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Está no ar o "E o Vencedor É?", da Rádio Observador, programa que já sabe que também pode acompanhar em direto no YouTube, Facebook ou então no nosso site. Esta sexta-feira juntam-se à equipa das manhãs 360 e ao José Manuel Fernandes, a Helena Matos, que aqui está conosco, e também o Carlos Diogo Santos. Carlos, hoje falamos de acordos salariais, de sapos e minhocas, mas temos de começar pela crise política. Temos. Marcelo falou ontem à noite e por isso há várias notas para atribuir. Carlos, queres começar precisamente pelo presidente da República? Bom dia.
Bom dia. Sim, e pelo primeiro diagnóstico que Marcelo fez naquela intervenção, começou com uma leitura dura, acertada e arrasadora do que aconteceu nos últimos dias, mas que é também um reflexo do que tem acontecido nos últimos tempos. E o presidente sublinha aqui que algumas ideias que são importantes, como onde não há responsabilidade na política, como na administração, não há autoridade, respeito, nem credibilidade, e que um governante sabe que ao aceitar sê-lo, aceita ser responsável por aquilo que faz e por aquilo que não faz, mas que permite fazer. E portanto, dando aqui uma ideia de que toda a autoridade do governo ficou diminuída, diria que ainda mais diminuída com este caso, porque por este diagnóstico percebe-se que o problema não começou aqui. Dá depois aqui ideias que nos permitem perceber aquilo que é a segunda parte da sua mensagem, com um foi pena sobre a atitude de António Costa e a decisão de não ter aceitado a demissão de João Galamba. E é um foi pena porque, segundo Marcelo, casos como estes não passam por se dizer que já passou, acabam por reaparecer. Mas com isto, o que Marcelo queria aqui dizer é que está consciente de que neste momento Costa sai por cima. Parece-me que é uma leitura que se pode fazer daquilo que o presidente disse ontem, porque desafiou Marcelo e Marcelo não dissolveu o Parlamento, apesar daquelas promessas que repetidamente foi fazendo. Mas ao dizer que estas coisas reaparecem sempre, porque quando não ficam tratadas, Marcelo também deixa aqui claro de que apesar da consciência de que ficou aqui numa situação complicada, tem quase que a certeza de que esta é uma guerra para ganhar, porque, de facto, sobretudo com uma comissão parlamentar de inquérito a decorrer à TAP, motivos não faltarão para que, mesmo com esta batalha perdida, Marcelo venha a mostrar que de facto tem o peso de fiscalizar este governo e até tomar uma medida mais drástica. E portanto, Marcelo sabe, e parece-me bem, que estas batalhas não faltarão e portanto, dado barato a situação que Costa lhe criou e gera aqui esta situação. Queria também aqui destacar duas ideias, é que muito se tem dito que Marcelo se pôs a jeito com as referências constantes ao poder de dissolução. É verdade, mas não é de todo o responsável pela instabilidade e portanto eu acho que é bom também frisar isto, porque às vezes as coisas baralham-se e parece querer com as atitudes de Marcelo justificar a decisão injustificável de António Costa, e isso acho que acaba por ser perigoso. Por outro lado, há um momento em que acho que Marcelo esteve francamente mal e ainda por cima foi a primeira mensagem da sua intervenção de ontem, que é quando diz que apesar de alguns muitos bons números da nossa economia e de apoios a famílias e empresas, esses números ainda não chegaram à vida dos portugueses. E a pergunta que fica, acho que para qualquer português, é: então o presidente acha isto e não intervém antes? Foi preciso um adjunto exonerado e um ministro ter levado um computador alegadamente com informação sigilosa da TAP para vir de forma clara dizer que os portugueses não estão a sentir, de facto, que esta economia e estes grandes números chegam à sua vida. Acho que ficou estranho e pareceu aqui quase que um aproveitar a situação para falar de um outro tema e quase que pôr os portugueses do seu lado nessa primeira intervenção. E acho que isso ficou ali um pouco estranho. Ainda assim, pela generalidade da intervenção e pelo sentido da decisão, eu queria dar aqui um 12 a Marcelo. Não é a solução ideal, mas é talvez a menos má. E lá está, no futuro o Marcelo poderá mostrar que mesmo tendo perdido uma batalha, pode ganhar esta guerra.
É uma corrida de longa duração, um 12 então para o presidente da República abrir este "E o Vencedor É?". Paulo, queres trazer aqui um outro protagonista da noite, João Galamba.
Sim, queria focar aqui em João Galamba, porque o ministro das Infraestruturas, que ainda está ministro, obviamente, mas eu acho que ele em dois dias deixou absolutamente de ter personalidade política própria. Não tem, nem tem poder de decisão próprio já. João Galamba tornou-se, enfim, não por vontade própria exclusiva, tornou-se basicamente numa marionete que neste momento é comandada por António Costa e por Marcelo Rebelo de Sousa. No fundo, é a bola do jogo, neste momento, entre presidente da República e primeiro-ministro. Um chuta pra um lado, o outro chuta pra outro. O primeiro-ministro segurou claramente para afrontar Marcelo. Não estou a dizer que não haja aqui lealdade entre ambos, entre o primeiro-ministro e ele próprio, não tem nada a ver com isso, mas claramente Galamba estava no sítio errado à hora errada. Também fez as coisas erradas, como nós sabemos, portanto ele não é inocente, obviamente, não é uma vítima disto, atenção. É o impacto lateral deste confronto. O primeiro-ministro segurou claramente para afrontar Marcelo. Aliás, o primeiro-ministro já deixou cair ministros. Todos nós nos recordamos de João Soares, que deixou de ser ministro logo nos primeiros meses de governo, porque ameaçou com dois tabefes, uma ameaça literária a um colunista. Portanto, Galamba está lá no lugar para atingir Marcelo. E Marcelo ontem atirou-se a Galamba para atingir Costa, claramente, quando o presidente da República ontem elencou várias vezes as qualidades que não atribui a João Galamba: capacidade, fiabilidade, credibilidade, respeitabilidade, autoridade. E o presidente da República ontem sublinhou estas características quatro ou cinco vezes ao longo do discurso, todas enfiadas e pela mesma ordem. Quando o presidente da República ontem fez este elenco, não estava a referir-se apenas a João Galamba, estava a referir-se a António Costa também e de uma forma genérica ao governo. Portanto, Galamba não é dono agora do seu destino. Ontem eu ouvi várias pessoas, vários comentários, depois da declaração do presidente da República, a dizerem: "João Galamba devia sair já. Amanhã já nem devia entrar no ministério, depois disto." Provavelmente, numa situação normal, era aquilo que qualquer ministro faria. Isto é, numa situação que não fosse de confronto aberto entre o presidente da República e o primeiro-ministro, era aquilo que um ministro faria. Provavelmente, era aquilo que o próprio João Galamba faria. Não estou aqui sequer a fazer juízo de valor a esse nível. Provavelmente, até pode ser a vontade dele. "Não estou para isto e vou-me embora." Mas não pode. João Galamba, neste momento, está amarrado àquilo que António Costa fez com ele, porque se ele sai do governo agora, é uma vitória de Marcelo contra António Costa. É uma derrota de António Costa, é uma fragilidade do governo.
Transformou-se numa espécie de troféu sequestrado.
É isso mesmo, é um troféu. E António Costa segura-o para afrontar Marcelo, basicamente. Portanto, Galamba não pode sair do governo agora, não pode sair durante muito tempo. Hoje há mais uma notícia a dizer que ele próprio escreveu um guião e terá escrito o argumentário para a CEO da TAP antes da reunião secreta com a CEO da TAP, que antecipou a reunião secreta do grupo parlamentar e vários membros do governo. Portanto, já vamos para o terceiro encontro prévio à audição da CEO da TAP na Comissão de Economia em janeiro. Mas que terá ele próprio elaborado esse documento e entregue à CEO da TAP. Aconteça o que acontecer agora, mesmo o desenvolvimento do caso SIS, que é um dos grandes temas que ainda falta apurar, ele não pode cair.
Sim. Que nota dás a Galamba no meio desta-
Eu a Galamba, neste caso, só posso dar um zero, porque ele não é dono do destino político dele. Aquilo que eu acho que é mais valioso em cada um de nós, que é a liberdade para bater com uma porta e ir embora em qualquer momento, nos fartarmos, seja do que for.
João Galamba já não pode.
Não tem neste momento. E portanto, ele agora é aquela marionete ali no meio. E deixou-se enredar, erros próprios, como é evidente. Mas pronto, assim vamos seguindo, vamos ver o que isso vai dar.
Vamos ver. E para já, esse zero a João Galamba. Entretanto, numa galáxia distante, Helena Matos, houve um acordo dos maquinistas, uma greve longa que ontem chegou ao fim na CP, curiosamente uma área tutelada por João Galamba.
E ao que parece, e segundo o comunicado que está a dar conta deste acordo, estou a citar: "Este acordo foi alcançado com a colaboração do Ministério das Infraestruturas, que mediou as conversas entre as partes envolvidas." É uma coisa bonita.
Tanto pediste.
É, naquele ministério, as pessoas, coitadas, andam numa vida estressadíssima. Uns dias demitem-se, noutros dias estão, nuns dias têm reuniões secretas. Noutros dias batem-se, literalmente. Há uma parte do ministério que trabalha. Eu não sei se é a parte das secretárias, dos continuos, mas alguém trabalhará naquele ministério. Eu só queria dizer uma coisa ao Paulo, da próxima vez, não há por aí uma canção qualquer que soltem os prisioneiros ou alguma coisa assim qualquer?
Sim, dos Delfins, talvez.
Pois, por aí. Eu acho que agora quando se cantar isso, temos que pensar no pobre do João Galamba.
Isso é verdade.
Estar ali mais ou menos cativo no Ministério das Infraestruturas é uma das coisas que não lembrava a ninguém.
Ainda tira uma bicicleta.
Ainda tira alguma bicicleta e vamos lá ver, ou uma trotinete. Eu acho que ele é mais homem para trotinetes elétricas.
Mas ainda assim há resultados concretos. O ministério está a trabalhar.
Só que nós não sabemos qual é o resultado. E esse é um dos problemas destes acordos nestas empresas públicas. Eu quero lembrar que existem muito mais empresas públicas além da TAP. A sua gestão terá, muitas delas, pormenores tão rocambolescos quanto a TAP. Eu sei que os aviões têm aquele ar, aquele glamour, tudo isso, mas convém olhar para as outras, nomeadamente para a CP, que por acaso tem uma dívida maior que a TAP e onde Portugal, ao longo dos anos, tem posto muito mais dinheiro do que aquele que colocou na TAP, até porque a CP é muito mais antiga. Ora vamos ver aqui o seguinte, é claro, pois não tem CEOs com pilotos franceses, não tem nada disso, mas convém que se preste muita atenção à CP. O que acontece aqui? Foi alcançado um acordo, mas nós não sabemos os pormenores do acordo. Ou seja, nós contribuintes, a CP é nossa, a CP é pública, a CP é nossa, mas nós só somos informados dos dias em que a CP não anda, nos dias em que a circulação tem problemas e dos diversos problemas que vão afetando a CP. Não somos maiores nem vacinados para sabermos os detalhes deste acordo. Mas isto é recorrente, não é nada de novo. Eu acho que isto tem de acabar. Nós temos de saber os detalhes dos acordos a que se chega, até porque somos parte interessada como utentes e como contribuintes. Devemos saber. Isto é uma prática muito comum. Durante dias vamos sabendo que os sindicatos fazem determinado tipo de reivindicações. Depois, num dia miraculoso, dizem-nos que se conseguiu um acordo. É extraordinário, porque depois esse acordo é também dito como se fosse a coisa mais natural do mundo, e não é, porque se andou largo tempo em conflitualidade. A não ser que as administrações estivessem loucas, se era tão simples chegar ao acordo, por que não se chegou logo? Se era tão óbvio. E depois, também por uma outra razão, porque António Domingues, que é o presidente do Sindicato dos Maquinistas, e há muitos mais na CP, ainda não se chegou a acordo com eles, diz que há um acordo de princípio que permite estabelecer a paz laboral, pelo menos até ao fim do ano. Chegou-se a este acordo, do qual nós não sabemos os detalhes. Alguns jornais, nomeadamente o que eu vi de notícia do Público, dizem que a principal reivindicação, que era salarial, foi satisfeita, mas nós nunca sabemos, ao contrário do que acontece noutras reivindicações. No caso dos professores, nós sabemos claramente o que eles estão a reivindicar. No caso das empresas públicas, existe uma enorme opacidade nestas áreas. E agora sabemos que temos um acordo, cujos contornos não conhecemos, que estará em vigor talvez até ao fim do ano, porque depois quando chegarmos ao fim do ano, começar-se-á a negociar outro acordo cujos contornos também nós não conhecemos.
Só falta a nota.
Esta mania do secretismo que cai sobre estas áreas, nomeadamente as empresas públicas, com detalhes, como se vê no caso da TAP, e aqui é uma outra escala da CP, do acordo salarial. A pessoa não pode dar nota porque não conhece.
Tanta coisa para chegar a isto.
Não é a primeira vez que a Helena usa este recurso. Então não há nota porque não dá sequer para .
Tem de preparar a nota, claro.
Que nota terão tido, José Manuel Fernandes, os alunos do segundo ano de Expressão Artística que ontem fizeram uma prova de aferição em que lhes pediram coisas um bocadinho estranhas, não é? José Manuel, conte-nos.
É verdade. Eu sou completamente contra este regime das provas de aferição. Não faz sentido nenhum fazer provas de aferição a meio de ciclos letivos, sem valor.
Sem impacto na nota.
Sem impacto na nota, sem contar em prevenção final, só cria estresse, só desestabiliza o ciclo normal das aulas e o objetivo que é os senhores burocratas da administração central corrigirem aquilo que os professores estão fazendo em sala de aula porque veem longinquamente uns testes que, pelo que se percebe, são bastante surrealistas, porque um destes problemas, e um problema que resultou ontem, porque ontem houve o teste de expressão artística, foi que eles tinham que imitar um movimento e o sounde uma minhoca e de um sapo cego.
José Manuel, não estás em estúdio para ver a expressão do Paulo. O Paulo está espantadíssimo com esse exercício.
O som de uma minhoca e de um sapo cego. A primeira dúvida que eu tenho é: eu não tenho sete nem oito anos, que é a idade dos miúdos do segundo ano. Estudei biologia e não sei se o sapo cego fará algum som diferente de um sapo normal.
E que som fazem as minhocas.
E que som fazem as minhocas. Enfim, tudo isto me parece bastante surreal. Houve outras provas que criaram imenso estresse.
Coitadas das crianças, de facto. Coitadas das crianças, o que iam pensar.
Fazer uma escultura em pé com uma folha de papel. Estamos a falar de crianças de sete, oito anos, não estamos a falar de pessoas mais crescidas. Pedem-lhes fazer uma escultura com uma folha de papel. No limite, amarrota tudo.
Exato. Olha como tu tiveste o mesmo pensamento. As pessoas destituídas de certo contexto.
Amarrota tudo e faz uma bola.
Claro.
Faz uma bola e depois diz: "Isto é arte."
Claro, e garanto que havia municípios a pagar milhares por isso.
Pois, muito provavelmente. Mas como as crianças ainda não têm essa noção sofisticada, são capazes de se atrapalhar um bocadinho. Mas como isto não chega, há uma outra invenção, que já vem desde o ano passado. Estas provas, nomeadamente as de Português e Matemática, têm de ser digitais, têm de ser feitas no computador. Estamos a falar de crianças que muitas vezes, no segundo ano do básico, boa parte do primeiro período é ocupado a consolidar ler e escrever. E ler e escrever aprende-se sobretudo escrevendo, nomeadamente no papel, não é no computador. Isto para já não falar que muitas escolas não se conseguem ligar à internet, nem todos os alunos têm computador, nem todas as escolas têm computador, nem todos os alunos sabem por regra trabalhar com telemóvel, às vezes com tablet, mas um laptop é uma coisa diferente. Abrir um browser no laptop não é uma coisa que abrir uma aplicação num telemóvel. Os professores têm que andar ali à volta a explicar como é que tudo isso acontece e depois muitas vezes não têm acesso à rede do ministério. E sobretudo, há aqui uma coisa que eu acho muito relevante. Nós estamos numa altura em que começa a haver reflexão sobre o impacto da inteligência artificial. E nós estamos a reduzir e ir por um caminho onde achamos que como os computadores já fazem muitas coisas, nós não precisamos de aprender coisas básicas como escrever, as ler, bê á bá.
Ou saber a tabuada.
Num papel ou saber a tabuada, porque as calculadoras resolvem tudo. Não é nós sermos ultrapassados pela inteligência artificial, é nós acharmos que a inteligência artificial resolve também todos os problemas e, portanto, o melhor é nós sentarmos à folha da bananeira à espera que a inteligência artificial faça tudo por nós e determine para onde é que nós vamos. Eu acho que desde o sapo cego até à obrigação das provas digitais, tudo isto é um disparate, até porque isto começou por ser um disparate, porque teve como objetivo fundamental acabar com provas reais, com influência na avaliação, que foi um dos primeiros objetivos desta maioria, logo em 2016, quando lá chegou.
A nota, então, José.
Para isto tudo, eu tenho que dar a um daqueles alunos que não conseguiu amarrotar a folha de papel e que se calhar teve uma nota, um dois, sei lá, qualquer coisa deste género. Mas dois é capaz de ser bom, porque eu penso que a avaliação nestes anos é de 0 a 5 e não de 0 a 20. Portanto, eu vou pôr um.
Um para as provas de aferição deste ano. Nós ficamos por aqui. O "E o Vencedor É?" não vai de fim de semana. Amanhã e domingo há novas edições, como é habitual. Até lá.