Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
"You versus Toré", na Rádio Observador e também em vídeo no YouTube do Observador. Hoje com a Judite de França, a Raquel Lucas e o Nuno Gonçalo Poças. Eu sou o Ricardo Conceição e hoje vamos falar de 6 mil professores que estão de baixa no arranque do ano letivo, também das recomendações da ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, para que se poupe um bocadinho no combustível, que se aproveite para apanhar algumas boleias. Também temos uma grave ameaça de ataques com drones a países vizinhos, Espanha, França e Itália. Mas começamos com uma tarde muito animada no Parlamento, com alguns insultos. Aldrabão é o senhor, Nuno Gonçalo Poças. Não és tu. Eu estava só a citar alguns dos insultos. Deus me livre.
Sim.
Estiveste a acompanhar?
Não, particularmente. Fui vendo as notificações e depois vi o liveblog do jornal. Devo ter perdido uma tarde incrível.
Uma tarde de touros.
Uma tarde de touros, exatamente. Não sei muito bem o que diga sobre isto, sinceramente.
Então, mas tu é que querias falar nisto.
Não era eu, Ricardo, desculpa.
Desculpa, também querias.
Não era eu, mas não tenho grande coisa para dizer sobre isto a não ser que isto já não me diverte, na verdade.
Não? Já te entristece.
Já um bocado, sim. Do André Ventura a gente já está mais ou menos à espera. Era bom que o resto das pessoas não fossem perdendo a cabeça. Mas pelo que vi, o Aguiar Branco mais uma vez conseguiu mostrar a todos quem é que é o adulto e, portanto, é presidente e é presidente e muito bem. Sim, senhor.
E tu, Raquel, tu é que querias falar nisto?
Eu vou inverter aqui as regras do jogo e vou já dar uma nota 20.
Avança.
Há bocado estive a falar com uma ouvinte assídua deste programa, que apresentou uma queixa de que nós damos sempre notas péssimas. E portanto, eu vou já dar uma nota 20.
É um reparo recorrente que nos fazem.
A Raquel na semana passada deu um 20 a ela própria.
Exato.
E as pessoas queixam-se de nada.
E tão merecido.
Verdade.
E hoje dou um 20 ao debate parlamentar pela performance, porque estes debates agora são transmitidos em direto na televisão e às vezes nas rádios, aqui a Rádio Observador também faz. E realmente, um debate parlamentar transmitido em direto, em princípio, é uma coisa que dá poucas audiências e que é enfadonha. E eu acho que os senhores deputados decidiram, não sei se têm algum tipo de trato ou contrato com as televisões e com as rádios que apostam em transmitir em direto estes debates, e decidiram torná-los mais animados. E portanto, aquilo do ponto de vista de quem está a ver um reality show, foi de facto uma coisa animada, foi divertido. É melhor ver aquilo do que ver aqueles enfadonhos debates do Orçamento do Estado em que não acontece nada e que as pessoas falam de coisas que ninguém percebe. Ali, ao menos entre o Aldrabão, o Aldrabão é o senhor, o vira casacas, enfim, todo o tipo de insultos que agora se fazem no Parlamento tornam de facto a coisa mais animada. O conteúdo e a substância é, agora vê lá se não me mandas calar, é tudo uma grande aldrabice.
Sim.
Porque, no fundo, discutiu-se com o André Ventura, tinha aqui esta jugular a palpitar enquanto se dirigia ao Partido Socialista e depois o Eurico Brilhante Dias também pôs a jugular a funcionar e o Hugo Soares também. Mas no fundo, nenhum dos três queria que nada mudasse. No fim deste debate, efetivamente nada mudou. O PS quer, mas quer já, mas também acha que já é o governo é que tem que decidir. O Chega quer, mas é em janeiro, porque daqui até janeiro tanta água há de passar debaixo da ponte que já ninguém se lembra e no fundo o que queria mesmo era chatear o PS. E o Hugo Soares tem que representar o seu papel de acusar de irresponsabilidade e socratismo aos dois concorrentes, para no fim ficar tudo na mesma. E portanto, foi um reality show divertido, que como quase sempre acontece com os reality shows, chega ao fim e não há nenhuma novidade. Os casados à primeira vista, afinal não casaram. Essas coisas.
Portanto, tu dás um 20 à performance, ao lado artístico.
Exato. Do ponto de vista artístico, foi um espetáculo a não perder. Até aconselhava o Nuno hoje quando chegar a casa, puxa atrás.
Vou.
Se a noite estiver chata lá em casa ou se Portugal perder.
Isto eu arriscava, porque em debates parlamentares não sou especialista, mas de reality shows sei bastante. Eu arriscava que se calhar no final do dia ganha sempre o Zé Maria.
Não sei porque não me surpreende com isso.
O quê? Ser um especialista em reality shows? Sou um grande fã.
Sim, só alguns. Sou muito seleto no reality show. E tu, Judite?
O que dizer disto? Que as pessoas já não ligam. As pessoas já não ligam.
Ao reality show ligam.
Não ligam à política que se faz no país. Acho que perderam o respeito completamente e, portanto, cada vez ouvem menos o que se diz no Parlamento, o que eu acho razoável. Acho também razoável que o presidente da Assembleia da República meta a mão na coisa, porque já não é a primeira vez que aldrabão é uma linha vermelha. Aldrabão, Aguiar Branco não deixa passar, seja dito a quem for.
Aldrabão é um insulto, não é?
Claro.
Toda a gente sabe que a forma correta de dizer é: "O senhor é portador de inverdades."
Inverdades.
Mas aldrabão político.
E o aldrabão político é diferente.
Será que tem culpa atenuada aqui?
Não, mas é que primeiro foi aldrabão, depois quando começaram os protestos do Aguiar Branco é que veio o político anexado à expressão.
Até o Rui Tavares bateu palmas ao aldrabão.
Como assim, até o Rui Tavares?
Manda a Justiça dizer que o André Ventura disse maldrabice.
Disse maldrabice? Diz várias.
Acusou o primeiro-ministro de não estar no Parlamento, porque estava num show de futebol, ou numa bancada de futebol, ou num congresso de futebol. Efetivamente, o primeiro-ministro desta vez está na Assembleia Geral das Nações Unidas.
Exato, vai discursar daqui a mais ou menos uma hora.
Exato.
Nada que o André Ventura desconhecesse.
Com certeza.
Por acaso não me admirava que ele não soubesse.
Não, sabia perfeitamente. Aproveitou o facto de ele ter ido a uma gala qualquer de futebol que houve há dois dias e ter aparecido na televisão por isso. O próprio primeiro-ministro apareceu e portanto aproveitou a confusão. Lá está, mais uma vez aproveitou. É mais do mesmo. Eu acho que as pessoas já desligaram completamente. Antigamente ouvia-se que tinha havido insultos no Parlamento ou que tinha havido uma confusão no Parlamento e toda a gente queria saber o que tinha acontecido. Hoje em dia ninguém quer saber.
E mesmo o André Ventura, eu já ouvi dizer que apesar de ele ir todas as semanas à televisão, continua a ir, parece que as audiências já não são o que eram.
Foi ontem?
Anteontem.
E ontem também não foi?
Eu já não domino.
Mas se calhar é por isso. Será que os deputados, os políticos em geral, estão a acusar a pressão das audiências?
Podem estar, têm que fazer pela vida.
Acho que se diz muito isso.
Sim.
A pressão das audiências é uma questão vossa.
O problema é que, por regra, a pressão das audiências retira excelência ao conteúdo.
E excelência é coisa que o conteúdo não tem.
Lá está, porque obriga a ir por caminhos mais fáceis, mais simplistas.
Daí se falar do reality show.
Por acaso depende. Eu acho que se pode ser simplista com bastante qualidade.
Sim, eu percebo. Subscrevo. Porém, a precisão.
Eu iria adivinhar o que está no pensamento do Nuno Gonçalves Poças.
Então.
Se fosse uma intervenção bem estruturada de Pedro Passos Coelho, recolheria o mesmo nível de atenções ou superiores.
Por acaso não estava a pensar nele em concreto.
Pensaste. Desculpa, mas ficou constipado.
Se quiser eu posso dizer. Eu reconheço que é alguém que fala de uma maneira bastante simples e que toda a gente percebe.
De maneira simples, Pedro Passos Coelho?
Toda a gente percebe o que ele diz.
Os seus discursos são simples?
Não, são longos.
São muito longos.
Mas são simples, acho que toda a gente percebe o que ele diz.
Ele também fala para uma determinada camada.
Acho que toda a gente percebe.
Pelo menos. Querem dar notas?
Eu quero dar um zero a isto.
Um zero.
Eu dei um zero.
Tu deste 20.
Eu para compensar dei um 20.
Para a nota artística. Nuno?
Eu não tenho nota porque não vi. Eu preciso de ver a performance física também para avaliar o espetáculo.
Ok. Vamos mudar para outro tema, que é também relevante, que é uma recomendação da ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, Nuno, para poupar combustível. Já estás a fazer a tua parte?
Eu hoje ouvi isso e lembrando, depois andei à procura porque já não me lembrava certo quem é que tinha feito um comentário do género, mas lembrava-me que tinha sido para aí no governo do PS. E depois descobri que também tinha sido o ministro do Ambiente, que era na altura Matos Fernandes. Por causa das contas da luz, em 2018 ou 2019, que ele dizia: "Se quiserem poupar na conta da luz, então baixem a potência."
Pois foi.
E que na altura também deu um sururu. Agora esta não sei se dará o sururu ou não.
O ministro da Economia hoje vai reforçar essa sugestão.
Como não? É a mesma coisa. Se as pessoas quiserem poupar água, podem deixar de tomar banho. Sempre um bom conselho.
Há quem defenda que poupa a pele.
Pois. Tinha uma tia-avó que dizia isso.
Esta conversa está demasiado parva.
"Vocês tomam tantos banhos, gastam a pele." E nós que éramos modernos e jovens, não parvos. Eu ouço estas coisas sempre e normalmente vem sempre do ministro do Ambiente, o ministro da Economia. Mas aquela espécie de paternalismo que é: "Baixem a potência, estão cansados de pagar muita luz, baixem a potência. O gasóleo está caro? Peçam boleia."
Façam, como é que era a outra? Peçam boleia ou andem mais devagar. Também foi muito giro. Acho que os próximos ministros do ambiente, podemos começar já nesta, deviam começar qualquer intervenção com: "Olá, pequeninos." E depois diziam o que tinham pra dizer. É tão ameaçador, cansativo, seja lá o que for, tão condescendente. Como se as pessoas não soubessem o que fazem. O gasóleo está caro, aparentemente o consumo ainda não caiu. Segundo dizem as estatísticas.
Não sabemos ainda.
Sim, ainda não sabe muito bem.
A doutrina diz isso.
Eu diria, de acordo com as minhas percepções.
O que diz a tua percepção?
A minha percepção diz que não.
Que não caiu.
Que não caiu. Aliás, por acaso esta semana, hoje de manhã estava a pensar nisso, porque eu ando de metro todos os dias.
Então compras a tua parte.
Há anos.
Fodes, tens sorte.
Sim, também é verdade. Mas enfim, sempre usei o metro, o autocarro, comboio da ponte, aquelas coisas todas. E esta semana apercebi-me deste fenômeno meio estranho, que é, pelo menos Lisboa, está com trânsito horrível.
É verdade.
E o metro em hora de ponta está com menos pessoas.
Portanto, a tua percepção diz...
O meu feeling é que se calhar não é preciso pedirem boleia. Quando sentirem necessidade de, em vez de fazerem aquilo que diz a ministra, que é pedir boleia ou andar mais devagarinho, as pessoas vão fazer isso naturalmente e vão deixar de andar de carro e vão usar outras coisas quaisquer.
Portanto, tu acreditas que o cidadão tem a capacidade de discernir e decidir por ele próprio?
Tem, eu não tenho muita fé assim na mediania das pessoas. Sou um pessimista antropológico, como se diz, é uma maneira sofisticada de dizer que eu não acho que a generalidade das pessoas seja particularmente brilhante. Mas acho que tem essa natureza, faz parte da condição humana perceber as suas próprias escassez e as suas necessidades e adaptar os seus gastos àquilo que podem ou não pagar. Ninguém precisa que venha o Vasco Granja dizer-nos o que é que podemos ou não podemos fazer.
Queres dar uma nota?
Quero um dois, que é pra ir devagarinho.
Pronto, podes seguir o meu exemplo, que privilegiou a utilização do veículo híbrido de tração animal.
Andas de bicicleta.
Elétrica. E agora vamos começar pelos professores e pelas baixas. Há 6 mil professores de baixa no arranque do ano letivo. Não sabemos qual a condição, obviamente, em que estas pessoas estão, mas parece-te um número um pouco exagerado, Raquel?
Parece-me um número completamente irrazoável, não comparável a qualquer outra profissão, mesmo as de alto risco no país. E não querendo aqui generalizar, porque há de fato professores excelentes no país, os meus filhos andaram em escolas públicas e apanhei de tudo, mas também apanhei estes artistas, que são pessoas que usam o sistema para proveito próprio, sabendo ainda por cima que têm uma profissão da qual depende o futuro de centenas de pessoas. E depois o controle destas baixas, que podem ser de tudo. Declaração de interesses: eu tive uma guerra com uma professora que usava este estratagema, à qual dei voz aqui no Observador, na altura, por escrito, não sei se também oralmente, mas por escrito dei, mais do que uma vez. E era uma professora que usava o estratagema da baixa pra dar explicações em casa aos alunos a quem devia dar aulas no liceu. E sobre isto, que foi denunciado não só na comunicação social, mas nos lugares próprios, quanto a isto, não há nada a fazer. Eu estive num processo por causa deste caso durante um ano e meio, quase dois anos, não era a Direção Geral de Educação, era a Inspeção Geral da Educação, e no fim, a última vez que lá estive, aquilo que me foi dito foi que, apesar de eu ter feito todo o trabalho, ou seja, a denúncia, arranjar testemunhas, conseguir ir encontrar alguém que se dispusesse a dizer que tinha tido explicações com a dita professora, etc. Ah, pronto, mas tinha que ser no espaço de um ano, e aquelas explicações tinham sido há dois ou três anos e, portanto, não valiam, não tinham peso e portanto, o caso ficou por aí só. Isto é pra explicar que verificar estas baixas, que era o que se deveria fazer, é praticamente impossível, porque a baixa psicológica não impede que a pessoa possa fazer a sua vida normal, viajar, ir pra praia, fazer o que entender, porque é uma baixa psicológica e a pessoa não está obrigada a estar em casa. Portanto, é praticamente impossível fiscalizar este tipo de baixas. E com este volume, ninguém pode acreditar que há um vírus nos professores no primeiro dia de aulas, porque antes disso elas não estão de baixa. E que depois são interrompidas, não sei como é que agora a coisa se passa, mas depois há um tempo Durante o qual o professor pode estar de baixa sem ser substituído. E, por exemplo, esta professora de que estou a falar e de quem falarei sempre que vier à baila a questão dos professores, quem sabe, sabe muito bem quem ela é, o que fazia era que dois dias antes de poder ser substituída, ia dar aulas durante dois dias e depois voltava a meter baixa. Portanto, isto cria situações nas escolas impraticáveis, por mais heroico que possa ser o Ministro da Educação, porque simplesmente o sistema não funciona, não é possível controlar e é um expediente de um conjunto de pessoas que quer ser pago pra não trabalhar. E o pior de tudo, e só queria acrescentar a esta história, uma história que saiu ontem no Observador, horrível por si só, de uma professora do primeiro ciclo que há três anos maltrata os alunos, pelos vistos com todo o corpo docente da escola a assobiar para o lado até a coisa ter sido denunciada, e eu não vou falar sobre isso. Acho que qualquer pessoa que leia a história ou que oiça esta introdução fará o seu juízo sobre aquilo que se passa, mas queria só dar nota de um pormenor, que não é um pormenor, é um por maior, que vai na reportagem. É que a dita professora, este ano, no primeiro dia de aulas, com os mesmos pais que se queixam há dois anos, o que disse foi: "Eu este ano vou ser menos tolerante, não estou para aturar certas coisas, não estou para aturar as queixas dos pais. E se se vierem queixar, eu meto baixa." Portanto, isto já é um expediente. Os pais vivem aterrorizados de pôr as crianças na escola e não terem professores. Os professores, alguns, fazem o que entendem e quando são incomodados, fazem este tipo de ameaça.
Nuno.
Há aqui muita coisa em cima. Se calhar também tenho que fazer esse disclaimer e dizer que também tenho duas filhas na escola pública e que têm duas professoras.
Não, é que os professores quando são bons, são bons.
Sim, no segundo e no quarto ano, e que as coisas têm corrido bastante bem. Portanto, essas ressalvas têm que ser sempre feitas antes de nós dizermos qualquer coisa pra não parecer que estamos aqui a atacar a classe. Mas, de facto, o número que foi indicado, eu acho que é um bocadinho chocante e preocupante ao mesmo tempo, para os professores, mas também para o sistema por si. Primeiro, porque a Raquel estava a falar do vismo, de repente parece que deve ser uma aulite, uma versão qualquer à aulas, que de repente começa o ano letivo e há 6 mil professores de baixa, ou há uma epidemia que a imprensa está a deixar escapar que só afeta professores, ou então há alguma coisa muito superior a isso que se passa. Naturalmente, muitos deles terão razões óbvias médicas para estar de baixa. Não acredito na coincidência de 6 mil professores entrarem de baixa no início do ano letivo. O país também é um bocadinho o país das baixas e continua a ser. Aquele mecanismo relativamente recente das autobixas, em julho já íamos pra aí em meio milhão. Portanto, também não é propriamente uma coisa nova. Acho que já em março havia quase 300 mil pessoas que já tinham alcançado o seu limite da autobixa pro ano todo. Isso também releva. Agora, nós depois podemos olhar pra isto e perceber se há um problema qualquer de compromisso, de dedicação profissional até em muitos desses professores, não vamos generalizar e dizer que é em todos, mais uma vez, mas eu diria que sim. Enfim, como em muitas profissões, mas aqui estamos a falar de uma escala já muito grande, e é por isso que merece aqui algum destaque. Depois, eu acho que os professores, ao mesmo tempo, têm aqui alguma razão do seu lado. Porque eu percebo, porque lá está, e conheço relativamente bem a escola pública há sete anos, e percebo, de facto, que aquilo não é fácil. E percebo até esse argumento de: "Este ano as coisas vão mudar e, portanto, se os pais me vierem pra aqui com coisas..." Até acho que com as duas professoras das minhas filhas já fiz esse comentário. Eu percebo perfeitamente que a maioria dos miúdos nem vos dá assim tantos problemas. Eu acho que os pais hoje em dia dão imensos problemas aos professores.
A Isabel Alçada falava nisso esta manhã na comissão de inquérito aqui na Rádio Observador.
O que eu acho é que nós também temos aqui, atrás desta conversa toda, não desculpando muitos dos professores que estarão aqui em baixas que eu vou arriscar dizer que são fraudulentas, mas temos, de facto, um outro tema pra discutir, que é a autoridade. A autoridade dentro da escola, a autoridade do professor, a robustez com que a profissão do professor é encarada hoje em dia na escola e a forma como a sociedade inteira, pais incluídos, naturalmente Se sentem capazes de pôr essa autoridade em causa, discutir opções pedagógicas, seja lá o que for, um ralhete. Não se pode, porque é o meu menino, não sei o quê.
A questão é quem é que é a culpa disso.
Certo, o que eu estou a dizer, há aqui duas coisas em cima dos dois pratos da balança.
Temos que ir à Judite também.
Eu não desculpando e achando, de facto, este número é um exagero e portanto há aqui qualquer coisa que está errada. Mas por outro lado também percebo que de facto a vontade não seja muito grande de ir para ali. Agora, foi o que escolheram.
Judite.
Em setembro de 2022 eu fui ver se isto era uma coisa recente. Já se tinha falado antes. E João Costa, antigo ministro da Educação, falou de cerca de 2000 professores de baixa, isto em 2022, logo nos primeiros dias de aulas. Dizia, na altura, que não era um absentismo superior ao resto da administração pública. Tinha alguma comparação com outras profissões. E depois falou de padrões irregulares e foram feitas cerca de 400 juntas médicas, e 80 baixas foram consideradas irregulares. Houve fraude em 80 casos. É evidente que estes 80 casos foram apurados entre baixas escolhidas precisamente por levantarem suspeitas. Não foram feitas juntas médicas a 2000 pessoas. Fernando Alexandre não insinuou nada disto.
Certo.
Agora no Parlamento não-
Sim, só mencionou os factos.
Só mencionou os 6 mil. E eu acho que o número serviu mais para explicar a falta de professores do que para explicar a razão.
Os horários para preencher.
Sim, foi para justificar isso, claramente. A FENPROF, por seu turno, diz que o problema é estrutural e que não é clínico. Não sei o que isso quer dizer.
Pois, o problema é o que a FENPROF considera estrutural.
Há duas leituras aqui interessantes. Uma delas é: nós não sabemos se as 6 mil baixas são novas, à data de setembro, ou são renovações. Ou seja, o ministério não faz diferença entre as duas coisas. É diferente se 4 mil já estivessem de baixa.
São só 2 mil.
E são só 2 mil. O que também tem implicações, eu sei que é muito difícil determinar se a baixa vai acabar ou se não vai acabar. É muito difícil acautelar professor para aquela baixa. Isso eu acho que é facilmente compreensível. Agora, eu acho que Fernando Alexandre usou este número sem comparação, sem denominador nenhum, só o número, não como dado, mas como justificação, como notícia. A notícia é esta: são 6 mil que me faltam. O que vocês querem que eu faça? Seis mil, de repente, não estão. E eu acho que muito da falta que há pouco falavas, da falta de respeito que se tem pelo professor, é algo que tem 20 anos, não tem mais de 20 anos. É uma coisa recente.
Começou há mais tempo.
Mais.
Achas?
Acho que sim.
No meu tempo, havia um enorme respeito pelos professores. Enorme respeito.
Mas diria que é uma coisa gradual, mas se calhar tem 25 ou 30 anos de avanço.
É uma coisa gradual, sim. Mas acho que é mais sentida nos últimos tempos.
Acho que coincide muito com o momento em que as crianças passaram a ter todas razão, sempre razão.
Pois, os pequenos reis.
O meu menino.
Os pequenos tiranos.
O meu menino é doido.
Isso é verdade.
Acho que começa aí.
Mas também há um momento na carreira dos professores em que os professores fazem greves atrás de greves, atrás de greves, por razões apenas que dizem respeito ao seu umbigo e nunca à escola pública.
Claro.
Sim.
Eu acho que isso foi um desrespeito. Eu acho que isso levou a um desrespeito por parte dos pais dos professores. E acho que isso entrou-se numa curva descendente e daqui já não sai, é muito difícil subir outra vez. E portanto eu acho que no cômputo geral, percebo que, de facto... atenção que um professor que está na Segurança Social, ou seja, que não está na Caixa Geral de Apresentações, portanto, é mais novo, no primeiro mês de baixa recebe 55% do salário. Não são propriamente férias pagas.
Claro.
Se estiver a dar explicações é capaz de compensar.
Pois, claro.
É óbvio.
E se não tiver que se deslocar, e se não tiver que arrendar o quarto.
Sim, é verdade. Isso é uma das razões que a FENPROF fala. Normalmente são esses que metem baixa, porque esses só fazem parte dos quadros.
Certo.
Mas lá está, tudo isso remete para outro tipo de problemas, para muitos.
Sim, eu acho que há muitos problemas aqui, nomeadamente há problemas para os alunos.
Pois.
Que são os mais sacrificados no meio disto.
Vamos dar notas?
Eu dou um seis a estes 6 mil.
Nuno. Ainda quero ir aos drones.
Eu hesitei um bocadinho nisso, mas eu vou dar um 11 ao ministro, porque pôs o assunto em cima da mesa e acho que nos pode obrigar a discutir isto.
Eu dou um dois a estes professores.
Ainda vamos aos drones, porque segundo o El Mundo, a CIA veio avisar Espanha, França e Itália que os russos podem disparar pequenos drones a partir de porta-contentores no Mediterrâneo, que podem causar alguns Estragos de França. Há pouco estiveste a conversar com o General Vieira Borges. Ficaste mais descansada ou mais inquieta?
Não, fiquei tão inquieta quanto estava, porque eu acho que o Major-General Vieira Borges é muito lúcido na análise que faz e pegou neste drone pequeno e barato, que eu fui ver e pesa 18 quilos e uma carga explosiva que cabe numa mochila, e que para nós tem nome de flor, chama-se gerbera. Acho que usa-se gerbera, mas para nós é como se fosse uma flor. A NATO mandou levantar Eurofighters italianos, que são caças de dezenas de milhões de euros, por causa de uns drones Hitos. Mas os drones Hitos cumprem muito bem a sua função, que é assustar meia Europa sem fazer grande coisa. E agora o El Mundo diz que a CIA avisou Espanha, França e Itália que esses pequenos drones podem vir de cargueiros no Mediterrâneo. É muito fácil um drone destes ser escondido num porta-contentores. Ninguém dará conta dele e ele pode levantar-
E fazer estragos.
Na nossa costa mediterrânica.
Raquel, queres dar o teu achega a isto, para irmos ao Nuno?
Não, eu passo ao Nuno. Eu só me confesso aterrorizada cada vez que vou ouvindo as notícias sobre o que se vai passando na Europa e portanto não tenho nada a acrescentar.
E nós estamos um bocadinho a leste do perigo, Nuno?
Não, eu até acho o contrário. Mais uma vez, uma nota prévia. Eu sou uma daquelas pobres almas que acha que os países têm uma obrigação de defesa de soberania e, portanto, têm uma obrigação de investimento militar, que nos últimos 20 e tal, 30 anos era um não assunto. "Por amor de Deus, nós vivemos na paz perpétua, agora quem é que vem para aqui, isso é tudo rosas e encantadores."
E gerberas.
E gerberas daquelas mais giras e vamos todos para a praia, somos todos amigos uns dos outros. Eu nunca acreditei muito nessa conversa e sempre me fez muita confusão, em Portugal e pela Europa toda, sempre houve muito, nas últimas décadas, esta lengalenga de que não é preciso investir e isso até se tornou, de alguma maneira, quase antipopular. E eu acho que isso é importante. E até dou de barato, porque acho que as coisas são mais ou menos evidentes. Se forem falar com os europeus de leste, ali mais perto da fronteira, eles sentem de uma maneira muito mais particular do que nós. E era muito interessante até que nós ouvíssemos mais os polacos, curiosamente, do que outra coisa qualquer, nomeadamente até a presidente da Comissão Europeia. Portanto, mais os polacos e menos a presidente da Comissão Europeia sobre isso. Agora, há aqui outra coisa, e é isso que me custa um bocadinho a sonseis, que é: nós estamos mais ou menos, paulatinamente, a enxamear o discurso público com esta coisa da guerra híbrida e do inimigo comum, que pode existir, e eu até acho que existe, mas o discurso político que tem sido feito à volta disto não me parece minimamente honesto. A questão é que a Europa tem, porque precisa mesmo, neste momento, de recuperar algum investimento industrial. E esse investimento industrial será necessariamente feito, como? Através do armamento, porque nós andámos os últimos anos também a acreditar na transição energética e achar que podíamos fazer investimento industrial com a força das marés, quando o resto do mundo estava precisamente a competir conosco sem o fazer. Se os chineses e os indianos estivessem todos a jogar segundo as mesmas regras, perfeitamente de acordo. Agora, como não estavam, nós ficámos um bocadinho para trás e precisamos recuperar caminho industrial. Qual é que é a única forma de convencer as populações europeias de que é preciso fazer investimento em defesa, sem que as pessoas de repente: "Mas agora vamos cortar aqui as pensões e os benefícios para andar aí a construir armas." É que nos arranjem um inimigo comum e que nos ponham todos aqui cheios de medo.
A isso já estamos.
Pois. E a mim custa-me sempre alinhar um bocado nisso, nessas coisas dos apocalipses. Acho bem que o façam.
Mas que já estamos a viver em sobressalto.
Mas já há muito tempo.
Isso é normal, não é?
Sim, mas nós temos vivido sempre em sobressaltos permanentes nos últimos 15 anos. Isto são uns atrás dos outros e vamos assustando com coisas, parece-me uma sociedade um bocado gelatinosa nesse sentido.
E amanhã há mais "E o Vencedor É?", nas manhãs 360, a Filomena Martins junta-se ao José Manuel Fernandes, ao Bruno Vieira Amaral e ao Paulo Ferreira.