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E começa agora a edição do "Youven Sorê" das manhãs 360. Nos próximos minutos damos notas aos principais protagonistas da atualidade e hoje, além do José Manuel Fernandes, Carla, está também conosco a Sara Antunes de Oliveira. Falamos esta manhã de promessas antigas, do regresso dos líderes, de provocações e também dos avisos da Parpública sobre a recompra da TAP. Sara, por que trazes este tema aqui?

Porque é um conto sobre o problema das decisões ideológicas. Pior, das decisões ideológicas que são tomadas em campanha eleitoral, que se tornam promessas eleitorais e depois deixam os que as prometeram sem nenhum recuo. António Costa prometeu recomprar a TAP, era uma das grandes bandeiras da campanha, e quando ganhou as eleições, decidiu recomprar a TAP. O problema é que fez isso contra o parecer de quem tinha precisamente a função de aconselhar o governo, a Parpública, que controlava a participação do Estado na transportadora aérea, que avisou de forma muito clara, de forma muito veemente, que a forma como o governo pretendia fazer essa recompra era um desastre, seria um retrocesso sem precedentes, porque o Estado saía muito prejudicado pela forma como esse acordo estava a ser feito. E não há nenhum problema em entender que uma empresa como a TAP deve ser pública. E também não há nenhum problema em, estando no poder, querer garantir que é isso mesmo que acontece. O problema está em ficar com aquela visão de túnel, sabem? Que uma pessoa não vê nada pra um lado, não vê nada pra outro, não vê pra cima, não vê pra baixo, só vê mesmo o que está lá à frente, e por isso também só consegue seguir em frente, aconteça o que acontecer. E depois acontece isto. Que pagamos todos o final desse túnel, e não era necessário.

E a nota, portanto, vai ser para quem?

Pode ser boa pra Parpública, mas vamos ficar aqui com um sete pro governo que decidiu seguir essa visão em túnel.

Falando aqui em transportes, Paulo, o que é que se passa com o IP3?

Ou o que é que não se passa com o IP3, que é mais esse o tema.

Também tem túneis?

Também tem túneis.

Se calhar não tem.

Não, não tem túneis. O IP3 agora estava assim de carro. Não, não tem túneis o IP3. Se tivesse túneis eram outros 500, não é?

Eram outros 20 anos.

Eram outros 20 anos. Ontem o Luís Montenegro é mais um primeiro-ministro a ir lá ao local para fazer mais uma assinatura de um contrato de construção de um troço do IP3. O IP3 é aquela estrada, lamento também, tenho aqui um interesse próprio do utilizador frequente. Só não sou mais frequente porque prefiro fazer mais 30 quilômetros e dar a volta pelas autoestradas, pela A17 e A25.

Pelo IP5.

O antigo IP5.

IP5, agora como é que se chama? É A5?

Agora é A25.

A25.

Que faz a ligação entre Aveiro e Vilar Formoso. E o IP5 também tem lá troços absolutamente degradados, obviamente, nunca mais foram recuperados e que são ótimos para fazer filmes, para vir cá gravar filmes, aquela saga Fast and Furious.

Velocidade Furiosa.

Velocidade Furiosa.

35, talvez.

Exatamente. Aproveitou já alguns troços para fazer algumas filmagens. Bom, mas o IP3, o Expresso resume bem esta ida do Luís Montenegro lá acima ontem, diz: "IP3, sete primeiros ministros, 23 anos de anúncios e poucos quilômetros construídos". Trata-se aqui da recuperação de uma via que é importante nas ligações ao interior do país e por onde passa grande parte do transporte de mercadorias para exportação das indústrias da zona centro, porque depois o IP3 vai ligar às autoestradas que levam a Vilar Formoso e a Espanha. E a saga começou com António Guterres em 99.

E tem alguns troços particularmente perigosos.

Muito perigosos.

Muito perigosos. Principalmente ao pé de Penacova.

Exatamente. E onde morrem pessoas com alguma frequência, mais do que aquilo que é habitual ou seria normal nas estradas. É como digo, eu pessoalmente prefiro fazer mais 30 quilômetros e pagar portagens para evitar esses riscos de alguma maneira, mas há quem não possa ou não queira fazê-lo. E eu até coloco a questão a outro nível, se os políticos nos fossem dizendo: "Bom, aquilo está bem como está, há aí outras prioridades no país e, portanto, não vai ser renovado". Não, o problema é que desde 99, com António Guterres, que os próprios governos vão lá, dizem: "Isto vai ser recuperado, e temos que alargar e pôr mais faixas e transformar isto eventualmente no perfil da autoestrada", e vão lá e prometem e assinam contratos com empreiteiros, isso tudo. Portanto, eles próprios colocam isto na agenda e dizem que é prioritário, mas depois não acontece nada. Eu também sou do tempo de 2018, quando António Costa foi lá duas ou três vezes. Esse António Costa foi lá duas ou três vezes. Numa das vezes havia um protesto de professores, porque havia guerra dos professores para a recuperação do tempo de serviço, da contagem do tempo de serviço. E António Costa, no IP3, disse: "Meus amigos, isto das duas, uma: ou há dinheiro pro IP3, ou há dinheiro para os pagamentos inerentes à contagem de todo o tempo". Obviamente, não houve dinheiro, no ano do governo do António Costa, nem para o IP3, nem para os professores. A questão dos professores foi resolvida já por este governo. E, portanto, é só para anotar mais esta saga. Este resumo de sete primeiros ministros, 23 anos de anúncios e poucos quilômetros construídos, este título do Expresso diz bem da absoluta incapacidade do Estado cumprir aquilo que vai prometendo e dos governos cumprirem. Fazem anúncios com intuitos muitas vezes eleitorais, e depois esquecem-se absolutamente daquilo que fazem. Isso é só um exemplo entre muitos. Fica só essa nota, ponto. Não é nada de outro mundo.

Não é nada de outro mundo.

É mesmo assim.

Havemos de continuar a falar sobre o IP3, não é?

Sem dúvida. O aeroporto, que há 50 anos que nós andamos nisto. As obras já agora de reconversão da linha da Beira Alta, que no fundo é paralela ao IP3, em termos pelo menos das populações que serve, é outra saga que já dura há sete anos.

Então que nota dás a esta saga?

Se é esta saga, já dou um quatro, porque é aquela nota que já nos envergonha, a nós enquanto país.

Portanto, sete primeiros-ministros e 23 anos de anúncios. José Manuel, o que te prendeu à entrevista de Francisco Louçã hoje ao jornal Público?

Carla, muita coisa.

O Bidial já falou daquilo que serve de título: "Temos um fascista na Casa Branca." A dúvida é porque ele não se candidatou há oito anos, porque também na altura tinha sido eleito Donald Trump para a Casa Branca, mas ele disse que não, que é uma persona nova. Agora temos uma persona nova que é um fascista e que isto mudou o mundo, como é óbvio. Mas eu acho que há muitas outras coisas que são sinais, por um lado, do estado em que está o Bloco e, por outro lado, de quem sempre foi Francisco Louçã. Por exemplo, ele diz que o Mark Rutte, o secretário-geral da NATO, que veio alertar para o fato de que podemos estar em guerra com a Rússia muito brevemente, é um discurso canalha, o termo é dele. Depois diz uma coisa que é muito curiosa, que é: vai por Braga, ele candidata-se por Braga, porque simultaneamente Braga tem duas características. É um distrito muito jovem e, portanto, o ideal é esse, ter um candidato muito velho. Não, essa parte ele não diz.

É a tua conclusão.

E, por outro lado, diz que é um distrito com muito peso de poderes fáticos e, portanto, muito conservador. Eu acho que ele não deve ir a Braga há muito tempo, designadamente à cidade de Braga, e conhecer os meios da Universidade de Braga. Depois chega e diz outras coisas extraordinárias, que o Chega é filho da maioria absoluta de António Costa. O que não deixa de ser curioso, porque o Chega ultrapassou o Bloco de Esquerda antes da maioria absoluta de António Costa.

O Chega é filho de António Costa.

Antes de António Costa ter conseguido assumir a maioria absoluta. Ultrapassou o Bloco de Esquerda no final da geringonça. Nas eleições de 2022, em que o Chega elegeu 12 deputados e o Bloco recaiu para cinco deputados. Depois, evidente, o Chega com a maioria de António Costa saltou de 12 para 50. Mas já existia antes, já tinha ultrapassado o Bloco antes disso. Ele nessa altura diz que está tudo muito bem, há uma sondagem do público que é ótima para o Bloco, mas passadas mais umas perguntas lá para adiante, deve ter esquecido dessa resposta. E a propósito de uma outra pergunta sobre outra sondagem, diz: "Estou-me nas tintas para as sondagens." Eu estou a citar. "Estou-me nas tintas para as sondagens." Aliás, ele deve estar, de resto, nas tintas para tudo aquilo que se diz e que é público. Por exemplo, a todas as pessoas que lhe fazem perguntas sobre aquele caso dos despedimentos no Bloco, ele diz: "Não atirem lama para cima do Bloco." O Bloco pode atirar lama para cima de toda a gente, mas para cima do Bloco não atirem lama, claro, porque o Bloco é impoluto. Por quê? Porque cumpriu a lei. Estás a ver? Ética não interessa. Interessa a lei. Onde é que a gente já ouviu isto? Parece que é um tema que os políticos adoram sempre que são um pouquinho apertados. E finalmente, acho que aqui é uma frase que eu não posso deixar de destacar, que é algo que me faz lembrar o Otelo Saraiva de Carvalho. Não sei se te recordas, conta-se, não sei se é verdade, se não, enfim, faz parte da mitologia do Otelo Saraiva de Carvalho, que ele uma vez visitou a Suécia, era lá do COPCON e disse que em Portugal estávamos empenhados em acabar com os ricos. E na altura, o primeiro-ministro da Suécia, que era um social-democrata, aliás, famoso, importante, que foi assassinado, Olof Palme, disse: "Olha, nós na Suécia estamos mais preocupados em acabar com os pobres." Parece que o nosso amigo Francisco Louçã ainda está no registo 1974, 75, Otelo Saraiva de Carvalho, porque diz: "Para que é que é preciso um milionário? Um milionário não serve para nada. A ideia fantasiosa que a riqueza que cria a distribuição é mentira. A riqueza só cria concentração de riqueza." Isto é, se formos todos pobres, está tudo bem. Basicamente, é o que ele está a dizer. Vamos acabar com isso da riqueza, porque com riqueza temos o risco de ter ricos e nós queremos acabar com os ricos.

Mas é coerente aí.

Claro, ele é coerente.

Os países que aplicam essa política, defendida pelo Bloco, é disso que trata, acaba toda a gente pobre.

Acaba toda a gente pobre, exatamente. Ele, de facto, está como Otelo Saraiva de Carvalho, quer acabar com os ricos, com a riqueza. Não se preocupa com o facto de ficarem todos pobres, como se preocupava o Olof Palme. Aliás, curiosamente, uma das coisas que distinguiu sempre a social-democracia sueca é que ela nunca se incomodou com os ricos. Na Suécia sempre houve grandes empresas familiares, sempre houve pessoas muito ricas, mas a preocupação era redistribuir a riqueza e não acabar com a riqueza. É muito significativa essa entrevista, mostra que vamos ter um Bloco à antiga, um Bloco conforme as suas origens, conforme os seus fundadores. Só que nessa altura o Bloco escondia estas partes políticas, porque tinha umas agendas mais sexys ligadas ao aborto, porque tínhamos um secretário-geral do Partido Socialista que era contra o aborto, que era António Guterres, e portanto, fez um caminho por essa via. Agora, isso já não existe, essas causas já não existem, sobra regressar às origens, e as origens, pelos vistos, são estas. Eu acho que por este caminho, o Bloco vai pelo caminho que teve na Madeira. Não sei se ficará em 1,1%, como aconteceu agora na Madeira, onde chegou a ser o terceiro partido da oposição, ou melhor, o segundo partido da oposição, o terceiro partido da região. E agora, por este caminho, provavelmente vai lhe acontecer, não digo desapareça do Parlamento, não creio que isso venha a acontecer, mas pode voltar a perder deputados Recurso a este tipo de discurso de Francisco Louçã que creio eu, vai a algum lado. Mas enfim, veremos. Posso estar eu enganado e ser o Louçã que tem razão, mas não creio que seja assim que lá se chega.

A nota então é para Francisco Louçã?

A nota então... Louçã é um professor catedrático, portanto nem sei bem que nota quer dar. Um professor catedrático diz estas coisas a propósito de economia, diz uma coisa destas a propósito de riqueza, nem sei bem que nota quer dar. Vou fazer como aqueles professores que passam a nota para os assistentes e eles que tratem do assunto. Nem sei se dou nota, porque às vezes nem merece nota, para ser sincero.

Então fica sem nota Francisco Louçã. Falando aqui em argumentos da esquerda, Bruno, será que Paulo Raimundo vai ter que ser sempre interrogado sobre a questão da Ucrânia?

É aquele tema que vai perseguir o PCP.

Que aconteceu ontem na entrevista da RTP.

Sim, na entrevista da RTP. E já toda a gente sabe qual é que é o posicionamento do PCP em relação à Ucrânia. Em qualquer entrevista, eu acho que pode ser levantado o tema, mas já não é uma novidade e o PCP tem sido penalizado por isso mesmo, pela posição em relação à Ucrânia, apesar de agora se descobrirem umas proximidades, umas afinidades inesperadas entre o PCP e Donald Trump nesta luta, nesta busca por uma solução negociada, muito do agrado de Vladimir Putin. Mas a questão que me interessa trazer aqui é, por um lado, a entrevista. A RTP tem estado a fazer várias entrevistas aos líderes partidários no "Telejornal" e pode-se questionar desde logo se faz algum sentido, o que é que se ganha com entrevistas de 10 minutos aos líderes partidários, o que é que se pode dizer de profundo, de novo, de relevante em 10 minutos numa entrevista. Quando essa entrevista, ainda por cima, se concentra num único tema, e aí pode-se discutir se faz sentido que seja este tema ou se faria sentido se fosse outro tema qualquer também, podemos questionar que temas é que poderão ser levantados em 10 minutos. Mas pode-se questionar se faz sentido que só haja um tema numa entrevista e depois que o tema seja este da Ucrânia.

Quando o pretexto, efetivamente, são as legislativas que estava mesmo no cenário, no ecrã.

Não se trata de pensar ou de questionar se o tema pode ou não ser levantado, ou deve ou não ser levantado. Pode ser levantado, deve ser levantado, se for esse o entendimento de quem está a conduzir a entrevista, mas sendo a questão, neste momento, as legislativas e a crise política, será que a Ucrânia é mesmo o tema mais interessante e mais importante que temos para ouvir a opinião do PCP neste momento? A mim, enquanto cidadão que procura essa informação, não me parece. Agora, depois há uma reação do PCP que eu também tenho alguma dificuldade em compreender, que é dizer que vai acionar todos os meios legais, porque sente que foi feita uma provocação. Estamos a falar exatamente do quê? Vai processar José Rodrigues dos Santos e a RTP? Eu acho que isto tem muito que ver com aquilo que se espera de um serviço público de televisão, de informação, e de como se entende que deveria ser, ou como alguns partidos entendem que deveria ser. Ora, os jornalistas, seja do canal público ou de outro órgão de comunicação social, não fazem as perguntas que interessam aos partidos que façam. Pode-se criticar. Aliás, eu acho que até acaba por beneficiar com a entrevista, da forma como a entrevista foi conduzida ontem, até poderia beneficiar, creio, se aproveitar devidamente isso para se vitimizar. Agora, ameaçar com meios legais, não compreendo muito bem o que o PCP pretende. Se é processar o jornalista por algum tipo de delito ou se é recorrer à ERC, que está sempre aí disponível para ouvir e receber este tipo de queixas. A mim parece-me que tendo, e não ponho isso em causa, tendo razões de queixa da forma como a entrevista foi conduzida e do fato de ser mono temático a entrevista, o PCP acaba por perder um pouco quando ameaça com um procedimento legal. Eu, pelo menos, não percebo muito bem o que poderá ser aqui todos os meios legais ao seu alcance. Não me parece que o José Rodrigues dos Santos, por muito criticável que possa ser a sua condução da entrevista, tenha cometido algum crime, mas o PCP lá saberá. Vou dar um oito ao PCP. Não é por concordar com a forma como a entrevista foi conduzida, de achar que tenha sido esclarecedora, mas por esta ameaça dos meios legais que não consigo perceber.

Entretanto, Fabián Figueredo, o líder da bancada do Bloco de Esquerda, escreve também no Twitter ou no X, que acabou por ver um debate entre José Rodrigues dos Santos e Paulo Raimundo. "Alguém sabe o que aconteceu ao jornalista que devia fazer a moderação?" É o que pergunta Fabián Figueredo também nas redes sociais. E o "Vencedores" regressa na tarde política às 17h30.