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Uma vez ou outra, sim, sofri xenofobia, mas foram coisas muito específicas. Sei lá, às vezes eu botei uma coisa no meu Instagram, tinha 50 comentários positivos, aí tinha um: "Volta pro seu país". Sempre tem um ou outro que te fala isso. Mas eu não sofri xenofobia, preconceito na rua, nunca. Mas sim, conheço imensos brasileiros próximos de mim que já sofreram. É muito triste ser discriminado em qualquer circunstância. Qualquer preconceito é doloroso. Ainda mais pra mim, que estava numa posição privilegiada. Fazer entretenimento e mesmo assim ouvir isso é muito triste, é muito desagradável. Que seja de uma pessoa, que seja de uma pessoa que está falando sem base nenhuma, é triste.

Nasceu e cresceu numa casa em que a disciplina e a justiça sentavam à mesa. Filho de um juiz e de uma procuradora, parecia ter diante de si um destino certo: seguir uma vida segura, previsível. A verdade é que foi por aí que começou, mas havia uma inquietação maior, um apelo silencioso que não se calou. O palco chamou e ele respondeu. O que começou por ser um risco transformou-se mais tarde numa vocação e depois numa carreira internacional. De Brasil a Portugal, passando pelo Irã, gosta de abalar preconceitos, nos obrigar a olhar para o mundo com outros olhos. E hoje continua a desafiar-se, a atravessar fronteiras, a viver entre diferentes culturas e a sonhar com uma vida onde caiba também a família que um dia quer construir. Adriano Tolosa, em "40 Minutos". Bem-vindo aqui à Rádio Observador.

Muito obrigado, João.

Houve uma coisa que me saltou muito à vista quando fazia esta pesquisa pra esta entrevista, da tua vida no Brasil, porque tu andas muito entre, como disse aqui na introdução, entre Brasil, Portugal, Irã, já lá vamos falar sobre isso. Mas olhando para trás e pra essa vida em São Paulo, como era essa casa em que a disciplina e a justiça sentavam sempre à mesa?

Não era só disciplina e justiça. Havia amor, enfim, havia família. A família. A casa ainda existe, eu que não estou lá. Mas sim, era isso. Meus pais são juristas e foi sempre da vontade deles que eu seguisse essa carreira, essa linha. Mas desde criança eu sempre tive fascínio pela arte de interpretação. De esporte eu sempre gostei, mas enfim, enquanto as crianças gostavam de fazer brincadeiras específicas, o meu programa preferido sempre foi ir ao teatro. Eu adorava ir no teatro infantil, sempre gostei disso.

O que te fascinava no teatro?

A magia. Eu sempre fui fascinado pela magia do faz de conta, de você poder ser outras coisas, ter outras vidas, poder criar, poder entrar num universo paralelo, digamos assim. Sempre fui fascinado por isso. Sempre assisti o mesmo filme, quando eu gostava, mais de 10 vezes, eu via telenovelas, eu via desenhos. Sempre fui fascinado por este mundo.

Decoravas as falas?

Decorava as falas e brincava de representar também, mas eu não via isso como uma possibilidade de seguir carreira. Era apenas uma brincadeira de criança, um hobby, uma paixão. Eu não tinha essa expectativa, nem essa ambição. Nem imaginava, percebe isso? Era uma coisa muito distante.

Mas talvez, se calhar, por não ter ninguém na família que seguisse essa parte artística. Se calhar, por falta de referências e de não saber como é que isso se podia alcançar?

Exato. Isso era pra mim como um universo paralelo. Era um universo paralelo, uma brincadeira. E eu não me imaginava, durante a minha infância e até minha adolescência, nunca me imaginei construindo uma carreira, nunca imaginei o bastidor disso, como é que seria. Então pra mim era isso, era um universo mágico paralelo, que eu era apaixonado, mas eu era apenas, ao mesmo tempo, um espectador, porque eu assistia muitas vezes, e era um louco fazendo isso, brincando disso. E aí, depois da minha adolescência, dei uma certa afastada.

Por alguma razão em especial?

Acho que quando a gente é criança, a criança tem uma coisa maravilhosa de que tudo é possível.

A inocência.

É, a inocência. Eu posso pegar isso daqui e achar que isso daqui é um disco voador, é um dinossauro, é não sei o quê, e a criança realmente acredita nisso. A criança acredita no que ela quiser. Isso que é lindo da criança, essa inocência, a força da imaginação. A gente vai crescendo, a gente vai perdendo a graça das coisas. A gente vai achando que fica mais difícil de se divertir quando se vai ficando adulto, acho eu. E acredito que a arte da representação é, pra mim, uma certa maneira de você resgatar a criança interior. Toda arte, numa certa maneira, a música também A pintura, mas a interpretação pra mim ainda mais, porque eu acho que é muito semelhante pra mim. O próprio Stanislavski, o russo, que é uma escola de teatro, dizia isso, que o ator tem que ter uma coisa que é, entre aspas, o "e se", o "e se" mágico. Por exemplo, qualquer papel que eu vá interpretar, se eu vou interpretar um bandido, um psicopata, enfim, qualquer coisa que seja diferente de mim, eu tenho que usar esse "e se". E se eu fosse criado desta maneira? E se eu nascesse numa família assim? E se eu tivesse passado por isso? E a gente ter que ter essa inocência é um paradoxo, que ao mesmo tempo é uma inocência, mas ao mesmo tempo é uma certa maturidade de você se deixar acreditar nessas coisas. E você realmente acreditar nisso. Se você acreditar que você passou por essas circunstâncias que você não passou, o público vai acreditar. Entende? Então, pra mim é um certo resgate à infância. Você pode ter 80, 90, 100 anos, estar atuando, você tem que ter a sua crença interior, porque se você não tem essa inocência, essa crença no imaginário, o público também não vai ter, percebe?

E se eu te perguntasse qual é a coisa da infância que sentes mais saudades, é a inocência? A vontade de viver aqueles tempos e não ter esta responsabilidade que hoje tens, de um homem feito.

Exato. É bem por aí. Talvez a arte seja uma certa fuga disso. É isso, porque nós não temos essa responsabilidade. Quando estamos a interpretar um papel, seja na televisão, no teatro, no cinema, diante daquelas circunstâncias impostas pelo guião, nós podemos fazer o que a gente quiser sem responsabilidades. Eu posso matar alguém, eu posso brigar com alguém, eu posso roubar, eu posso fazer qualquer coisa que eu não vou ser punido.

Exato.

Isso é legal, interessante.

Tu esperavas que tivesses um caminho dito mais tradicional, não é? Porque tu estudaste psicologia durante quatro anos, não foi?

Cinco.

Cinco. E foi no último ano que entraste na Escola Superior de Artes Célia Helena.

É.

E os teus pais não sabiam.

Não sabiam. Foi no terceiro ano da faculdade de psicologia. Foram cinco anos e no terceiro eu entrei na escola de teatro, que eram três anos de teatro.

Sim.

Era um curso profissionalizante, que se diz no Brasil. É praticamente uma universidade de artes cênicas. Não, eles não sabiam. Eu entrei, foi um dia que eu estava assistindo alguma coisa e me deu isso. Eu estava meio triste com algumas coisas, meio insatisfeito, não sabia se eu queria seguir a psicologia. Apesar de eu gostar muito da psicologia, não ter me arrependido de ter feito.

O que te fascinava na psicologia?

A psicologia é muito interessante por duas coisas. Primeiro pelo autoconhecimento. A gente começa a entender algumas coisas que a gente não entendia. Ou seja, a gente começa a estudar tudo aquilo, Freud, Jung, Lacan, Melanie Klein, psicologia comportamental, behaviorismo, todas aquelas linhas, e a gente começa a se encontrar ali. Você fala: "Poxa, realmente, olha, tem um pouco de mim aqui, tem um pouco de mim ali". Então eu acho que a psicologia é linda pro autoconhecimento. Eu acho que deveria ser uma matéria básica, não obviamente os cinco anos, mas você pegar ali, condensar as coisas mais importantes e dar nas escolas. Sei lá, isso é minha opinião. Eu nem sei como é que está o método educacional hoje, mas na minha época, por exemplo, tinha que estudar coisas assim, química, física. Tudo bem que é interessante, mas se eu perguntar pra você a tabela periódica de química, você não vai lembrar. Você estudou como eu.

Os básicos, se calhar, aqueles principais.

É, os principais, mas você fica ali um ano, dois anos, três, estudando coisas que não são tão importantes. Agora, psicologia, por exemplo, é uma coisa que toda gente vai usar em determinado momento, vai se identificar. Eu acho que a psicologia é linda por isso, pelo autoconhecimento e também pelo outro. Eu acho que quando eu comecei a fazer psicologia, eu comecei a ser uma pessoa um pouco mais tolerante com a minha família, com os meus amigos. Eu comecei a compreender mais, a aceitar que os outros são diferentes de mim e sim, me deixou uma pessoa mais compreensiva e mais tolerante. Eu acho que qualquer um que estude cinco anos de psicologia fica um pouco mais compreensivo, mais tolerante, porque você começa a entender que todo mundo tem razão pra ser do jeito que é. Todo mundo passou por coisas difíceis.

É compreender essas razões, no fundo.

Pois, todos nós temos. Tem aquela frase que é maravilhosa, não me lembro quem é o autor da frase, mas a frase em si eu acho maravilhosa, que é: nunca julgue ninguém por mais brilhante que a pessoa parecer, porque a jornada de todos é muito difícil. Todos. Então, eu acho que a psicologia é um curso lindo, mas eu não me via como profissional. Eu não me via fechado num consultório.

Ou seja, gostaste da parte dos ensinamentos, daquilo que te trouxe, mas não te vias a exercer a profissão de uma forma contínua.

Exato, não me via. Me via, sim, no início. No início eu estava muito empolgado, porque eu não sabia o que eu queria fazer. Ainda acho muito injusto você obrigar, porque obriga. A sociedade obriga alguém com 18 anos, um adolescente Tomar uma decisão que você vai querer seguir pro resto da sua vida. Tem gente que sim, tem gente que já nasce sabendo o que quer. Tem gente que decide com 30, com 40 anos o que quer fazer. Então eu acho muito cruel da sociedade ocidental, e parte da oriental também, impor pra alguém com 18 anos. Com 18, não, com 18 já tem que começar a universidade.

Alguns com 17, até.

Alguns com 17. Então com 15 você já tem que decidir o que você quer fazer. Então era aquela pressão toda, e meus pais queriam que eu fizesse direito, e eu não tinha nenhuma vontade de fazer direito. Então o fato de eu conseguir ser aprovado na psicologia, de ter aquele negócio ok.

Foi meio que um descanso, se calhar, pra eu.

Foi um descanso. E pra mim também. Porque se você saía do colégio e não entrava numa universidade, é porque você era vagabundo, você era preguiçoso, você era burro. Você era um outsider. Então eu queria me enquadrar ali. Então a psicologia pra mim era o que eu via mais suportável de fazer, porque tudo que é humano me interessa. E se você pegar ali também a psicanálise, ela não deixa de ter uma veia com a arte, porque você está contando histórias. A psicanálise trabalha com mitos. Com o mito de Édipo, o mito de Electra, você vai se identificando ali. E eu acho isso lindo. Então de uma certa maneira, eu usei também pra representação o que eu aprendi na psicologia, mas é isso, eu não me via como um profissional da área, não me via num consultório atendendo 10 pessoas por dia, fechado ali. Eu sou nômade, eu não tenho casa, eu estou cada hora num lugar, no próprio Brasil. Porque eu sou de São Paulo, mas quando eu estou a trabalhar, eu estou no Rio. Quando eu não estou a trabalhar, eu fico numa quinta, que é no meio do mato. E a minha família, meus amigos são de São Paulo, então sempre a viajar.

Sempre de um lado pro outro.

Sou meio nômade. Eu gosto dessa vida nômade, de desbravar e de experimentar e chegar em sítios novos. E as coisas foram acontecendo, não programei vir trabalhar em Portugal, não programei vir trabalhar no Irão, não programei nada disso, foi o universo que foi me dando. Então realmente eu sou muito grato por isso. Não é todo mundo que gosta. Tem gente que me fala: "Mas como assim você não se cansa? Mas como assim, você não tem saudades?"

Como é que é, por exemplo, um mês na tua vida? Vamos supor agora, por exemplo, o mês passado. Como é que foi em termos de viagens, deslocações, como é que isso se processa?

Como é que é minha vida? É muito difícil, porque cada mês é um mês completamente diferente do outro. O mês passado, eu estava fazendo um trabalho no Brasil, eu fiquei um ano contratado na Record, eu fiz duas novelas, uma série e uma novela, que foi "Reis", a última temporada, e "Paulo, o Apóstolo", morando no Rio. Estava lá num apartamento no Rio, fiquei lá um ano, que já é muito, um ano na mesma casa, mas estava ali feliz da vida. E acabei a Record e fui pro Irão, pro lançamento da minha longa, que eu filmei há quase dois anos atrás, que cinema tem disso. Nem lembrei o que eu tinha falado, o que eu tinha feito, pra ir promover uma coisa que eu fiz há dois anos.

Aquilo que vemos no cinema, às tantas já foi gravado há imenso tempo.

Imenso tempo. A novela, não. A novela você grava um, dois, três meses, depois você vê no ar. O cinema, às vezes três anos. Aí eu fui pra esse lançamento do meu filme no Irão e foi lindo. Tinha filmado há dois anos, eu falei em persa no filme, com a língua deles, e pra mim foi muito legal ver isso. Fui muito bem recebido, o filme está sendo um sucesso imenso.

É difícil aprender persa? Sei que é algo que tu sentiste a necessidade de fazer e em vários projetos já o fizeste.

Eu não senti a necessidade de fazer, João, eu quis fazer. Eu filmei uma longa-metragem iraniana em São Paulo, foi aí que começou tudo. Foi uma produção iraniana que eles resolveram filmar em São Paulo, que foi o "Texas", que era uma comédia de ação, tipo um "Fast and Furious", mais bollywoodiano, que era aquele choque de cultura. Os iranianos iam fazer turismo no Brasil, e aí eles eram assaltados, era samba, carnaval, favela, pegava a mulher do dealer da favela, não sei o quê. E aquele choque de cultura. E eu fiz a audição, passei, fiz um dealer ali, um bandido, falava português, as minhas falas eram dubradas ou legendadas em persa, o filme passou só no Irão. E foi um sucesso lá no Irão. E eles resolveram fazer o dois, que os brasileiros iam pro Irão pegar a mulher de volta, o choque de cultura inverso. Nós, brasileiros, tendo choque de cultura lá em Teerã. Aí quando eu fui pra Teerã, novamente falei o filme em português, minha parte era dublada ou legendada, mas quando eu fiquei lá quase dois meses, conheci um monte de gente, me apaixonei pela cultura e deu certo o filme. Aí falei: "Por que eu não vou estudar persa, vou ser sempre um gringo". Como aqui. Aqui eu só faço de brasileiro. Aliás, quando eu cheguei aqui pra fazer minha primeira novela, "Ouro Verde", na TVI, eu falei com os realizadores: "Vou fazer agora uma fono, contratar uma fonoaudióloga portuguesa e ficar um, dois, três anos estudando português de Portugal pra poder fazer personagens portugueses". Aí falaram: "Não perca seu tempo, que isso não vai acontecer com você nunca. Você nunca vai fazer um português na televisão ou no cinema. Pode fazer no teatro, porque teatro é convenção. Mas o naturalismo na TV e no cinema".

Impera ainda.

Olha, eu atuo em persa. Agora, em português de Portugal, não me deixam atuar. Aí eu falei: "Então foi uma opção, que eu precisava". Aí deu supercerto, porque depois eu fiz mais dois filmes falando em persa. Entendeu?

E acabou por se tornar, no fundo, uma mais-valia, porque agora também te distingue. Eu não tenho a certeza disto, mas és talvez o único ou dos poucos atores que está presente no mercado iraniano

Brasileiro, você disse?

Não, no mercado no Irão.

Ator internacional?

Sim.

Sou um dos poucos.

Sim.

O único brasileiro.

O único brasileiro que está lá a representá-lo.

Talvez o único da América. Tem alguns do Médio Oriente, da Turquia, de Dubai. Tem poucos. Alguns da Europa também, mas acredito que da América eu seja o único. Eu e a atriz brasileira que contracenou comigo no Texas.

Ainda temos muito pra falar. Vamos só fazer aqui uma curta pausa e já voltamos pra segunda parte. Esta semana o "Em 40 Minutos" é com o Adriano Tolosa. Até já. Estamos de regresso pra segunda parte do "Em 40 Minutos", esta semana com Adriano Tolosa. Estávamos aqui a falar do Irão. É um país que temos sempre muitas reticências. Tu, enquanto artista, precisamente tens aqui uma perspectiva se calhar diferente, porque vais lá em trabalho. Mas também queria perceber como é a realidade de viver nesses períodos em que lá vais, nesse país, um país em que existe muita repressão, a questão das mulheres, dos direitos, das liberdades. Tu sentes isso ou vives numa realidade se calhar diferente, até porque quando lá vais, a questão do trabalho acaba por estar sempre mais presente.

Você diz eu enquanto indivíduo, pra mim, como é que é? Eu estou numa condição privilegiada. Eu estou lá como um artista internacional, homem.

Mas apercebes-te de algumas coisas que te incomodam ou de alguma forma te questionam?

Que me incomodam enquanto indivíduo ou que eu vejo na sociedade que me incomodam enquanto um ser empático? Não percebi a sua pergunta.

Sim, enquanto pessoa que está lá e que pode gerar alguma frustração.

Enquanto eu como indivíduo, não me incomoda em nada, porque eu sou super bem tratado, eu posso fazer tudo o que eu quiser. Obviamente que eu não vou criticar questões políticas ali. Mas sim, muita coisa que a mídia fala não é verdade. Ou seja, sim, eles têm restrições. Tem questões de censura, obviamente. Mas ao mesmo tempo é um país lindo, é um país com pessoas muito boas. A arte lá é incrível, tem artistas maravilhosos. O cinema lá é muito forte, é muito poderoso, principalmente porque eles têm uma indústria própria muito grande. Não passa filmes americanos no cinema. Eles têm uma indústria própria, que se eu não me engano, é a terceira maior do mundo, se eu não me engano, depois de Hollywood e de Bollywood, acho que a do Irão seja a mais potente de mercado interno. E a natureza ali é uma coisa excepcional. Eles têm desde neve, de desertos, de florestas, metrópoles com mais de 3 mil anos, arquitetura belíssima. Você pode no mesmo dia fazer snowboard, pegar um avião em uma hora e estar numa ilha com a areia roxa, por causa dos minérios. Realmente é uma beleza. A comida é incrível. Eu gosto muito desse gênero de comida libanesa do Médio Oriente, lá é ainda melhor. E sim, tem problemas, obviamente, de questões políticas que eu prefiro não entrar em falar sobre isso agora, porque também não poderei mudar nada e nem do que eu falar aqui vai mudar. Mas sim, o que eu digo é que é um país lindo, é um país muito seguro, as pessoas têm medo de ir lá. Às vezes eu falo: "Vamos, quero levar algum amigo", já quis levar até minha mãe, minha família. E as pessoas têm medo, eu digo que não. Tem gente que foi comigo, tem uns amigos portugueses, Dalila Carmo foi comigo uma vez, ela queria muito conhecer, ela adorou. E é um país lindo, João. Problemas todos temos, amigo. Se eu te falar também das questões do que acontece no Brasil ultimamente.

Sim.

Sim, a própria Portugal, todos temos. Muito bem que ali está num momento muito crítico, de aquela guerra, que tomara que acabe logo. Mas sim, são questões que eu acho que não vale a pena entrar agora em contratação, a gente vai também entrar numa espiral de negatividade, que eu acho que não é válido com o tempo que a gente tem.

Sim. Vamos nos recentrar aqui na parte da representação. Tu dizes que ouviste várias vezes que um ator só é bom se estiver na televisão.

Claro.

Sentes que essa questão, esta frase, começa a ficar mais diluída, mais batida? Já não há tanto essa consideração?

Não, acho que não. Se você pensar, eu tenho 42 anos. Quando eu comecei a estudar teatro, eu tinha 20. Há 22 anos atrás não existia Instagram, não existia redes sociais. Estava começando aquela coisa de Orkut. Mas assim, não é nada do que é hoje. Não tinha streamings, não tinha plataformas, não tinha Netflix. No Brasil era aquilo. Era Globo, Record, SBT, como aqui em Portugal, você tinha a TVI, a SIC, as duas novelas de cada canal, como lá Um mercado muito pequeno. Na Globo que tinha três, quatro novelas, na Record tinha uma, na SBT tinha outra, ou seja, tinha seis novelas por ano, num Brasil que é do tamanho quase da Europa. Então você pega e olha a quantidade de gente que tinha pra querer ser ator, a querer trabalhar e fazer coisa. E você só tinha uma margem muito pequena de ator que pudesse aparecer pro país. Porque o teatro é belíssimo, é lindo. Eu fiz 10 anos de teatro antes de fazer novela.

Sim.

E era muito feliz artisticamente, mas não era feliz financeiramente e o meu ego também não era feliz. Por quê? Porque ninguém revia o meu trabalho. Eu morava em São Paulo, o teatro é um público muito pequeno. É o público da classe e um público simpatizante, que é uma coisa muito mínima. Era muito pouca gente que via. Então era isso, tinha essa pressão da sociedade, que se não está na Globo, e tinha que ser a Globo. Até a Record e SBT era porque você não era tão bom a ponto de estar na Globo. Eu vi muito isso. "Se o ator não está na Globo é porque não é bom ator". Eu tinha muito essa vontade.

Como te fazias sentir na altura, quando ouvias este tipo de considerações?

Me sentia péssimo. E porque eu tinha um perfil assim. Eu sempre gostei de desporto, então eu tinha um bom corpo e as pessoas falavam: "Não, mas você é bonito, você tem 'six pack', por que você não está na Globo?". Então eu falava: "Puxa, devo ser uma merda de ator, porque se eu tenho um 'six pack' e estou há 10 anos fazendo teatro". As pessoas achavam que era isso. Um caminho pra você entrar na televisão ou era a beleza, ou era você ter uma estética, um corpo bom, porque se era por isso, é porque você estava ali por isso. Porque quando eu entrei também tinha isso: "Você está aí porque você é modelo". Porque eu também trabalhei como modelo, então também tinha esse preconceito. É difícil. Nunca as pessoas estão satisfeitas. Porque se você não está, é porque você é ruim. Se você está, é porque você tem "six pack".

E quando tu chegaste ao teu primeiro projeto, fizeste 10 anos de teatro, como disseste, a tua primeira novela foi "Amor à Vida", em que contracenaste com grandes nomes, vou aqui dizer dois, mas podia dizer mais, nomes da representação no Brasil, o Antônio Fagundes e também a Susana Vieira. Como é que foi passar dessa realidade do teatro, em que dizias que havia uma camada de simpatizantes para uma escala muito maior e em que fizeste esse teu caminho e depois já estavas a atuar ao lado destes grandes nomes e que se calhar pra ti até eram referências?

Exatamente, era uma escala de um público que quando estava bom, era 50, 60 pessoas que viam a peça.

50, 60?

É. Eu fazia teatro independente, não fazia teatro comercial. Entende? Eu fazia teatro de pesquisa. Então quando lotava era 50 pessoas. A média era 10, 20, 30. Já fiz pra duas pessoas o espetáculo, na plateia. Duas.

Ainda te lembras desse espetáculo?

Lembro, era belíssimo. Era uma peça de Plínio Marcos, um grande dramaturgo brasileiro. E aí você vai pra novela das 21 horas, é de 30% a 40% do Brasil que assiste.

Milhões.

É.

Milhões em Brasil.

É quase metade do país, naquela época. Como você diz, hoje em dia está muito mais diluído. Vamos voltar aí, mas pra falar do meu primeiro trabalho na televisão, foi ótimo trabalhar com o Fagundes, com a Susana. Era um papel muito pequeno que eu fiz, que eu fiquei metade da novela só a servir cafés e empurrar macas. Eu trabalhava no hospital, era um enfermeiro. Depois ele cresceu um pouco. Ele se tornou um abusador de mulher, foi preso, virou um vilão, mas ainda sendo um papel pequeno, perto daquela novela que tinha 90 atores no elenco fixo. Mas o Fagundes foi deslumbrante comigo, ele é um ator muito generoso, ele e a Susana, contracenei mais com ele. A Susana foi minha primeira cena. Eu nunca vou esquecer.

Foi tua madrinha.

Foi minha madrinha, teoricamente. Se pensar desta maneira, porque eu dei minha primeira fala no platô com ela. E eu lembro exatamente que eu fiquei na novela um mês sem falar nada. Eu entrava ali, empurrava a maca, ia servir o café pro Fagundes. Aí um dia eu lia os guiões e falava: "Mas mano, eu nunca vou falar, não acredito que eu vou fazer figuração agora, todo mundo falando que eu estou na novela". E aí chegou uma fala, que eu chegava, empurrava a maca, estava empurrando a maca no corredor, chegava a Susana, era eu e um outro enfermeiro, que era o Celso Bernini, um ator, os dois empurram a maca e a Susana chegava: "Ei, rapaz". Aí eu virava e falava: "Quem, eu?" Ela: "Não, o outro". Tinha uma cena gigante com o outro e eu ia embora com a maca. Foi minha primeira fala. E era difícil falar isso, cara. Como era difícil. É muito difícil você entrar e fazer uma participação de uma fala. É muito mais difícil do que você fazer uma cena longa. Porque se eu entro aqui pra falar pra você uma coisa e sair, eu não tenho esse tempo pra entrar.

E é aquilo que fica. É aquilo que marca.

E é aquilo que fica. E o que acontece? Tem os atores que fazem participações, coitados, muitos caem numa armadilha de fazer um overacting, porque eu tenho que chegar e falar: "Quem, eu?" "Não, quem, eu?" Não é isso. Porque você só tem uma frase pra dar, então você quer brilhar. E não é pra você brilhar, você está ali só pra ser a orelha da outra. Então é isso, faz o que você tem que fazer. E aí tem um paradoxo, quanto menos você fizer, mais você vai brilhar. Se você quiser se destacar numa coisa que não tem que destacar, você passa vergonha. E acontece muito isso. Você vê muito isso nas participações. O carteiro que vai entregar uma carta, porque você vê que tem uma carga energética muito grande daquele ator que Que acha que é a oportunidade da vida dele, então ele vai lá e vai dar mais do que precisa. Isso é complicado.

Mas é tão interessante teres essa memória ainda presente.

Eu tenho uma memória boa. Eu lembro perfeitamente todos os atores que eu contracenei, dos papéis que eu fiz. Isso está até do teatro, da minha época antes de fazer televisão. Mas voltando, que eu achei muito interessante o que você falou. Sim, era isso. "Você não está na Globo é porque você não é bom". Tinha isso. "Você não faz novela é porque você não é um bom ator". Eu tinha esse desejo de fazer. Eu tive uma fase meio rebelde que eu achava que o teatro me bastava, que foi lá dos meus 20 aos meus 25. Depois não, depois eu queria muito fazer televisão. Principalmente por causa dessa pressão da sociedade, da família, dos amigos, minha própria. Tinha isso. Agora hoje não, hoje não tem muito isso. Hoje é tudo muito estranho ainda, porque está num processo de mudança muito rápido. A TV aberta não é mais o que era.

Sim.

A TV aberta, como eu te disse, era 30, 40%. E Brasil e Portugal estão iguais, em proporções diferentes, porque Portugal é muito menor, tem menos gente, mas proporcionalmente é igual. Você pega a TV aberta, não tem mais aquele público, porque hoje em dia você tem milhões de coisas para ver. Você tem milhões de plataformas.

Não sentes que é porque ficou menos atrativa? Achas que agora existe uma maior facilidade em conseguirmos ver aquilo que quisermos?

É claro. Por exemplo, você tem a opção de ver uma novela num horário X e parar de ver pra ver a publicidade a cada 10 minutos, e esperar para ver o episódio seguinte no dia seguinte, sendo que você pode ver 10 episódios de uma vez, numa coisa mais condensada, sem censura, na hora que você quer. Está num processo, mas a novela ainda é muito poderosa, porque se não estivesse sendo lucrativa, não estaria sendo feita. Ou seja, tem muita gente que vê.

Sim.

Mas se você pegar a geração abaixo dos 30 anos, eles estão começando um novo formato no Brasil, que veio da China, que está dando muito certo.

Como é que é?

Que é aquela novela vertical. Já ouviu falar? É episódios de um minuto, naquele formato reels do Instagram.

Sim, já encontrei por aí.

E está tendo milhões, 100, 200 milhões de views.

Que é uma coisa mais rápida, mais instantânea.

Mais rápida, por exemplo, hoje em dia ninguém quer esperar nada. Hoje em dia está todo mundo intolerante.

Mas isso não é ingrato para o trabalho de um ator?

É um pouco.

Para alguém que está habituado a grandes formatos, séries, filmes, novelas.

Eu não gosto, João. Não gosto de assistir nem de fazer. A gente às vezes faz coisas que a gente tem muitas escolhas. Muitos fatores pra gente escolher um trabalho, sim ou não. Não faço sempre o que eu gosto mais. Às vezes eu tenho que fazer o que eu gosto menos por questões X e Y, mas não tenho essa vontade de fazer novela vertical de um minuto, não tenho mesmo. Mas o público está gostando. A Globo vai fazer uma agora. A Globo vai fazer uma.

Será que vai para ficar?

Eles estão botando um elenco incrível. Não quero aqui dar nomes, mas eu li ontem essa matéria e não me surpreenderei nada se Portugal começar a fazer também. É um formato que dá muito certo. Um dia eu estava lá na casa da minha mãe, fui almoçar com a minha mãe, a cozinheira da minha mãe estava lá, lava a louça com o telemóvel na frente. Eu falei: "O que você está vendo?" Ela falou: "Novela vertical".

Já é um conceito.

É, da Turquia. Ela estava vendo a Turquia dublada em português e é um conceito, que a pessoa vê isso lavando louça, a tomar banho.

A Turquia que também tem um mercado muito forte a nível de novelas. Aliás, até aqui em Portugal, muitas novelas já estão a chegar.

Estão. No Brasil também.

Penso que na SIC já existem várias produções que podem ser vistas aqui em Portugal e que vêm da Turquia.

A Turquia tem um mercado audiovisual muito poderoso, televisivo.

Eu queria te perguntar, uma vez que falarmos aqui do Brasil, vais ter de falar mais um bocadinho sobre Portugal, até porque já falamos do Irão, mas para ti, e pareces-me ser um homem bastante sensível, como é que tu lidas com a questão das saudades? Da família, neste caso, e dos amigos.

Eu lido bem, João. As saudades vêm, obviamente. Saudades da família, dos amigos, dos animais, do meu cachorro, dos cachorros que eu sou padrinho, que eu tenho vários cães que eu sou padrinho em Portugal, no Irão. Mas eu sempre volto. A saudade vem, aí eu ligo. Hoje em dia você faz video calls. É muito engraçado como é que as relações, ao mesmo tempo que a rede social é uma coisa muito maluca, porque ela pode ser uma coisa muito perversa e horrível, como pode ser uma coisa maravilhosa. Essa maneira de você poder, na pandemia, que eu fiquei dois meses na Serra da Estrela, enclausurado sozinho, eu fazia todo dia reunião de Zoom com a minha mãe, com meus amigos. Isso é lindo. Acho que isso facilita. Eu tenho saudades, obviamente, sinto saudades, mas eu sei que eu vou voltar. Eu nunca fico menos de um ano sem ir para esses lugares que eu gosto. Portugal, eu estava há um ano sem vir. E eu tenho um trabalho agora para fazer no Brasil, mas eu falei: "Eu vou passar por Portugal", porque eu sei que eu vou ficar agora mais oito meses lá. Sete, oito meses. Então vim aqui, fiquei aqui um mês. E sei que vou voltar depois do trabalho. Eu sou bem bicho solto mesmo.

Mas lidas bem com o silêncio, o fato de estares sozinho.

Adoro leitura, adoro meditação, adoro o som da natureza. Essa quinta que eu te falei que eu fico no Brasil, que seria a minha âncora quando eu não estou a trabalhar, do lado tem uma cachoeira, uma cascata, eu adoro. Adoro o som do mar no Rio de Janeiro, morava perto da praia também. Eu adoro o silêncio. Me dou muito bem com o silêncio, me dou muito bem com a solidão também. Sou uma pessoa que gosta de estar solitário. Obviamente que também tenho minhas carências, minhas saudades.

Quem é a pessoa que sentes mais saudades?

A pessoa?

Quando há esses períodos de ausência.

Depende do período. Depende do que eu estou a passar. Às vezes minha mãe, às vezes meu pai, às vezes irmãos. Depende.

Há alguma coisa, por exemplo, que a tua mãe, estou aqui a falar da mãe, mas podia ser também o pai, que ainda te faça hoje lembrar alguma coisa da infância? Algum carinho, alguma questão, alguma coisa que ainda te faça reavivar alguma coisa?

Você diz uma lembrança?

Sim. Um pequeno gesto, às vezes.

Sim, como eu te disse, eu acredito que todo mundo deveria resgatar sua criança interior. Porque esse mundo de hoje está tornando as pessoas muito insensíveis. Esse excesso de violência, de trânsito, de crise que estamos passando, humanitária, política, ambiental. Esse excesso de rede social, de informação, de intolerância, as pessoas ficam muito insensíveis. Então eu acredito que resgatar nossa criança, e uma forma de resgatar a criança, são essas lembranças. Eu tenho uma lembrança muito boa que eu me lembro às vezes, que era quando meu pai cantava pra mim antes de dormir. Ele cantava umas músicas de Chico Buarque. Eu tinha quatro anos, acho que é uma das memórias mais remotas.

Cantava bem?

Pra mim cantava maravilhosamente bem quando eu era criança. Mas engraçado, porque depois nunca mais eu vi ele cantando, mas eu tenho essa lembrança de quando eu era criança e eu pedia pra ele ficar comigo antes de eu pegar no sono e ele cantava e eu dormia. É uma lembrança que eu guardo com muito carinho.

Uma boa lembrança. Falavas aqui da questão da intolerância. Queria falar aqui sobre um tema contigo, numa altura em que até se discute muito o tema da imigração. Muitos brasileiros mudaram-se para Portugal, é um dos maiores fluxos migratórios que temos, um dos principais. Tu, na tua mudança do Brasil pra Portugal, ou quando estás cá, alguma vez sentiste algum tipo de preconceito ou tens conhecimento de colegas teus que eventualmente sentiram esse preconceito? Falamos aqui de xenofobia que pode ter acontecido.

Sim, novamente eu vou te dar a mesma resposta que eu dei lá você não estava falando de xenofobia, mas quando você perguntou pra mim do Irão, se eu me senti de alguma certa maneira repreendido ali. Em Portugal, como no Irão, eu cheguei numa posição privilegiada. Obviamente eu sou um imigrante aqui, morei aqui sete anos. Pretendo voltar a morar. Pretendo voltar a trabalhar aqui. E quando eu vim, em 2016, que já vai fazer nove anos, não era o que é hoje em questões de imigração. Era outra coisa. Ainda assim, eu tinha vindo numa posição privilegiada. Eu vim fazer novela. Uma vez ou outra, sim, sofri xenofobia, mas foram coisas muito específicas. Sei lá, às vezes eu botei uma coisa no meu Instagram, aí tinha 50 comentários positivos, aí tinha um: "Volta pro seu país". Sempre tem. Um ou outro que te fala isso. Mas eu não sofri xenofobia, preconceito na rua, nunca. Mas sim, conheço imensos brasileiros próximos de mim que já sofreram.

E como é que reage a esse tipo de intolerância e desse comentário fácil que pode chegar através das redes sociais?

Como é que eu reajo?

Sim.

É muito triste ser discriminado em qualquer circunstância. Qualquer preconceito é doloroso. Ainda mais pra mim, que estava numa posição privilegiada. Vim aqui sendo uma figura pública e fazer entretenimento. E mesmo assim, ouvir isso é muito triste, é muito desagradável, que seja de uma pessoa, que seja de uma pessoa que está falando sem base nenhuma, é triste. É uma questão muito triste, eu sinto muita pena, mesmo, porque Portugal é um país belíssimo. Eu acho que Portugal e Brasil são países que não deixam de ser, de uma certa maneira, extensão um do outro, apesar de ter um mar a dividi-los. Somos extensões um do outro. Culturalmente, desde sempre. E pronto. Obviamente, não sou a favor dessa imigração ilegal descontrolada. Também tem muita coisa errada. Tem muita gente que vem aqui de uma maneira errada, querendo impor coisas. Eu sou um cara totalmente open mind e acho que a fronteira, em qualquer lugar que seja, é uma coisa que pra mim não faz sentido nenhum. Mas eu também acho que nós temos que ser humildes, no sentido que quando você chega num lugar que você não sabe como é a música que toca, ouve a música, tenta se adaptar à música. E não querer impor a tua música. Óbvio que você tem a liberdade pra ser quem você quer ser, onde você quiser, mas respeitando o lugar do outro. Então eu acho que é isso, acho que a xenofobia é uma coisa horrível. Acho que a xenofobia é um crime. Acho que não é um crime.

Sim.

Mas ao mesmo tempo eu também acho que tem coisas que têm que ser ajustadas. Como eu disse, acredito que tanto Brasil e Portugal precisam um do outro, são extensões um do outro. Então acredito que deveria ter maneiras de organizar isso. E sim, a xenofobia é muito triste, é uma pena que ela esteja crescendo. Uma pena mesmo, sinto muito. Como eu te disse, o que eu sofri foi quase nada. Mas eu sei que tem muitas pessoas que sofrem, não só brasileiros. E não só em Portugal.

Sim, não é só daqui.

Não, não é só daqui.

Estamos a encaminhar-nos aqui para o final da nossa conversa. Quero ainda saber a nível de novidades, projetos, aquilo que vai acontecer nos próximos tempos, uma pessoa tão viajada entre Brasil, Portugal e Irão. O que tu podes contar?

Então, eu te disse, eu acabei esse trabalho no Brasil da Record, eu fui pro meu lançamento no Irão. E vim aqui de férias pra esse país que eu amo e que eu pretendo voltar pra morar, pra trabalhar o mais rápido possível. Que eu já estou com saudades antes de ir embora. Eu vou embora já esta semana, volto pro Brasil pra começar um projeto novo no Brasil. Estou muito feliz, eu vou fazer uma novela da Globo.

Da Globo.

Da Globo. A última coisa que eu fiz na Globo foi Verdades Secretas II, que foi em 2021. Faz cinco anos. Então vou voltar pra Globo e vou fazer a próxima novela das 21h, do horário nobre, de Aguinaldo Silva, direção de Luiz Henrique Rios, que se chama Três Graças. Uma novela incrível, que se passa em São Paulo, a história, e a novela estreia muito em breve, no fim do mês. E eu começo a gravar já pra semana, começo a iniciar os meus trabalhos. Estou muito feliz.

E a facilidade que agora nós temos de também poder ver coisas de lá, porque existe também agora essa facilidade, uma pessoa cá em Portugal pode ver esse teu projeto nas plataformas que existem.

Sim, mas essa por acaso dá em simultânea com a SIC.

Também.

É, porque a novela das 21h da Globo é transmitida na SIC às 23h.

Boa. Ainda mais fácil.

Então vou estar com a cara em Portugal durante uns 10 meses neste horário e a novela vai ser muito boa. Três Graças, temos um elenco maravilhoso, Grazi Massafera, Murilo Benício, Dira Paes, Miguel Falabella, Sophie Charlotte, muita gente boa e legal.

E tu também, por lá, Adriano Tolosa. Vamos fechar este "Em 40 Minutos", queria te só fazer uma última pergunta. O que te inquieta?

O que me inquieta? Tanta coisa, hein, João. A injustiça. Não consigo.

Nem de propósito.

Não é. Não consigo mesmo. Não consigo. Deveria ser um pouco mais comedido, porque tem coisas que nós não resolvemos a injustiça sendo reativos. Mas muitas vezes eu sou reativo e acabo às vezes até perdendo a razão, porque realmente não tolero a injustiça. Não tolero ver uma injustiça, seja de qual tipo for.

Adriano Tolosa, muito obrigado por teres vindo aqui à Rádio Observador. Muito sucesso.

O prazer foi todo meu, João.

Nessa nova novela das 21h, que pode ser vista na TV Globo. E muito sucesso, que seja uma boa caminhada ao longo dos próximos anos.

Muito obrigado, foi um prazer.

Obrigado e até breve.

Obrigado.