Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

E o Vencedor é na Rádio Observador, com Judite França, António Costa e Pedro Benevides. Salazar e Pedro Sánchez entraram neste primeiro dia de debate da proposta de orçamento do Estado apresentada pelo governo. Há ainda notas para a saída de Mariana Mortágua da liderança do Bloco de Esquerda e vamos falar também sobre os preços das casas à boleia da manchete do jornal Público. Começamos este E o Vencedor é com o documento que vai gerir as contas públicas no próximo ano e que há de passar sem grandes percalços na votação de amanhã, terça-feira, na generalidade. O PS pré-anunciou logo que vai viabilizar. Há, no entanto, sinais políticos e a substância do debate para analisar e para pontuar aqui. Vamos começar pela substância e também pela forma, já agora. Vimos deputados do PS e do LIVRE aplaudirem o líder do PSD e primeiro-ministro, o que é pouco comum nestes debates, Judite. Foi quando o líder do Chega disse que não tem saudades do tempo da ditadura, mas que se o país tivesse um, dois ou três Salazares, voltou a insistir nesta expressão que marcou a entrevista que deu há alguns dias à SIC. Se o país tivesse Salazares, no plural, haveria menos corrupção. Na resposta, Luís Montenegro disse que a ditadura é ela própria a corrupção, frase que levou aos tais aplausos de outras bancadas, para além das bancadas que apoiam o governo. Tens uma nota para este episódio?

Tenho. São aquelas querelas de alcrim e manjerona muito próprias dos debates parlamentares e correu bem a Luís Montenegro ter a bancada do Partido Socialista e do LIVRE a aplaudir. Acho que deve ter sido a primeira vez que aconteceu. Acho eu.

Daí que estamos a assinalar aqui, não é, Ren?

Daí que é, de facto, assinalável. André Ventura já tinha utilizado esta, não sei como é que hei de dizer em português, só me lembro de butade em francês. Digam, ajuda.

A palavra em português talvez não seja simpática. Na verdade, isto é um slogan, porque ele tem repetido isso todos os dias, tantas vezes, que isto é um slogan de campanha e não é mais do que isso, mas é um slogan muito eficaz.

Isto é uma patetice, não é? É uma frase tipo pateta.

É uma frase tipo pateta.

Eu, por acaso, acho que não é apenas uma patetice ou um slogan, porque os políticos quando arranjam slogans, arranjam slogans que traduzem a sua visão das coisas. Para agarrar, eu não vou tão longe dizendo que André Ventura quer uma ditadura em Portugal, mas quer um exercício de poder similar.

Próximodíssimo. E repara, ele nunca diz assim: "É preciso ter três Salazares." Isto é, se olharmos na sua essência, uma declaração covarde, porque vem sempre agarrado: "Eu não tenho saudades desse tempo." Ou: "Eu gosto muito de viver em democracia, eu não sei o quê, mas..."

"Há um exercício de poder." "Se houvesse aqui Salazar, mas..." Não é?

"Se houvesse aqui três Salazares, isto não havia corrupção." Quando eu digo que é um slogan, é uma frase que é pra ficar na cabeça das pessoas, para quem esta frase se dirige. Porque é, como aliás é hábito no Chega, apropriação de conversa de café ou conversa de táxi para discurso político. Mas é uma frase que em si quer dizer tudo e o seu contrário. Ele não está a dizer que defende que Salazares...

Só diz isso por causa da corrupção.

Só por causa da corrupção. Nisso Montenegro, de facto, esteve bem em ter apanhado a pequena grande contradição desse gesto. Mas na verdade, isto é repetido tantas vezes, todos os dias, com tanta intensidade, que claramente é um chavão.

É um chavão.

É um chavão. E tem um propósito.

Tem, claro. E eu acho que cumpre o propósito para quem se dirige. Atenção, acredito que cumpra e acredito que haja muitos saudosistas do regime quando se fala nestas questões da corrupção. Vamos esquecer que todas as outras existiram, vamos só concentrar-nos nesta como se esta fosse a única e como se esta fosse uma virtude do regime anterior. Mas isto para dizer que Montenegro aproveitou muito bem a saída e aproveitou muito bem a resposta para dizer que, de facto, a ditadura é um sistema corruptivo em si próprio. E depois também aproveitou a comparação, isto porque Pedro Sánchez diz que não vai cumprir a invetiva de Espanha de acabar com o desconto do ISP, do Imposto sobre os Combustíveis. Basicamente, André Ventura disse que era preferível que Luís Montenegro fosse mais como Pedro Sánchez e que também fizesse o mesmo em Portugal. E Luís Montenegro teve alguma graça porque disse que ele preferia três Salazares e três Pedro Sánchezes, e que Pedro Sánchez não é propriamente um exemplo de gestão governativa e de políticas públicas, o que me parece mais ou menos evidente.

E a nível de corrupção teve algumas dores de cabeça também.

Se juntar as duas coisas, então fez o pleno. E portanto, é normal que este seja um episódio destacado deste debate orçamental, que de resto não tem história.

E daí, já agora, ter sido tão eficaz, porque é uma frase acerca da qual voltamos a falar. E eu estava a ver aqui os noticiários nas televisões e todos os candidatos presidenciais, todos eles comentaram, referiram, condenaram.

É irresistível, não é?

É irresistível. Ou seja, do ponto de vista da eficácia, isto para André Ventura, ele consegue estar nos dois planos ao mesmo tempo, na campanha presidencial e como deputado no Parlamento, como líder da oposição no Parlamento, ele consegue estar nas duas frentes com uma frase apenas, que por si só é vaga o suficiente para não o comprometer, mas para atiçar alguns ouvidos mais sensíveis.

Vamos ver, eu acho que pro público do André Ventura, os eleitores naturais do André Ventura, a afirmação passa. Aliás, é esta visão Que o trouxe até aqui. Exercício de poder, vai tudo pra cadeia, nem há julgamentos.

Processo sumário.

Siga tudo pra cadeia e até o fim da vida, ao fim dos tempos. Isto insere-se nisso. Eu não faço a injustiça de tirar daqui a leitura de que André Ventura quer impor uma ditadura quando ou se chegar ao poder, mas que é um exercício de poder, de facto, vamos pôr as coisas assim, musculado. E aliás, a forma como já se agarrou ao que podem ser os poderes presidenciais, uma espécie de refundação do regime, de o presidente da República tem que ter mais poderes, exercer mais poder, alterando este equilíbrio entre os que consideram que isto é um regime parlamentar e outros semipresidencial, avaliando um ou outro, um peso maior ao outro em cada momento histórico. E André Ventura vem dizer: "Não, o presidente da República, no fundo, deve ter um exercício de poder mais próximo do francês, mais presidencial." Isto, obviamente, pode até colher junto de um certo eleitorado, mas creio que também dá muito espaço, como aconteceu hoje, mais do que Luís Montenegro, para ser aproveitado fora do Parlamento pelos outros candidatos presidenciais.

E ofuscando aqui um pouco também o debate sobre o orçamento em si. E houve aqui avisos por parte do primeiro-ministro, embora este orçamento já tenha viabilização garantida, pelo menos na generalidade, pelo PS, diz Luís Montenegro que a margem é curta, muito curta, e pediu responsabilidade aos partidos. E como sabemos, José Luís Carneiro, o secretário-geral do PS, quer um aumento permanente das pensões. Será aqui o calcanhar de Aquiles para depois, pra votação final global, António?

Eu acho que José Luís Carneiro esteve bem ao descalçar a bota da viabilização, retirou esse tema de cima da mesa. Creio que entra em contradição quando diz que o orçamento é realista e depois quer um aumento permanente de pensões, porque ou bem que é consistente, realista e está bem construído, ou então não é muito credível em cima de um orçamento que o PS considera que está por um fio e até vai, bem do ponto de vista político, buscar as análises críticas do Conselho de Finanças Públicas sobre a suborçamentação da despesa e de que não é provavelmente muito consistente pra depois dizer em cima disso, ainda nos vamos arriscar mais, comprometendo um aumento de pensões permanente, que é isso que o PS quer e que o governo diz que não dá e que só dará em condições de execução orçamental que seja confortável e possível dar. Ora, nesse aspecto, eu creio que José Luís Carneiro dá um espaço ao governo e a Luís Montenegro, e acho que mirandessamente se agarrarem precisamente ao ponto de, com a previsão de um saldo orçamental marginal de 0,1%, 260 milhões, 270 milhões, qualquer coisa que corra mal, um crescimento econômico um bocadinho mais magro. Com eventualmente subsídio desemprego a ter que entrar mais do que está previsto. A receita não crescer tanto como está previsto e lá se vai o orçamento. Claro que nós sabemos que os ministros de Finanças todos, aliás, Centeno inaugurou essa boa prática de subestimar a receita pra depois dizer que faz um brilharete com o orçamento e ter as cativações e uma margem pra cortar na despesa se fosse necessário. Portanto, eu creio que apesar de tudo, a folga, eu não quero dizer a folga, mas a margem do ministério da Finanças é superior a este 0,1, mas é mesmo assim muito limitada.

Deixa-me só falar aqui um bocadinho sobre isso, do Partido Socialista e sobre aquilo que saiu deste primeiro dia de debate, que é precisamente a questão das pensões. Não tem mal nenhum que o PS fale pra aquilo que é o seu eleitorado natural. E nós sabemos que o eleitorado mais velho, os pensionistas e as pessoas mais velhas são o grosso do eleitorado do Partido Socialista neste momento. O problema é precisamente esse, é que o PS está a ficar acantonado no eleitorado mais velho e aquilo que sai do discurso do líder do Partido Socialista é precisamente um país que serve apenas distribuir dinheiro pelos pensionistas. É uma ideia, claro, estou a falar aqui só de uma pincelada, mas daquilo que sai deste primeiro dia de debate é isso. E isso revela o problema que o Partido Socialista tem. O Partido Socialista está a ser incapaz, mesmo nestas oportunidades em que o orçamento já está viabilizado e portanto podia fazer aqui um discurso político um bocadinho diferente, não resiste à tentação de ir falar pro seu eleitorado do costume. O problema é que esse eleitorado, por força das circunstâncias da nossa vida enquanto seres humanos, é um eleitorado que vai desaparecer. O próprio PCP sabe bem disso, porque sofre do mesmo problema. E eu acho que o PS tem mesmo de encontrar uma forma de propor um país diferente, que país é que quer, que propostas mobilizadoras, inspiradoras, que visão pro país é que quer, em vez de estar sempre a fazer o discurso pra os mesmos do costume. Esta conversa não mobiliza ninguém. Se o PS não ganhou eleições com esta conversa, e tem tido alguns desaires nos últimos tempos, também não me parece lógico que agora, que está numa fase em que está a tentar reconquistar algum espaço eleitoral, volte a centrar o seu discurso no orçamento que já viabilizou, exatamente nisto. Falta um discurso de mobilização do país a um partido que foi e que é essencial no funcionamento

regular da nossa democracia, falta um rasgo, falta outro tipo de discurso. Isto que nós vimos hoje não é um grande sinal para o que o Partido Socialista pode vir a ser, porque o que nós temos visto noutros países europeus é que partidos socialistas que estiveram no governo, de repente tiveram desaires eleitorais enormes, dos quais dificilmente recuperaram. Portanto, eu acho que isto é mesmo uma oportunidade, não para olhar para as propostas que estão a ser feitas em cima da mesa, porque já sabemos que não há grande margem para que elas sejam viabilizadas, mas para a escolha que foi feita pelo Partido Socialista em termos de discurso para o país. E não é propriamente uma novidade e também não me parece que seja a estratégia certa.

E que nota é que merece? Não sei se é o PS que queres pontuar nesta primeira ronda de notas, neste "E o vencedor é?".

Isto agora é um exercício difícil para ti.

A Judite começou a falar primeiro, portanto eu acho que a Judite deve ser a primeira a dar notas.

Estás a passar a bola.

Eu vou dar uma nota a Luís Montenegro, porque acho que safou bem aquele momento e acabou por transformar aquele momento. Tirou o foco do Orçamento de Estado, que aliás não tem grande história para ter foco, e acabou por aparecer nas televisões a dar um ralhete e a dar uma lição de democracia a André Ventura. E portanto, acho que Luís Montenegro leva um 14 por ter safado bem esta parte. Eu só quis que a Judite falasse primeiro que é pra não parecer que ia roubar os argumentos da Judite e deixá-la dar, porque eu concordo inteiramente. Acho que esta questão de desmontar a história de salazarismo como a solução para a corrupção, acho que foi um bom golpe de Luís Montenegro e portanto eu acompanho aqui o 14 da Judite.

Eu dou um 12, porque apesar de tudo é quase uma espécie de pênalti. O André Ventura fez falta dentro da área, estava mesmo a pedir um golo a Montenegro. Portanto, um 12 pela capacidade de marcar bons pênaltis, que às vezes também se falham.

Isto podia estar já pensado antes, se calhar estava. Ainda assim, a ligação ditadura-corrupção acho que correu bem.

Sim, toda a gente sabe que as ditaduras são regimes extrativos que corrompem. É por isso que eu digo que é demasiado fácil.

Então vai gente que sabe menos André Ventura.

Não, ele também sabe.

Bom, a primeira ronda de notas neste "E o vencedor é?" foi positiva. Já a seguir à síntese de notícias, vamos falar também sobre os preços das casas e a saída de Mariana Mortágua da liderança do Bloco de Esquerda e do Parlamento. Arranca agora a segunda parte de "E o vencedor é?", na tarde política, com os avaliadores de serviço, Judite de France, António Costa e Pedro Benevides. Na primeira parte houve notas para o debate orçamental em curso com o primeiro-ministro na Assembleia da República. Um dos partidos com assento parlamentar está numa fase de transição, o Bloco de Esquerda, e vai ser este o primeiro tema desta segunda parte de "E o vencedor é?". Mariana Mortágua vai só esperar pelo fim deste capítulo orçamental, vai esperar pela votação final global que está marcada para novembro. Depois disso, a coordenadora do Bloco abandona o cargo de deputada única no Parlamento e também a liderança do partido. Judite, que avaliação é que fazes desta decisão e do timing?

A decisão eu acho que é acertada, o timing também não me parece mau. Eu acho que, de facto, diz Mariana Mortágua que estava a pensar nisto já depois do resultado das eleições legislativas. A confirmação nas eleições autárquicas é de que, de facto, o caminho não era este. E portanto, quando anunciou, escreveu uma carta aos militantes, lá apresentou as razões para o estado em que deixa o Bloco, mas diz que de alguma forma é a liderança dela e as suas circunstâncias, ou seja, a esquerda neste momento está a ser prejudicada e isso também tem prejudicado o Bloco de Esquerda. Eu não duvido que a forma como agora há um novo panorama político tenha prejudicado o Bloco de Esquerda e, já agora, também tenha prejudicado e esteja a prejudicar o PCP. A verdade é que não é nenhuma coincidência que Bloco e PCP vão perdendo eleitores enquanto o Livre vai ganhando eleitores. E portanto, quando isso acontece, parece-me que a análise que Mariana Mortágua faz é coxa, porque objetivamente há uma cota parte de culpa da sua liderança e do Bloco de Esquerda per se, e não é de agora, porque o Bloco de Esquerda vem em queda ainda com Catarina Martins. E portanto, eu acho que o timing é o acertado, acaba por apanhar a próxima convenção, que aliás já foi adiada tantas vezes que agora finalmente vai realizar-se, e necessariamente tem que se realizar, porque fica um vazio de poder. E sobre isso, se quiseres depois falar sobre José Manuel Pureza, que é o nome que se perfila.

Sim, deixa-me só perguntar aqui ao Pedro se Mariana Mortágua foi mais prejudicada pela maneira como liderou o Bloco ou pelas circunstâncias em que pegou no partido.

Eu acho que talvez tenha sido um pouco das duas, mas seguramente eu diria que as circunstâncias ditaram aquilo que tem sido o resultado do Bloco até agora. Claro que nós não sabemos o que é que vai acontecer daqui pra frente. O Bloco pode ressuscitar, mas o caminho que está a levar não dá pistas nesse sentido. Sobretudo, porque há aqui uma coisa muito interessante, e eu acho que o artigo que hoje o José Manuel Fernandes escreveu no Observador é muito interessante para se perceber, para quem não se lembra bem da gênese do Bloco de Esquerda, para quem não se lembra de como é que eram os primórdios do Bloco de Esquerda

Que tipo de eleitorado é que o Bloco de Esquerda cativava? Também as circunstâncias que ditaram o sucesso do Bloco de Esquerda, nomeadamente naquilo que se chamou na altura as causas fraturantes, em que havia um amplo espaço para um partido ter esse tipo de discurso para uma sociedade que estava preparada para começar a avançar em determinadas matérias e depois a questão da troika, que com alguns solavancos, o Bloco também conseguiu cavalgar com relativo sucesso. Agora, o problema do Bloco de Esquerda é que, na sua gênese, é um partido com ideias que poucas vezes foram tornadas claras para os eleitores. O Bloco de Esquerda sempre foi mestre na arte do disfarce, parecendo um partido menos agressivo, se quisermos, ideologicamente, do que, por exemplo, um PCP, que é muito claro para o que vem e não tem nenhum pudor sequer em afirmá-lo, mesmo contra a corrente e mesmo sofrendo danos, que também sofre do ponto de vista eleitoral. O Bloco, não.

O Bloco suaviza-se quando é preciso.

Suaviza-se quando é preciso. Eu nunca me esqueço, cobrindo várias campanhas eleitorais, dos momentos em que Catarina Martins parecia uma Betinha de Cascais, porque o cabelo ficava mais loiro, o corte de cabelo ficava mais suave, aparecia sempre com um fiozinho ao pescoço para precisamente passar a imagem de uma política moderada. Eu lembro-me de entrevistas aqui no próprio Observador, quando eu estava cá a trabalhar, ficou famosa uma das frases em que ela dizia que o programa do Bloco de Esquerda era social-democrata. Era uma boa frase também, porque ela não dizia que o Bloco era social-democrata, mas dava a entender que havia ali propostas que não assustavam ninguém. E, portanto, o partido sempre foi bom a esconder ao que vinha verdadeiramente.

Mas nessa fase correu muito bem.

Nessa fase correu muito bem. E, de facto, eles foram mestres nisto. O problema é que, entretanto, vai se esvaziando aquilo que poderá servir de cartaz. E agora, nesta última fase-

Sobretudo as causas fraturantes.

As causas fraturantes vão se resolvendo. Deixaram de existir e passou a haver outro tipo de discurso, um discurso até mais transparente, porque quando nós víamos Mariana Mortágua dizer: "O Bloco taxa os ricos", a coisa já começava a ser bastante mais clara. Problema: não teve grande adesão por parte dos eleitores, porque efetivamente o Bloco sempre teve este problema entre aquilo que era o eleitorado que ambicionava, que era um eleitorado muito sensível a estas causas da esquerda radical, e depois o eleitorado que efetivamente tinha. E o Bloco sempre foi um partido que estranhamente capturou muito do voto de classes médias instruídas com rendimentos liberais.

Urbanas.

Urbanas. E o problema é que entre a mensagem política e aquilo que esse eleitorado quer, as coisas nem sempre casaram. E agora nesta fase começa a perceber-se que não há uma verdadeira sintonia e pode estar aqui o fim ou o lento arrastar de um projeto político que foi muito interessante, mas que talvez tenha passado o seu tempo.

Isso, mas que tem a hipótese de se refundar de alguma forma.

Sim, vamos ver.

Vai precisar de uma refundação. Não basta só mudança de liderança. Eu não sou tão benigno ou benévolo para Mariana Mortágua, porque ela trouxe a agressividade que Catarina Martins não tinha ou que não expunha. Até poderia ter, não expunha. Seguiu deliberadamente esse caminho.

No meu caso, acho que tentou não o fazer. Eu acho que se te recordares nas bases legislativas, tentou não expor demasiado essa agressividade.

O que é interessante é: Mariana Mortágua, também alguns se recordarão, ganhou protagonismo com uma comissão de inquérito em que questionou Ricardo Salgado. Foi o ponto alto do ponto de vista de afirmação para quem não conhecia, e eram muitos que não conheciam no Parlamento, Mariana Mortágua. E sai, com a exceção do Ventura e do Rui Tavares, porque claramente nesta fase o Livre ocupou esse espaço. E em dois anos e meio tentou, em seio nas legislativas, trazer os históricos do partido, que não serviu para nada. Nenhum deles foi obviamente eleito para o Parlamento e nem sequer serviram para atrair outro tipo de públicos, nomeadamente Porto e Lisboa, por exemplo, para onde estava Mariana Mortágua, aqui em Lisboa. Ora, chega às autárquicas e também falha redondamente. A noite das autárquicas foi aliás penosa, porque ouvíamos Mariana Mortágua dizer: "O caminho a seguir é o correto, e foi o correto, apesar dos resultados." O que soou a uma espécie de novo PCP, porque até o PCP reconheceu que se calhar a coisa não tinha corrido tão bem. Para Mariana Mortágua, o caminho era este e tinha que continuar.

E foi particularmente exemplar da falta de causas do partido. A aposta na Flotilha foi obviamente um desastre. Foi um desastre absoluto.

Falhou totalmente. Apostou tudo ali depois de uma campanha em que, se se recordam, a grande bandeira do Bloco era a habitação. E sendo um problema comum e que todos os partidos endossaram, com visões diferentes, mas que era causa para toda a gente, porque obviamente é um problema central e não vale apenas pela habitação por si, como se fosse pouco, vale por muitas coisas. Mas isso não agarrou, tentou a Palestina, isso perdeu-se e ao fim de três meses acaba por reconhecer que tem que dar lugar a outro e eu diria que o ponto já é de refundação.

E por falar em refundação, Judite, José Manuel Pureza é o nome de que se fala neste momento, embora ainda esteja tudo em aberto, será capaz de reerguer o Bloco, se for ele ou quem vier?

Enfim, vale o que vale o que eu vou dizer, mas eu acho que José Manuel Pureza é um bom nome, é um nome experiente, é um nome com muita experiência parlamentar, experiência até como vice-presidente da Assembleia da República, portanto, tem de facto um lastro muito grande para mostrar Acho que tem outra bonomia na sua forma de lidar politicamente com a exposição pública e acho que, à primeira vista, parece-me um bom candidato à convenção do Bloco.

Falta ainda um tema neste o Vencedor É, o da habitação, trazido aqui pelo António Costa, à boleia da manchete de hoje do jornal Público: o preço das casas subiu mais em zonas com maior aumento da construção. Que ilações é que tiras disto também?

Vou fazer um disclaimer, porque nós não temos muito hábito na imprensa portuguesa de analisar trabalhos de outros órgãos de comunicação social.

E mal.

E mal. E mal porque somos pouco exigentes connosco, com o que se faz e, desde logo, connosco próprios. Mas eu não resisto a isto porque eu acho, francamente, que isto é um mau trabalho jornalístico. E tenho que o dizer por dois aspetos. Haveria muitos a dizer.

Tens de ser breve, naturalmente.

Vou ser breve. Regiões com maior aumento de construção são onde os preços das casas mais sobem, cria a ideia, presumo que é esse que é o objetivo, se não for, diria pior, que há uma causa-efeito. Constrói-se mais, mas os preços ainda aumentam mais. E depois, no artigo, no segundo parágrafo, tem esta pérola de ciência econômica, que diz que afinal a teoria econômica estudada durante tantos anos de que a oferta e a procura se equilibram e, portanto, havendo mais oferta, obviamente que a tendência é que os preços abrandem. A notícia diz que seria uma teoria credível, eu estou a citar, não fosse, no caso da habitação, embater na realidade. Temos aqui toda uma nova ciência econômica, que a teoria da oferta e da procura não existem neste artigo. Ora, o que é uma evidência é que os preços da habitação continuam a subir. Isso é uma evidência. Também é uma evidência que durante muitos anos, mais de uma década, o stock de construção, portanto a construção nova, foi tão baixa que mesmo aumentando em algumas regiões a construção, é evidente que é muito inferior às necessidades atuais, não é às futuras, só para reequilibrar o mercado. E portanto, é evidente que esta construção nestas zonas responde precisamente ao fenômeno contrário. É que, obviamente, qualquer construtor, como qualquer um de nós, se tiver um negócio na nossa vida pessoal, procura fazer os seus melhores negócios. Os construtores, os promotores, percebem que há muita procura em determinadas zonas, e há. Por quê? Porque há outras tão caras, nomeadamente parte de Lisboa, em que não se chega, e constroem mais, estão a construir mais nessas zonas. O ponto de partida para uma construção tão baixa, obviamente, é que os preços, é que a construção nessas regiões aumenta. Mas isso, por si só, desde logo nesta fase, não significa, por um lado, infelizmente pra todos nós, que os preços vão baixar, nem significa, muito menos, que haver mais construção significa mais aumento de preço. Pelo contrário, eu diria que isto foi um mau serviço.

A tua nota nesta ronda vai pra este trabalho?

Vai pro trabalho, pois. Eu podia seguir a tese mais fácil aqui do Benevides e dar 20.

Estás a dizer que eu vou pelo facilitismo?

Não, mais fácil neste caso em concreto. Aplicar a tua tese, que era mais fácil pra mim nesta tese, que é dar um 20 a quem procura casa e tem esta dificuldade, e é hercúleo o trabalho, mas vou dar um cinco ao público por este trabalho, porque, de facto, não cumpre os mínimos pra ser feito neste contexto.

Pedro, rapidamente a tua nota sobre o Bloco de Esquerda.

A minha nota sobre o Bloco de Esquerda vai para o José Manuel Fernandes. Vou lhe dar um 17, também pra não dar uma nota muito alta. Primeiro, porque ele não é generoso a dar notas. Segundo, porque é um jovem que ainda tem um futuro promissor à sua frente, então é pra incentivá-lo a continuar. E já agora, que aprenda, pode dar notas altas no Vencedor É, José Manuel, fica aqui o apelo.

E a tua nota.

E a minha nota. Parabéns por esse artigo no Observador.

O artigo tem este título: "O Bloco está a morrer, paz à sua alma". Judite, falta só a tua nota.

Eu vou dar à Mariana Mortágua um cinco também, porque acho que a avaliação do seu trabalho na liderança é francamente negativa.

Obrigada, Judite de França, Pedro Benevides, António Costa, e o Vencedor É regressa amanhã, logo pela fresca, nas manhãs 360 da Rádio Observador, depois das 08h30.