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Este é o Som do Juventoré. Começa agora uma nova edição que também pode seguir em direto através do YouTube, Facebook e site do Observador. Hoje, a pontuar, estão conosco a Sara Antunes de Oliveira e o Rui Pedro Antunes, que se juntam ao José Manuel Fernandes, ao Paulo Ferreira e ao Júlio Magalhães. Carla, hoje não podemos deixar de dar nota aos vários protagonistas do Orçamento do Estado.

De maneira nenhuma, até porque há vários, entre os autores do documento, aqueles que o comentaram. Há, por isso, muitas notas para dar. Sara, vamos começar por ti. Tens um vencedor esta manhã.

Nem por isso. Desculpem. Queria dar nota a Marcelo Rebelo de Sousa. Ontem o Presidente da República comentou o Orçamento do Estado apresentado pelo governo e eu confesso que não percebi nada. Ou melhor, acho que percebi e não gostei. Não sei se se recordam, mas Marcelo Rebelo de Sousa foi a pessoa que andou uma data de tempo a insistir que era preciso apresentar o cenário macroeconômico. O que era até bastante estranho, tendo em conta o clima de incerteza e o momento que nós, Europa ou o resto do mundo estamos a viver. Por que era tão relevante apresentar um cenário macroeconômico que vai estar em constante alteração? Mas Marcelo insistiu muito naquilo. E agora que já tem o cenário macroeconômico, já tem até o orçamento, diz que andamos todos a navegar à vista e que este orçamento navega à vista e que os críticos navegam à vista e que estamos todos a navegar à vista. E diz isto com normalidade, porque é assim que tem de ser. Se é normal andarmos a navegar à vista, por que a obsessão com o cenário macroeconômico e em saber as contas e as previsões? E depois faz elogios a este orçamento, diz que é um orçamento muito equilibrado, que conseguiu um equilíbrio entre garantir as contas certas e algum reforço dos apoios sociais, mas ao mesmo tempo também diz: "Bom, mas atenção que o governo é um bocadinho mais otimista do que eu. As previsões do governo são mais otimistas do que as minhas." Então, mas é um orçamento ótimo para aquilo que temos ou é um orçamento que se calhar não vai correr muito bem? E depois diz esta coisa extraordinária, que é: "Aí não há nada como esperar para ver se o governo tem razão. Se tiver razão, eu reconheço essa razão. Se não tiver razão, então eu naturalmente estou atento." O que isto quer dizer? Está atento? Mas está atento para fazer o quê? Lá está, eu gostava de achar que não percebo, simplesmente, o que isto quer dizer, mas acho que percebo. Marcelo Rebelo de Sousa, de facto, entrou aqui numa fase em que a posição que tem é de: "Bom, se isto correr bem, eu ajudei. Se correr mal, eu avisei." E então vai se mantendo nesta ambiguidade, dando uma no cravo, outra na ferradura, porque assim nunca se compromete. E eu, sinceramente, em um cenário que o próprio presidente descreve como muito difícil, antecipando anos provavelmente muito difíceis para os portugueses, num cenário político de maioria absoluta, em que é preciso garantir que pelo menos há alguma oposição, contestação, contraditório às medidas do governo, para garantir que isto não cai no poder absoluto, Marcelo manter-se nesta ambiguidade de "eu acho que isto é assim, mas também pode ser assado", não ajuda ninguém e eu lamento que seja esta a posição do Presidente da República.

José Manuel, também te parece que os comentários de ontem de Marcelo sobre o orçamento foram ambíguos?

Olha, foram ambíguos, mas mais do que isso. Ele fez uma coisa que eu, para variar, não gostei que ele tivesse feito. Ele fez comentários, parecia que estava de volta ao palco da TVI ou das televisões por onde ele andou, a comentar a atualidade, dizer mais assim, mais assado, isto foi para aqui, isto foi para acolá, uns dizem isto, outros dizem aqueloutro, eu acho mais qualquer coisa. Vamos lá ver. A maior parte do tempo, ele esteve ali mais a tomar as dores do governo e a desvalorizar algumas das críticas que foram feitas pelas oposições e a desvalorizar, como a Sara acabou de dizer, o que ele próprio antes tinha pedido. E eu olho para aquilo e digo assim: "Mas o que é que te passou pela cabeça?" Quer dizer, tinha dito umas coisas poucos dias antes e veio dizer ao contrário. Colocou-se outra vez, enfim, nós já estamos habituados a isso, na pele de comentador, mas um comentador que ainda por cima foi pouco imparcial, porque olhando para aquilo tudo, o que as pessoas tiram é: olha, é o António Costa dois. Temos ali um António Costa dois. Enfim, já tínhamos um Costa Silva, que coitado está em baixa no governo, mas agora temos um Marcelo Costa, que esse está sempre em alta no governo. Portanto, eu acho que Marcelo tem um problema de não conseguir ter o mínimo de contenção, sobretudo quando são estas coisas que são importantes. O orçamento acabava de ser apresentado. O orçamento tem inúmeras medidas, micromedidas, algumas delas novas, que seguramente vão levantar alguma controvérsia. Ele vai ter ou devia exercer o seu papel como presidente moderador e fiscalizador. E já está a fazer um discurso que é contraditório com o que ele próprio disse e a desvalorizar as críticas da oposição. Eu ontem fiquei mesmo siderado, apesar de já nada me surpreender, devo dizer, mesmo assim, ele consegue surpreender-me. E não posso dar uma nota positiva. Não sei que nota é que a Sara deu.

Sara, ainda não deste a tua nota.

Vou dar um oito a um presidente que é um presidente fatinho preto, não se compromete. Eu acho que Marcelo Rebelo de Sousa vestiu o fatinho preto e eu temo que não vá tirar esse fatinho até ao final do seu mandato e nós precisávamos que esse fatinho estivesse no armário.

É o fatinho preto que não compromete o Marcelo com um oito. José Manuel?

Eu estou mais exigente hoje. Fiquei muito irritado com aquilo ontem, de maneira que vou dar um quatro, que é um chumbo direto, porque para aquele tipo de declarações era o mesmo que não precisávamos agora de um presidente da República.

Já tinha saudade, José Manuel.

É verdade.

O chumbo direto.

Tenho andado a dar notas muito generosas.

Tens sido muito generoso. Muito bem, então fica o chumbo direto do José Manuel Fernandes e o oito da Sara para a reação de Marcelo Rebelo de Sousa ao Orçamento Estado, apresentado por Fernando Medina. Rui Pedro é quem tu escolhes para dar nota.

Sim, Carla, bom dia. Antes de mais, deixa-me dizer-te também que Marcelo já tinha o dom da ubiquidade, de estar em todo lado ao mesmo tempo. E tem também o dom da ambiguidade, porque de facto consegue dizer tudo e o seu contrário, mas já estamos habituados a isso. Isto só para complementar o que o José Manuel e a Sara estavam a dizer. Marcelo Rebelo de Sousa dizia que o orçamento não agradava a gregos nem a troianos. Pois, o problema dele é o contrário, quer agradar a gregos e a troianos e depois nunca toma uma posição como deve tomar como principal figura do Estado. Mas como dizias, eu queria dar a nota a Fernando Medina pelo seguinte: eu acho que o que se tem passado ao longo dos anos com todo o espetáculo, às vezes mais negativo, da entrega do orçamento, passa por entregar uma pen vazia, chegar às 23h40 da noite ao Parlamento para entregar um documento. É um espetáculo que não se percebe, dá uma ideia de desorganização, de descontrole completo, de estar-se a fechar uma vírgula, um número, e toda a gente pergunta: "Então, mas se a entrega é obrigatória no dia 15, 14, enfim, agora mudou a lei de enquadramento orçamental, neste caso foi no dia 10, por que não fazem tudo como se fosse a entrega para dia 9 e depois no dia 10?" Era uma pergunta simples, os portugueses assistiam sempre a um espetáculo. E eu acho que Fernando Medina, mais do que obviamente da entrega, aliás, ele mostrou-se um bocadinho ser mãos de manteiga, não é? Porque ele e Augusto Santos Silva não conseguiram agarrar lá o documentozinho com o orçamento, onde vinha a pen, e deixaram cair logo. Portanto, foi logo um orçamento que começou...

Que caiu?

Caiu logo. Precisou logo de um retificativo. Mas nesse aspeto também mostrou que Fernando Medina tinha um bocadinho de queda para a comunicação e percebeu a importância da comunicação. Eu não digo isto porque ele deu uma pequena entrevista à Rádio Observador, não me deixo levar por essas coisas, mas tem a ver com a maneira como ele comunicou e de facto esteve muito disponível. A conferência de imprensa é muito longa, se calhar não entra de certeza nos manuais da comunicação e da forma de comunicar, mas há uma parte de disponibilidade para tentar explicar as coisas. E houve alguns pequenos exemplos que nós fomos vendo. Na entrevista à Rádio Observador, vamos imaginar, sobre portagens, não estava nada no orçamento sobre isso. Ele tentou dar uma resposta. "É verdade, queremos mexer, é difícil as concessionárias", mas não fugiu. O mesmo aconteceu numa entrevista ao Público com a questão da direção do SNS, que não estava lá, ou à SIC, agora não me recordo bem. Foi uma das duas que disse: "Bom, tenho esse número de cabeça, são 10 milhões de euros". E portanto, nesse aspeto, há aqui um esforço de comunicação de Fernando Medina que acho que é diferente e isso pode ser positivo. Não estou aqui a avaliar exatamente as medidas que ele apresentou, enfim, que isso é decorrente de toda uma estratégia do governo, mas sim na forma como ministro. E este é o primeiro orçamento que é verdadeiramente dele, porque o anterior já vinha metade feito de João Leão, metade, para não dizer 80%. E portanto, acho que a forma como ele apresentou, da outra vez tinha dado assim um ar um bocadinho mais político, ainda estava meio também a medir o terreno, mas agora quem vê Fernando Medina parece que ele esteve a preparar-se 10 anos para ser ministro das Finanças. Percebeu a importância de comunicar, pode não ser tão bom para ele. Parece ser um bocadinho um ministro que uma parte da direita gosta, da direita e não só, enfim, os empresários, etc, por ter recebido alguns elogios de setores onde muitas vezes não existia, parece um bocadinho nesse aspeto o novo Pedro Siza Vieira, que era o ministro que mais agradava ao setor não esquerda do mundo empresarial e também o que mais agradava à oposição. E portanto, nesse aspeto, eu queria dar uma nota positiva ao Fernando Medina, porque parece-me que estava bem preparado para comunicar e o dia correu-lhe genericamente bem. E voltando aqui, não querendo massacrar muito mais uma vez Pedro Nuno Santos Correndo mal a Pedro Nuno Santos a última semana, e de que maneira, nesta corrida pra sucessão do PS, Fernando Medina ganha aqui um novo fôlego. Parece-me que não cometeu nenhum erro. Os erros que pode ter são próprios erros de estratégia política do governo, que não são da exclusiva responsabilidade dele, mas como executante e como ministro com a pasta das finanças, não cometeu nenhum erro. Com o seu principal adversário na corrida à sucessão do PS, está debaixo de fogo por causa das incompatibilidades e do caso que já falamos aqui muitas vezes. Parece-me que Fernando Medina é o vencedor.

É o vencedor. Rui Pedro Antunes, quem te ouviu ontem no Contracorrente já dizias que a fragilidade deste momento de Pedro Nuno Santos já abria caminho a Fernando Medina. Ontem, na prova oral que ele teve, o que consideras é que reforçou essa boa posição numa futura eventualidade.

Exatamente, Carla. Estava um bocadinho a autoplagiar e tu estás-me a denunciar.

Não, não te estava, porque entretanto aconteceu isto, aconteceu a apresentação do orçamento.

Nós ainda não sabemos.

É verdade, eu já tinha dito ontem que era um bom momento pra ele.

Que podia ser um dia bom, mas ele ia ter que provar alguma coisa.

Exato, porque tinha destaque mediático, quando Pedro Nuno Santos tinha também destaque mediático, mas por más razões e que nesse particular da sucessão do PS, onde eu acho, atenção, Pedro Nuno Santos continua muito na frente no aparelho e nas preferências do próprio Partido Socialista, que é o que conta pra ser líder do PS. Mas mesmo assim, não deixo de dar aqui uma boa nota a Fernando Medina, um 14, não só por ter percebido a importância da comunicação no orçamento, como por também ter ganho uns pontos nessa luta particular.

Qual é a nota então para Fernando Medina?

14.

Um 14. Paulo, querias acrescentar alguma coisa?

Ia só dizer que não sabemos ainda se este orçamento é de contas certas, mas pelo menos sabemos que é de horas certas, não é? Isso já não é nada mau, de facto, olhando pro passado.

É verdade, não falhou nada, nem sequer utilizou o quarto hora acadêmico.

Claro, isto parecia a Suíça, um abocinhamento, sem atrasos, quase.

Falando em atrasos, em pontualidade, houve ausências, Paulo?

Tem havido ausências. Fernando Medina em alta, como vimos aqui com o Rui Pedro Antunes agora, e eu acho que há um ministro, por contraponto, que está claramente em baixa, que é António Costa Silva, o ministro da Economia. Portanto, ontem ficou formalizado com a proposta do governo aquilo que é o entendimento e o caminho escolhido para as mexidas no IRC. E ontem soubemos, já o desconfíamos, mas ontem ficou formalizado, de facto, que não vai haver nenhuma redução transversal do imposto sobre as empresas, como defendia o ministro da Economia, e vai antes haver umas mexidas seletivas que no fundo pretendem premiar as empresas ou que invistam de uma forma muito genérica, ou então que façam maiores aumentos salariais ou reduzam, se quiserem, o leque salarial dentro da empresa. Eu penso que isto no fundo sela um pouco o isolamento do ministro da Economia dentro do governo. Este é um dos sinais, mas há mais. Costa Silva é um elemento estranho na lógica política e naquilo que estamos habituados a ver em membros do governo. É um independente, sendo que isso não é bom nem é mau. Eu não faço nem a apologia dos independentes, nem a diabolização dos independentes. Depende dos independentes e depende de hoje, se quisermos, não sei o que é o contraponto aqui independente.

Mas eles sofrem no governo, Paulo.

Sofrem imenso.

Os independentes dentro do governo normalmente são um bocadinho ostracizados e nós aqui há uns tempos, uma semana e meia, talvez, um artigo da Mariana Lima Cunha aqui no Observador. Há uma imagem que ele chega ao Parlamento, os deputados costumam esperar pelo ministro do PS, os ministros do PS que vão lá, e não estava ninguém à espera dele numa salinha.

Não é da casa, basicamente.

Exatamente o que diziam os deputados em off: "Ele não é um dos nossos". E, portanto, os independentes têm sempre esse estigma, ao contrário, no governo.

Têm esse estigma e depois podem fazer ou não boas pastas, mas de facto não têm nunca a vida facilitada pelos aparelhos partidários. E Costa Silva é um independente que já fez a sua carreira, não está ali a provar nada a ninguém. Ele, aliás, já estava na reforma quando foi desafiado para este cargo e não depende da política pra nada. Eu imagino que isso também faça alguma diferença no tal grupinho de deputados, se quiseres, de um partido ou outro, que estão ali à espera dele no Parlamento. De facto, a questão aqui é: ele defendia esse corte transversal do IRC de 21 para 19%. Foi imediatamente contrariado fora e dentro do governo, portanto, não houve sequer uma discussão, um debate sobre isto. Notou-se logo, com Pedro Siza Vieira, o antecessor, à cabeça, notou-se logo quando ele fez aquela declaração na Feira de Calçado de Milão, que houve logo uma tentativa de matar o assunto ali, independentemente de ele estar a ser discutido ou não na Mesa da Concertação Social. Depois veio a equipe das finanças do governo também contrariá-lo. Podia-se pensar, quando as finanças entraram em campo, que havia aqui uma questão de custo, isto é, que nas contas que estavam a ser feitas por Fernando Medina, esta redução transversal do IRC não cabia, de alguma maneira, ou seria muito onerosa. Não é o caso. Por quê? Porque estamos a falar deste corte de dois pontos, vale cerca de 200 milhões de euros, portanto, nem é um montante por aí fora. E quando agora fazemos as contas neste orçamento a todas as medidas que no fundo têm impacto no IRC, elas custam 325 milhões de euros. Portanto, a questão aqui não é o custo, não é a capacidade ou não do orçamento de Estado que estava a ser pensado acomodar isto. Tem a ver só com o caminho e o caminho a ser seguido. Depois estivemos neste domingo na cerimônia da assinatura do acordo de concertação social também. O ministro da Economia estava presente, obviamente, na cerimônia. Não foi referido uma vez nenhuma pelo primeiro-ministro, que referiu a ministra da Agricultura, a ministra do Ambiente, ministra do Trabalho, claro, o ministro das Finanças, com os contributos que eles deram para se chegar a este acordo E o Ministro da Economia, que num acordo destes seria sempre uma figura absolutamente central, senão mesmo a mais importante, porque este é um acordo que tem uma grande importância para empresas e para os trabalhadores dessas empresas, como é evidente. E portanto, se há ministro ou ministério que na sua pasta, no fundo, agrega isto tudo, é o Ministério da Economia, não foi referido e portanto teve uma presença muito discreta. O que nos leva a pensar, olhar para isto e perceber que António Costa Silva é o tal elemento estranho, é o tal independente que tem as suas ideias.

E que está dessintonizado.

Está dessintonizado na forma de fazer política, provavelmente à partida. Ele é um gestor de provas dadas, várias décadas de provas dadas. No setor do petróleo, ele foi o gestor da Partex, que era a empresa da Fundação Gulbenkian que geria os interesses da fundação nessa área e que muitas receitas deu durante anos à fundação. Entretanto, venderam a empresa a investidores tailandeses, se não me engano, há meia dúzia de anos, e ele saiu do setor a esse nível. O seu conhecimento geoestratégico numa área que neste momento é crucial, que é a da energia, podia ser aproveitado, mas dá a ideia que ele está completamente deslocado ali. Também não sei o que é que o levou a aceitar o convite de António Costa. Nós percebemos, foi aquele impulso quando o viu uma vez na televisão e o chamou depois para esboçar a visão estratégica do PRR. Mas isto são aqueles casamentos de entusiasmo que depois acabam porque não dá certo. E eu não sei se Costa Silva vai ficar muito tempo no governo, mas se ficar, está no fundo a preencher uma pasta que devia ter um peso muito importante nesta altura e não a tem, de alguma maneira. Isto não tem nada a ver com a competência ou incompetência dele, atenção.

Tem a ver com o peso político.

Com o peso político e com estar na onda ou não estar na onda dos partidos, e ele claramente não está. E provavelmente não quer estar.

Essa maré baixa é quanto?

Vale um oito, porque não depende dele, essencialmente, e apesar do esforço dele, mas é claramente uma carta fora do baralho, se quisermos.

Sim. Um oito então para o ministro da Economia. Júlio Magalhães, também queres olhar para o Orçamento de Estado, mas aqui pontuando PAN e Livre. Por quê?

Sim, e já agora acompanhar o Rui Pedro e o Paulo nesta questão de Fernando Medina. Foi o melhor momento dele nos últimos três anos entre Câmara de Lisboa e ministro. Não só naquilo que falou o Rui Pedro, de estar disponível para explicar nas entrevistas que deu, mas sobretudo por ter sido sério, que isso é importante, que é dizer que não há nenhum governo no mundo que possa ajudar toda a gente. E portanto, não se consegue ajudar todos, mas acho que do que eu ouvi dos especialistas, genericamente, este é um orçamento que pelo menos pretende ajudar a maioria das pessoas. Se depois vai resultar ou não, é outra coisa. E isto vem de encontro àquilo também que é um bocado a cultura política, que já há pouco falei, ainda bem que faz esta pergunta, que é: o não está sempre garantido quando se apresenta um orçamento. E isto à esquerda e à direita. Quando a direita está no poder, a oposição, tudo o que seja apresentado, diz não, não está bem, seja como for, e vice-versa. Quando a esquerda está no poder, a oposição vem dizer que está tudo mal, o orçamento não serve pra nada. Nós só vamos saber se este orçamento é bom ou mau lá pro fim do ano ou lá pro verão. Nisso o Luís Montenegro tem razão, o governo apresenta estes números todos, depois em julho, provavelmente as coisas não vão resultar, mas podem resultar. Mas a verdade é que estamos em tempo de guerra, estamos num tempo excepcional do mundo inteiro, depois de uma pandemia e agora com uma guerra. Pode ser uma catástrofe, que a guerra pode piorar, pode prolongar-se no tempo e até agravar-se. E, portanto, tudo isto pode ser uma catástrofe, como de repente a guerra também pode ser resolvida e isto até melhorar. E nessa perspectiva, há uma cultura política que os portugueses depois não entendem, porque os portugueses estão a ouvir o ministro ou o governo a apresentar as medidas e se calhar estão a dizer: "Pronto, olha, há aqui coisas que são boas, que vão melhorar a nossa vida, não vão melhorar, enfim, porque a inflação é grande, também não vão recuperar o poder de compra, mas pelo menos vão atenuar de alguma maneira". Mas depois ouvem os partidos todos da oposição a dizer que aquilo é um desastre e os portugueses ficam sem saber, afinal, se aquilo é bom, se é mau, se vai correr bem, se vai correr mal, e por aí adiante. E por isso queria dar nota, para além do Fernando Medina, que de facto teve um bom momento, queria dar nota ao PAN e ao LIVRE, precisamente foram os únicos que no final vieram dizer que o orçamento pode ir mais longe, que o orçamento pode ser melhor que isto e querem dar esse contributo na Assembleia, porque isto agora vai à Assembleia, vai ser discutido na Assembleia e os partidos vão tentar dar contributos para que isto melhore. Se calhar o PS vai fazer o mesmo ou o governo vai fazer o mesmo que faz a oposição, que é: "Pronto, podem falar, podem dizer o que quiserem, mas este é o orçamento, temos maioria e é assim que vamos aprovar". E também não vão querer ouvir a oposição, ou vão ouvir, mas não vão querer contributo nenhum. Mas na verdade, o PAN e o LIVRE tiveram esta capacidade de dizerem, o do PAN disse mesmo que tal como está não concordam, mas vão à assembleia tentar dar contributos pra que melhore. E o LIVRE também quer discutir este orçamento na assembleia para dar um contributo. Não foi aquele não explícito da cultura política em que dizem: "Não é de nossas cores, seja lá quem for que faça este orçamento, não somos nós e por isso está mal". E acho que esta cultura política faz falta um bocado ao país e por isso vai um 14 para a reação destes dois líderes do PAN e do LIVRE.

Fica então um 14 para estes dois partidos que querem discutir o orçamento na especialidade, com alterações que lhes permitam ajudar a aprovar o documento. Está feito o "E o Vencedor É...".