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Em criança queria ser professora de português e inglês. Seguiu os seus estudos nessa área, mas as aulas de guitarra, que tanto pedia aos pais, levaram-na a que descobrisse a voz e uma vontade de fazer música que, verdade seja dita, nunca mais largou. Dos Diolinda ou da Diolinda, para uma carreira a solo, é a cara de uma campanha, muda o ritmo da sua vida e há muito mais para descobrir. Hoje recebemos Ana Bacalhau em "40 Minutos" aqui na Rádio Observador. Ana, bem-vinda.

Obrigada.

Bem-vinda.

Obrigada, é um prazer.

É a primeira vez aqui no Observador, não é?

Fisicamente, sim.

Fisicamente, maravilha.

Bem-vinda.

Olha, nós temos muita coisa para falar: música, sonhos, memórias, bullying, peso, idade. E eu ia começar exatamente por aí, por algo que eu li que tu disseste: continuamos a ver que mulheres a partir dos 40 anos deixam de aparecer nas televisões, nos media mainstream, nos grandes concertos. Achas que há um preconceito com a idade?

Acho que sim. Acho que talvez haja esse desinteresse em saber o que homens, sim, também, mas sobretudo mulheres a partir dos 40, 40 e muitos, 50, têm a dizer nas artes, que é a minha área, onde eu posso falar com mais conhecimento de causa. E eu digo isto porque eu começo a olhar para o panorama musical mainstream português e a procura de mulheres com mais de 50 anos, e encontro tão poucas. Nem uma mão enchem. Não é as mulheres que estão a trabalhar, isso são imensas, mas que chegam até ao mainstream e ao grande público, são muito poucas.

Mas por quê?

Comparado com os homens com a mesma idade. Encontramos mais homens, mais exemplos de homens acima dos 50 anos.

Mas há um veto?

Não sei o que se passa, não sei qual é o mecanismo, se nós como sociedade não estamos realmente interessados nas experiências de uma mulher mais velha, o que denotará em muitas coisas que não tenho capacidade para diagnosticar, mas será ou esse desinteresse ou a sensação de que se calhar a mulher como cantora tem um papel decorativo, quase ornamental, em que a sua imagem é o mais importante, a seguir talvez à sua voz ou não sei. E, portanto, quando essa imagem já não corresponde a um ideal de beleza que se quer jovem, já não tem tanto interesse. Não faço ideia, isto são coisas que eu estou a atirar para o ar porque eu não tenho a resposta para isto. E quando eu realmente procuro exemplos para dizer: "Não, nós estamos muito bem, temos aqui esta pessoa, esta mulher", não.

E achas que é uma questão muito nossa, portuguesa?

Não direi. Acho que é assim.

É universal.

Se bem que há alguns países que já tomaram consciência disso.

É que, por exemplo, temos assistido a um voltar de uma série de bandas e de músicos, artistas que fizeram carreira anos 80, 90, e agora de repente estão a regressar, e melhor do que nunca. Sabe sempre bem, não é?

Verdade. Mas eu acho que lá fora já é algo que se fala há algum tempo, já se tem alguma consciência e portanto vão havendo alguns exemplos já de continuidade. Por exemplo, a Jennifer Lopez nos seus 52 anos está com a sua carreira superexperimentada e super mainstream. A própria Shakira, que agora teve o tal comeback pelas piores razões, mas está aí a fazer música. No Brasil também temos imensas mulheres, a Fafá.

Sim, e que nunca pararam. Então no Brasil, é incrível.

E que têm imensos concertos e que estão sob o olhar atento do público. Portanto, eu diria que há alguns países onde não há tanto este problema, mas eu acho que é um problema. Por exemplo, em Hollywood começou-se a falar agora, mas a representação de mulheres acima dos 40 anos em papéis bons em filmes é uma coisa que já se fala há algum tempo. Acho que em 100% de papéis, para aí 6% dos papéis são mulheres acima dos 40 anos.

E sentes que à medida que vais ficando mais velha, as portas se vão fechando?

O que eu senti na pele? O que eu sinto, que é normal, acho eu, que são ciclos, que é uma pessoa chega ao olhar do público, faz o seu ciclo e depois vem uma nova geração e o olhar do público, obviamente. E ainda por cima, geralmente as coisas são assim: vem uma altura, o grunge. O grunge ficou durante 10 anos. Depois a seguir ao grunge veio o quê? Aquela pop açucarada, completamente diferente, é o oposto do grunge. Dos anos 2000, a Britney Spears, a Christina Aguilera. São sempre coisas um bocadinho opostas e isso faz parte. Portanto, quem esteve no movimento anterior, depois obviamente que vê um movimento novo a surgir e é natural que essa atenção disperse um pouquinho. No meu caso, isso também foi acelerado, porque como os Diolinda fizeram pausa e eu fiquei a solo, apesar de as pessoas já me conhecerem, eu sinto que estou a partir, não é bem do zero, mas às vezes parece que é zero.

Reajustar um bocadinho.

Construir o meu repertório, minha base de público. Portanto, apanhada aqui no meio, o que eu tenho a dizer? Tenho alguma ansiedade com a idade Porque vejo à minha volta que não há assim tantos exemplos de colegas que quando lançam o trabalho, têm a atenção de grande parte do público e dos media e enchem casas. Isso causa-me alguma ansiedade. Na prática, eu se já noto que se fecharam portas por causa da minha idade, assim tão de chapa, não. Mas não quero dizer que isso não tenha acontecido, eu é que se calhar ainda não percebi.

Mas essa ideia pode parecer até um bocadinho mais profunda do que apenas os órgãos de comunicação social ou as editoras, pode ser mesmo o público que recusa as mulheres mais velhas.

Poderá ser, mas é estranho, porque acho que as mulheres são para aí 50% da população mundial. Isto é meio a meio. Portanto, serão 50% da nossa população. Mulheres mais velhas, ainda por cima temos uma população envelhecida, serão uma boa parte do público feminino. Portanto, não faz sentido para mim que as nossas mulheres mais velhas não queiram ouvir as suas colegas de geração, o que elas têm a dizer, porque será algo que lhes será próximo. Portanto, eu não sei o que se passa. Lá está, eu não tenho capacidade, nem tenho distanciamento para analisar isso.

Que é uma questão de público, se é uma questão de comunicação social.

De também o que é dado ao público.

Exatamente, de oferta.

Pode ser uma coisa que é uma bola de neve.

E falamos de televisão, falamos de revistas.

Não lhes é dado ao público. Exemplos, o público é passivo, não vai buscar e consome aquilo que aparece.

Portanto, é um ciclo.

E portanto não pede aos media que lhes mostrem. É um ciclo, eu penso que seja isso.

Há pouco estavas a falar da idade, pelo menos que nunca sentiste esse preconceito, mas sempre em relação ao peso e sei que é um tema bastante familiar.

Sim, senti toda a minha vida.

Mas mesmo depois, já estando na música?

Sim. Ainda há pouco tempo, e isto continua a perpetuar-se. Entretanto, as pessoas se lembrarem quando eu comecei com os Deolinda, eu pesava bem mais do que peso hoje em dia.

Sim, tu mudaste muito.

Sim. Mas isto ainda acontece com colegas. Ainda há uns dias vi um post da Carolina Deslandes, ela tirou uma fotografia em biquíni na praia e teve comentários horríveis e fez um outro post acerca disso, acerca do corpo dela. "Deixem-me estar, eu sou só uma pessoa na praia a fazer a sua vida, não faço mal a ninguém". Isto é um problema que existe. Comigo, eu fui uma criança gorda. O facto de ser gorda e o facto de me chamar bacalhau levou a que na escola fosse alvo, na altura não se chamava bullying, não tinha nome.

Exatamente.

Mas à luz de hoje, foi isso que me aconteceu. Isto desde logo marcou-me muito. Na autoestima, na forma como eu me via, como eu me relacionava com os outros, com as outras mulheres, com os homens. E portanto, as coisas normais, para mim era pânico ir para a praia. Mesmo depois eu na adolescência emagreci um bocadinho, bastante. Mas mesmo aí, o nosso cérebro é muito interessante e pode ser o nosso aliado, mas também pode ser o nosso inimigo. O nosso corpo objetivo e a imagem que nós temos do nosso corpo, muitas vezes para alguém que sofra com problemas de peso, tanto para cima como para baixo, a imagem que está aqui dentro não corresponde muitas vezes àquela que é a nossa imagem objetiva, que as outras pessoas olham e veem. E portanto, tudo isso é uma bagagem que eu sempre trouxe comigo. Quando os Deolinda vieram para a público, explodiram, digamos assim. E o que eu senti foi que da parte do público não havia problema algum, porque nós tivemos imenso sucesso, não era o facto de eu ter peso a mais que levou a que. Mas antes dos Deolinda, por exemplo, explodirem, nós estivemos a falar com alguém da indústria, tinha pertencido a uma editora grande, mas que na altura estava a fazer a sua editora, e essa pessoa queria, claramente, apecia-lhe substituir-me.

A sério?

Por não ter a imagem certa.

Mas isso foi dito de forma...

Não foi dito assim.

Mas boa entende entre uma e a palavra outra.

A Wanda está bem, está aqui, é um problema que se calhar temos que resolver.

Sim, não me ligar. Aquelas coisas que a gente sente, mas eu não vos posso dizer, eu não consigo dizer-vos nada que aquela pessoa tenha dito que seja prova de crime.

Mas nós sentimos.

Mas sente-se, claramente.

E como é que se vive esse momento? Na altura já era fácil de superar isso ou nunca foi?

Foi mais uma rejeição às muitas. Eu tinha o apoio absoluto do resto da banda. Não me perturbou em nada nesse sentido. Mas depois, quando chegamos às Sons em Trânsito e às editoras que nos acompanharam no primeiro disco, e segundo, terceiro e quarto, não houve nada dessas coisas tóxicas. Foi tudo positivo nesse sentido, nunca senti nenhuma pressão. Eu gostava de brincar com maquiagem, com roupa, com cabelos. Acho que as pessoas que me viram nos Ídolos.

Completamente. Eu ia falar.

Eu adorei aquilo, porque eu gosto de brincar com a minha imagem, gosto de brincar com isso tudo. Então, saía um disco de Deolinda: "Vamos fazer qualquer coisa, uma revista de moda". Propunham e nunca aceitavam. Não sei por quê. Depois, as peças que se levam para as sessões fotográficas são as peças que são feitas para a passarela. Nem sequer em português. E essas peças são para modelos, portanto, são tamanhos reduzidos. É sempre um problema vestir alguém que não se encaixe nesse molde. Imagino que isso fosse parte do problema, a outra parte nem sequer esmiúço, não queria, para não me chatear. Também foi há 15 anos. 2008, 15 anos. Felizmente, hoje em dia sinto que está diferente. Vejo colegas minhas com os mais variados corpos que aparecem em revistas e em produções fotográficas, e ainda bem que isso já está melhorzinho hoje em dia. Mas esta foi a minha experiência. Essa parte não foi muito simpática. Mas depois, tudo o resto, tanto tocar para o público, como ir à televisão promover e tocar, isso nunca senti nada. E hoje em dia, estava a dar o exemplo dos Ídolos, é o exemplo acabado de como isso nem sequer foi uma questão. Pude livremente estar ali, foi mesmo uma experiência que sanou.

E tu há pouco estavas a dizer, e é verdade, tu acabaste por mudar. E também por isso há um podcast onde tu também participaste, precisamente para falar desta temática do peso, e não só, a música também. Tu és muito transparente nessas questões também no facto de seres uma mulher de causas. Mas por exemplo, essa tua mudança, tu fizeste por ti ou é 50/50 também uma parte de-

De pressão.

Exatamente. Vou ganhar em mudar.

Eu acho que um pouco das duas coisas. A parte da pressão foi eu ir à televisão, e não era como as televisões agora. A televisão há 10 anos atrás engordava mesmo 20 quilos. Então sempre que eu via depois em casa o programa que eu tinha ido gravar à televisão, ficava mesmo triste com a minha imagem. Não gostava de me ver. Então essa pressão foi posta por mim própria. Não gosto daquilo que estou a ver, não me sinto bem. Mas foi por mim também, porque como é que começou esta minha jornada de perda de peso e de cuidado com a minha alimentação? Foi mesmo no início em Deolinda, que tínhamos tantos concertos e a minha saúde vocal começou a ressentir-se, e eu percebi que parte disso se devia à alimentação, porque quando nós comemos a más horas, vamos para a cama ainda com a digestão por fazer, ou comemos alimentos muito gordurosos, ou o que quer que seja, uma data de coisas que fazem uma digestão pesada, os ácidos do estômago sobem.

O refluxo.

Tal, o refluxo. Exatamente, que os profissionais da voz, nomeadamente vocês também, sabem. Toda a gente conhece. E isto queima o nosso aparelho fonador, e quem tenha de utilizar profissionalmente a voz, percebe que depois não consegue. E pode até ter vários problemas e doenças de voz por causa disso. Então eu senti alguma dificuldade e percebi que tinha de ajustar a minha dieta alimentar, a minha alimentação. Eu comecei a comer cada vez menos carne, que era chapa aquilo que tornava a minha digestão mais difícil. De diminuir a carne na minha alimentação, acabei por me fazer confusão comer carne, então deixei mesmo de comer carne. O meu corpo gostou. Senti que o meu corpo começou a mudar aí. Depois o açúcar, o cuidado com o açúcar também, pelas mesmas razões, porque é tramado para a digestão. E quanto menos açúcar eu ingeria, depois quando voltava para casa comer algo muito doce-

Já não sentias, já estranhavas.

Eu não gostava, ficava enjoada.

O nosso corpo, dizem, precisa só de 30 dias para criar o hábito. A partir daí já é algo mesmo natural, dizem.

Direi que sim. Acho que é preciso um certo tempo em que o nosso cérebro claramente está a tentar pregar-nos rasteiras.

Será que és forte? Aguentas?

Não, é mesmo está a tentar aldrabar-nos. Dizer: "Não, calma, mas se comeres isto, também é só isto, é desta vez. E da outra vez. Comeste desta vez e não aconteceu nada, pode comer outra vez." Está sempre a tentar aldrabar-nos.

Só que depois tu vais fazendo isso várias vezes.

Exatamente. Mas se uma pessoa conseguir domesticar a cabeça. No meu caso, eu consegui, mas cada caso é um caso. E o que eu digo aqui e nesta campanha, "Mude o ritmo da sua vida", o que se diz aqui é que esta jornada de perda de peso Tem de ser acompanhada por profissionais de saúde, médicos. Porque são eles que são os nossos aliados e connosco vão gizar aqui uma estratégia que sirva para nós, para o nosso corpo. Cada corpo é um corpo.

Que seja saudável também.

Que seja saudável. Há alimentos que não são bons para nós. Eu nem vou utilizar termos técnicos, porque eu não tenho estudos para isso. Mas cada pessoa tem um perfil de alimentos que lhe faz mal e que não é alérgica.

Sim.

São alimentos que o corpo não adora.

Não caem bem.

E a gente não sabe. E só com a ajuda, por exemplo, de um médico. Ou eliminando ou diminuindo a ingestão desses alimentos, conseguimos logo. Mas se calhar, às vezes não é possível. Se calhar, às vezes tem de se ir para outras soluções que só nós e as nossas pesquisas do Google conseguem.

E quando tu estás a falar de acompanhamento, muitas vezes é acompanhamento, obviamente, em termos de nutrição, mas também de cabeça, de psicológico.

Sim, eu acho que sim. E é aquilo que eu estava a falar da nossa imagem, a imagem que o nosso cérebro tem de nós e a imagem que objetivamente nós temos para o mundo. Se as duas não colam, eu acho que é muito importante pedir ajuda, porque eu sinto isso. Ainda hoje, às vezes é difícil eu perceber. Olho para o espelho e não tenho uma imagem.

Tu já tiveste de pedir ajuda?

Não. Porque nunca tive nenhuma disfunção alimentar.

Mas, por exemplo, essa questão de peso ou de ansiedade e achar que há aqui uma luta, a pressão, nunca sentiste necessidade de ter que ir, mas também um dia que o sintas, não terás qualquer problema em o fazer.

Óbvio. Não, eu estou a fazer psicoterapia. Eu vou ao psicólogo, mas não foi essa a razão. E é recente, ou seja, eu demorei 43 anos a fazer. Mas não foi por causa disso, foi um acumular muitas coisas.

De várias coisas.

Também isso que eu senti. Portanto, eu estou a dizer isto para as pessoas verem que isto não é um bistec de cabeça, nem tem de ser uma vergonha.

Não é. É preciso normalizar, não é? É quase como ir ao dentista, cuidar dos dentes, cuidar da mente.

E depois eu digo estas coisas . A Elis Regina disse uma coisa muito interessante numa entrevista, há muitos anos, claro. Ela tem muitas: "Eu sou tão insegura que penso, se eu vou falar com um psicólogo, aí resolvo as minhas inseguranças e deixo de conseguir cantar" . E eu demorei algum tempo, porque eu acho que há uma certa dose de insegurança, até uma dose saudável, eu não quero dizer disfunção, que é uma palavra bastante técnica, mas aquela pancadinha saudável, que eu acho que as pessoas criativas têm de ter no meio das suas ansiedades e dos seus problemas. Acho que há uma forma de ver o mundo que foi criada conosco, já nasceu conosco, mas depois as circunstâncias levaram a que também víssemos o mundo de outra forma, para podermos criar coisas que ainda não existem. E que isso tem de ser preservado. Agora, tem de se perceber qual é a espinha dorsal que faz com que isso aconteça. Isso não pode ser tocado. Isso é aquele nervo que nos faz andar. Se cortar aquele nervo na nossa espinha, nós deixamos de andar. Isso não pode ser cortado. Mas há outras coisas, há muita bagagem que nós não precisamos nada para criar. E, portanto, é essa bagagem que eu estou a tentar trabalhar .

Muito bem, já falámos de peso, de idade, de pressão também na música. A música ajudou-te também a resolver algumas destas questões?

Muito.

Aliás, eu tenho aqui uma frase tua que diz assim: "A música é uma forma de me resolver".

É isso, é uma terapia também, foi a minha terapia.

Na verdade, foram os problemas eventuais que podiam causar na voz que fizeram o clique para tentar encontrar uma solução.

Exato. Foi a voz, mais uma vez, a música.

Não tanto a imagem na televisão.

Exatamente. Mais uma vez a música a salvar-me. Salvou-me muitas vezes na minha vida. A criação, porque antes de eu descobrir a minha voz, eu tinha a escrita que me salvava. A construção de outros mundos, que não era o mundo em que eu vivia, que não me era muito simpático. Eu construía através da escrita outros mundos, que eram mais simpáticos para mim, aí eu também me salvava. Mas depois, na adolescência, eu peguei na guitarra. Comecei pela guitarra. Eu peguei na guitarra, tinha 15 anos.

Em Benfica.

Em Benfica. E a guitarra levou a que eu começasse a cantar. E aí, sim, a minha avó dizia: "Cantar é rezar duas vezes" .

Então ela gostava?

Acho que sim . Mas na altura que eu também era um Nirvana e Pearl Jam, não era bem a música que a minha avó gostava.

Ou Born on Blind, não?

Born on Blind, exatamente.

Linda Perry.

Pronto. Ela gostava que eu estivesse contente. E foi nessa altura que eu emagreci. Portanto, foi um período mesmo bom que a música parece que resolveu ali qualquer coisa, na altura que eu precisava que fosse resolvida e levou-me pelo secundário, depois a faculdade também. Eu fiz português-inglês na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e levava a guitarra e tocava para os meus colegas e a música era assim uma coisa-

Terapêutica.

Sim, que me inseria na comunidade, enquanto que antes eu estava completamente, sentia-me uma forasteira. Não pertencia a nenhum grupo, a não ser o grupo dos rejects , como diz uma amiga minha, a Paula, que ela é bilingue, ela morou muitos anos nos Estados Unidos, então de vez em quando manda aquelas palavras em inglês, os rejects. Mas com a música eu senti-me dentro de um grupo de pessoas para quem as outras pessoas olhavam e ouviam, e que ouviam, literalmente ouviam. Porque eu estava a cantar, mas ouviam o que a gente tinha para dizer e viam-nos. Eu não era invisível. Esta sensação de invisibilidade. E quando estamos a falar, voltando agora ao início da idade, que eu acho que o que mais me causa ansiedade é essa invisibilidade, essa do ter tanto para dizer, que eu sinto que hoje, com 44 anos-

Tens muito

...eu tenho tanto para dizer.

E com conhecimento de causa.

E com conhecimento de causa e com redobrada força para o dizer, já sem aqueles medos e inseguranças que às vezes quando somos novas, principalmente nós mulheres, eu estou a falar aqui de uma experiência de mulher. Não quer dizer que os homens também não sintam as mesmas coisas, mas nós, mulheres, temos tantas inseguranças quando somos novas e depois isso A partir dos 40, não sei se foi por ser mãe, se foi os 40, se foi tudo junto, senti-me tão mais forte, tão reforçada. E portanto, tenho tanta coisa para dizer. Eu não me quero sentir invisível. Esta invisibilidade que eu sempre sofri quando era mais nova, se calhar, é um dos meus gatilhos. Felizmente, eu estou aqui a falar de copo, porque eu estou aqui, estou na televisão regularmente e as pessoas vão aos meus concertos, mas é algo importante a se dizer. A invisibilidade é uma coisa muito triste, muito tóxica para as pessoas. Por isso, a música fez-me sentir parte de alguma coisa, sentir-me visível. E portanto, foi a minha terapeuta, na verdade, até há relativamente pouco tempo. E ainda é. Por exemplo, em Dilinda eu cantava o outro. Cantava as histórias dos outros.

Sim, agora são as tuas.

Agora a solo, eu quis no meu primeiro disco a solo e no segundo disco a solo, eu quis cantar-me a mim. Quis pôr cá para fora uma data de coisas, mas agora eu já estou a pensar no terceiro disco e agora já estou com vontade de contar histórias também, mas são histórias que me vêm ainda de observação. Eu, da minha observação, de coisas que eu quero contar. Já vem também da minha experiência direta, ou porque são minha autoria, ou porque quando eu estou a falar com o autor, já mando aquela ideia daquela coisa que eu observei ou daquela expressão que a minha avó utilizava ou de qualquer coisa assim.

Isso é maturidade?

É maturidade, mas é que é isso mesmo. Eu acho que é tão interessante assistir, porque a nossa sociedade olha um pouquinho para, não sei para as outras artes, estou a falar da música. Para a música como valoriza muito a contemporaneidade, uma coisa de: "Isto é mesmo isto que está a acontecer, está no momento, a juventude, a cena jovem", e não valoriza tanto a maturidade. Ou seja, a maior parte dos músicos que vão envelhecendo, principalmente os rockers. O rocker é aquela coisa da rebeldia, que só a juventude é que tem a rebeldia. E portanto, a maturidade é uma coisa que é mais calma, não é? Não dá tanto rebuliço aqui dentro. Mas eu não acho nada, eu estou mais madura, mas ao mesmo tempo tenho um rebuliço cá dentro, uma inquietação.

Ai, que bom! Olha, e também tu já falaste na maternidade, na tua Luz, e tu também disseste que a maternidade foi um abanão, que tiveste que aprender a ser mãe e há feridas que estão a sarar, vendo-a a ela. Nomeadamente, diz-me uma coisa, passando por aquilo que tu já passaste, tu tens receio que a própria Luz também passe?

Tenho, tenho muito. Há o perigo de descompensar. O que isso quer dizer? Vou dar um exemplo. A primeira síndrome destes traumas é: não vos vou dar o nome bacalhau. Ela só é chamada bacalhau. Porque eu sofri com isso, não quero que ela seja gozada. Ainda por cima, o Zé é leitão, vai ficar bacalhau leitão, eu não posso. Mas depois disseram-me: "Ana, mas bacalhau é quem ela é, mesmo que não seja bacalhau, quando descobrirem que ela é tua filha, vai ser bacalhau. E bacalhau é a família, é sangue, é tua."

E apesar de ser um apelidinho vulgar, não é até marcante?

É isso, é marcante, mas a gente sabe quando nós somos novos, não queremos nada que nos marque.

Sim, claro. Certo. É verdade.

E disseram-me isto e eu fiquei a pensar: realmente, caramba, eu vou estar aqui a subtrair-me e a subtrair à minha filha uma coisa que é dela também, de direito próprio, só porque eu tive uma experiência má? Não quer dizer que ela tenha. Portanto, a minha filha chama-se bacalhau leitão. Pronto. E é o nome dela, mas tenho medo e há de acontecer, certamente, no primeiro dia de escola em que lêem os nomes. Mas pelo menos eu já tenho algumas ferramentas que posso transmitir à minha filha para que ela possa lidar da melhor forma, porque isso vai sempre acontecer alguma coisa.

Porque hoje em dia também se fala mais abertamente nestas questões. Antigamente como nem sequer havia esse nome de bullying. Porque tanta gente diz: "Toda a vida existiu." E sim, é verdade, só que agora há um nome.

E as pessoas, os pais, os professores não sabiam lidar com aquilo, eram só miúdos a ser idiotas.

Infelizmente, é uma realidade cada vez mais presente em todos os sítios: escolas públicas, escolas privadas, o que seja. Portanto, acho que também já existe mais essa discussão. E nós, como pais, estamos atentos. Olha, já que estamos a falar de crianças, tu tens assim alguma memória de infância que guardes com muito carinho?

Tenho várias, felizmente. Sou uma sortuda nisso. É muito interessante. Muitas memórias me vêm por cheiros.

Eu, por acaso, ia perguntar isso. Sabes que eu tenho a ver com bolos, bolos da minha avó. A minha avó que cozinhava super bem. Sempre que é um bolo, lembras-te.

Sempre que é um bolo. Tenho muitas saudades.

Comida.

A minha mãe não cozinhava nada.

Nada.

A comida é um gatilho, mas, por exemplo, perfume ou um sabonete ou um perfume, qualquer coisa, ou aquele cheiro de lareira.

Sim. Ai, que gostoso.

A minha avó vinha de uma aldeia ao pé de Tondela. E eu ia para lá no verão. Mas mesmo assim, também íamos às vezes na Páscoa e aquele cheiro da lareira das casas da aldeia É um cheiro que quando eu cheiro aquilo em Lisboa, que é raro.

Sentia na rua, a aldeia toda cheirava aquilo.

Eu sou transportada para um pátio de uma amiga da minha tia, eu chamo-na tia Carocha, é a tia Lourdes, que era irmã da minha avó, no Coço. Tinha um tanque e um pátio enorme, a casa da Augusta, se me estiver a ouvir, já vai dar dois berros. E ela estava lá e eu estava com ela e com os filhos e com os miúdos todos do Coço. Estávamos a escolher os feijões, estávamos a abrir as vagens e a tirar os feijões cá para fora, que aquilo já estava tudo seco, aquilo esteve a secar e estava sequinho, e nós a tirar, transporta-me imediatamente. Ou então para a feira de Tondela, que era às segundas-feiras, e onde se iam comprar as tortas e o pão e a broa de milho. Transporta-me imediatamente para aí. Portanto, tenho muitas memórias disso, tenho muitas memórias de eu com o giradiscos portátil dos meus pais, a dançar feita doida no meu quarto. Depois os meus pais compraram um sistema de som, uma aparelhagem. Agora os miúdos de 20 anos vão estar: "Hã? O quê?"

Exato, se falares num walkman é a mesma coisa.

Googlem. E pôr as cassetes do Roque Santeiro e dançar feita doida. Tenho algumas memórias também das escolas por que passei. Tenho, felizmente, muitas memórias de infância espetaculares.

E se falarmos na melhor, assim uma que não te deixe saudades nenhumas?

Eu tenho duas que têm a ver precisamente com o bullying, que era uma rapariga que era a principal bully, a gozar mais uma vez comigo e eu a ficar sentada ali à espera que a minha mãe me viesse buscar, a não brincar com nenhum miúdo, ficar sentada no cadeirão à espera, porque estava ali a Sara e ela a chatear-me e chateou-me. Na altura queriam jogar ao bate-pé, que era um clássico. Googlem também.

Essa eu acho que também não sei.

E os miúdos não queriam jogar comigo, os rapazes não queriam jogar comigo. Nós tínhamos teatro na escola, expressão dramática, e era o "Ali Babá e os 40 Ladrões". Então nós tínhamos um exercício que era muito giro, que era cada um tinha de fazer os papéis todos, nós trocávamos de papéis. E quando chegou a ser a onda ou dalisca, eu vi a cara de nojo dos rapazes e isso ficou, é uma memória incrível. Não.

E há muitas memórias da Rua Grão Vasco?

Há. Porque eu morava com os meus pais e com os meus avós maternos. E com a minha bisavó ainda, sete anos morei com a minha bisavó materna, a minha avó e o meu avô materno e os meus pais. E o meu gato. Lembro-me de ir com o meu avô ao quiosque lá da rua comprar as pastilhas elásticas. Lá está os maus hábitos, mas vá. Não posso dizer o nome. Eram aquelas com um macaquinho. Que começa em "gu" e acaba em "la". E pelo meio tem "uri". Gula.

E traziam uns não era cromos.

Sim, é umas coisinhas, umas frases.

Uns desenhos animados. Ainda existem essas pastilhas.

Existem. Ainda existem. Se não existissem eu não tinha. E pronto, comprar, ir à Mata de Benfica com a minha mãe, fazer jogos com ela. Aquele jogo da pena. Como é que se chama aquele jogo? É o badminton?

Badminton, sim.

O jogo da pena.

Com uma raquete e um volante. É o volante, não é?

É o volante. Olha, e ser mulher no mundo da música, é fácil?

Ser mulher de uma maneira geral não é a coisa mais fácil do mundo. Quem é que disse ontem ali uma citação incrível que é: "Ser mulher é a coisa mais perigosa que eu já fiz na minha vida."

A sério?

Sim. Deve ser alguma mulher que tem algum trabalho perigoso. Porque se formos a ver, nós estamos mais vulneráveis a coisas complicadas de acontecerem, nomeadamente em termos de, infelizmente, eu não conheço nenhuma mulher que não tenha sofrido algum tipo de moléstia, o piropo, o apalpão. Eu não conheço nenhuma que não tenha sofrido isso. Portanto, de uma maneira geral, ser mulher implica sempre um bocadinho mais de dor, quanto mais não seja porque há uma coisa muito interessante, que é uma exposição das mulheres quando se despem, quando chegam a casa e tiram a roupa, as marcas que têm no corpo. Um homem tira a roupa e não se vê marca nenhuma roupa, isso é uma coisa impensável. As mulheres só têm marca, é sutiã, é cueca, é calça, é camisa, é o sapato, está tudo marcado o corpo. Então nós andamos com um certo grau de dor durante o nosso dia a dia. Por isso é claro, às vezes estamos mal dispostas. É natural.

Vês, Diogo, porque é que às vezes eu estou mal disposta? Não estou.

Mas já implica uma certa dor ser mulher. Não estou a falar de filosófica, aqui estou mesmo a falar físico. Mas transpondo isso para a música O que é ser mulher na música? Eu acho que é, de facto, para mim sempre uma luta de liberdade. Liberdade de expressão, de ser quem sou, de não me inscrever em moldes que não me servem, acho que não servem ninguém, de uma feminilidade que não é minha, tenho outra, de querer mexer-me em palco como bem me apetecer e não como pareça bem. Portanto, é realmente uma busca pela minha identidade. A expressão artística é isto, é uma busca qualquer de uma identidade, de expressão, de ter algo a dizer, a trazer ao mundo. É essa a minha busca. E o ser mulher é parte importante dessa minha expressão individual, portanto, será parte importante dessa expressão artística e de lutar contra estas coisas de: "Epá, se um homem vai todo roto para o palco com as calças todas rasgadas, é muito bom, que grande artista. Se for uma mulher, já leva na tola". É também rebelar-me um pouquinho contra isto. Eu em palco até posso estar de saia e de salto alto, mas eu estou aos pulos a fazer headbanging e não quero saber se sai celulite, se não sai celulite. Estou a curtir ao máximo.

E se tivesses sido professora, a postura seria essa também?

Eu ia ser a professora maluca.

Claro, é tão boa.

Sim, ia ser a chanfrada, mas sempre a tentar ser a boa professora. A chanfrada que era a boa professora. Eu acho que nem é preciso tentar. Uma pessoa se estiver convicta e se realmente for aquilo por que luta, se isso estiver no seu âmago, no seu ADN, nem é preciso tentar, a coisa já sai naturalmente. E não é uma doutrina, não é tentar passar uma doutrina aos outros. É realmente tentar agarrar esta liberdade que nos é dada quando nós nascemos, nós somos livres e isentos. Tentam nos tirar isso de diversas formas ao longo da vida. E a minha luta é tentar recuperar isso. "Não, estás a tirar-me isso um bocado, mas eu quero isso, eu quero ser assim, não me chateiem, não me grilhões." E acho que isso passaria naturalmente em qualquer coisa que eu faça, acho eu.

Mas ser professora era um sonho?

Era. Eu queria muito ser professora. Eu acho que eu mantenho esta coisa de passar qualquer coisa no púlpito. O palco é um púlpito, não é?

Sim, exatamente.

Eu estou ali a passar qualquer coisa, mas estou a receber também, que é uma coisa que me fascina, o conhecimento. Eu tenho aqui uma coisa que sei e que entrego. E depois as outras pessoas sabem coisas que eu não sei. Ou então quando eu lhes entrego a coisa que sei, quando elas me devolvem, já está um bocadinho diferente. Isso para mim é fascinante.

Isso podia ser o exemplo de uma pessoa da política, do mundo da política, não?

Sim.

Isto sou eu a perguntar se...

A Ana sai anda na política.

Poderia ser. Eu gosto muito de política. Lá em casa falava-se muito, sempre ouvi os adultos a falar muito de política. E a minha mãe também é uma mulher de causas. Ela era ambientalista nos anos 70, 80.

Não se falava.

Cá em Portugal nada, era zero.

Quando ninguém era.

Ninguém.

Sim.

E portanto, a mulher era em certas coisas à frente do seu tempo, noutras nem tanto. E esta coisa, eu fui permeável a isso, obviamente. E portanto, eu acho que a política, a coisa política, é muito importante, porque a política é tudo, tudo aquilo que nós vivemos, nós próprios. Nós somos seres políticos, na nossa comunidade. A política não é só a Assembleia da República, não são só as Câmaras Municipais, não são só as Juntas, é o nosso bairro, é o nosso prédio, são as nossas comunas. Eu agora disse isto e o pessoal: "Ai, comunismo". Não. São as nossas pequenas sociedades onde nos inserimos, em que nós tomamos decisões que têm influência na vida dos outros. E tudo isto para mim é política, nós somos seres políticos. E portanto, é da máxima importância. Eu acho sempre que todos nós podemos fazer a diferença, nós achamos que não e somos esmagados, porque chegar à Assembleia da República é muito difícil, é muito difícil chegar aos políticos. Mas se nós pensarmos nisto, de nós sermos uma gota d'água, mas esta gota d'água vai molhar aqui a próxima gota d'água, que é o vizinho do lado.

É tudo o que nós fazemos no nosso dia a dia.

Exatamente.

E se intervimos o suficiente. Porque às vezes queremos logo chegar ao grande e ao topo.

Mas somos um grão de areia.

Mas depois também não fazemos nada. Engraçado tu estares a falar isso da questão de querer ser professora. Por exemplo, alguma vez te arrependeste e pensaste: "Se calhar devia mesmo me seguir?" E nunca é tarde.

Não, nunca é tarde, não. Eu quero mesmo dar aulas.

A sério?

Quero. Agora, obviamente, vou dar aulas, não de português e inglês.

Pronto, que era esse o objetivo. Aliás, tiraste o curso para isso.

Sim. Mas gostava de dar aulas, não de música, porque eu apesar de ter estudado um ou dois anitos de música, não tenho conhecimentos suficientes para dar aula de música, nem de voz, de técnica vocal, mas de interpretação. Interpretação de olhar para um texto, é que um cantor tem uma responsabilidade muito grande, porque o seu instrumento é único e carrega a palavra. E portanto, não pode maltratar um texto, tem de saber o que está a fazer com aquele texto, o que pode e o que não pode fazer, já está a trair aquilo que está a dizer. E portanto, interpretação, para mim era muito fixe. Eu gostava muito de dar essa relação do cantor com o texto. E performance Estar em palco, levar esse texto e essa música e entregá-la não só com a voz, mas com o corpo todo, que é o nosso instrumento. E eu sou uma performer exuberante nesse sentido, mas eu não serei professora de moldes. Eu quero é descobrir, porque os performers intimistas e tímidos são tão interessantes quanto um performer tipo Mick Jagger.

Mais extrovertido.

Sim, é mais fácil um Mick Jagger chegar às pessoas, mas quando um mais introvertido, mais dentro, chega, é com uma intensidade tal. Portanto, eu gostava mesmo de poder trabalhar isso com alunos, essa coisa de estar em palco, do gesto. O gesto funciona nos palcos mais pequenos. Os gestos podem ser mais pequenos, mas nos palcos maiores, os gestos têm de ser maiores. O palco é como estar na vida, mas é uma realidade aumentada. Eu aqui estou sentada assim, num palco eu até posso estar sentada assim, mas tenho de exagerar um pouquinho. Ou se eu estiver sentada assim na vida, no palco é uma realidade aumentada. Então essas coisas que eu fui aprendendo, eu gostava muito de passar às pessoas.

E agora pensando mais, se tu seguisses ou voltasses, no fundo, que tiraste o curso, se fosses professora de português e inglês, tendo em conta a realidade do nosso país, que temos muitos professores em greve nesta altura. Justamente, tem sido um setor que nunca teve a vida facilitada.

Tenho muita coisa a dizer acerca disso. A minha geração, a geração que estudou no final dos anos 90 na Faculdade de Letras, dos meus amigos, colegas de curso, acho que há aí um a dar aulas. As outras pessoas desistiram. Portanto, perdeu-se pelo menos uma geração de professores, porque na altura não havia vagas. Não dava, não conseguíamos dar aulas. Ou havia vagas, mas andava aos tombos e aos caídos, como ainda é hoje.

Sempre professores que serão colocados.

Não dava. Hoje em dia, há falta de professores e daqui a 15 anos ainda vai haver mais falta de professores, porque acho que se vão reformar uma data. E portanto, agora já precisam outra vez, mas entretanto toda uma geração de professores foi ao ar. Bem preparados.

Foram convidados a afastar-se.

Convidados a afastar-se. E pessoas que queriam ser professores.

Pessoas com amor à profissão.

Com amor à profissão. A mãe do meu marido, José, foi professora de inglês. Ela diz que quando estava grávida do José, nos anos 70, 78, 79, que foi quando ela acabou o curso e começou a dar aulas, mesmo assim, já grávida de quase sete meses, com barrigão, ela não conseguiu, já nessa altura, dar aulas ao pé do sítio onde morava. Ia para longe, tinha de apanhar não sei quantos autocarros. Ou seja, já nessa altura. Isto é um problema de há 40 e tal anos. Nunca foi fácil a vida dos professores. Eu não percebo como é que é difícil. Por que um professor que mora em Aveiro tem de ir dar aulas para Faro e um professor de Faro tem de ir dar aulas para Aveiro? Eu não entendo esta lógica, não percebo por que isto não melhora. E dar aulas é das coisas mais importantes para uma sociedade. Não há nenhuma profissão, por mais importante que ela seja, que não tenha passado por um professor. Os médicos, sim, senhora, uma profissão super importante para a sociedade. Tiveram de ter professores.

Até mais tempo.

Caramba, não é?

Até mais tempo.

Pois. Juízes. Sim, senhora, importante. A justiça é importante. Pois, mas tiveram de ter professores. Políticos? Pois, tiveram de ter professores. Portanto, é a profissão basilar, tinha de ser bem tratada. Vocês notam que eu estou entranhada.

Sim, claro.

Portanto, eu percebo perfeitamente. Eu acho que se fosse professora nesta altura, estava de greve. Mas percebo também, obviamente, que se a greve não afetasse ninguém, não era um instrumento de pressão, como é. Mas é óbvio que é complicado para as aprendizagens dos alunos. O que eu acho é que aqui os poderes que mandam é que têm de resolver isto rapidamente. As pessoas têm legitimidade em fazer greve porque a sua profissão realmente não é fácil, está cada vez mais difícil. Do outro lado, as pessoas têm o direito à educação. Pois claro que têm. E aqui no meio estão os mediadores e os decisores, que têm de agir rapidamente. É isto.

Muito bem, Ana, o tempo passou mesmo a voar. Muito obrigada por teres vindo aqui à Rádio Observador há 40 minutos. Muitas felicidades. E concertos para breve, que tenhas na cabeça, rapidamente para fechar.

Para já, nada. Acho que é só lá mais para março, abril. Agora não tenho assim de cabeça. Eles vão vendo no meu Instagram.

Estarem atentos também no Instagram da Ana. Sigam a Ana, se ainda não o fazem, fiquem atentos às redes. E Ana, muito e muito obrigada.

Obrigada eu.

E até breve.

Obrigado.