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Eu saí de uma ditadura para experimentar outra, uma ditadura moderna. E não é só Portugal, o Brasil, os Estados Unidos. Tu teres uma opinião contrária ao outro representa um perigo. Ou gozares com a opinião de uma pessoa. E às vezes nem é um debate que eu posso chamar de evolutivo, onde nós estamos a debater um assunto e queremos crescer com ele, queremos encontrar aqui um ponto comum. Eu já não tenho muito medo desse cancelamento. Hoje em dia, as pessoas dizem: "É o que é, meu."

A sua história começa no bairro de Sambizanga, em Luanda, onde as ruas ensinavam mais do que os livros. A tia Zita era a sua televisão, contava histórias com vários capítulos, perto de um candeeiro ou de uma vela, quando havia falhas de energia. Cresceu rodeado de histórias duras, perigos inesperados, mas ainda assim encontrou espaço para fazer nascer algo improvável: o riso. Antes de encher auditórios, encheu um pequeno quintal com cadeiras improvisadas para dar aulas de inglês. Antes de subir aos palcos em Portugal, aprendeu a desarmar preconceitos. Hoje, o que traz ao palco não é apenas humor, é memória, sobrevivência, identidade. Mostra-nos que a língua portuguesa pode ser palco inteiro, sem fronteiras, e é, sobretudo, a prova de que o humor pode nascer dos lugares onde menos se espera. Gilmário Bemba, bem-vindo aqui à Rádio Observador.

Eu quero recuar na parte de como é que leste o nome do meu bairro.

Eu possivelmente disse mal.

Eu estava na dúvida se eu tinha percebido mal.

Sambizanga.

O que era aquilo? Isso me acontece muito quando são aquelas palavras que não fazem parte.

Não, isto parece um trava-línguas, na verdade. Sambizanga.

Sim.

Se disseres muitas vezes, torna-se difícil. Sambizanga. Nunca mais me vou esquecer.

Sambila. Tantos nomes para descrever o meu saudoso Sambizanga, o bairro que me viu crescer, pelo menos até os meus 14 anos. Muitas histórias, muitas coisas a aprender lá. Sempre que subo ao palco, eu levo comigo toda essa passagem de vida, que pode até parecer estranho para algumas pessoas. "Parece tão novo, parece que já viveu muito tempo."

Queres falar sobre isso, sobre a idade, sobre a passagem do tempo? É um tema confortável para ti?

É um tema que eu estou super confortável com o meu processo de envelhecimento. Já começo a ter dores familiares, que é algo que é fixe, já sabes que aquele joelho dói, é inevitável.

E estás ok com isso?

Estou ok com acordar com uma dor no ombro que não sei de onde é que saiu e estar com ela ali tranquilo, passo bálsamo. Agora percebo porque é que dizem que é aos 30 que vais adquirindo o cheiro a velho, porque é aos 30 que começas a usar cada vez mais ou a tomar algum tipo de suplemento ou um comprimido qualquer, ou a passar esse bálsamo para poder tentar se livrar das dores que nos perseguem. E eu já tenho. Tenho um tornozelo já lixado, que não recupera, já tentei de tudo, já desisti dele. É uma dor minha, agora.

Já desististe, já arrumaste.

Arrumei essa coisa, está ali. Correr para quê? Não há necessidade também. Se é até os 40. Aliás, eu não sou nenhum Cristiano Ronaldo, então não há necessidade de estar a fazer isso. Aliás, eu acho que pelo dinheiro que ele tem, já nem devia estar a correr, devia estar tranquilo.

Mas ele ainda vai jogar uns aninhos. Eu ainda aposto em dois.

O homem tem objetivos.

Aposto em dois, pelo menos.

É complicado nós, pessoas com pouca ambição, olhar para pessoas com muita. E não digo ambição num lado mau. Eu costumo dizer que a ambição é diferente de ganância. O ganancioso quer coisas só porque quer. Mas eu acho que o ambicioso é alguém que tem ambição na vida, quer crescer.

Mas tu és um homem ambicioso.

Eu sou, mas ao lado daquele homem, acho que a minha ambição não é-

Mas são ambições diferentes, não podemos comparar o Cristiano Ronaldo com ambições futebolísticas de vida.

E a ambição na carreira dele tem um limite. Na minha não tem, eu acho que dá para fazer isso até os 80, até os 90 anos.

Imagina até essa idade, fazer espetáculo, stand up.

Cada vez mais quando vejo cotas como o Hermann e tantos outros que já fazem isso há tantos anos e ainda continuam a brilhar nos palcos e continuam ainda a trazer coisas novas, eu fico: "Meu, que bom!" Olha, em tempos vi um stand up, eu sou péssimo a decorar nome de pessoas que me aparecem só assim no feed, que era um cota. Ele devia ter aí uns 80 e poucos anos.

Português?

Não. Acho que era americano. Mas com um set de stand up incrível. Era um cota e depois também havia uma cota. Da cota, então, espetacular. Acho que deve estar algures na página do "Don't Tell Comedy".

É possível.

E aquilo dá muita esperança. Olhar: "Olha, está aqui." Mesmo para aqueles que são os meus ídolos de stand up, como Dave Chappelle, como Chris Rock, e perceber que apesar dos anos de carreira que eles têm, ainda conseguem lançar novos solos com temas muito interessantes, isso para mim é espetacular. Então eu acho, definitivamente, que se tudo correr bem, se eu não for cancelado a meio disso

O cancelamento assusta um humorista nos dias que correm. Se calhar há uns anos não se pensava tanto nisso.

Se eu tivesse o dinheiro do Cristiano, não me assustaria tanto, porque eu acho que o problema do cancelamento está sempre a atacarem na tua possibilidade de continuar a fazer dinheiro pra pagar as tuas contas, porque se tu és cancelado e depois não consegues faturar pra poder pagar as contas do mês, aí, realmente, quando tu vês muitas pessoas a dizerem que aquilo que tu estás a fazer está errado, preocupa. Se tu tens outras formas de income, meu, I'll say whatever I want. E falei essa parte em inglês, porque queria mostrar aqui que aquela parte de ter dado aulas em inglês não foi aulas de inglês, no caso.

Esta questão de que estamos a falar do cancelamento. Agora nós temos um caso que não foi um cancelamento de um humorista, mas temos um caso que foi muito público, a polêmica e o julgamento que tivemos entre os Anjos e a Joana Marques, e que veio aqui também, no fundo, reacender alguns debates em torno do humor, do papel do humorista, como é que se deve posicionar o humorista perante certos casos. É um debate que vem aqui também pôr algumas questões em cima da mesa e voltamos àquela velha questão que eu acho que nenhum humorista gosta de falar, nem discutir, que é os limites do humor, que é aquela pergunta que, se calhar, nas tuas entrevistas todas já te fizeram uma pergunta sobre isso, não é?

É, várias vezes. Depois daquela galheta do Will Smith ao Chris Rock, esse tema foi recorrente várias vezes. O artista tem uma cabeça que funciona de forma diferente. Ele está sempre a olhar pra sociedade, pras coisas, de uma forma diferente. O ângulo que ele vai pintar um quadro, que ele vai fazer uma piada ou escrever uma música, está muito na cabeça dele. Pode ser só crítica, pode ser só uma questão de nonsense, mas a cabeça do artista é isto. E este lado da rebeldia e às vezes até pode soar de uma liberdade excessiva do artista, eu acho que é incontrolável. Não tem como travar isso. Ao longo da história, a arte em ditaduras, sempre foi um alvo a bater. Qualquer artista, se não tivesse de acordo com o sistema atual, estava fora. E hoje, com as redes sociais, nós temos a própria sociedade a formar esse elemento, esse indivíduo disse uma coisa que nós não gostamos, por isso vamos cancelá-lo, vamos tirá-lo do mercado, vamos fazer com que ele pague por aquela piada ou por aquela música, ou por aquele quadro que é horrível. Mas infelizmente, essas coisas podem acontecer milhentas vezes, mas a cabeça do artista vai continuar a funcionar da mesma forma e vai ter que arcar com essas consequências.

Tu ao longo do teu percurso, nunca sentiste, não digo uma questão de pressão, mas alguma piada que tenhas feito e tivesses sentido a necessidade de te retrair ou de te retratar, isso nunca aconteceu?

Nunca senti a necessidade de vir a público e dizer: "Pessoal, olha, peço desculpas por ter feito aquela piada, realmente foi de mau tom." Nunca senti essa necessidade. Porque eu também sou, na verdade, um artista meio covarde, se for assim olhar. Eu não mexo com coisas que possam chegar a essa necessidade. Eu olho pra muitos comediantes que eu admiro e vejo até onde eles conseguem encontrar o limite e transpor aquela linha. Eu não sei. Eu acho que eu sou mais do tipo que observa a sociedade em que está inserido e faz piada com aquilo, sem ter o sentimento ou a vontade de puxar alguma corda. Eu acho que eu até sou bem limitado nisso. Posso ter piadas que algumas pessoas achem desagradáveis, mas aquilo cai no campo da interpretação. Nunca estive assim numa piada minha e ver 100, 1000 comentários de pessoas a dizer: "Ei, pá, que é isso? Como é que tens a coragem de fazer essa?" Eu acho que eu até respeito muito o too soon e too far. São essas duas balizas que dentro da comédia está sempre ou é muito cedo, ou esticaste demais a corda. Então o too soon e o too far pra mim estão sempre ali, porque eu sou um filho bem criado . Sou um filho criado com surra.

Com muitas.

Com muitas surras. Então tem medo. E deve ser por isso também que eu admiro muito os comediantes que conseguem chegar aonde eu gostaria, mas não tenho a coragem de fazer. Então eu não consigo puxar muito a corda.

Pra quem vai chegar até aos 80, 90 anos a fazer stand up, ainda tens muito caminho até lá. Portanto, vais chegar lá com certeza. Isto que tu falavas aqui, não sei se concordas, muitas vezes, e talvez as pessoas tenham isso em mente, a questão de que o humor muitas vezes tem que ser consensual, ou seja, toda gente tem de rir e quando uma pessoa não ri, se calhar é porque não tem sentido a piada. E acho que se calhar podemos estar a passar por essa fase mais de questionamento do humor e se calhar vamos passar ao longo dos próximos tempos muito por aquilo que tu falaste também da questão da política e daquilo que envolve tudo, tanto aqui no nosso país como lá fora, e dessas ameaças que surgem muitas vezes.

Sim, se formos olhar então pra política, que é uma política que eu não estou habituado.

O Ricardo Araújo Pereira faz isso todas as semanas, ao domingo.

Sim, faz. Mas há uma coisa que é Que era boa dentro de democracias mais sólidas como a democracia portuguesa, que eu sinto que vai se perdendo, porque nós hoje com a política, nós vibramos como se fossem clubes. Às vezes tu notas os debates políticos, é como se fossem duas claques a debater quem é o melhor, quem tem mais título. Então a política que era a arte de gerir as sociedades, onde as pessoas sentavam para debater ideias e encontrar soluções que se aproximassem mais da maioria, está se a perder um bocadinho. Agora que vivo em Portugal, claro que aqui tenho uma liberdade maior. Eu até costumo fazer a piada que eu posso ir à televisão e fazer uma piada com o presidente da república e sair dali tranquilo, sem saber que nada me vai acontecer. Ou no caso aqui, uma figura mais executiva, fazer uma piada com o primeiro-ministro ou com alguma figura bastante importante da política e estar tranquilo na minha casa. Só que os dias de hoje é diferente.

Isso em Angola, por exemplo, era impossível de acontecer nesta altura?

Em Angola não digo que é impossível. É possível acontecer, mas sabes que tens que olhar mesmo para os ombros. E há mesmo, às vezes, um cancelamento descarado, mas não da parte das pessoas. O que está a acontecer em Portugal, que eu acho que está a acontecer em Portugal e está a acontecer um bocadinho pela Europa toda. Em Angola, há uma ditadura de quem governa. Então tu quando atacas quem governa, tu és perseguido e começas a ver os teus contratos e a tua possibilidade de aparecer nos sítios desaparecerem. E às vezes mesmo ameaçado ou perseguido. Tu sentes ali a mão de quem governa em cima de ti. Na Europa está acontecendo o contrário, que é os clubes das pessoas que defendem um lado e de outro, que te vão perseguir. Ou que vão das redes sociais e começam a te mandar mensagem, pessoas comuns, pessoas tão pobres como eu, tão desgraçadas como eu.

Muitas vezes se escondem atrás das redes sociais e fazem esses comentários, mensagens.

Sim, uns até já nem se escondem. E aos poucos isso vai passando para a rua, quando a pessoa já está com um copo e olha para ti e chama-te nomes porque fizeste uma piada. Eu acho que agora está se a perder. Eu saí de uma ditadura para experimentar outra. Uma ditadura moderna. E não é só Portugal, o Brasil, os Estados Unidos, as pessoas estão mais preocupadas.

Mas quando falas isto, queria só perceber, não estás a falar só em relação ao humor, falas em relação à vida em geral.

À vida em geral. Tu teres uma opinião contrária ao outro, representa um perigo. Ou gozares com a opinião de uma pessoa. E às vezes nem é um debate que eu posso chamar de evolutivo, onde nós estamos a debater um assunto e queremos crescer com ele, queremos encontrar aqui um ponto comum. E faz parte. E eu já não tenho muito medo desse cancelamento. Hoje em dia, pessoas dizem: "É o que é, irmão." Provavelmente, estou eu também do outro lado a defender, porque já estamos todos embrulhados e misturados. Eu também já nem estou a te ouvir, também já estou só a defender aquilo que eu acho que é o correto. Tu também só estás a defender o que tu achas que é o correto. Já ninguém está a ouvir ninguém. E pronto, vamos seguindo até um dia, mas as sociedades são assim, elas chegam a esse ponto e quando atingem o limite, depois volta tudo ao zero outra vez. É mau, porque às vezes termos que partir tudo para começar do zero.

Exato. A história ensina-nos isso, no fundo.

Ya, a história ensina. O problema é que mudam as gerações. Ou se calhar as gerações antigas vivem muito tempo, que começam a achar que é aquela velha conversa: "No meu tempo é que era." Diz assim, quando tu chegas ao ponto de dizer que no meu tempo é que era, porque já estás velho, já estás dentro de um conflito geracional. E depois há esse problema, que é uma geração que também não viu o que aconteceu lá atrás, ou ignora completamente o que aconteceu lá atrás, e acha que tem que voltar a um sistema mais antigo. E tu perguntas: "Mas se mudou, se calhar mudou porque..."

Era necessário.

Também pode mudar para mal, atenção. É preciso estar sempre a vasculhar e tentar encontrar as nuances do ponto de vista histórico, que é para nós não cometermos o mesmo erro. Ou para repararmos um erro que foi cometido lá atrás e que está a nos dar problema agora. Então, há sempre isso.

Enquanto pai, essas ameaças preocupam-te ainda mais? Pai de cinco filhos.

Não.

Ou deixa-te mais em alerta?

Claro que deixa em alerta quando tens um cara maluco que acha, por exemplo, que porque fizeste uma piada, tens que morrer. Tu não sabes até onde é que ele vai para poder realizar esse desejo dele. Está ali nas redes sociais, só, mas tu não sabes. E tu pensas: "Isso não é possível." Por exemplo, em Angola O caso de Angola é um bocadinho diferente, porque às vezes, para além de ser humorista, chego a roçar a parte do ativismo, de me posicionar como cidadão por uma coisa que está mal. E me aconteceram coisas que meteram em risco a vida dos meus filhos e isso deixou-me assim: "Meu!" É aquela pergunta que às vezes tu estás sozinho e pensas: "Meu, será que vale a pena eu estar a me posicionar assim ao ponto de meter em risco a vida dos meus filhos?"

Esse episódio aconteceu, aliás.

Esse episódio aconteceu. Já não é uma coisa que eu possa dizer: "Será?" Não, aconteceu, está ali. Está marcado e eu sei hoje que foi muito por conta deste meu posicionamento. Mas agora a dúvida é: será que fazer só piadas estava fixe?

Eu ia-te fazer essa pergunta.

Se eu tivesse só a fazer piadas, estava fixe, se não tivesse a fazer também esse papel meio que ativista. Um cidadão ativo, eu quero que as coisas melhorem. Eu acho que dentro de uma democracia, a função de quem é o cidadão, de quem é governado, é estar como fiscal, para garantir que quem a gente votou para governar esteja a fazer as coisas para o nosso benefício. Aquelas pessoas que estão lá, estão em representação do nosso voto. Nós demos o voto de confiança e aquela pessoa está ali para aplicar, dentro das suas políticas de governação, conforme as propostas que nos apresentou, para melhorar a nossa vida e não o contrário. Tu não chegas ao poder para melhorar a tua vida.

É por isso que existe a democracia, o bem para todos, não é?

Exato.

Igualdade para todos.

Igualdade para todos. Eu estou aqui em Portugal a descobrir a coisa da esquerda e direita. Que é uma coisa que Angola não sei se é tanto esquerda, se é tanto direita, não sei, porque só há um lado, propriamente. Até quem governa sabe que ainda temos muito que andar para solidificar a nossa democracia. Tenho pena de ver países que já conquistaram isso a tentarem querer recuar um bocadinho nisso. Aliás, me dizem assim: "Aqui até falas, lá não falas." Lá eu sei que eu não falo. Agora, é estranho ir percebendo que aqui também não falo ou não devia falar.

Gilmário, já falámos muito aqui nesta primeira parte, mas vamos ter de fazer aqui uma curta pausa para as notícias.

À vontade. Estamos nisso.

Segunda parte do "Em 40 Minutos", esta semana estamos com Gilmário Vemba. Vem aí um novo espetáculo. Vais andar por todo o país, até vais às ilhas.

Vou a todo lado, porque o dinheiro da primeira tour já acabou. Eu gosto sempre de tentar levar o meu trabalho ao máximo de pessoas que eu conseguir.

Como é que se chama, já agora, para aqui para os nossos ouvintes?

"Terceiro Round".

Isto pode ser também uma ótima prenda de Natal. Estamos nessa altura.

Olha, malta, aproveitem, ofereçam isso aos vossos. Eu sei que eles vão adorar. Eu tenho a experiência de muitas pessoas que foram pela primeira vez ao meu espetáculo, nem sequer me conheciam, e hoje são pessoas que me seguem. Então a aprovação é de quase 99,9% das pessoas. E eu estou mesmo muito feliz com esse conteúdo. Está um conteúdo para a minha idade. Estou no palco como um comediante de 40 anos, que faz aquelas piadas que provocam divórcio a meio do caminho de casa, as pessoas debatem sobre o assunto. Eu estou mesmo muito feliz com esse conteúdo. Porque um artista está sempre em fase de crescimento. Eu sempre quis fazer um tipo de humor que tivesse essa vibe meio madura, que não estivesse só a roçar a superfície das coisas. Mas se calhar a tocar e conseguir preparar piadas, fazer piadas com assuntos que primeiro que são muito atuais na sociedade em que se está a viver, mas ao mesmo tempo que depois das pessoas se rirem, pudessem debater para mal ou para o bem.

É um humor que nos faz pensar também.

Eu sempre fui muito fã do Dave Chappelle. O Katt Williams também teve muitos espetáculos assim, que são aqueles shows que são um sucesso e quando vão parar para as plataformas de streaming, criam debate à volta daquilo que foi dito naquele espetáculo. E eu acho que esse espetáculo vai trazer um bocadinho isso. Eu tenho a certeza que sim. Vai trazer muito isso. Estou em território alheio. E às vezes ser o observador da sociedade alheia é meio desconfortável. Eu sei. E eu afirmo isso: nunca é confortável ouvirmos alguém do outro lado a falar de nós. É sempre uma coisa. Imagina, eu sou angolano e quando eu estou aqui e a fazer piadas sobre nós angolanos, das nossas mazelas, eu recebo muita crítica de angolanos, tipo: "Ei, pa, vais agora no meio dos brancos falar mal de nós?"

Por um lado funciona bem, mas ao contrário pode levar a essas interpretações.

E ao contrário também. Normalmente eu faço sempre o mesmo espetáculo que eu faço em Portugal, exatamente o mesmo espetáculo é o que eu faço em Angola, faço em Moçambique, e agora estou a tentar também ir pro Brasil. É exatamente o mesmo espetáculo. E acho incrível como é que essas piadas, mudando de sítio, ganham uma apreciação diferente.

A percepção é diferente.

A percepção é diferente. Ou seja, a piada tem um peso dependendo do sítio onde tu estás a fazê-la.

E do público naquele dia, não é? Porque o público que tens num dia não é igual ao outro dia.

Não é só o público. Imagina, a mesma piada eu faço aqui na sala, em Portugal, com a plateia de portugueses e está fixe. Essa mesma piada, eu vou pra Moçambique, faço pra uma plateia de moçambicanos e há um português a observar isso à distância e dizer: "Ei, mano. Não pode." Então eu gosto disso. Eu gosto também desse lado agridoce do stand up.

Mas controlado. Um agridoce controlado.

Um agridoce controlado. Ainda não cheguei. Eu acho que talvez aos 50. Agora aos 40 ainda não estou pronto pra chegar aí, mas se calhar aos 50 eu seja mais agridoce, não sei. Mas gosto também deste lado de perceber como é que as pessoas podem reagir à mesma coisa de forma diferente. É sempre aquela coisa que nós dizemos meio clichê, que estamos todos a olhar pra mesma coisa, mas não estamos a ver aquela coisa da mesma forma. E no caso das piadas que eu faço dentro dessa carreira internacional, é perceber que ao mudar de lugar, a piada ganha outro contorno. Parece mal e pro outro lado parece bem, ou seja, eu não estou certo em nenhum sítio. Isso é bom, pelo menos há uma coisa que é consensual.

Sim, haver aqui.

Eu não estou certo pros angolanos, não estou certo pros moçambicanos, não estou certo pros portugueses, porque se eu estiver em Angola e fazer uma piada sobre os portugueses, os portugueses vão ficar chateados. Se eu estiver em Angola, fazer uma piada sobre os angolanos, os angolanos vão ficar chateados. Se eu estiver em Moçambique, fazer uma piada sobre os brasileiros, os brasileiros vão ficar chateados. Se eu estiver no Brasil, fazer uma piada sobre moçambicanos. Ou seja, eu estou a magoar todos de forma igual. Estou sendo justo. Isso é que se chama justiça. Eu estou a magoar todos de forma igual e também estou a alegrar todos de forma igual.

Chamo Mário Vemba, um homem igual, da dor metafórica.

Não me concerne a magoar, pelo menos. Mas também tem uma coisa que se nota muito hoje em dia, que normalmente os maiores críticos do stand up são muitas vezes pessoas que nunca foram ver o espetáculo, que eu acho que é um erro. É um erro tu julgares o livro por uma página. Um livro com 500 páginas e tu lês uma página e tiras daí.

E já tiras daí uma conclusão.

Que é o que normalmente acontece, é um reel. Um reel tem uma piada, e eu tenho um gênero de piada que não é uma one liner, é um storytelling, ou seja, dentro de um espetáculo de 70 minutos, tem várias coisas acontecendo naquele espetáculo, há várias piadas e às vezes uma liga-se à outra, mas não dá pra meter tudo num reel do Instagram.

Claro. Até porque prender a atenção inicialmente num reel do Instagram é cada vez mais difícil.

Exato.

E todos sabemos disso, do scroll que fazemos diário nas redes sociais.

Mas antigamente isso funcionava. Tu quando fazias um teaser, acho que a expressão teaser tem a ver meio com provocar. Tu fazias um teaser para que as pessoas fossem ver o todo. Mas hoje parece diferente. Tu fazes um teaser e as pessoas: "Já vi tudo. Já vi, não quero mais ver nada."

É isto.

Ou tem as pessoas que dizem: "Muito bom!" E tu pensas: "É porque não viste o resto." E também tem as pessoas que dizem: "Isto é uma merda, isto não vale nada." E tu: "É porque também não viste o resto." Eu pelo menos faço esse exercício. Claro que hoje a internet serve, seja comunicação social. Aliás, nós pensamos que isso é uma coisa de agora, mas na verdade os jornais sempre funcionaram assim. O título que está ali é suposto chamar a atenção.

Claro.

É suposto te criar um incômodo. Tenho que beber água.

Beba à vontade. Eu ia dizer, aliás, o título que vai estar neste episódio do "Em 40 Minutos" também vai chamar a atenção. É esse o objetivo.

Ya.

Queremos que os te ouçam.

As pessoas estão a me ouvir e estão a me mandar más energias agora. Não. O que eu faço é, por mais que o título me provoque algum desconforto, se eu quiser formar uma opinião sobre aquilo, eu tenho que ouvir o todo. Eu tenho que ter a paciência de ouvir o todo ou pelo menos ouvir o todo que compõe aquela parte que me mostraram. Porque eu acho também não precisas ver o espetáculo de 70 minutos, no caso, não precisas ver todo ele pra perceber aquele bocado Se calhar precisas de ver cinco minutos para perceberes onde é que está aquela baliza, seja entrevista, seja debate, seja tudo. Mas é o que é. Nós temos esse lado muito reativo, em que aconteceu e depois vais ver o todo. Não era nada disso. Agora estou mesmo com ar de velho.

Falaste da idade.

Engasguei-me aqui com alguma coisa.

Falaste da idade.

Imagina.

E ela está a preparar partidas.

Não estava a beber nada, não estava a fazer nada e estou a sentir que estou a ter aqui um comportamento de quem se engasga.

Sem problema. Este terceiro round vai passar. Eu agora vou cometer aquela inconfidência, que é dizer as cidades todas, porque acho que não fica bem dizermos só umas e depois não dizermos todas.

Não, até porque podes dizer à vontade, até porque não estão aí todas.

Não? Então vou dizer aqui algumas. Águeda, Vila Nova de Cerveira, Lisboa, Figueira da Foz, Braga, Almeirim, Porto, Terceira, Ponta Delgada.

Pois.

Faltam aqui algumas, não é?

O Algarve não está aí, que também há muitos sítios para ir. Há Portimão, há Faro. Eu gosto de ir a todo lado.

E gostas também dessa vida. Falamos muito isto da vida de estrada em relação aos cantores. Esta vida de estrada, de percorrer o país, norte a sul, porque vais estar aqui em Águeda, norte do país, Lisboa mais ao centro, Figueira da Foz também ao centro, o Algarve no sul, vais à Terceira, vais também a Ponta Delgada, ou seja, vais andar aqui de um lado para o outro. Desde 6 de fevereiro, vais estar aí uma vida muito corrida.

Quero andar também pelas comunidades, aqui à volta na Europa. Vou para Angola, vou para Moçambique, vou para Campo Verde. Eu estou sempre a tentar montar os meus espetáculos para que eles sejam consumíveis em toda a comunidade que fala a língua portuguesa. Isso é que é o grande desafio que eu tenho quando estou a escrever. Pelo menos 60% deste espetáculo tem que funcionar a todo sitio. Claro que há uma piada ou outra que vai ter que sair, porque as referências são muito locais, tem muito a ver com a nossa vivência aqui em Portugal, mas eu quero sempre que pelo menos 60% seja perceptível em toda a comunidade que fala a língua portuguesa. É para o brasileiro rir, é para o angolano rir, é para o moçambicano rir, é para o português rir, é para ir para todo lado. E adoro essa vida da estrada, porque eu acho que o espetáculo até fica sempre mais completo quando consegues experimentá-lo em várias plateias. Não quero fazer um espetáculo que fique só por Lisboa, que seja perceptível só em Lisboa ou que seja perceptível só em Portugal. Quero um espetáculo que a piada faça rir quem está em Angola e faça rir quem está em Moçambique também.

Vais andar por aí pelo país e podem comprar os bilhetes. É uma prenda de Natal antecipada e depois vão ver o Gilmário.

Reforça isso. Acho que é importante reforçar isso. Comprem os bilhetes.

E não há desculpas, porque é de norte a sul.

É de norte a sul e há tempo. Não se preocupem com o dinheiro que vão gastar agora, que vai dar tempo a recuperar. Se comprarem agora, no dia do espetáculo, já nem se lembram que gastaram dinheiro para isto.

Exato. É esse o sentimento.

É essa a mensagem. Se gastares agora, quando chegar a altura de receber, só estás a receber. Já nem vais te lembrar quanto é que custou o bilhete. Até porque está baratus, está acessível.

Vamos a Sambizanga. Já ia dizer mal outra vez.

Isto está difícil.

Pensei que fosses dizer Zanzibar. Não, mas podíamos ir também. Tu há bocadinho falaste das surras. Deste muito trabalho aos teus pais.

Dei muito trabalho. E hoje eu sei que dei muito trabalho, porque sempre que numa entrevista perguntam aos meus pais, das poucas entrevistas que já foram invadidos para eles fazerem, eles respiram fundo antes de responderem. Quando perguntam: "Como é que foi o Gilmário na infância?"

É mais do que um segundo esse suspiro.

Eu fui um miúdo que procurou muito a morte dentro dos meus níveis de curiosidade. Tanto é que na minha carreira pós-grupo, pós-Tunesa, que foi meu grupo, que eu estive mais de 17 anos lá, fui imortal, que era eu basicamente olhar para a minha vida e perceber: "Meu, devo ser imortal, não é possível". Foram muitas oportunidades que a morte me deu e eu neguei. Então os meus pais sabem disso, porque um puto que destruiu o conforto deles. Eu me lembro uma vez, no Natal, toda a família tranquila a viver, e eu estava a gostar de uma menina, uma vizinha minha, e fui para casa dela e eles iam passar o Natal na casa de um tio. Imagina, vão sair daqui e vão para Leiria passar o Natal na casa de um tio. E eu meti-me no carro deles e fui com eles para Leiria. Imagina, estou aqui a usar Leiria como exemplo, só para poder ver a distância. Não falei com os meus pais. O pai deles percebeu que eu estava lá. Tipo, quando eu estava lá, disse: "Pois, estás aqui a fazer o quê?" Já era madrugada, porque eram muitos filhos, muitas crianças, ele levou-me junto. E eu lembro-me de ter curtido. Tive a oportunidade de beijar na boca da miúda. Voltei felizaço, mas eu quando voltei para minha casa, minha casa estava um ambiente de óbito, porque a família toda parou, veio família de tudo quanto é canto, que também estavam a passar o Natal na vida delas, foram comunicadas: "Olha, o miúdo desapareceu, sumiu, já procuramos o bairro todo". Eu voltei no dia seguinte às 17h. Eu a voltar feliz.

Como se nada fosse.

Como se nada fosse. Eu fui esse miúdo. Se não tivessem um olho em cima, eu estava a provocar uma desgraça pra família.

E daí as surras.

E daí as surras. Muitas delas eu mereci, definitivamente, porque eu era mesmo terrível nessa idade. Eu era muito curioso. Comecei a tentar conduzir o carro do meu pai aos 12. Aos 13 já tinha rompido com o quintal de um vizinho.

Uma infância muito vivida.

Muito bem vivida, com muitas histórias pra contar e a rezar incansavelmente para que nenhum dos meus filhos tenha o mesmo nível de curiosidade.

Agora há essa preocupação. Algum deles demonstra mais traços de rebeldia, gênero Gilmário Vemba, ou nem por isso?

A minha segunda é meio rebelde, é meio do tipo: "Faço aquilo que eu quero", mas ela está num bom tempo, porque ela está em Portugal, então não posso aplicar os métodos que aprendi com meus pais, não tem como. E a mais nova também. Só tem um ano, mas aquela miúda está sempre a tentar um suicídio todos os dias. Não há nem cinco segundos sem saber onde ela está e a fazer o quê.

Olhas pra ela e consegues ver ali semelhanças.

Eu olho pra ela e digo: "Esta vai me dar trabalho. Esta aqui vai ser difícil de criar. Essa que vai me provocar a velhice, vai me tirar os cabelos brancos, vai ser a Maila". Os outros já estão grandinhos, portanto já passaram uma fase e não apresentam perigo.

Eu gosto como tu te referes aos seus filhos com a questão do perigo, de pensar no que eles podem fazer.

Eu acho que os miúdos não são muito diferentes de como nascem. Acho que nós temos uma forma de ser e estar que não muda muito. Eu tenho cinco filhos, a minha filha mais velha tem 19 anos. Eu já consigo perceber, mais ou menos, como é o processo evolutivo deles. Nenhum deles me apresenta uma coisa de dizer: "Vou ter que estar mais atento com esta ou com aquele. Esta aqui tenho que apertar mais nisses." Não, eles são crianças tranquilas. Eu menti muito bem, mas nunca me apresentaram nada que eu fosse me preocupar: "Tem que ir à escola, saber como é que ele está se portando na escola." Não. E imagina a quantidade de reuniões da escola que eu já tenho nas costas. Nunca tive um dos meus filhos no centro de debate ou chamada à parte. "Olha, pai, tem que ver, o miúdo anda aqui a tentar destruir a escola e ameaçou o colega tal." E também a maioria meninas. Só tenho um rapaz, as meninas normalmente acabam sendo mais calmas nesse aspecto.

Veremos. Falamos daqui a uns anos sobre isso.

Não, atenção, eu tenho uma de 19, tenho uma de 15, tenho outra de 13. Essas três que já estão além daquilo, nunca me apresentaram alguma coisa que eu fosse ficar meio preocupado e dizer: "Essa miúda vai..." Cada uma delas tem uma característica própria, cada uma delas na sua própria vibe, mas nenhuma delas me apresenta uma coisa que eu, enquanto pai, fosse dormir preocupado.

Vai desfrutando disso. Vai desfrutando essa parte. Falei há bocadinho da tia Zita. Tu referes-te muitas vezes a ela como a televisão do bairro onde vivias. E é muito interessante pensar nisso, porque tu dizias que ela era uma ótima contadora de histórias. É dela que também bebeste dessa sabedoria, porque quem te conhece, quem vai ver um espetáculo teu, sabe que essa é das tuas grandes qualidades, o fato de seres um ótimo contador de histórias é daí também.

Olha, eu podia afirmar que nesses genes de contar história, eu queria muito ter herdado o dom daquela tia minha. Ela nunca fez isso de forma profissional, mas se o fizesse hoje no advento dos podcasts, eu acho que ela era um ótimo sucesso, de sentar numa cadeira com microfone e narrar uma história tirada da cabeça dela e fazer daquilo um "House of Dragons" com milhares de temporadas, porque era basicamente isso que a minha tia Zita fazia. Ela, nos dias em que voltava a luz, e que às vezes durava um mês sem eletricidade, porque vivíamos num contexto de guerra, apesar de na capital nunca ter tido guerra, mas vivíamos com o efeito todo que uma guerra provoca. E ela, literalmente, podia ficar semanas a contar-nos uma história que nunca mais acabava, mas com episódios e personagens novas e antigas e todas interessadas. Imagina, miúdos de sete, oito, nove, 10 anos sentarem-se durante horas pra ouvir uma história e no dia seguinte ir lá cobrar: "tia Zita". A minha tia chegava do trabalho.

E pensar nisso na realidade de hoje, ou seja, se isso fosse hoje, é desafiante, não é? Porque hoje, com as redes sociais, temos tudo assim tão fácil. E pensar nessa realidade é quase como uma realidade mágica.

Estamos a falar de um tempo jurássico, como é que era possível? Mas eu literalmente cresci com essa minha tia a contar-nos histórias à volta da fogueira. Ela era o nosso feed de Instagram, era a nossa Netflix, nossa Prime Video, era tudo ali. Ela contava muitas histórias, que Deus a tenha. Chorei muito quando perdi essa tia minha, lembro como se fosse hoje, eu estava em palco Na verdade, tinha um espetáculo, ia entrar em palco em Moçambique e deram uma notícia. Foi terrível. Lembro-me de ter cancelado tudo, voltar. E desde então, é às vezes aquele momento em que tu pensas: "Só valorizas as coisas quando realmente se perde." Então hoje, quando olho para trás, penso: "Tanto que nós recebemos dessa senhora." Se calhar ela nunca soube o tanto ou nós, enquanto sobrinhos e filhos, nunca lhe demos a conhecer a importância que ela teve na nossa vida.

Mas ela talvez soubesse. E o facto de vocês voltarem lá todos os dias.

Não, nós voltávamos todos os dias.

Para ela era já um reconhecimento disso mesmo.

Sim, éramos por aí mais de 10 putos, todos sentados e a ouvir história de príncipes e princesas, e ela tirava tudo aquilo da cabeça dela. Era literalmente uma storytelling. Há um stand-up comedian, que é o Hadi Sadik, que é um americano, e ele conta as histórias, normalmente o stand-up dele está quase sempre sentado e a contar histórias da vida dele, mas com uma eloquência. E lembra-me muito dessa minha tia, que ela estava ali sentada, literalmente na frente de nós, e a contar histórias e começava sempre assim: "Onde é que parámos ontem? Ontem parámos quando o príncipe vinha de cavalo para lutar com o rei e não sei o quê."

Para ver se vocês também estavam atentos, se calhar.

Eu acho que era para ela pegar um fio e seguir para frente. Aquilo era uma criatividade e lhe acontecia tão natural. Nos dias de hoje, se a minha tia estivesse viva ainda hoje, era meter-lhe um microfone e fazer dinheiro com ela. Ela se calhar nem ia saber falar. "Tia, vim gravar uma coisa contigo." E metia um microfone e ela literalmente ia conseguir fazer vários episódios que eram muito interessantes. E depois, ela tinha voz para isso, tinha a dinâmica. É aquilo, é um talento que ela teve. Ela não precisou estudar arte, não precisou fazer nada disso. Saía-lhe natural, muito natural. Espero eu poder ter herdado isto dela, porque hoje eu sei que aquilo era um talento espetacular. Hoje eu sei que aquilo não era para qualquer um. Não vejo muitas pessoas com essa capacidade. E ela fazia aquilo para nós. Era para nós, os sobrinhos dela, os filhos dela, era para nós, sem ambição nenhuma de querer: "Agora se eu fizesse uma série, se eu fizesse uma novela." Era para nós. Ela sentava-nos e contava-nos as histórias e podíamos estar ali horas a ouvi-la falar.

E é interessante também pensar como é que a rebeldia acalmava durante uns certos tempos e interessavas-te por histórias de príncipes e princesas. Também é bom pensar nessa realidade.

Não, por acaso sempre tive muito interesse pela arte, à música, principalmente.

Responder à letra?

Sim. Uma vez ouvi o Dave Chappelle dizer que todo o stand-up comedian é um músico que não deu certo e eu encaixo-me nessa característica. Literalmente, se a música tivesse dado certo ou se eu tivesse investido. O humor começou-me a pagar primeiro, então deixei de investir na música ou se calhar ter perdido essa vontade de contar histórias, em vez de comédia, contá-las em forma de música.

Sim, é possível.

Sim, há músicos que têm essa vibe, eles contam histórias enquanto cantam.

Aliás, tu já fizeste muita coisa. Tu fazes humor, já estiveste na rádio, tanto cá em Portugal e pelo que sei também em Angola. Apresentação de programas, estiveste agora muito recentemente no "Cinco para a Meia-Noite". Portanto, tu contas histórias e adaptas-te muito aos formatos onde estás. E daí também a qualidade que enalteci há pouco, do facto de seres um ótimo contador de histórias, porque tu consegues te adaptar muito bem a todos os registos.

Será?

Quer seja na comédia, quer seja em rádio. Aliás, o Responder à Letra foi um sucesso, não é? Tu tens muitas saudades, não é?

Tenho muitas saudades e é daqueles projetos que não estava na minha baila. Só que às vezes nós temos a sorte de falar as coisas para as pessoas certas. E que observam em nós, se calhar, uma capacidade que nós mesmos não estamos ali a ver.

Acho que não me estou a enganar, mas foi o Nuno Markl, tu partilhaste esse CD com ele ou não?

Não, foi o Vasco Palmeirim.

Vasco Palmeirim, pronto. Pensei que era um dos dois, no "Taskmaster".

Foi o Vasco e o Pedro Ribeiro que lançaram-me este desafio e foi numa conversa, foi o Joker, estávamos só a fazer, acho que na altura até a promover o "Taskmaster" e eu fui: "Cota, como é? Posso falar aqui um bocadinho?" Porque eu estava a fazer um espetáculo com o Anselmo. E eles disseram: "Um espetáculo com o Anselmo? Como é que é isso?" "O Anselmo canta e eu faço piadas com as letras das músicas dele." "Isso é interessante." Interessante. "Isto dava uma rubrica." Uma rubrica? Eu não sei, eu faço isso com o Anselmo e o Matias, nunca pensei em fazer com mais artistas.

Na piscina dos grandes.

Sim, na piscina dos grandes, porque o Anselmo e o Matias são aqueles artistas muito consenciais em Angola, que todo mundo, desde o mais jovem ao mais velho, ouve a sua música, têm muito sucesso.

Mas aqui estamos a falar de um registo muito próprio, que é um espetáculo. Outra coisa é fazer todos os dias, diariamente.

E eu aceitei o desafio. O Pedro Ribeiro disse assim: "Mas tu consegues fazer mais disso ali?" E deram-me ali: "Vamos fazer isso por temporadas, e isto adaptando, tens tempo pra pensar". Deram-me uma lista de músicas e comecei a fazer o desafio. Foi muito bem recebido pelas pessoas, ajudou-me a vender muitos bilhetes na altura e a solidificar muito mais a minha imagem e o meu trabalho aos portugueses. Sou muito agradecido por aquele desafio que me foi lançado. São daquelas coisas que, se calhar, da minha cabeça não sairia a intenção genuína de chegar e fazer aquela coisa. Então ainda bem que há pessoas que estão a olhar pra nós e estão a ver uma capacidade ou um enquadramento num formato que nós mesmos não estamos pra aí virados.

Porque tu nem sequer tinhas pensado nessa hipótese.

Zero. Eu já faço este espetáculo com o Anselmo há uns bons anos. Já fizemos em Angola, já fizemos em Moçambique e quando eu começo a ter algum sucesso aqui, o Anselmo disse: "Era fixe, aproveitamos que também estás aqui conhecido e fazíamos aquele nosso espetáculo, que era tão fixe". Eu disse: "Bora fazer". E fizemos Coliseu e fizemos também em Braga, fizemos só dois espetáculos. E daí saiu a ideia de estender isso pra uma rubrica de rádio, que até hoje eu tenho muito orgulho de ver espalhados pelas redes sociais e de algumas pessoas que ainda mandam mensagem a pedir pra voltar. E algumas pessoas que nem sabem que o programa já não está no ar e dizem: "Olha, tenho aqui uma letra pra responderes".

E aquelas que vão ouvir os episódios antigos.

Sim, vão ouvir os episódios antigos. E eu acho que é um material que envelhece bem. E eu, dentro do meu trabalho, sempre gostei de fazer coisas que envelhecessem bem.

Intemporais também.

E intemporais. Eu fico muito feliz quando cada vez as pessoas postam trabalhos meus de 2006, 2013, de vídeos, de espetáculos e de programas de televisão. E eu fico: "Uau, acho que fizemos aqui uma cena fixe". Ficou marcado e até hoje há pessoas que ainda olham pra isso e conseguem se rir. Então acho fantástico. Agora vamos ver esse terceiro round, como é que ele corre. Que é mesmo o meu terceiro round. É o meu terceiro solo. Depois da fase Tuneza, que eu começo essa luta a solo, pra tentar fazer uma carreira, pra tentar montar um nome. Não achei que fosse pegar tão cedo. Eu acho que o nome Gilmário Vemba ficou assim. Claro que ainda não e nunca vai estar desassociado daquilo que foi o Tuneza.

Acho que até há pessoas que já te conhecem só por Gilmário.

Em Portugal, sim.

Já é seguro dizer que se tirarmos o Vemba, conhecem-te como Gilmário.

Sim, Gilmário em Portugal. E no Brasil, agora que o nome começa a entrar aos poucos.

No mercado brasileiro.

As pessoas não têm noção daquilo que foi o Tuneza, que foi um projeto muito grande, que durou muitos anos, que andamos um bocadinho pelo mundo, fizemos espetáculos em Portugal, inclusive, já fizemos dois Coliseus, fizemos a Aula Magna, fizemos Coliseu do Porto e tudo, embora foi na salinha pequena, atenção, o Coliseu do Porto foi na sala pequena, não foi na sala grande. Mas tem uma história que também começa dessa forma inusitada, das pessoas olharem pra nós e perceberem: "Não, acho que vocês têm ali uma cena fixe". E nessa cena fixe que tínhamos ali, durou, e o grupo continua. Eu é que já não estou no grupo, mas o grupo continua a fazer a sua estrada, a aumentar anos nas costas. Já lá vão 23 anos. Então é fantástico. E agora eu estou nessa fase a lutar as minhas próprias lutas. E eu estou no terceiro round, porque entro na idade hienta, entro no terceiro casamento, entro nessa terceira fase da imigração, que é: agora eu sou um habitante.

Já não há como fugir.

Sim, já não há como fugir. Agora eu já sou o cidadão que conta nos números dos habitantes e que já sofre com a realidade de cá. Eu entrei, era tudo uau! E agora sou aquele que olha: "Meu, então, e esse IRS? E esse NIF, meu? Esse IVA tá muito alto, mano". E essas coisas. Agora estou aquilo na fase de viver. E poder fazer humor, não sou de referência, porque chego aqui a fazer aquele humor comparativo do que era uma coisa em Angola e que era uma coisa em Portugal, e ficar nessa fase que é só de fazer humor com aquilo que se está a viver agora. Tanto na minha vida pessoal, como na minha vida enquanto membro de uma comunidade inteira de mais de 10 milhões de pessoas. Então acho que também é muito interessante trazer isso pro espetáculo, essa nova visão, esse olhar do Gilmário. E vamos ver até

Até quando isto vai durar? Palpita-me que vamos adicionar muito mais datas ao terceiro round do Gilmário Vemba.

Eu acredito que sim, porque eu quero fazer, como já disse aqui, isso até aos 80 ou até aos 90. Então tem que durar mais. Porque toda vez que se acaba um solo, há aquela dificuldade: "E agora o outro? Vou falar sobre o quê?"

Já acabou.

Já acabou, já fiz essa piada. Será que as pessoas ainda vão querer me ver? E quando lançamos o terceiro round, começas a ver as pessoas a comprar bilhetes e falar: "Ainda há pessoas que me querem ver."

Ainda querem.

Ainda querem o Gilmário. Então vamos dar mais. Enquanto as pessoas quiserem, nós estamos aqui para dar mais e sempre no desafio de nos reinventarmos, de procurar novos ângulos para fazer piada, de encontrar novos assuntos para alegrar as pessoas. Mas uma coisa que eu garanto sempre é que nunca vai acontecer no meu espetáculo: tu não vais entrar lá e vais sair de lá sem rir. Isto é uma premissa que eu tenho, independentemente do tipo de piada que eu vou fazer, seja ela do foro político, pessoal ou lúdico, tem como objetivo, no final da piada, tu teres que rir. No final do espetáculo, tu tens que ter dado gargalhada em todos os sets que eu tenho ali preparado. Claro que às vezes não vai ser da forma, porque depois na plateia cada um recebe da sua forma, mas eu não acredito, e posso lançar esse desafio, a não ser que tu vás lá mesmo com o objetivo de não rir.

Pois.

Mas se fores com o objetivo de te divertir e ouvir piadas, não tens hipótese. Para mim, se eu fizer um espetáculo onde as pessoas se riem com metade, então o espetáculo não está bem feito, tem que cancelar tudo e voltar pra base. Mas graças a Deus, tenho estado a testar um monte, tenho estado a fazer comedy clubs e a testar as piadas.

Está a correr bem.

Muito bem. Está a correr muito bem. Algumas piadas já estão gravadas e eu digo: "Já queria meter isso na net agora, para criar o alvoroço logo." Aquelas piadas que tu fazes e pensas: "Isto aqui vai gerar assunto. Isto aqui vai criar um vusuê."

Isso é bom.

Eu gosto disso.

Gilmário, estamos a chegar ao final do nosso tempo no "Em 40 Minutos". Queria terminar esta nossa entrevista com uma mensagem final para jovens criadores, quer sejam portugueses, angolanos, pessoas que te seguem e que se calhar estão naquela idade a pensar no que devem fazer agora, se querem seguir realmente o humor. Tu és uma inspiração para muitos deles, talvez. Que mensagem é que darias a um jovem que quer seguir este caminho?

Que sejam amantes da arte, que amem a arte mais do que ela lhes pode dar é pensar no que vocês podem dar a ela. Eu tenho essa mensagem desde os meus 16 anos, quando fazia escola de arte, de pessoas dizerem assim: "Um artista tem que ser um amante constante, um amante da arte constantemente." Claro que hoje em dia, se quisermos fazer isso de forma profissional e dedicarmo-nos a isso, queremos ganhar dinheiro com ela, porque no final do dia também temos contas para pagar. Mas eu acho que hoje há muita pressa de se chegar ao destino. Porque eu sinto que as pessoas amam o resultado da arte, amamos todo o glamour.

Temos muita pressa de chegar àquele resultado final, não é?

Eu acho que a pergunta que as pessoas têm que ter é: o que tu amas nesta profissão? Tu amas a ideia de fazer piada, de construir uma coisa que depois quando é entregue aos outros, é recebida com aquela gargalhada, ou amas só a ideia? Porque nós quando olhamos para as nossas inspirações, muitas vezes não estamos a ver o seu trabalho em si, estamos a ver o resultado só do seu trabalho, estamos a ver os efeitos, estamos a ver a televisão, estamos a ver aqui a entrevista no Observador. Estamos a ver, às vezes, para quem faz guita, estamos a ver as guitas, estamos a ver o carro que aquele cara tem, o prestígio que eles têm. Então, o conselho que eu tenho é: amem isto com toda a vossa alma, com todo o vosso coração. Quando vocês estiverem no palco e pensarem assim: "Eu mesmo sem me pagarem, estaria aqui a fazer isso." Então acho que estás na profissão certa, que é o sentimento que eu às vezes tenho, sempre que eu saio do palco, aliás, quando vou a comedy clubs. E já fiz, porque eu já fiz Altice Arena, então já tive a cena de estar numa sala com 10 mil pessoas a rirem-se da mesma piada e estar numa sala com 10 pessoas. E o sentimento foi: "Ainda bem que eu estou aqui a fazer isso. Ainda bem, gosto mesmo de fazer isso." Então, para os putos que estão a começar, putos ou cotas, pessoas que chegam aos 50 e pensam: "Eu acho que eu quero fazer isso."

Nunca é tarde se vais fazer isso. Até aos 60, nunca é tarde.

Nunca é tarde. Dá para fazer. Essas profissões, cantar e fazer piadas, dá para fazer até mesmo sentado na cadeira de rodas, com uma bengala.

E quando há talento e trabalho.

Quando há talento e trabalho, dá sempre para fazer. Então acho que é muito importante amar, ter um gosto excepcional por aquilo que se faz.

Gilmário, foi um gosto receber-te aqui no "Em 40 Minutos". Comprem bilhetes para o terceiro round. O Gilmário vai andar pelo país a partir de 2026. Vemo-nos na Aula Magna, em Lisboa.

Vemo-nos na Aula Magna, dia 15 de fevereiro.

Exatamente.

Mas começamos no dia 7.

Exatamente. Seis, em Águeda.

Em Águeda. Eu até já estou-- são muitas datas.

São muitas. É ir às redes sociais.

Venham. Em mister_filadagoda encontram a agenda completa ou então em showtime.pt encontram toda a agenda de Gilmário Vemba.

Um grande abraço, Gilmário.

Um abraço, estamos juntos.