei, é verdade, mas o primeiro-ministro é um primeiro-ministro que representa o país.

Tem direito a ser chamado de foro especial.

Exato, era isso que eu ia dizer. E do ponto de vista jurídico, não é do ponto de vista político, tem mesmo foro especial.

Claro, tem de ter.

E tem de ter. Isso exigiria que uma decisão destas de um inquérito fosse acompanhada de explicações ao país, porque é um primeiro-ministro que está outra vez, ainda por cima outra vez, sob inquérito.

E querem dar notas?

Eu dou um oito ao Ministério Público, porque admito que me possa estar a escapar alguma coisa, mas aquilo que nós sabemos, de facto, não credibiliza o Ministério Público por estas mesmas razões que o António estava a dizer.

Judite?

Não, confesso.

Não queres dar nota?

Não quero.

Tu não queres porque nós não sabemos. Vamos lá ver, também é preciso dizer, nós não temos informação para saber. Não temos, mas isto também em si mesmo não abona. Isto é, no momento em que é formalizado e se conhece, vamos admitir que o Ministério Público é ultrapassado pela notícia. Os jornalistas fazem o seu trabalho. No dia em que esta notícia sai, a obrigação do Ministério Público, da PGR, é esclarecer.

Isso é outra coisa.

Dar informação. Não é fazer de conta que não saiu uma notícia. Eu próprio tenho que ter o cuidado, o ceticismo jornalístico para dizer: nós não temos informação sobre o que o Ministério Público tem.

Mas temos uma coisa, o Expresso questionou a Procuradoria Geral da República, que confirmou que existe uma investigação em curso a correr termos no DIAP regional do Porto, no caso.

É isso. Nós não sabemos o que está por trás para justificar este processo ou este novo inquérito. E portanto, com o cuidado ou a prudência que devemos ter, também tenho que acreditar, porque se não acreditar, então estamos todos cobertos, que abre inquérito só para chatear politicamente. Exigia-se outra explicação da PGR hoje face à notícia.

Raquel, tu ainda queres falar do Dia Mundial da Rádio?

É, mas já não tenho muito tempo, ó António.

Temos. Ainda tens aqui uns bons minutos e meio.

Uns bons minuto e meio.

Eu quero falar do Dia Mundial da Rádio porque sou uma mulher da rádio.

É verdade. Eu posso confirmar.

Como disse no início deste programa. Aliás, somos os dois colegas lá há vários anos e também faço um bocadinho parte deste projeto. Queria dar os parabéns, eu também aqui de viva voz, à Rádio Observador.

Obrigado.

Por ter sido capaz de pôr de pé um projeto que, num meio muito concorrencial, em que o espaço radiofónico estava muitíssimo preenchido com adversários de peso ou concorrentes de peso, enfim, somos todos amigos, e conseguiu credibilizar um projeto diferente de rádio. E eu tenho estado a ouvir as mensagens ao longo do dia que têm enviado, e eu acho que há um denominador comum em quase todas elas, que é a valorização não só do papel da rádio como meio de informação, mas como meio de formação, como um meio de formação divertido ou muito acessível. As pessoas fazem referência aos vários programas de conteúdo, como o Resta a História, como muitos outros programas, e à opinião. E isso eu acho que foi um trabalho inovador que a Rádio Observador tem conseguido fazer, adaptando-se aos tempos que vivemos. Como tu dizias, a rádio já não é só rádio, é YouTube, mas depois também é podcast e também é esta necessidade de ir sempre atualizando os modelos. E acho que a Rádio Observador, que não sei quantos anos tem.

Vai fazer sete anos.

Conseguiu vingar num mercado onde era muito difícil vingar e, portanto, quero dar, neste dia especial, os meus parabéns.

Obrigado.

A quem faz a Rádio Observador todos os dias. Nós só cá vimos de passagem.

Obrigada e parabéns aqui também.

Parabéns a vocês.

Eu faço minhas as palavras.

Obrigado também à Raquel, obrigado a todos os ouvintes que nos acompanham todos os dias. Isto vai soar a mechas, mas a única razão pela qual estamos aqui é porque temos ouvintes e queremos dar o melhor possível aos nossos ouvintes.

Nos divertimos muito a fazer isso.

Sim, também.

Porque é maravilhoso fazer isto.

É mesmo. É mesmo divertido. Nós temos a sorte de conseguir e poder fazer aquilo que amamos.

Que amamos.

Feliz Dia da Rádio para todos.