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Euvenço Douré, na Rádio Observador, com José de França, António Costa e Anselmo Crespo. Continuamos a tentar perceber as reais consequências materiais e também políticas da tempestade que atingiu sobretudo a zona centro, em particular a zona de Leiria. A ministra da Administração Interna falou hoje aos jornalistas, depois de um briefing na Proteção Civil, e ainda há um vídeo do ministro da Presidência, Leitão Amaro, que mostrava como o ministro estava a gerir a crise e a situação de emergência. Um vídeo em que Leitão Amaro era o grande protagonista e que acabou apagado das redes sociais. Mas vamos começar pela ministra da Administração Interna. António Costa, não sei se tiveste a oportunidade de ouvir a ministra.

Ouvi quase tudo. Na verdade, a senhora não foi feita pra isto.

Estavas na dúvida e hoje tiraste as dúvidas.

Se não fosse trágico, seria cômico, mas não é, infelizmente. Mas ao fim de 48 horas, 72 horas, apareceu a dar as primeiras explicações, visivelmente atrapalhada. Eu creio que a própria já não se sente bem neste papel, neste fato. Eu acho que já é difícil pra própria estar naquele papel, naquele modelo um bocado atabalhoado, um bocadinho à Marcelo, com aquelas conferências improvisadas. Isso consegue fazer Marcelo Rebelo de Sousa, não é fácil fazer, precisa de experiência. Em vez de estar ao lado do primeiro-ministro ou então ontem, incompreensivelmente, não estava ao lado de Leitão Amaro no Conselho de Ministros, era um sítio formal, pra responder com calma às perguntas que tinham que ser feitas. Já é a segunda vez que a ministra usa este modelo. Pois, e quando tem visíveis dificuldades de comunicação, parece um fado, porque a anterior ministra também tinha esse problema.

Parece um critério pra escolher o ministro da Administração Interna.

Pronto, eu vou acrescentar: é um fado dos portugueses ter uma ministra com estes características.

Até José Luís Carneiro já se ofereceu para ajudar se for preciso alguma coisa.

Portanto, acho que, no mínimo, cria dúvidas. Obviamente que as pessoas que estão hoje muito afetadas por esta tragédia têm mais o que fazer do que ouvir a ministra, mas se a ouvirem, seguramente não vão ficar mais descansadas, porque isto introduz desconfiança, não introduz confiança. Ouvir a ministra falar: "Temos planeamento, temos preparação", e depois vermos o que se está a passar, infelizmente, no terreno. E é justo dizê-lo. Há muitos ângulos possíveis de olhar pra isto, mas isto foi, de facto, uma coisa muito grave. Eu vou citar um número de cabeça e nas últimas 24 horas tive também a oportunidade de voltar a olhar pra ele. A tragédia de Pedrógão custou às seguradoras, não foi o impacto total. As seguradoras pagaram em indenizações, por causa daquela tragédia, 250 milhões de euros. É possível hoje dizer, com um grau de certeza muito elevado, que isto vai ser multiplicado por dois ou por três. Face à gravidade da situação, é evidente que perderam-se muitas vidas em Pedrógão e nós sabemos que do ponto de vista judicial, as vidas valem pouco. Valem muito pras famílias, valem, obviamente, pros próprios, valem pouco do ponto de vista judicial, do que corresponde hoje uma indenização por uma vida perdida. As imagens que vamos vendo à medida que as últimas 24 horas permitiram chegar a outros sítios, fora dos centros urbanos, percebe-se o impacto destruidor, além das vidas que também, infelizmente, se perderam.

Em Pedrógão foram cerca de meia milhar de casas afetadas.

Quer em casas particulares, quer em edifícios. Estamos aqui agora em direto também. Creio que estamos em direto hoje, não estamos?

Estamos.

Estamos a olhar pro ecrã, tô aqui a ver em direto a Sic Notícias e fábricas destruídas. Não tem nada, é como se fossem casas de papel que foram dizimadas e armazéns. Há um impacto, há empregos, veremos como é que há resposta a estes empregos.

Sendo que toda a região é um polo industrial importantíssimo para o país.

Era isso que eu ia dizer. Não só de produção, mas de uma coisa que temos tentado perceber o alcance, sobretudo econômico, tendo em conta o nosso objetivo editorial e o nosso perfil editorial. E já é claro pra nós que, por exemplo, há muitas empresas desta região que fazem parte de cadeias de abastecimento, até de empresas internacionais que exportam, e corremos o risco de ter grandes empresas exportadoras nas próximas semanas a suspender a produção, porque há empresas destas que deixam de produzir o material, os produtos, os equipamentos que produzem pra entrar nessas cadeias de abastecimento. Vou dar outro exemplo que eu diria interessante, não é se calhar o termo mais adequado. Não há produção de telhas em Portugal suficiente nas próximas semanas pra responder às necessidades destas casas e empresas. Eu tô aqui a falar do tema de casas. Não há sequer peritos das seguradoras pra avaliar, do ponto de vista do impacto das indenizações, um pico de trabalho destes. As seguradoras têm, em média, tô a falar pelo setor, cerca de um terço de peritos nos quadros e depois freelancers, que trabalham pra todas as seguradoras, espalhados pelo país todo, não é só neste distrito e nesta região. Não há capacidade Para nas próximas duas, três semanas responder às dezenas de milhares de pedidos de participações de ocorrências. Umas serão muito básicas, um carro que se estragou, outras serão muito importantes, fábricas que estão destruídas. Portanto, nós vamos ter aqui semanas, admitindo, como ouvimos hoje, que o que vem aí não vai ser tão grave como o que já vivemos, e portanto vai ser gerível. E depois, finalmente, última nota do ponto de vista político. Eu não quero dizer que foi só o governo que se atrasou nisto, porque também é preciso dizer que no dia seguinte, talvez porque não afetou Lisboa, não afetou o Porto, eu creio que o país não percebeu imediatamente a gravidade da situação. Não percebeu. Mas também é verdade que o governo, que tem mais informação do que todos nós, o Estado, as entidades oficiais, a autoridade, a Proteção Civil, demorou mais tempo do que o que deveria a ir para o terreno. E ir para o terreno não é comitivas de cacos, como se viu também numa dessas imagens que circula, mas a responder e a dar sinais de resposta, mediamente às populações e às empresas afetadas.

Nós já vamos continuar a conversa, o relógio também manda e vamos atualizar as notícias já daqui a instantes, às 18h30, e já vamos voltar à conversa com o António Costa, o Anselmo Crespo e a Judite França. Segunda parte de "E o Vencedor É", com a Judite França, António Costa e o Anselmo Crespo. E Anselmo, ainda não te ouvimos. Podemos começar pela prestação e esclarecimentos dados pela ministra da Administração Interna. Ficaste mais esclarecido e mais descansado?

Mais esclarecido, sim, mais descansado, não. E o mais descansado, não, tem a ver com a forma, tem a ver com a incapacidade, com a inabilidade que a ministra tem para não só comunicar, mas para o cargo de ministra. Já falámos disto noutras ocasiões, a propósito sempre de tragédias, seja incêndios, seja outra tragédia qualquer. É impossível, vem no job description de alguém que assume o cargo de ministro, que tem que saber comunicar, tem que saber falar com o país. Um ministro não é um técnico, não é alguém que está no back office, é alguém que está no front office do Estado. E, portanto, quando nós temos um ministro, sobretudo um que tem a pasta da Administração Interna, não é uma pasta qualquer, do ponto de vista dos dossiês, das áreas que tem, que impactam na vida dos cidadãos, e mais importante ainda, com a segurança dos cidadãos, porque todos os ministros impactam de alguma maneira com a vida dos cidadãos, mas esta pasta mexe com a segurança das pessoas. Quando nós temos uma ministra que quando fala nos apetece correr para os abrigos, há obviamente um problema. Ela não andou a esconder-se, ela esteve a ser escondida, claramente. O governo, o primeiro-ministro, provavelmente, tenta protegê-la sabendo desta incapacidade que ela tem. Claro, depois o governo prefere sofrer a crítica de: "Onde é que anda a ministra?" E levar com as perguntas: "Então e a ministra da Administração Interna?" Durante três dias, do que expô-la. Porque de cada vez que ela fala, de cada vez que ela aparece, é um desastre à beira de acontecer. E, portanto, mais vale minimizar o impacto desse desastre. Hoje a conferência de imprensa em si não teve nenhum episódio propriamente caricato. Ela foi igual a ela própria, sempre muito atrapalhada, muito trapalhona. Depois parece que está ali meio incomodada com as perguntas dos jornalistas, é uma chatice.

Está incomodada.

Está sempre incomodada, parecem-lhe chatos. "São chatos, estão sempre a fazer perguntas, mas o que querem saber agora?" E depois decide acabar sempre as conferências de imprensa de forma abrupta. "Pronto, só respondo a mais uma, agora vão-se embora." Nada disto é ministeriável, nada disto é material ministeriável. E de facto, o Luís Montenegro tem dedo podre pra escolher ministro da Administração Interna, porque a ministra anterior era igual, deste ponto de vista que eu estou a falar, era igual. Teria outras competências diferentes desta ministra, mas era a mesma coisa. E, portanto, numa altura em que o país, mas sobretudo as pessoas que estão mais afetadas naquela região centro, e muitas delas, ao fim de três dias, naturalmente revelam cansaço, impaciência, saturação, os nervos começam, obviamente, a tomar conta das pessoas.

Nós nem conseguimos imaginar.

Não é possível imaginar.

Sem luz, algumas sem água.

Nós estivemos nem 24 horas com o apagão e ao fim do dia já estávamos todos com urticária com aquilo.

Parecia apocalipse zumbi.

E portanto, quando as pessoas que estão a sofrer isto na pele, ouvem uma ministra destas a falar, o que lhes apetece fazer? "Olhe, vou esquecer que o Estado existe e vou eu tentar resolver os problemas, porque não há outra forma." E eu não sei se vamos continuar a falar da tragédia ou não.

Vamos, sim. Deixa-me só ouvir também a Judite.

Eu quando ouço a ministra da Administração Interna, e ouço com atenção, a sério, fico com uma ideia muito vaga do que está a ser feito. Não há nada que seja determinístico, não há nada que seja de uma forma sintética, mas analítica. Estamos a fazer isto, e isto, e isto, e a nossa função é esta Não existe. Existe uma coisa mal embrulhada, sem princípio, meio e fim, e depois termina abruptamente. Esteve numa conferência de imprensa, podia ter estado numa conferência de imprensa com a Proteção Civil, sentada, de uma pose mais ministriável, mas não, preferiu fazer esta coisa que eu acho que é exatamente para não responder a muitas perguntas, porque se tivesse ali sentada, estava perante mais perguntas. Portanto, eu acho que é para poder fugir a dada altura e dizer: "Esta é a última e acabou."

Para ter uma rota de fuga.

É, eu acho que sim. Eu acho mesmo que é para ter uma rota de fuga. E portanto, nós ficamos a perceber que o pior não passou e que é preciso grande prevenção, segundo a ministra, para os tempos que correm. Não ouvi nada sobre a grande prevenção que vem aí. Não ouvi rigorosamente nada. E portanto, de facto, esta ministra prometia imenso enquanto Provedora da Justiça. Tinha um cargo-

Que está vago

...que está vago.

Se calhar ainda pior para outra vez.

Fazia muitíssimo bem o seu papel, mas para Ministra da Administração Interna, não dá.

Temos um-

E não sabemos hoje nada da forma como o Estado respondeu, em que momento é que decidiram acionar a calamidade. Porque é que não decidiram antes?

A calamidade, sabemos. Se não sabemos é porque é que não antes. Esperaram mais de 24 horas para isso.

E temos uma nota para a ministra?

Eu vou dar um seis à Ministra da Administração Interna.

Anselmo?

Eu dou um cinco à ministra. Eu dou um seis ao ministro Leitão Amaro.

Vamos falar disso então.

É que eu queria falar do vídeo.

Desculpa.

Vamos a isso.

Vamos falar disso.

Deixamos só encontrar aqui rapidamente. Hoje foi publicado um vídeo nas redes sociais que mostra Leitão Amaro como o pivô da coordenação por parte do governo na gestão desta crise. É um vídeo com uma música heroica, com planos bem apertados, alguns planos a preto e branco, faz lembrar Macron a gerir crises de guerra. E depois, de repente, o vídeo começou a receber muitos comentários, foi apagado. Aparentemente, terá sido editado e publicado sem conhecimento do ministro, que já veio dizer que não devia ter sido publicado.

Ao menos veio o ministro dizer que não devia ter sido publicado, que é o mínimo que se esperava. É evidente, nós sabemos, normalmente a culpa é do mensageiro. Neste caso, a culpa foi do-

Pobre editor de vídeo

...do editor de vídeo da famosa central de comunicação do governo.

Deve ter decidido sozinho, como se imagina. Deve ter decidido sozinho.

Enfim, acredita quem quiser que um vídeo daqueles passa e é publicado sem o ministro saber. É evidente. O que isto evidencia?

Mas António, desculpa, se foi sem o ministro saber, eu espero que quem fez isso-

Que haja consequências. Porque é demasiado grave. Nós poderemos resumir isto a uma ação de propaganda que correu mal. Mas para lá disso, que obviamente foi, revela, seja lá quem tenha sido o autor ou o decisor, uma grande insensibilidade. Revela que naquele momento, a preocupação de quem fez aquilo não foi ter resposta do Estado aos portugueses, aos trabalhadores portugueses, às pessoas afetadas, às empresas. Foi publicar uma coisa numa rede social, qual André Ventura. Nós estamos sempre a criticar o André Ventura, o que é que diríamos se fosse André Ventura a fazer isto? E portanto, eu acho que isto deve servir de reflexão ao governo sobre a forma como comunica, como decide comunicação, e nomeadamente o ministro Leitão Amaro, que tem essa responsabilidade política.

Anselmo.

Eu ia dizer, ao menos André Ventura faz isto desavergonhadamente. André Ventura faz. Está a se marimbar para as críticas. Aquilo tem um propósito, é propaganda, como anda a fazer agora. "É aproveitamento político da tragédia." Ele quer lá saber. Se em cada 10 eleitores, cinco acharem que aquilo é bom, já faturou. Nós podemos criticar André Ventura à vontade. Ele não está a tentar conquistar a opinião publicada, ele está a tentar conquistar o eleitor. E o tema aqui do governo, que é uma coisa mais ou menos transversal a este governo de Luís Montenegro, não só com estes atos de propaganda, mas a outras coisas, é que faz este piscar de olho e estas tentativas de chegar ali para o lado do Chega, mas sempre de forma muito envergonhada. E depois quando começam a levar pancada, retiram e dizem: "Não, isto foi sem querer, desculpa lá, era só para testar."

E mesmo a desculpa é esfarrapada.

Completamente esfarrapada.

Afinal não devia estar.

Então mas o ministro não viu que estava a ser filmado?

Não, mas pior, porque a dada altura disse: "Não teve o efeito desejado." Então foi sem o seu conhecimento ou foi sem o efeito desejado?

Era para nós chorarmos.

Não faço ideia, era para nós ficarmos-

E se nós tomarmos isto ao processo que discutimos aqui há uma semana, exatamente, sobre aquele autor do X, da plataforma e da alegada-

Passa demasiado tempo nas redes sociais

...fake news.

O Vox Vargas.

Vox Vargas, exatamente, estava a falhar o nome. Isto de facto mostra um padrão que não é o que se espera de um governo. Não é o que se espera.

Achas que devíamos proibir os telemóveis a membros do governo com menos de 60 anos?

Sem redes sociais para ninguém.

Devemos é ser mais exigentes, provavelmente devemos ser mais exigentes.

Eu gostava só de acrescentar uma coisa a esse propósito, até porque no fim do dia, eu acho mesmo que isto é uma falta de respeito com as pessoas que estão a sofrer neste momento. E há aqui uma necessidade que eu espero que toda a gente tenha presente, incluindo nós, comunicação social, comentadores, etc, que é: isto não pode cair no esquecimento, isto vai demorar muito tempo. Nós somos muito bons, nós comunicação social, nós país, a bolha mediática é muito boa.

A arranjar outro tema.

Qual é o próximo sabor? O sabor do dia muda e nós vamos todos atrás. Há muita gente nas aldeias, ali à volta de Leiria, de Coimbra, de Santarém, há muita gente nas aldeias que ainda não viram um bombeiro, um elemento da Proteção Civil, e provavelmente não vão ver tão cedo, porque como é óbvio, há prioridades e os bombeiros e as autoridades têm que acorrer de forma prioritária àquilo que é mais grave, mais urgente. Mas há muita gente que nos próximos dias vai continuar a chover, vai estar frio, está-lhe a chover dentro de casa e não têm casas para onde ir. Alguns terão familiares para onde ir e outros não têm. E portanto, é bom que isto não caia no esquecimento e sobretudo que o tempo mediático que nós dedicamos a esta tragédia seja, de facto, às pessoas que estão a sofrer com a tragédia e não a ministros que se estão a pavonear nas redes sociais, a tentar tirar dividendos eleitorais, para não dizer outra coisa, de uma tragédia, porque não faz o menor sentido. Querem dar alguma nota ao vídeo?

Eu dou um seis ao ministro Leitão Amaro.

Eu dou um cinco.

E que sirva de lição.

Um cinco.

E um seis, e que sirva de lição.

Eu dou dez para quatro.

Dez para quatro. Amanhã há mais "E o Vencedor É?", nas manhãs 360 de fim de semana, um pouco mais tarde do que é habitual durante a semana, é depois das 10h30. "E o Vencedor É?" regressa amanhã.