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Iva e o ouvinte da Rádio Observador já sabe que todos os dias pontuamos os protagonistas da atualidade de zero a 20. Hoje, para dar notas, juntou-se a nós Eunice Lourenço, editora de política do Expresso, e José Manuel Mestre, jornalista de política da SIC. A moderação, como sempre, é do jornalista André Maia.
Que saudade de Eunice Lourenço e José Manuel Mestre. Como estão? Bem-vindos, bom dia.
Bom dia.
Bom dia.
Hoje, em dia de muita campanha para as europeias, pergunto se já fizeram a vossa inscrição, se não fizeram, já não dá, para votar amanhã ou se vão esperar pelo dia nove parecer um dia mais marcante.
Eu vou esperar pelo dia nove.
Eu ainda não decidi, fiz a inscrição, mas como no dia nove estarei em Pedrógão com o Presidente da República, estou com dúvidas se vou ter tempo para me deslocar em Pedrógão a uma mesa de voto. Eu preferia votar no dia nove, mas pelo sim pelo não, fiz a pré-inscrição. Não vai dar-se o caso de correr esse risco. Amanhã tomo a decisão.
Ora bem. E amanhã pode ser o primeiro dia.
E também decides amanhã em quem votas?
Eu decido sempre em quem voto no dia das eleições. Como estou a fazer reportagem de campanha eleitoral, normalmente, desta vez não aconteceu, até à sexta-feira não penso no lado pessoal e no sábado dedico-me a essa reflexão, porque eu prezo a independência que o jornalista deve ter e portanto dedico-me à questão pessoal e de cidadania no sábado e às vezes na manhã de domingo.
Portanto, o dia da reflexão ainda é uma coisa, ainda é importante, sim senhor. Olhem, meus caros, vamos falar precisamente da campanha das europeias. Estamos a chegar a esse dia marcante, ao dia nove. Hoje, como disse, há muitas ações de rua no Porto, em Viseu, em Lisboa, um pouco por todo o país. Eunice Lourenço, começo por ti. A campanha das europeias achas que tem sido positiva, tem pelo menos ultrapassado as tuas expectativas ou estás desiludida?
Não estou desiludida, está a ser um bocadinho o que eu esperava, mas acho que foi mais positiva a pré-campanha do que a campanha. A partir do momento, a partir do último dos debates a quatro e depois o debate a oito e sobretudo esta semana, com a entrada em força dos líderes partidários na campanha, a campanha tornou-se mais nacionalizada, entre aspas. Nacionalizada no sentido em que já se começou a apontar para as leituras nacionais que o resultado das europeias poderá dar. E isso nota-se inclusive numa maior disputa entre os dois maiores partidos. PS e PSD passaram a falar ainda mais um para o outro, o que no caso à AD eu acho que devia também estar a falar para a sua direita. Quase que lamento que a AD não tenha feito nesta campanha um combate à direita mais radical.
E por que achas que isso não tem acontecido?
Porque a AD precisa, ou acha que precisa, apostar numa vitória sobre o PS, precisamente para ter essa leitura nacional, para ser como que uma espécie de confirmação das legislativas, quando aquilo que eu acho que seria mais positivo era os dois maiores partidos apostarem em afirmar-se como aquilo que realmente são, que são os dois grandes partidos europeístas em Portugal, e fazerem a diferença com aqueles que não são europeístas, com aqueles que não defendem os principais valores da construção europeia. Tanto à esquerda como à direita, porque não nos podemos esquecer que sobretudo a CDU também não concorda, embora às vezes tente matizar um bocadinho o discurso, mas não é eurocética, é antieuropeísta, é anti-euro. E portanto eu acho que os dois maiores partidos podiam e deviam ter apostado no seu europeísmo para marcar a diferença com a maioria dos outros, e não estão sobretudo apostados em disputar eleitorado para poderem ter ou um conforto ou uma desforra das eleições legislativas. Depois, em relação aos outros partidos, tenho achado muito curiosa a campanha da IL, porque começou por ter muito despique com o Bloco de Esquerda. Uma coisa um bocadinho estranha, porque são partidos tão diferentes, mas de facto os últimos estudos pós-eleitorais, já o de 2022 apontava para isso, chegam a disputar ali franjas de eleitorado jovem e portanto talvez assim se explique esse despique. E agora Cotrim Figueiredo virou o seu ataque para o Chega e sobretudo ontem à noite também já virou para a AD, para Sebastião Bugalho.
E consegues perceber por quê?
Para que a IL possa crescer. A IL a crescer será roubando, salvo seja, eleitores quer ao Chega, quer à AD. E portanto, passando uma imagem, por um lado, mais moderna, mais ao sabor dos tempos, por outro lado, uma imagem mais experiente e mais confiável do que a AD, Cotrim Figueiredo tenta ir a esses eleitorados dos quais precisa para se eleger ele próprio. Ontem estava tão confiante que já apontava para um segundo eleito. Vamos lá ver se não era confiança a mais, porque provavelmente a Iniciativa Liberal, o Bloco de Esquerda e a CDU, no caso da CDU, na melhor das hipóteses, conseguem eleger cada um um eurodeputado, dificilmente algum deles consegue ir ao segundo.
Eunice, tendo em conta essa tua perspectiva daquilo que tem sido a campanha, quem é o teu vencedor até agora e que nota é que dás?
Eu vou tentar dar aqui várias notas. Dou nota positiva a todos, exceto ao LIVRE e ao Chega. O LIVRE pela ausência de Rui Tavares, que mostra como afinal tem muito mau perder. Ao Chega, porque há coisas inaceitáveis que quer o candidato, quer o líder do partido dizem. Depois, dou um 13 a Marta Temido por ter vindo em crescendo. Dou um 15 a Cotrim Figueiredo, um 14 a Catarina Martins, um 11 a João Oliveira e um 12 a Sebastião Bugalho.
Muito bem, portanto muitas notas aqui da Eunice Lourenço. Ora, João Manuel Mestre, não sei se tens também tantas notas como a Eunice para dar, mas queres falar também do mesmo tema e queres aqui, eu creio que não estou errado, houve alguém que em tempos citou os Dama, essa banda mais juvenil, vamos assim dizer, com o que lá vai lá vai. E tu queres dizer o que já foi e o que lá vem, neste caso sobre as europeias.
Lá vai lá vai, que neste caso o que lá vai ainda está e o que lá vem lá vem, que vai ser muito importante. Mas eu queria pegar até pela Eunice primeiro, porque vou dar uma nota no final numérica, gosto mais de ir pelo "O Vencedor É" e o que não, quem não é o vencedor, que é o nome deste programa, mas tenho uma nota para dar. Mas acho que em termos de positiva e de negativa, a positiva e as negativas são as mesmas que a Eunice dá. Depois eu não pensei em notas individuais, que acho que aquele que vai ter a minha nota é que vai ter de a dar e eu não quero interferir nessa nota. E vou já dar a nota, começamos por aí, a nota é para o eleitor que é o vencedor destas eleições. É ele que vai decidir e, portanto, a nota só não é mais alta porque tem de ir à oral ou amanhã ou de amanhã a uma semana. Portanto, é um 12, mas é um 12 a subir, depois ver se há como decidir. Mas queria dizer essa nota.
E sobretudo se decidir ir votar. Desculpem interromper.
Votar vou de certeza.
Não, os eleitores.
Se decidir votar. Sim, exatamente, porque ele tem essa grande oportunidade e decidir votar independentemente do sítio onde vote, a nota sobe logo para 13 ou mais. Diria que do 12 sobe logo para o 16 e depois no que deixar no país, aí já é responsabilidade coletiva do que votam, ver se desce ou se sobe ainda mais. E quando falo no país é na governabilidade, nas condições do país evoluir, não no sentido do voto, porque cada um tem a sua lógica e a sua perspectiva de evolução do país e nessa eu não quero interferir. Mas queria dizer que eu pessoalmente acho que o PSD, pegando o que a Eunice estava a dizer, e esta é uma nota que eu acrescento às três ou quatro que tinha para dizer, o facto de o PSD estar a centrar isto num combate com o PS é uma estratégia. Antigamente as eleições ganhavam-se ao centro, agora a vitória ganha-se ao centro. Quem tiver mais votos entre o PS e o PSD ganha-se ao centro. Depois, acumular votos ganha-se com um milhão de votos que estão à direita, muito à direita, no Chega. E esse acumular de votos, o PSD entende que a melhor estratégia para os ir buscar é combatendo o Partido Socialista, porque assim pode ir buscar alguns que já foram seus e que estão do outro lado. Em vez de entrar no discurso direto, o PSD tem esse entendimento. E esse é um dos fatores que será avaliado no dia nove, ver como é que os portugueses entendem isso e se este discurso do PSD de algum modo cola ou colou com essa realidade. Depois, temos aqui uma outra questão de fundo, eu já o disse no último "E O Vencedor É", que é a aposta em Sebastião Bugalho, que põe um pouco o primeiro-ministro a salvo, não o líder do PSD pela escolha que fez, obviamente será responsabilizado por ela, mas se correr mal, é uma má escolha de que Luís Montenegro, presidente do PSD, é responsável, mas tenderá a não ser associado à governação. Se fosse um candidato forte, dir-se-ia que o PSD tinha sido penalizado pela governação que tem. E daqui passo para a outra nota. Obviamente que estas eleições já são só umas eleições nacionais. O envolvimento de Pedro Nuno Santos na campanha e o envolvimento de Luís Montenegro e todas as medidas que foram aprovadas em sucessivos Conselhos de Ministros, mais do que um por semana, têm obviamente a ver apenas e só com estas eleições, mesmo que Luís Montenegro diga que faz parte do plano que tinha. O plano que ele tinha também tinha em conta que havia eleições. E a partir daqui, uma vitória de Luís Montenegro será uma vitória sua pela escolha que fez, mas sobretudo porque os portugueses lhe disseram que estão contentes com o facto de ele estar a tomar medidas, independentemente delas terem ou não o aplauso da oposição. E teremos Luís Montenegro por muito tempo, se ele ganhar estas eleições. Uma derrota Por causa disso mesmo. Se uma vitória é uma vitória das medidas e da confiança que introduziu, uma derrota é uma derrota sua, não pela escolha de Sebastião Bugalho, mas porque tudo o que fez nacionalizou as eleições e governamentalizou estas eleições. E isso é um ponto assente. Sebastião Bugalho é a capa que pode servir de "estava tudo certo, mas o candidato era jovem, o candidato não colou, o candidato teve um discurso assim ou assado." E desse lado estamos aí. Do lado do PS também. Pedro Nuno Santos joga muito da sua vida aqui, porque se perder esta vida, perdendo estas eleições, o seu futuro fica muito complicado. Mas se ganhar por poucochinho, como diria António Costa, também fica, como ficou o futuro de António José Seguro no passado, e fica aqui também pendente o orçamento do Estado, que falaremos mais à frente, porque o orçamento do Estado, um PS sem visibilidade de ganhar eleições, não ganha nada em não aprovar o orçamento do Estado. Mas, por outro lado, se Pedro Nuno Santos estiver entre a espada e a parede, normalmente um político escolhe a espada. E se escolher a espada, arrisca e vai para eleições, não fica em um brando até 2025, pelo menos, à espera. Isto é tudo a segunda volta das últimas legislativas. E também para o PCP, e também para o Bloco de Esquerda, e também para a Iniciativa Liberal, e também para o Chega. Os partidos que têm pouca representação no Parlamento, se não tiverem um lugar no Parlamento Europeu, ficam todos em muito maus lençóis, numa situação muito complicada e com o futuro muito complicado. Já o Chega, deixa-me só acabar, se não conseguir ter um resultado semelhante, isso é muito complicado para o Chega e para o futuro do Chega. Eu tinha uma nota que quero dizer aqui, que é em relação a Sebastião Bugalho, que é elogiá-lo por ter tirado a capa que vestia enquanto titular da carteira profissional de jornalista. Ele tem o direito de ter uma opinião política e de expressá-la, está a assumi-lo, mas tenho que deixar aqui esta nota porque ela é muito séria, é um elogio a Sebastião Bugalho, porque não teve pudor a dizer: "Eu combato o PS, eu estava como jornalista, mas verdadeiramente o que eu sou é um adepto desta área política", e eu acho que o que ele fez tem que ser feito pelos comentadores políticos, como se faz na América. E antes de fazerem comentário, como aconteceu nas últimas eleições, eles têm que dizer: "Eu vou votar em determinado sítio" ou "Eu sou eleitor potencial desta área", para depois dizerem o que dizem. Porque Sebastião Bugalho percebe-se claramente o que pensa, que não é diferente do que pensava atrás. Só que tinha um problema. Atrás, escondia-se atrás de uma carteira profissional de jornalista que pressupõe exatamente o contrário. E daqui também um apelo à Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, que tome uma posição pública sobre este assunto, porque há muita gente a fazer comentário sob a capa da independência, quando, na verdade, não tem, e isso baralha o eleitor. Era só esta última nota final, que traduz um elogio a Sebastião Bugalho e uma crítica aos que dizem o mesmo que ele, mas não dizem de que área são, como ele não disse no passado, mas agora não tem problemas em dizer.
Ora, meus caros, muito rapidamente, temos sete minutos até o final. Vamos falar sobre o plano da saúde. Eunice, queres falar sobre o plano de emergência de saúde que foi apresentado esta última semana? Hoje, por exemplo, fica disponível a nova linha SNS Grávida, que é uma das peças do puzzle deste plano de emergência da saúde. Achas que vai resolver os problemas mais urgentes que temos em Portugal no Serviço Nacional de Saúde?
Tenho muitas dúvidas. Eu vou tentar ser rápida e começo pela nota. Dou um 10 ao governo pelo plano de emergência, por ter sido apresentado no prazo prometido, sendo que com isso também faz parte da disputa eleitoral, por não deitar abaixo várias coisas em andamento, porque é sempre um perigo nestas situações. Nalguns casos, só lhes deu novos nomes. E por outro lado, o plano aponta para algumas soluções que a oposição veio chamar de privatização da saúde, mas que, por exemplo, como no caso das Unidades de Saúde Familiar de tipo C, que são aquelas que podem ser organizadas por privados ou pelo setor social, também já estavam nos planos do governo PS, não tinham avançado porque o setor social disse que não tinha capacidade para avançar. E essa é uma das grandes dúvidas deste plano, é com quem é que vai ser feito. Porque claramente o plano não avança tanto para os privados e para o setor social como na campanha eleitoral Luís Montenegro tinha defendido, e não avança porque também no privado e no setor social não há meios para fazer muito mais. E no setor público, no Serviço Nacional de Saúde, tenho muitas dúvidas como é que se vai reorganizar para fazer mais, porque aquilo que temos ouvido sempre nos últimos tempos é que não há capacidade para mais e o primeiro-ministro veio dizer que afinal ainda vai esgotar as capacidades, o que parece implicar que há mais capacidade. Portanto, fico aqui com alguns pontos positivos, outros nem tanto. A oposição penso que não pegou bem no assunto, já tinha o discurso preparado antes do plano ter sido apresentado e limitou-se a criticar o que chama de privatização, quando eu acho que a privatização fica muito aquém daquilo que Montenegro tinha defendido em campanha eleitoral.
E que nota dás? Disseste um 10, não é?
Dou um 10 ao governo.
Um 10 ao governo, portanto, para este plano da saúde que foi apresentado esta semana. José Manuel Mestra, temos dois minutos, vamos falar sobre o Presidente da República. Tem sido interventivo, na tua opinião? Queres aqui falar sobre a interferência do presidente com o Parlamento?
Tem sido as duas coisas. Como tenho dois minutos, vou usar 30 segundos para acabar uma ideia sobre o que aí vem, que era do que aí vem que eu ia falar, só para dizer que vem cá a von der Leyen, e nós estamos todos convencidos que António Costa pode ser, se for, o único candidato a um lugar de topo europeu. E para deixar aqui uma dica, é que se calhar pode não ser, porque se von der Leyen, e essa é uma hipótese que tem estado sobre a mesa, transitar para Secretária-Geral da NATO, e isso ainda não está excluído, ela tem feito uma campanha até muito marcada para quem quer continuar nesta função, e aí abre-se uma vaga para a presidência da Comissão Europeia. E atenção a Pedro Passos Coelho, se não será indicado, e aí deixar António Costa pelo caminho. É só para reflexão. Há pouco não quis gastar mais tempo, mas fica aqui essa reflexão, se será António Costa ou Pedro Passos Coelho a ser indicado pelo governo português para uma função de topo europeia.
Mas é que agora só ficaste com um minuto e 15 segundos.
Agora só fiquei com um minuto e 15 segundos a dizer que o Presidente da República, que não se pronuncia sobre os excessos de linguagem no Parlamento, porque são um assunto do Parlamento, que não se pronuncia sobre nenhuma votação, e assim o tem dito, porque são assuntos do Parlamento, não pode depois vir pronunciar sobre o orçamento do Estado. Tem que decidir em que caminho é que está. Foi muito da sua pressão que fez com que não houvesse condições em 2021 para a aprovação de um orçamento do Estado. Marcelo Rebelo de Sousa, se vai pelo mesmo caminho, provavelmente vai fazer com que não haja condições para isso. Mas ele está a interferir, é preciso que se diga, com o que o Parlamento vai fazer. Interferiu porque pressionou na altura e pode interferir agora. E o que é que pretende? Pretende que haja eleições e que os partidos que derrubem o governo sejam penalizados? Pretende aprovar o orçamento do Estado, mas pretendeu-o em 2021. Falhou. Portanto, o presidente tem de se moderar, tem de decidir o caminho que quer, não pode andar ao ziguezague e, portanto, já a nota é não é o vencedor da semana. E desta vez, por causa desta contradição no espaço de 15 dias, vou dar-lhe pela primeira vez uma nota negativa daquelas que não sobem para 10, porque o oito só sobe à primeira para 10. É um oito, ele pode subi-lo, mas tem que ter mais coerência.
Ora nota oito para o Presidente da República. Meus caros, para vocês, nota 20. José Manuel Mestre e também Eunice Lourenço, muito obrigado. Voltemos a encontrar-nos novamente por aqui. Amanhã estamos de volta.
Bom fim de semana.
Com outros dois membros e o vencedor é, estamos de volta sempre depois da síntese das 10:30. Obrigado e até para a semana.