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É altura de conhecermos do que vai o José Manuel Fernandes falar no Contracorrente desta sexta-feira. Para participar e nos dar a sua opinião em direto, só tem mesmo de ligar 91 002 41 85, ou então enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp para o mesmo número 91 002 41 85. Carla.

Primeiro em Adamuz, agora em Urda, no espaço de nove meses, dois imensos acidentes na linha de alta velocidade que liga Madrid a Sevilha causaram não só mais de 100 vítimas mortais, como puseram a nu o desinvestimento nas infraestruturas ferroviárias. A pressão política sobre o ministro espanhol é imensa, mas as críticas também se dirigem a Pedro Sánchez, cujo roteiro de campanha eleitoral pode ter ficado irremediavelmente comprometido. É de tudo isto e também de como se assegura a segurança nestas vias de comunicação que vamos falar no Contracorrente de hoje. José Manuel, bom dia. Será que pode um primeiro-ministro sobreviver a um segundo choque desta dimensão?

Os espanhóis vão decidir daqui por um mês, mais exatamente no dia 29 de novembro, já não falta muito. E desta vez têm uma oportunidade de não apenas despedir o ministro dos Transportes, mas também despedir o primeiro-ministro. Veremos o que acontece. Há várias coisas que parecem mais ou menos óbvias. Primeiro, um segundo acidente na mesma linha em nove meses é catastrófico, e não apenas pelo número de mortos, que sobretudo neste segundo acidente é elevadíssimo. É catastrófico porque na origem de ambos os acidentes, na base de ambos os acidentes, estão aquilo que poderemos eufemisticamente chamar problemas técnicos. No caso do primeiro acidente, tratou-se de um problema na via, um problema nos carris. Agora, a cascata de eventos que levou ao acidente começou no não funcionamento numa extensão muito longa, 64 km, de um sistema que permite assegurar a segurança da circulação naquela linha, que é uma linha de alta velocidade e, portanto, uma linha sujeita obrigatoriamente a requisitos de segurança muitíssimo mais elevados. Que sistema é este? Este sistema basicamente trata-se de um cabo que vai entre os carris, imagino eu, por baixo de onde passa o comboio. Esse cabo comunica com o comboio, controla a sua velocidade e também permite perceber onde é que cada comboio está em cada momento para que haja sempre espaço entre os comboios. Este sistema estava a ter avarias sucessivas naquela linha. É um sistema já antigo, que já devia ter sido substituído por um sistema mais moderno. Todos os prazos de introdução desse sistema foram rebentados, por assim dizer, e porventura alguns deles rebentados, enfim, não consegui comprovar esta informação, porque Espanha está há vários anos sem orçamento de Estado, por causa da fórmula que Pedro Sánchez inventou para se agarrar ao poder e que não lhe permite aprovar o orçamento de Estado. Isso tem consequências, designadamente na capacidade de investimento. Naquele caso, há de facto um investimento em atraso. As outras linhas em Espanha já têm esse problema, não direi todas, mas as de alta velocidade já têm esse problema bastante mais avançado. Aqui foi o primeiro falhanço. Há depois outros sistemas que permitem gerir a via, um outro que tem a ver com os semáforos, aquilo que nós estamos mais habituados, luzes apagadas, luzes acesas, mas que também controlam a velocidade do comboio. Esses sistemas também aparentemente não estavam a funcionar. Repare, este primeiro sistema que eu referi implica um grau de segurança que no caso de haver um problema na linha, ele faz parar automaticamente o comboio. E aquilo que nós verificamos é que quando o sistema caiu, pararam quatro comboios. A partir daí, os comboios entram em contacto com o centro de controle, que fica em Madrid, na estação da Atocha, entram em contacto e vai dizendo o que devem ou não devem fazer. Aparentemente, houve aqui um erro humano, mas há muitas questões para resolver na questão deste erro humano. Primeiro de tudo, estamos a falar de um centro, de uma empresa, que é a Adif, que imagino eu que seja algo equivalente às Infraestruturas de Portugal, eventualmente só para a infraestrutura de linha férrea, uma empresa ou uma instituição que nos últimos anos foi completamente tomada por aquilo que nós em Portugal chamamos boys, neste caso do PSOE. Portanto, o ministro Óscar Puente é um ministro muito particular. Puente é uma espécie de ponta de lança de Pedro Sánchez. É o ministro que aparentemente passa mais tempo no Twitter a insultar a oposição do que a gerir o seu ministério. Ele é muito amado pelas bases do Partido Socialista, que gostam muito deste sangue na guelra que ele tem para chamar nomes aos partidos da oposição, mas é alguém que não terá tido tempo suficiente para gerir o seu ministério. Este ministério, de resto, já antes tinha sido ocupado por um outro ministro, que é o José Luis Ábalos, que está preso ou está a ser julgado, já não sei se é dos que está preso sendo que está a ser julgado por corrupção, e que também era um braço direito de Pedro Sánchez. Ora bem, qual é o objetivo de colocar boys na Adif, na empresa que gere a infraestrutura ferroviária? Entre outras coisas, há lá muita pressão para que não haja atrasos, porque como a linha tem muitos défices de investimento, quando há problemas de sinalização, de avarias, os técnicos estão pressionados Para pôr os comboios rapidamente em movimento. Há hoje reportagens na imprensa espanhola a contar isso mesmo. E às vezes, inclusivamente, chegam ao detalhe de dizer: "Esse comboio não pode ficar parado, porque vai lá dentro um ministro que tem que chegar a horas." Isto é uma politização que tem muito pouco a ver com a base técnica. E depois há outra coisa que, na minha perspectiva, é catastrófica. Quer dizer, poderá haver um erro humano, mas o erro humano só acontece depois de falhas técnicas. E o ministro, nas primeiras declarações que fez, atirou logo as culpas todas para um erro humano. Não falou das falhas técnicas, não falou das condições em que os centros de controle da Adif estão a trabalhar ou estão a ser obrigados a trabalhar, não falou das pressões que existem para que ponha os comboios a andar e não falou, sobretudo, de algo que é muito importante e todos os técnicos dizem: numa linha de alta velocidade, a norma é que haja o mínimo possível de intervenção humana, de capacidade de ser uma decisão de alguém que determina questões de segurança. Tudo tem que estar com um, dois, três, como às vezes costumo dizer: tenho paraquedas, tenho cinto, tenho airbag para não haver acidentes. Neste caso, tudo falhou e depois ficou nas mãos, eventualmente, de alguém. Com uma particularidade ainda: para alijar rapidamente culpas, o governo pôs cá fora, através de órgãos de informação amigos, as gravações, o que também criou um mal-estar enorme. Há aquela ideia de que a preocupação rapidamente é criar uma narrativa e sacudir a água do capote. Isto numa altura em que, de facto, o trauma em Espanha é muito grande. Imagine-se que estamos a falar de dois acidentes num espaço muito curto, neste caso concreto, de um acidente com um número de mortos muito elevado, creio que está em 69 ou até chegou a 74, mas tinha sido um engano de contabilidade. Poderão ainda haver mais mortos, porque há feridos em estado muito grave. Alguns dos mortos são pessoas muito conhecidas, uma antiga ministra do Partido Popular, uma pessoa que tinha uma imagem pública muito positiva, uma atleta de salto em comprimento também muito querida de todos os espanhóis. Estamos a falar de algo que não são apenas pessoas. Todas as pessoas são iguais, não são números, são nomes, são figuras, mas aqui são figuras conhecidas, o que torna isto ainda mais intenso. E a ideia é que numa altura em que Pedro Sánchez quereria, sobretudo, fazer uma campanha eleitoral dramatizando e dizendo que vem a guerra civil se não ganhar. Agora está com um processo no tribunal eleitoral. Chegou ao ponto de gravar um vídeo em frente ao Guernica, sugerindo que ou ganhava ele ou voltava a guerra civil. As coisas estão neste ponto, estão também num ponto em que houve uma tentativa de instrumentalização permanente do tema da habitação e agora, de repente, quando a agenda muda, ontem já se começava a dizer que os acampados de Madrid têm que levantar as tendas. Até agora, os acampados de Madrid estavam lá para pressionar a oposição. Agora as coisas estão a ficar mais tensas, até porque já houve violações, ou pelo menos acusações de violação numa das tendas durante este período. O discurso de Pedro Sánchez está a ficar mais difícil, mas ainda faltam quatro semanas. Ninguém tem a garantia, as sondagens continuam a não lhe ser favoráveis. Obviamente, não há sondagens depois destes eventos, veremos, talvez durante o fim de semana tenhamos conhecimento de novas sondagens. Agora, parece acentuar-se a perspectiva de que é muito difícil esta coligação recuperar, até porque tem havido uma evolução, uma campanha também mais inteligente da parte dos partidos da oposição, vindo um registo diferente. Ontem, ou melhor, nestes dias, o registo do Partido Popular foi mais institucional, o registo do Vox foi mais radical, mas houve também radicais entre os que até estão no governo. Houve forças que estão no governo, fazem parte do governo, a Frente Ampla, que estão hoje unidas nas listas da chamada Frente Ampla, que fizeram também críticas violentas ao que estava a passar no seu próprio governo. O ambiente político é muito tenso, há muita emoção no ar e eu creio que a estratégia de Sánchez, no sentido de dizer: "Isto é tudo habitação, isto vem aí a guerra civil, eu sou o salvador", ficou bastante mais comprometida. Ora, ele é um animal político e daqui até 29 de novembro muita água passará ainda debaixo destas pontes.

Ora bem, falta muito ainda, mas hoje vamos já discutir o tema no "Contra Corrente". Até já. 910 002 41 85 para entrar em direto, mas também nos pode enviar a sua mensagem de voz através do WhatsApp ou então deixar os seus comentários nas nossas redes sociais ou no site do Observador.