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"O Evento" é na Rádio Observador e também em vídeo no YouTube, hoje com a Judite França, o Alexandre Borges e o Nuno Gonçalo Poças. Eu sou o Ricardo Conceição. Hoje vamos falar de vagas nas escolas quando o ano letivo já começou. Também sobre a queda de Portugal no índice da qualidade da democracia. E ainda regressamos à entrevista da presidente do Conselho de Administração do Amadora-Sintra ao Observador, na qual diz haver pacientes que vão diretamente do aeroporto para o hospital, uma espécie de turismo da saúde, em que neste caso o turista ou utente não paga pelo serviço. Mas vamos começar pelo braço de ferro entre médicos tarefeiros e o Ministério da Saúde. Alexandre Borges, o que queres dizer sobre este tema?

Pergunta muito ampla. Bem, gosto. É assim que é fácil trabalhar contigo. Já não vinha há uns dias. Tinha saudade.

Eu também. Como sabes, tenho sempre saudades tuas.

É verdade. É um assunto recorrente.

Sim.

Sim. O grupo já sabe deste programa. É verdade.

As pessoas não sabem, mas sempre antes de arrancarmos damos um caloroso abraço, antes e depois.

Exato. Às vezes no intervalo.

Querem fazer durante? Não, porque como tem vídeo.

Exato.

Estamos no YouTube também.

Somos profissionais.

Pode não ficar bem.

Está bem, pode não ficar.

Estamos a falar de médicos tarefeiros.

Médicos tarefeiros. Sim, e ainda agora no noticiário era recordado. Portanto, lembrar que há uma associação que foi criada há menos de um ano, há cerca de 10 meses, que se chama AMPS. Não sei como dizer, Associação dos Médicos Prestadores de Serviços, que foi criada um pouco para a circunstância, digamos, porque quando a discussão se suscitava já no ano passado sobre como resolver o problema dos tarefeiros, toda a gente percebe que isto é um problema. Toda a gente percebe que nenhum sistema de saúde aguenta pagar três, quatro, cinco vezes mais a alguns médicos que vão apenas ao serviço ao dia, que além do mais estão muito mais libertos de quaisquer vínculos, portanto muito mais facilmente podem não estar numa altura em que o hospital conta com eles. Enfim, tudo isto, há este problema enorme para resolver. Os médicos tarefeiros não tinham, no fundo, quem os representasse, começaram a ameaçar com greves e coisas do gênero, mas no fundo não representavam de todo uma classe. Em muitos casos eram empresas, ainda por cima, em nome individual e coisas do gênero. Portanto, apareceu a AMPS em novembro do ano passado. E agora, quando ainda esperamos que seja publicada a portaria que define qual é o novo valor hora para estes médicos tarefeiros.

Vai ser no próximo mês.

Muito bem. Mas já esperamos, de facto, há alguns meses. Portanto, o decreto de lei que definiu as novas regras de contratação dos tarefeiros já saiu em julho, correto? Portanto, de facto, há uma espera injustificada, aparentemente, em relação ao governo, porque é que ainda não sabemos quanto é que os tarefeiros vão ganhar à hora. No novo regime, qual é a proposta do governo. Durante o verão, que é sempre um período muito delicado, porque há obviamente as férias também dos profissionais, o governo voltou a recorrer a uma medida extraordinária que costuma tomar, em que permite que os hospitais contratem com mais 50% no vencimento os tarefeiros para aquela época. E agora a AMPS vem dizer que isto foi só mascarar o problema, portanto, que o governo estava era a fazer tempo. No fundo, não queria anunciar o valor hora no verão para não ter uma crise com as férias e diz que não vai ceder nem um cêntimo. Não sabemos qual é o valor. Está ansiosa, diz Nuno Figueiredo e Sousa, o presidente da associação, mas que não vão aceitar recuar nem um cêntimo, perder nem um cêntimo no vencimento. Se por um lado há uma crítica evidente a fazer ao governo, porque não se compreende, de facto, bem este tempo de espera, por que ainda estamos à espera, por que o governo, particularmente no decreto de lei, permite ou suscita a oportunidade dos hospitais fazerem um vínculo contratual com estes médicos durante um período extraordinário de três meses, mas na verdade, não nos está a dizer quanto é que vão ganhar a hora. Portanto, os profissionais não podem bem escolher. E a adesão tem sido baixa. Há culpa no governo nisto, há culpa neste governo, como em muitos governos, que têm ao longo dos anos resolvido o problema, simplesmente aumentando cada vez mais o valor pago a hora aos tarefeiros para resolver as questões no imediato e com isso tendo desequilibrado profundamente a dita atratividade. Mas tenho muita dificuldade em compreender como é que alguém parte para qualquer espécie de negociação dizendo que não vai perder nem um cêntimo, que se recusa a perder sequer um cêntimo e ameaçar com a greve logo.

É uma paragem, greve não podem fazer.

Pronto, em rigor, exato. É isso. No fundo, é não estarem lá.

Uhum. Absentismo.

Absentismo. E tenho genuína dificuldade porque continuo a não compreender nestes casos, e no dos tarefeiros em particular, não percebo onde é que isto está no juramento de Hipócrates. Não sei onde é que está no juramento de Hipócrates a questão da atratividade como o mantra mais sagrado de todos estes, e o não perderei nem um cêntimo. Percebo que uma classe profissional defenda naturalmente os seus interesses. Percebo que um segmento específico destes profissionais defenda os seus interesses, mas vale a pena recordar que são tarefeiros por vontade própria, não é porque exista falta de interesse do público nisso. São médicos que entendem não fazer a sua especialidade, são médicos que entendem fazer esta carreira desta forma. Como é que podem aceitar que só Os governos possam desatar este nó. Ninguém sabe muito bem como é que se pode partir para uma negociação num tema tão delicado como este, estando de braços cruzados, sucessivamente, à espera que os governos resolvam estes problemas. Ninguém sabe muito bem como. Porque qualquer outra profissão, já agora termino dizendo isto, Ricardo, o presidente da Associação dos Médicos Prestadores de Serviços diz: "Nós não ganhamos muito, isto é um mito. Os nossos colegas ganham mal. Não somos nós que ganhamos bem, os nossos colegas que estão a contrato, que são do quadro, ganham mal". Eu concordo com isto. Acho que isto é válido para tudo. Acho que os professores ganham pessimamente, acho que os polícias ganham pior ainda, acho que os enfermeiros ganham miseravelmente pra aquilo que fazem. Todos sabemos disso. Há uma quantidade de profissionais interminável em Portugal que mereceria ganhar muito mais. Não é possível.

Nós tivemos aqui há cerca de uma hora, no "Explicador", o presidente da associação. Essa conversa está disponível em podcasts. Edite, também queres ir a este tema.

Vou começar logo pelo vencedor, porque eu acho que o grande vencedor, neste caso, é o setor privado da saúde, e ganha sem ter de fazer nada, porque enquanto o governo tentar impor estes cortes administrativos, os tarefeiros que ameaçam abandonar as escalas, como estava o Alexandre a dizer, os grupos privados abrem os braços para médicos qualificados que saem do Serviço Nacional de Saúde ou vão para o privado, ou vão para o estrangeiro, como nos dizia o presidente da associação. Ou seja, ficar cá é que não, ficar na carreira normal é que não. Perde, obviamente, o utente do Serviço Nacional de Saúde, está sempre a perder, seja por urgências encerradas por falta de médicos, o doente paga sempre a fatura da incapacidade de reforma do sistema. Enfim, tentar resolver um problema estrutural de atratividade da carreira com decretos e proibições também é o que tu dizias, mascarar, de alguma forma, a falha em criar equipas fixas, estáveis e que estejam motivadas, que era importante ter tudo isso no Serviço Nacional de Saúde. E portanto, eu percebo que o Serviço Nacional de Saúde não pode viver dependente de prestações de serviço milionárias, mas o ministério erra no método ao tentar cortar a torneira antes de construir uma alternativa. E portanto, se a política for isto feita de braços de ferro, não vamos ter reformas de fundo, o público perde mais uma vez e o privado ganha. E no fundo, não saímos disto. Portanto, eu acho que esta questão do decreto tem que ser minimamente negociada antes.

E que nota queres dar, Edite?

Eu vou dar ao vencedor, ao privado, dou-lhe um 18.

E tu, Alexandre?

Eu, à AMPH, sabendo que há muitíssima responsabilidade do governo e dos governos, como muitas vezes vamos dizendo aqui, mas não compreendo, de facto, que se parta para uma negociação recusando perder o que quer que seja, recusando perder um cêntimo. Ou seja, o governo tem propostas, de facto, um bocado mirabolantes nisto. Os médicos que aceitem fazer o contrato vão entrar pela base da carreira, mesmo que sejam-

Não faz sentido

...mesmo que sejam-

Mesmo que tenham 30 anos de experiência

...prestadores. Exatamente. Isso não faz qualquer sentido. Mas vamos esperar pra ver qual é o valor que o governo quer propor. Nessa altura, o criticaremos, mas esta postura da AMPH e falando em regime ditatorial, me parece um excesso total, é um nove, é uma negativa.

O Nuno quer regressar à entrevista da-

Presidente do Conselho de Administração

...da presidente do Conselho de Administração do Amadora-Sintra, ao Observador, em que fala no chamado turismo de saúde.

Sim, só sobre este tema, eu tenho aqui algumas dúvidas sobre a questão de facto se o privado é mesmo vencedor disto ou não. Porque o sistema assentava durante muitos anos, ou assentou durante muitos anos, até se estabelecer essa ideia de que o SNS não era uma estrutura centralista, ideologicamente centralizava, que o SNS era uma coisa complementar, que existiam privados, as misericórdias, os hospitais estatais, vamos chamar assim. E, na verdade, esta espécie de regresso ao centralismo, que foi tentado, em tese, beneficia diretamente o privado, porque de repente toda a gente vai recorrer a seguros de saúde, porque o SNS não é capaz, porque não sei o quê, e os hospitais privados nascem como cogumelos.

E com menos prestadores de serviço, mais privados precisas.

Mais privados precisas, sendo que os recursos são escassos e, portanto, os próprios hospitais privados, a determinada altura, vão deixar, se é que não deixaram já, de ser capazes de prestar o serviço de saúde no segmento de complementariedade em que estavam disponíveis para isso. Ou seja, eles vão tentando matar uma lacuna do sistema, mas há um ótimo pra isso. Ou seja, não é infinito.

Sim, não é infinito, obviamente.

O que leva depois a um problema que, na verdade, isso não é bom em nenhum segmento. Mas enfim, sobre o SNS, além desse problema que já lá vamos, tem que ser muitas dificuldades em falar sobre isto, porque de facto tu estavas a dizer isso e é verdade. Há uma grande dificuldade em fazer reformas, a partir do momento em que todas as posições corporativistas são intransigentes, como dizia o Alexandre, e ao mesmo tempo, quando nós fazemos muita parte do debate à volta destas questões das corporações e do mais cêntimo, menos cêntimo, 1 € a menos 1 €, aí se ganham muito e se ganham pouco e ninguém sabe. E não conseguimos sequer discutir, porque é um tema proibitivo, os métodos de gestão e a própria forma como o SNS está organizado. Portanto, para mim isso é muito difícil. É mais fácil essa questão que eu ontem vi na entrevista.

Foi por isso que escolheste.

Foi por isso que escolhi. É mais fácil porque eu, como sou um ignorante, sou uma daquelas pessoas que se rege por perceções.

Não tens vergonha.

Não, não tenho. Porque normalmente as perceções estão certas.

É lá.

É uma afirmação polémica.

É uma coisa que sucede. Já há uns tempos, quando se falava de segurança, era a mesma coisa. Semana passada estávamos cá a falar, tu não estavas cá, estavas no Bem Bom, mas na semana passada falámos aqui dos testes PISA.

Que grande lata.

Falámos aqui do relatório PISA e eu também estava a dizer que é uma chatice. A trabalhar bem bom.

Sim.

A trabalhar em bem? Em bom.

Em bem e em bom.

Claro.

E eu, como tenho duas jovens crianças no ensino público, o Miguel Correia estava-me a perguntar se eu tinha ficado surpreendido com aquilo que o relatório PISA disse. Eu disse-lhe que não, porque eu vou lá à escola, vejo os miúdos e sei. Portanto, agora não sabem ler. Que surpresa! Não sabia o quê? Vão para o quinto ano e não sabem ler. Que novidade. E aquela entrevista de ontem foi um bocado a mesma coisa, porque eu lembro-me também que me rejo por perceções, porque tenho a infelicidade de frequentar serviços públicos. E um deles era o centro de saúde, que era onde as minhas jovens filhas iam tomar vacinas, e vão, aquelas coisas. A minha primeira experiência, quando me mudei para a minha atual casa em 2020, naquele centro de saúde, foi uma senhora que me disse assim: "Isto não funciona muito bem. Se quiser fazer um seguro..." E eu só tenho seguro de saúde desde essa altura, porque houve uma senhora no SNS que me sugeriu isso. A outra foi uma enfermeira que estava a administrar a vacina, como se diz, e que me falou logo desta coisa das dezenas, centenas de mulheres que aterrava, ninguém sabia muito bem de onde, sem falarem português, e que vinham para cá e iam diretas para o hospital ter os bebés. E que, como é óbvio, porque há um juramento de Hipócrates, porque o SNS tem essa filosofia e porque acho que é um ato de decência, eram prestados cuidados médicos. E muitas delas, por exemplo, a quem eram administradas todas as vacinas do plano, porque ninguém sabia muito bem o que elas tinham ou não, e de facto tínhamos aqui um problema de saúde pública. Sucede que isto é uma coisa que acontece há muito tempo e em grandes quantidades. E a presidente do Hospital Amadora-Sintra, que diz que hoje o hospital funciona por uma capacidade do dobro daquilo para que estava previsto, tem 40% da urgência obstétrica a funcionar mais ou menos para este tipo de situações.

O Nuno Gonçalves Poças já admitiu aqui, ao vivo e a cores, que é uma pessoa que se orienta por perceções. Estávamos aqui precisamente a refletir sobre a tua perceção em relação à perceção da administradora do Amadora-Sintra.

Eu presumo que a presidente do Hospital Amadora-Sintra não seja propriamente uma perceção.

Exato. Turismo de saúde.

Perceção era a minha. A própria expressão do turismo de saúde também é uma coisa que não é bem aplicada, porque se fosse turismo de saúde era uma coisa que dava guito.

Exato. Se eu for à Turquia-

Dava dinheirinho.

Se eu for à Turquia pôr o cabelo, é turismo de saúde.

Sim.

Aqui é turismo do utente.

Não é bem turismo. Não sei como é que se há de chamar isto.

São pessoas que vêm de fora.

Sim. E está tudo bem. Mas o meu ponto era sobre as perceções. Eu, na verdade, queria dar uma nota negativa a mim próprio.

Absolutamente único.

Que é um redondo zero.

Não sei se podemos pontuar também. Os ouvintes continuam.

Podem. Que é um zero, porque em relação a todos estes temas, eu acho que andamos a viver nos últimos anos, pelo menos o último, dois, três, talvez, com muita gente em todo lado a dizer-nos que as pessoas tinham as perceções erradas e, portanto, andávamos todos a ver as coisas mal, porque as estatísticas não diziam nada disso. E que o regime da manifestação de interesse e a política migratória que nós tivemos não causava problemas nenhuns na saúde, nas escolas e em lado nenhum, nos registos e na segurança. Tudo mentira, tudo parvo. E as pessoas eram todas muito estúpidas, porque se regiam por perceções. E eu, portanto, vou ter que me pôr nesse baralho, porque, na verdade, nada destas coisas surpreendem. Fiquei um bocado surpreendido que a presidente do Conselho de Administração do Hospital Amadora-Sintra é uma pessoa com responsabilidades, devia saber o que está a dizer e agora está a inventar coisas.

E vai daí é um zero para ti, é isso?

E vai daí é um zero para mim, porque eu me guio por estas coisas das perceções. É uma chatice.

Esta segunda parte está um bocado psicanálise, não?

Queres puxar por mim?

Tu não puxes por mim. Tenho que explicar a ti e aos nossos ouvintes que eu e o Judite França ainda estamos com jet lag. Portanto, tu não puxes por mim que eu posso dizer coisas que vou arrepender amanhã.

Eu não me intimo.

Porque intimido meu. Vamos ainda falar sobre a queda de Portugal no índice da qualidade da democracia, mas antes vamos às vagas nas escolas quando o ano letivo já começou, Judite de França.

Para começar, se falas em vagas, o Ministério da Educação recusa divulgar os números globais a nível nacional, portanto não sabemos exatamente. Aos poucos sabemos que há 600 alunos sem vaga no concelho de Lisboa.

Nunca sabemos bem.

Nunca sabemos números.

Quantos são os alunos, quantos são os professores. Começa por cima.

Exatamente.

Vamos pela percepção.

Sabemos que a falta de vagas são 800 em Sintra, mas também sabemos que há sobrelotação noutras zonas, como Seixal e Loures, mas números não sabemos.

Isto é vagas nas escolas.

Vagas nas escolas, falta de vagas nas escolas. E desde o pré-escolar até ao ensino básico, estamos a falar em todos os ciclos do ensino. Há razões que são históricas e há ruturas no planeamento deste ano, que ainda não se percebeu exatamente por quê. A falta de lugar na rede pública não é um problema novo. O aumento contínuo da imigração, a perceção dos últimos anos trouxe uma pressão sem precedentes, obviamente, sobre as escolas públicas, sobretudo nas grandes áreas urbanas. Mas a grande polêmica deste ano prende-se com a mudança da gestão das vagas. Até aqui, as falhas eram corrigidas antes do arranque das aulas, que parece-me bastante inteligente. Havia uma reunião da rede provisional em julho, que criava vagas extra e ajustava as turmas. Este ano não houve. E depois também houve aqui umas alterações, o ministério acabou com o planeamento centralizado, remeteu a gestão de vagas para os próprios agrupamentos, reorganização que extinguiu a famosa DGEST e criou a nova agência para a gestão do sistema educativo. Os diretores dizem que não conseguem entrar em contato com a nova agência, os pais igual, o atendimento presencial em Lisboa acabou, as linhas telefônicas não atendem, as mensagens de correio eletrónico não têm resposta. Parece-me bastante complicado que haja uma alteração destas sem que a coisa de fato funcione. Sem os dados oficiais atualizados para este ano. Os últimos registos indicam crescimento de 7500 crianças só no primeiro ciclo público, que é obviamente um fenómeno empurrado pela fixação de famílias imigrantes e não por uma questão de natalidade.

E também por alguns alunos que transitam do privado para o público.

Esse é outro curioso.

Os colégios são caros.

Aparentemente, a transição em Lisboa diz que são 44%.

Bom. É significativo.

Acho muito. Sinceramente, a minha percepção é que é muito. Mas são os dados que encontrei publicados. Claro que esta transição é explicada por dificuldades financeiras das famílias, mas também por falhas na continuidade da oferta letiva em colégios privados. Também não percebo exatamente o que isso quer dizer. Percebo perfeitamente as dificuldades financeiras das famílias nos dias que correm, parece-me mais óbvio. Entretanto, temos o ministro Fernando Alexandre a dizer que nenhum aluno ficará de fora da rede pública. Diz que são só apenas algumas centenas de casos. Se juntarmos só Lisboa e Sintra, passa às centenas. Sem contar com todo o resto. E agora, o que vão fazer? Aumentar o número de alunos por turma, vai até aos 30, desdobramento de horários e abertura de turmas extra. Entretanto, diz que há pelo menos dois casos de escolas, diz o ministro, que recusaram alunos tendo vagas disponíveis. E que isto será alvo de inquérito. Entretanto, os diretores das escolas de Lisboa foram convocados para uma reunião de emergência hoje à tarde com a nova AGC, que é a tal agência, que agora tem uma sigla que é difícil de dizer. E cada agrupamento tem de apresentar em tempo real a lista de vagas que ainda estão disponíveis para colocar os alunos pendentes já com as aulas a decorrer. Porque as aulas já começaram, tirando para o secundário. E eu não percebo se a escola pública está cada vez menos pública. Está cada vez menos a ser para todos, porque há sempre alguém que fica para trás e há sempre alguém que vai atrasado.

Mas ela foi tão importante durante 10 anos. Falava-se imenso disso, que os colégios privados e não sei o quê, e os contratos de associação, aquilo era tudo para acabar, porque a escola pública, a escola pública.

E os contratos de associação acabaram.

E não percebo o que é que correu mal aí.

Aqui, aparentemente, por esta lista que fiz agora, está tudo a correr mal. Esperemos que o ministro Fernando Alexandre, depois de ter estado apenas concentrado em exames, deve ter sido por isso que passou isto tudo que passou sem fazer nada. Espero que agora se concentre neste novo problema.

Mas que beleza. Vamos à tua nota, Judite.

Eu vou dar uma nota ao Ministério da Educação e é um sete.

Porque o Sandro Borges ainda quer falar sobre a qualidade da democracia por cá. Estás preocupado com a qualidade da democracia, que aparentemente caiu? Mais outra perceção. Que vai ser a palavra do dia, de fato. Sim, queria, é uma perceção. Tem muito a ver com perceções, de fato. Não sei por que lado começar. Estamos a falar de um estudo, não é? Exatamente. Apresenta lá o estudo. Que depois vai ser um pouco o meu ponto, aquilo reveste-se de uma certa dignidade. A organização é uma multinacional, mas é sediada em Estocolmo. Se fosse sediada em Nairóbi, um estudo é uma coisa que nós reconhecemos. Os suecos mandam-nos fazer móveis em casa às peças, também não é tudo bom. Mas repara, tem a ver com que tipo de artigo é. Mas entretém

É isso.

Eu sou favorável.

Há certas coisas que tu gostas que sejam italianas, outras que tu não queres que sejam italianas.

Quando for preciso, gosto muito.

No caso, a Suécia dá-se bem com os estudos, dá-lhe credibilidade. Escandinavo, em geral, é uma coisa que nós: "Estudo escandinavo, espera lá". Ora bem, vamos lá. Falamos do estudo global para a democracia de 2026, a democracia numa era de conflito. O estudo é produzido pelo Instituto Internacional para a Democracia e a Assistência Eleitoral, IDEA, em inglês, sediado em Estocolmo, mas este instituto é financiado, é um instituto intergovernamental, portanto não é uma ONG, é financiado por um dos seus Estados membros, que Portugal faz parte, já agora, são 35 Estados que o financiam, e que nos traz esta notícia, para mim, muito surpreendente, quer dizer, que Portugal seja o país da União Europeia que mais caiu nos índices de qualidade da democracia nos últimos cinco anos, de 2020 a 2025, é surpreendente. Se formos depois olhar com mais algum pormenor, mais surpreendente ainda se torna. Portugal está empatado no tamanho da queda nos últimos cinco anos com a Arménia e a Eslováquia, só batido por, atenção, Geórgia e Rússia, na dita dimensão da queda. Está entre os 10, a nível mundial, o estudo contempla 173 países, entre os 10 que mais recuaram na liberdade de expressão, apesar de manter um desempenho intermédio, diz o estudo, só superado por Afeganistão e Mianmar.

E a tua perceção, Alexandre, vai ao encontro do estudo?

Eu não sei. Pronto, vou terminar e chego já aí.

Porque ainda quero ouvir o Nuno e a Joana.

Muito bem, ótimo. Só dizer-te isto aqui, que está com a Alemanha e o Reino Unido, não somos o único país que nós teríamos como tendo um bom nível de democracia liberal, mas está como a Alemanha e o Reino Unido, em termos de um desempenho alto, de um modo geral, em termos de indicadores, mas histórico, em queda agora, ao nível das liberdades civis e das eleições credíveis, porque o estudo explica a queda de Portugal particularmente com uma grande queda na liberdade de expressão ou na liberdade de imprensa e na credibilidade das eleições. Eu gostava de dizer: "Não, nós votámos mesmo nestes." Eu sei que isto pode parecer estranho ou polémico, mas credibilidade eleitoral? Portugal tem muitíssimos problemas por todo o lado, como nós falamos aqui todos os dias e hoje em particular. Liberdade de expressão e credibilidade eleitoral? Eu não consigo perceber de onde é que vem este estudo. A liberdade de expressão ou as liberdades cívicas, tendo em conta que estão aqui os anos da pandemia, muito bem, posso compreender isso, mas isso teria que ser destacado, 2020, 2021. O resto ultrapassa-me e faz-me duvidar, como já em muitos outros destes estudos, de facto, da credibilidade dos ditos.

Dos ditos.

Eu confesso que quando o Alexandre disse que queria falar sobre isto, eu não percebi exatamente porquê, agora percebo. É porque o estudo não pode valer nada.

Mas é.

Pois, está bem, mas uma queda de 20 lugares, mas será que eles se acertaram? Somos mesmo nós? É Portugal que eles estão a falar?

Exato.

É o que tu dizes, nós temos, de facto, muitos problemas. Não falamos de outra coisa aqui no Vencer Hoje, a não ser problemas. Quer dizer, hoje e sempre.

Para falar bem, nem vinha cá.

Isto não faz o mínimo sentido.

Nuno.

Não sei, eu tenho que ler o estudo, confesso.

Então vá. Mas lês no sueco original?

Leio. Não, devo estar a falar em inglês.

Qual das perceções-

O sueco sou um bocado reles, mas ainda consigo ler em inglês.

Qual das perceções deste estudo é que te vai mais ao encontro das tuas?

Não sei, se tivesse que arriscar, acho que é a extrema-direita.

Mas o que é que isso tem a ver com a credibilidade das eleições?

Está a falar mais.

Deve ser, não sei, a extrema-direita. Não é o que se diz sempre? Ou são perceções ou é a extrema-direita. E portanto, se nós estamos aqui com problema qualquer é a extrema-direita.

Atrás do Afeganistão e de Mianmar?

Exato.

Não, ou seja, segundo o que eu percebi, no tamanho da queda.

No tamanho da queda. Não, não estamos atrás.

Não estamos atrás do Afeganistão. Nós aqui, apesar de tudo, não penduramos mulheres, nem nada aquelas coisas.

Sim, mas é uma queda idêntica à do Afeganistão.

Em casa sou eu que ando atrás da minha mulher, não é ela que anda atrás de mim na rua. Nós aqui ainda somos civilizados.

Sim.

Não sei. Custa-me duvidar do estudo à primeira. Acho que é preciso olhar para aquilo e tentar perceber, de facto. Acho que os anos da pandemia contam bastante.

Mas tivemos problema na mesa eleitoral.

Não, mas houve um grande recuo de liberdades cívicas, de liberdade de expressão, de liberdade de movimento, liberdade de circulação.

De liberdade de expressão?

Como assim?

Não tiveste problemas de liberdade de expressão.

Eu acho que houve um grande controlo de narrativa. Durante imenso tempo, não aparecia ninguém nos canais públicos ou mediáticos que contestasse uma medida.

Está bem.

E as pessoas que lá estavam passavam a vida a falar de alguém que contestasse uma medida, a chamar-lhes negacionistas e psicopatas e antivacinas e não sei o quê.

Olha, e nota, querem dar nota?

Diria que sim.

Eu não.

Não, ao estudo não dou porque não li.

Agora não fales mais. Até eu vincar.

Exato.

Alô, Suécia.

Alô, Suécia, exatamente.

Isbrigita.

O estudo também não li, mas enfim, tentando ler sobre ele em vários órgãos de imprensa, portugueses e estrangeiros.

Foi o que eu fiz também.

Exatamente. Fico com as maiores dúvidas sobre isto, particularmente na questão da credibilidade eleitoral. E mesmo considerando que não é para desprezar à partida, o último relatório do V-Dem também levantava questões, e tem levantado nos últimos anos, sobre quebra com alguma descida na democracia portuguesa, mas ainda assim, o do V-Dem, por exemplo, coloca Portugal no 96º lugar em 179. Aqui já estamos em 37º em 173.

Não é mau.

Vamos à nota, Alexandre.

Estás a vir isso para o lado negativo?

Eu vou dar um 10 à espera de que o Nuno leia o relatório e nos traga aqui uma explicação mais aprofundada.

E amanhã há mais "E o Vencedor é", nas manhãs 360, amanhã com o José Manuel Fernandes, o Bruno Vieira Amaral, o Paulo Ferreira e o Rui Pedro Antunes.