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E o vencedor é? Vamos saber já de seguida. Para a Cátia Bruno, Miguel Pinheiro, José Manuel Fernandes, Bruno Vieira Amaral e também Paulo Ferreira, que atribuem hoje as notas deste vencedor, com a moderação da Carla Jorge de Carvalho.
A ministra da Justiça quebrou o silêncio e não só. As negociações orçamentais arrancaram. Já o PRR parece mais em para arranca, mas temos de começar, naturalmente, pelo frente a frente desta madrugada entre Trump e Harris, e é por isso que temos hoje a editora de internacional do Observador, Cátia Bruno, aqui numa grande directa. Cátia, aqui claramente é possível encontrar um vencedor?
Olá, Carla. Sim, parece-me que sim, embora não sei se vencer o debate signifique vencer a eleição. Portanto, acho que é muito importante fazer essa distinção. Eu diria que Kamala Harris foi a vencedora do debate, mas também porque era sobre quem recaia mais expectativa. Era quem tinha a fasquia mais alta pra atingir, porque tinha fama de não ser muito boa em debates, tendo em conta a experiência das primárias de 2020, porque sabemos que Trump é uma pessoa difícil de enfrentar em debates e portanto, havia toda esta expectativa de como é que ela se iria safar nesta situação. E depois porque ela vem de uma onda mediática que lhe é favorável e que agora perante um debate que não corresse bem, poderia ir tudo um pouco por água abaixo. E, portanto, o facto de ela ter conseguido não só bater os seus mínimos como desestabilizar Trump, que é uma coisa que é raro acontecer em debates. Normalmente é ele que desestabiliza os outros e desta vez vimo-lo a ele perturbado, irritado e a não conseguir atingir exatamente os pontos que queria. Eu acho que isso faz de Kamala a vencedora do debate, mas lá está, não sei se isso faz com que os eleitores-chave pra ganhar a eleição tenham decidido votar em Kamala depois desta noite.
É só lembrar os debates entre Trump e Hillary Clinton, em que a candidata aparecia também, ou venceu, ou foi considerada que venceu esses debates. Cátia, então vamos atribuir notas, vais dar a cada um dos candidatos desta madrugada?
Bom, esta é a minha primeira vez, ainda por cima sem ter dormido.
Isto é dizer 20, mas raramente passa dos 10.
Pronto, comigo vai passar dos 10, mas vão ser dos 10 positivas, porque, na verdade, eu quando penso em avaliar prestações em debate, penso do ponto de vista de qual era o objetivo daquele candidato e se o atingiu ou não. E desse ponto de vista, parece-me que Harris foi mais eficaz porque queria atingir um eleitorado indeciso. Ela foi muito clara nesta ideia de falar para republicanos que não se identificam com Trump. Ela disse várias vezes ao longo do debate. Ela tentou mostrar-se muito moderada nas questões de política externa, voltou a usar a expressão de que quer que o exército americano seja a força mais neutral do mundo. E portanto, acho que ela foi mais eficaz nesse sentido. Mas Trump também não teve um debate desastroso naquilo que são os seus objetivos, porque não só ele manteve os votos da sua base eleitoral, como até conseguiu defender-se um pouco no que diz respeito a, pelo menos, não alienar determinado eleitorado que, se calhar, nas outras campanhas não esteve com ele e que agora ele não quer afastar. Isso foi muito claro, por exemplo, na questão dos afro-americanos. Ele não quis atacar Kamala na questão da raça, mal falou sobre o assunto, e também relativamente ao eleitorado das mulheres, onde Trump continua a manter esta posição relativamente à questão do aborto, que é muito diferente da que outras pessoas no próprio movimento MAGA têm, como o seu próprio candidato a vice-presidente. E, portanto, acho que os dois não falharam os seus objetivos, fizeram os mínimos. Dou melhor nota a Kamala Harris, porque acho que ela foi mais eficaz na parte de desestabilizar o adversário, mas eu gosto de dar positivas. Se eu fosse professora, seria uma professora muito mãos largas. Portanto, eu daria um 11 a Donald Trump e um 15 a Kamala Harris.
Uma mãos largas, um coração de manteiga. A Cátia Bruno aqui fica então.
E eu acho que a Cátia merece 16 horas de sono seguidas agora.
Por favor.
É isso mesmo. Então pode ir, ou continuas conosco, ou vai já aí compensar as horas perdidas de sono. Até lá, voltamos aqui à política nacional. Miguel Pinheiro, já ficou claro o que o PS vai fazer relativamente ao orçamento do Estado, que está a ser agora discutido entre a oposição e o governo?
Olha, não, depois do coração de manteiga da Cátia, eu não queria desanimar as pessoas, mas eu estou a ter imensa dificuldade em perceber o que o PS quer e suspeito que os eleitores também. O ponto do PS nas conversas sobre o orçamento assenta em três eixos. Um é dizer já que não ao IRC e ao IRS Jovem, sendo que eu ainda não percebi, porque alguns socialistas dizem que não querem de todo aquelas medidas, outros dizem que não querem a atual configuração das medidas e por isso eu ainda não percebi muito bem, afinal, se é impossível ter qualquer tipo de descida de IRS e qualquer tipo de exceção pra jovens no IRS, ou se está apenas em causa a modulação das medidas, não entendi. Depois, o segundo eixo tem sido esta questão da falta de informação O PS tem dito que não está a receber a informação toda do governo e que só ontem é que recebeu essa informação e portanto só agora é que vai apresentar as propostas. Eu não consigo entender isto, porque não entendo muito bem pra que o PS precisa saber ao cêntimo as previsões do governo, porque o papel de um partido da oposição é dizer: "Essas duas medidas não quero, por exemplo, e quero que estejam estas duas. O resto do orçamento é vosso, mas há duas medidas que são linhas vermelhas pra nós, portanto se isso estiver eu chumbo. E há duas que pra nós são essenciais, são estas duas." Depois, se estas medidas propostas, por exemplo, custarem dinheiro, cabe ao governo ir olhar pro orçamento e ver onde é que vai poupar o dinheiro. Vamos imaginar que uma das medidas era até uma coisa que já foi aprovada, o fim das portagens nas SCUT. Vamos imaginar, isto é só um exemplo teórico. O PS dizia: "Olhe, nós temos que ter o fim das portagens nas SCUT pra aprovar o orçamento." Depois onde é que se ia arranjar dinheiro pra acomodar essa medida era um problema do governo, não era um problema do PS. Por isso esta questão da falta de informação sempre me pareceu muito mal explicada.
Até porque, já agora, Miguel, eu imagino que o PS conheça melhor as finanças públicas do país do que o PSD neste momento já conhece.
Aliás, o atual orçamento é do PS.
Exatamente, começa por aí.
Já nem vou aí. Parece-me tudo um bocado narrativa para enganar os eleitores, no sentido simpático da palavra. E depois o último eixo é: isto tem que haver um diálogo direto com o primeiro-ministro, isto tem que ser um tête-à-tête no saloon do faroeste entre Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro.
E houve um contacto.
O problema é que depois, afinal ficamos a saber, o Observador contou já ontem à noite e está esta manhã no site, que houve um contacto que partiu de Luís Montenegro, um contacto direto com Pedro Nuno Santos. Não sabemos os detalhes, não sabemos exatamente que contacto foi, qual foi o conteúdo do contacto, terá havido uma resposta de Pedro Nuno Santos, também não sabemos exatamente que resposta foi essa. As pessoas têm que perceber que no jornalismo, muitas vezes, nós vamos tentando juntar peças, nem sempre sabemos a história toda de uma só vez. Mas o que sabemos é que houve um contacto, que foi a iniciativa de Luís Montenegro. Então Luís Montenegro tem a iniciativa de fazer um contacto, mesmo que não tenha sido um contacto absolutamente do agrado de Pedro Nuno Santos, mesmo que ele tivesse preferido que Luís Montenegro tivesse dito outra coisa qualquer, mas houve uma iniciativa, uma aproximação, e depois publicamente o PS vem dizer: "Bem, Luís Montenegro não está a querer aparecer ele próprio para falar." Sendo que é normal que numa fase inicial sejam os dirigentes mais técnicos que estejam a olhar pros números e a descascar um bocadinho as coisas até se chegar à fase final. Enfim, parece-me que o PS está um bocadinho ou sem saber o que fazer, ou pelo menos seguramente não está a saber explicar o que está a fazer, e isso pode trazer-lhe dificuldades, por isso eu dou aqui um sete ao PS. Acho que deviam ser um bocadinho mais claros com os eleitores. Parece que estão sempre a dar voltas e reviravoltas, e isso não é bom, porque se as coisas correrem mal no final, o PS vai ter que poder explicar aos eleitores que se houver eleições antecipadas, não foi culpa deles. E desta maneira não vão lá.
E por isso o teu sete para o Partido Socialista nesta matéria. Vamos avançar para outro tema, já estamos com pouco tempo. José Manuel Fernandes, a ministra da Justiça falou ontem sobre a fuga da prisão no último sábado. Quebrou o silêncio, temos andado a dizer, mas também partiu um bocadinho a loiça. O que te parece?
As duas coisas. E devo dizer que, ao contrário de muitas pessoas e dos comentadores, e do Marques Mendes, e depois dos partidos todos, eu nunca achei que fosse assim tão crítico a ministra não falar logo. Porque nós estamos um bocado mal habituados pelo nosso presidente, que fala por tudo e por nada e às vezes fala sem propriedade. E ontem podemos perceber que há uma diferença entre dizer umas banalidades e dizer coisas com um bocadinho mais de substância. E aquilo que nós ontem percebemos é que houve já demissões, poderá haver mais, que houve um inquérito e que vão ser tomadas medidas. E portanto houve palavras duras por parte da ministra relativamente ao que aconteceu. E houve outra coisa que também me pareceu positiva. A ministra, só por bastante pressão dos jornalistas é que disse alguma coisa relativamente à herança e ao governo anterior, porque numa situação destas estamos muito habituados a que a primeira reação dos políticos seja culpar outros, e ela não foi por esse caminho, que poderia ser um caminho até muito fácil.
Tinha a bala aberta.
Tinha a bala aberta, mas não quis ir por aí. O que aliás suscitou uma reação um bocadinho estranha de Isabel Moreira do Partido Socialista. Que andou ali às voltas a ver se conseguia criticar a ministra e teve dificuldade em fazê-lo. Eu gostaria que na intervenção houvesse mais abertura pra outros temas que, na minha perspectiva, relativamente às prisões, podem estar em cima da mesa, designadamente questões que têm a ver, por exemplo, com a duração das penas, questões que têm a ver com a própria estrutura do sistema prisional, mas provavelmente numa altura destas
72 horas depois dos acontecimentos, não havia ainda condições para avançar tanto. Para já, ficamos com aquilo que foi decidido, ficamos com a percepção de que há inquéritos em curso e que poderá haver mais consequências e ficamos à espera da auditoria que terá que estar pronta até o final do ano, relativamente não só a esta, mas às outras 48 prisões. Portanto, eu achei que foi uma prestação positiva, talvez não muito histriónica, muito mediática. A ministra levou um texto para ler.
Com pouco media training.
Sim, e com nervosismo e muito recurso ao copo de água.
Muita água, João, muita água.
O que é normal também.
Exatamente.
Também não é fácil. Ela não tem experiência política e passados cinco meses já acontece uma destas.
Pois. Portanto, eu vou dar uma nota positiva, vou dar um 14 à ministra, na expectativa de que se houver mais mudanças, poder vir um dia a subir esta nota.
Um 14. Acompanhas, Bruno?
Acompanho no geral.
Isto está com boas notas.
Pois está. Eu a dizer mal de vocês logo no início, à Cátia e ao João.
Hoje é um dia especial. Eu acompanho no geral. Em relação a esta demora na reação da ministra, também ouvi muitos comentadores a dizer que a ministra devia ter falado mais cedo para tranquilizar as populações. Nós gostamos muito de ser tranquilizados pelos políticos. Eu não vejo tanto uma necessidade da ministra ter falado para tranquilizar o povo que estaria em polvorosa, agitado com a fuga da prisão, mas por uma questão de responsabilidade política. Quando há um incêndio grave, uma situação grave, espera-se que o ministro da Administração Interna apareça, diga alguma coisa. E eu esperava que a ministra também tivesse falado, não para tirar logo conclusões e anunciar medidas, como fez ontem, com dados e com informação, mas para assumir essa responsabilidade política num primeiro momento. Eu acho que deveria ter feito isso. Posto isto, sim, acho que teve uma atuação correta, expor essa informação, anunciou medidas e são medidas não diria drásticas, mas são sérias. Há demissões de responsáveis e há aqui uma coisa que eu percebi a certa altura que a ministra não quis entrar muito por aí, mas também não quis deixar de mencionar, que é os erros individuais, as falhas individuais, porque se ouviu muito nestes dias, até de responsáveis sindicais, dizerem que as culpas não podem ser atribuídas às pessoas, aos guardas prisionais, são o elo mais fraco, porque há os problemas estruturais. Já sabemos que em Portugal a culpa é sempre dos problemas estruturais, mas para além dos problemas estruturais, há falhas individuais. E aqui houve, certamente, e aliás, isso ficou completamente claro do que a ministra disse e do ponto em que estão as investigações, houve falhas individuais, houve desleixos, houve erros grosseiros, isto são erros individuais. Pode depois haver toda uma série de falhas estruturais que potenciem e amplifiquem estes erros individuais. Mas os erros individuais, os erros de desleixo existiram e pelo que se percebe terão consequências, pelo menos foi isso que eu depreendi das palavras da ministra. Acho que foi um desempenho positivo, baixo só um bocadinho para o 13, em relação ao 14.
Precisas de media training.
Acho que isso também faz parte da profissão. Faz parte da função.
Só com a prática e com a experiência é que a coisa vai indo.
Sim, mas foi muito por essa questão de ter demorado estes três dias. Acho que uma primeira palavra num primeiro momento para assumir essa responsabilidade e garantir logo que estaria a decorrer essa investigação, acho que teria sido importante, mas acho que o desempenho ontem foi positivo.
Foi positivo. Um 13 por isso. Paulo, temos ainda tempo? Não muito, mas ainda algum. Já percebeste. Tem sido um pouco assim com o PRR. Há sempre tempo e se calhar não. Há um balanço sobre a execução que quer ser aqui discutado.
Sim, numa entrevista há dois dias, na segunda-feira, ao Eco, o presidente da Comissão Nacional de Acompanhamento do PRR, Pedro Dominguinhos, faz o balanço, basicamente. Diz que já há projetos do PRR parados e que estão a devolver verbas. Isto foi um mecanismo encontrado já por este governo para tentar otimizar a utilização de verbas, isto é, se há projetos que não avançam, tenta-se, no fundo, desviar, canalizar para outros projetos. Vamos ver ainda que resultado é que isto vai dar, mas sobretudo, eu queria aqui assinalar duas coisas, uma em especial, que são as preocupações. Pedro Dominguinhos diz que há investimentos que continuam com o nível de preocupação significativo, porque basicamente não avançam e aí vai ser difícil desviar verbas. Fala do caso dos polos de inovação digital, um pouco espalhados pelo país, que continuam a preocupar, mas depois ele sublinha o caso do Metropolitano de Lisboa, e eu acho que este caso é absolutamente emblemático da forma como as coisas vão ocorrendo em Portugal. O Metro de Lisboa, entretanto eu fui recuperar os dados que já conhecíamos do PRR de há umas semanas, a Ana Suspiro já tinha aqui no Observador falado sobre a execução do PRR do Metro de Lisboa em 2023. Temos aquela ideia do transporte público, e o transporte público, o Metro, que é absolutamente essencial para a descarbonização e para a transição energética da mobilidade nas cidades. O Metro de Lisboa tinha 66 milhões do PRR para gastar em 2023. Sabem quanto é que gastou de 66 milhões? Meio milhão. €500.000. A indemnização de Alexandra Reis foi quanto eles gastaram de 66 milhões que tinham. Gastou menos de 1% daquilo que tinha para gastar em investimento em 2023.
E as escadas ainda devem estar paradas, as escadas rolantes.
Exato. Quem utiliza sabe.
Algumas funcionam.
Ao menos que este meio milhão tivesse sido para consertar ou substituir as escadas. Motivos invocados pela empresa para os atrasos: atrasos nos projetos e na contratação. Pois, basicamente. Então os investimentos são feitos de quê? De projetos que se fazem inicialmente e depois contrata-se a execução desses projetos. É a melhor identificação que o Metro de Lisboa encontra para isto. Basicamente, isto dá a ideia também, não só que andamos a brincar com isto, com estes conceitos todos muito bonitos, como também, de alguma forma, desde o lançamento do PRR, andamos todos um bocadinho a ser enganados com o está tudo a horas, os níveis de execução tão fantásticos e por aí fora. Só que há um alerta: nós nem somos capazes de gastar o dinheiro que nos oferecem da União Europeia, que os outros contribuintes dos outros países oferecem, nem isso somos capazes de gastar. E portanto, agora que se fala em virem aí mais fundos decorrentes, o plano Draghi.
A proposta de Mário Draghi.
Enfim, temos muito que melhorar até para conseguir gastar. Até para conseguir gastar dinheiro que é oferecido, é preciso organização e planeamento, que é coisa que manifestamente nós não temos.
Só falta a tua nota, Paulo.
Vamos pela positiva hoje. Vamos dar aqui um 15 ou 16 a Pedro Dominguinhos, porque é importante ter sempre pessoas nestas comissões que digam as coisas assim desassombradamente e sem ter receio de estar a melindrar este ou aquele governo.
Há sempre alguém aqui a pôr o dedo na ferida, alguém que nos chama a atenção. Um 16 com mais um e o vencedor é, que regressa amanhã.