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Entre letras e teatro, escolheu ser atriz. Nunca esqueceu as origens, até porque a pronúncia alentejana, e já vamos ver daqui a pouco, é algo que a torna única. Quando começou a aparecer no grande ecrã, muitos diziam que era a sósia de Sara Sampaio, mas foi por muito pouco tempo, até porque fez o seu caminho, deu passos firmes na moda, na televisão, no teatro e existe a ambição de voar ainda mais longe. Não se cansa de dizer: há muito mundo ainda para desbravar, só não lhe ponham um rato à frente, porque aí é bem provável que suba para cima de uma cadeira. Isabela Valadeiro, em "40 Minutos". Muito bem-vinda.
Bem-vinda. Não temos aqui nenhum rato.
Não. Acho que não.
É um animal muito...
Ratos já não temos aqui há um mês, mais ou menos.
Graças a Deus. Mas eles devem estar a aparecer, aqueles mês a mês aparecem.
Mas no Alentejo tu não lidavas com a questão daqueles ratinhos do campo?
Lidei.
Se calhar o problema é esse.
Se calhar foi isso que me traumatizou. Não gosto. Eu fui criada com a minha avó e a minha avó também tinha muito medo de ratos, ou pelo menos respeito, ou pelo menos falava disso com algum asco, e eu ganhei isso dela. E realmente era frequente.
É o teu maior medo?
Não é o meu maior medo. O rato dá-me um bocadinho de asco e faz-me assim . A ratazana nem se fala.
Depois a ratazana é ainda maior.
Ai, que horror!
Não vamos falar disso.
Vamos esquecer os ratos.
Em fobias, Isabela Valadeiro, para quem olha para ti, se calhar não diz que tens 28 anos e isto é meio dúbio, por quê? Das duas, uma: ou acha que tens menos ou acha que tens mais por aquilo que já fizeste. Não é nada de aparência, porque estás muito bem.
As pessoas acham que pela aparência apareço mais velha.
É?
Não sei. Deve ser por ser alta.
Costumam dizer-te isso?
Houve uma altura em que eu estava a fazer personagens sempre mais velhas do que a minha idade. Eu agora acho que já está estável.
Mas punham-te a fazer o quê? Papel de mãe de família?
Não.
Ah, ok.
Com dois filhos.
Não, era sempre aquela personagem que rondava os 30. Nunca era uma personagem com 25 ou com 26. Agora já está estável, já estou nos 30 na mesma, mas porque já estou mais próxima dos 30. Acho que já está mais equilibrado, já está mais justo pra idade, o que eu acho giro. Mas relativamente à quantidade de coisas que eu já fiz, eu estava a fazer contas aos meus anos de carreira.
Já vem quantos?
São sete, oito. Comecei em 2017.
Com 20 anos, portanto.
Sim, com 21. Portanto, são sete anos de carreira, exatamente. É uma carreira de papel, com umas budas.
Há aqueles nomes.
Há budas para tudo agora também.
É papel, acho eu, mas é aquele papel robusto. Não é aquele papel frágil.
É verdade. Eu fui ouvir várias entrevistas tuas e não sei se tens esta noção, mas tu costumas dizer muito esta frase que eu disse na introdução, que é desbravar mundo.
Digo muito.
Tu dizes isto muitas vezes.
Qual exploradora.
Adora a exploração.
É verdade, a exploradora.
Esta frase associada a ti e ao fato de teres começado tão cedo neste mundo, ao fato de teres vindo do Alentejo, dá-te aqui também uma certa, como é que eu hei de dizer? Não és nada aquela pessoa de ficar acomodada a um sítio e querer ir e explorar e ir e tentar fazer tudo. Foi algo que nasceu contigo ou isto vem de alguém da tua família, de alguém próximo de ti?
Não, eu acho que é uma coisa muito minha, mas acho que é algo que eu fui também ganhando com o tempo. Quando eu estudava no Alentejo, eu sempre quis ir pra fora, sempre quis ter mais oportunidades.
Fora do Alentejo ou fora mesmo do país?
Fora do Alentejo. A minha aldeia é muito pequenina. Tem cerca de 200, 500 habitantes. Ou seja, a quantidade de oportunidades lá não é a mesma que na capital, como é calculável. E depois o acesso à cultura, quer queiramos, quer não, também não é igual, de todo.
E quando não havia, tu fazias por haver.
Exato. Mas é engraçado, que eu fui ao cinema pela primeira vez com 13 anos, o que não é nada comum. Eu sou de 1996, vocês são mais ou menos da mesma idade.
Sim.
Portanto, vocês devem ter ido ao cinema mais cedo, calculo eu.
Eu acho que fui por aí com seis, sete anos. O meu primeiro filme foi o "Terror na Torre".
O meu foi o "Mr. Bean em Férias".
Ah, grande filme!
É recente. É muito recente. Portanto, pra vocês terem noção, claro que havia cinemas e há Évora, só que não é na quantidade e com alguma distância da própria da aldeia.
Não é como aqui em Lisboa que vamos a pé a pé.
E não temos acesso logo aos filmes. Agora já está tudo muito diferente. Estamos a falar de há 10 anos atrás. Mas não iam para lá os filmes mais recentes. Ou seja, eu ia à excursão com a escola pra ver o filme ou pra ver o teatro. E portanto, sempre tive esse bichinho, e lembro perfeitamente de vir em excursões a Lisboa ver teatro e aquilo mexer muito comigo e de eu perceber que é aquilo que eu quero. E portanto, eu sempre tive esta vontade de descobrir, perceber o que é que há pra além de Santo Amaro, porque na altura, estando em Santo Amaro, tudo me parecia muito longe. Lisboa é muito longe, Lisboa é o mundo.
Lisboa era Nova Iorque.
Exato, exatamente, tinha essa dimensão.
E olhando pra Lisboa, tu vais pra Lisboa com 18 anos?
Com 18, acabadinho de fazer.
Que ideia é que tiveste de Lisboa quando chegaste? Ou seja, esse primeiro impacto, saindo duma aldeia que tinha 500 habitantes, como dizias.
Uma confusão dos diabos. Eu estava a trabalhar na altura no Rato e foi muito estratégico, porque eu ia estudar numa escola de atores que se chama Inímitos, que era ali ao lado, era em Campolide. Só que, o que é que aconteceu? No dia que eu tinha a primeira aula, apresentação com todos os professores, eu só tinha que apanhar um autocarro pra subir, que é Campolide, é logo ali, e apanhei, só que eu segui a morada errada da escola, fui pra Lapa e completamente perdida. Eu disse: "Ai, meu Deus!"
Logo no primeiro dia.
Logo no primeiro dia, meia hora atrasada, os meus colegas todos a olharem, eu: "Ai, caraças, estou aqui". Mas enfim, foi muito giro, mas o primeiro impacto foi realmente: "Uau, isto é Enorme.
Era essa a imagem que tinhas antes de vir?
Não propriamente, porque eu nunca tinha explorado.
Nunca tinhas vindo a Lisboa? Vinhas naquelas visitas pontuais.
Só naquelas visitas pontuais aos teatrinho, ao cinema e às visitas de estudo ao museu.
Nessa altura, se calhar, a dimensão era ainda maior, porque também eras mais pequena.
Claro, tudo era grande. E portanto, nesse primeiro dia tudo também era grande. Mas a adaptação foi muito rápida. Foi muito giro.
Foi conquistou. Isso mesmo. E tu já fazias teatro em miúda. Aliás, tu recebias muitos elogios dos teus professores na altura. E precisamente vamos à questão do elogio, à tua veia artística. Como é que tu na altura lidavas com estes elogios e como é que lidas hoje com esta cultura do elogio? Ou seja, para ti é fácil lidar com elogio ou há aquela tendência de ficar um bocadinho mais tímida, não saber reagir, lidar com o elogio?
Depende. Eu hoje em dia já consigo perceber se a pessoa está a dizer só por dizer ou se está aquele jeitinho: "Estás tão gira!". Mentira, se não achas, não digas.
Certo.
Mas hoje em dia quando o elogio é franco, gosto muito e recebo muito bem. E há uns até que me emocionam, porque a franqueza é tal e aquilo que me dizem é tão bonito que realmente me emociona. E também tento retribuir quando o sinto, porque eu hoje em dia já não faço essa brincadeirinha de: "Ai, está tão bonito". Já não faço isso. Portanto, acho que sei receber muito bem.
E mais nova, quando havia estes professores que te enchiam de elogios. Aliás, foram eles que disseram desde o início que tu tinhas de ser atriz.
Exato. Eles é que me foram guiando, de certa forma, porque eu na altura sabia que tinha muita predisposição para as artes e gostava muito de fazer teatro e tudo mais, mas eu ainda não tinha definido na minha cabeça o que é que eu ia seguir propriamente.
Tanto que tinhas duas alternativas, que era Faculdade de Letras.
Exato. Mas a Faculdade de Letras ia parar ao mesmo, que eu ia cruzar-me com o Ávila Costa, que foi inclusive um professor extraordinário meu, nem me dos meu e de mais de milhares de alunos que seguem esta área. E, portanto, ia dar ao mesmo. Eu ia conhecer o Ávila Costa e ia por aí fora também.
Qual era a tua ideia na Faculdade de Letras? O que é que querias seguir?
O que eu queria? Já nem sei.
Já se perdeu pelo caminho das opções.
Não me lembro. Olha, não me lembro mesmo. Qualquer coisa de estudos literários, é possível? Qualquer coisa deste género.
Por aí, sim.
É por aí. Porque eu também sempre gostei muito de ler e sempre gostei muito de autores e de conhecer mais sobre autores.
Estás fascinada.
Inclusive, eu na escola escolhi Literatura Portuguesa e por acaso não me calhou. Não me calhou porque era só eu e outra pessoa a escolher, então levei com Maths. Uma tristeza.
Nunca tive Maths.
Soube-me tão mal.
Tudo por causa disso, dessas escolhas. Porque depois é uma minoria que escolhe e o que é que acontece? A turma não abre.
Não abre.
E nós, que não gostamos de Matemática. Nunca tive Maths. Olha, estavas a dizer que a tua memória daí já não era a melhor. Vamos então apelar à tua memória ainda mais anterior.
Ai, meu Deus.
Infância. Alentejo é um sítio que normalmente nós associamos a calma, tranquilidade. Eu adoro o Alentejo. Eu passei férias este ano no Alentejo e foi incrível. Eu vou passar férias para o Alentejo há uns três anos consecutivos.
Alentejo é o melhor sítio do mundo.
É o melhor sítio do mundo.
Não, atenção, eu sou também Alentejo, ou seja, eu sou parte daquilo que é o Alentejo, daquilo que o Alentejo representa, aquela nostalgia, a alegria, aquela malandrice, a graça. Sou também saudade, sou um bocadinho disso tudo e portanto o Alentejo é parte de mim. Não é sequer o sítio onde eu pertenço ou o sítio onde eu me formei só, é mais do que isso.
Tu és o Alentejo.
Sou também parte daquilo. E o Alentejo acaba por ser o sítio que vai moldando também as decisões e que vai permitindo que eu perceba: "Ok, aqui tenho isto e tenho lá a minha família toda".
Costumas ir lá?
Sim, todos os meses.
Todos os meses, que bom.
Eu queria muito mais oportunidades, mas nunca deixando o Alentejo. Ou seja, o Alentejo vai estar sempre ali. Aliás, agora já não é assim tão grande tudo. A distância é bastante curtinha. Portanto, eu tenho lá toda a minha família e acabo sempre por revisitar quando quero sossegar, quando quero relaxar e quando quero estar com os meus.
E na infância, o que é que fazias? Que desenhos animados é que vias?
Olha, a Dora a Exploradora.
A sério? Foi daí.
Foi daí. Esbravejar.
Tinha que ter aqui uma ligação.
Sempre com uma mochila roxa.
Nenhum dos teus desenhos animados favoritos tocava trompete como tu?
Os Simpsons.
Os Simpsons, pois.
Não, é saxofone.
É saxofone, a Lisa.
Ficou toda confusa.
Mas tocavas trompete, não é?
Toquei mais tarde.
Já não no Alentejo?
A minha aldeia é uma aldeia muito para a frente, porque antes de voltarem a criar a orquestra, tinham tido uma banda. E voltaram a recriar essa ideia, mas desta vez na perspetiva de orquestra. E portanto, puseram os miúdos todos, os interessados, a tocar um instrumento à escolha.
E tu estavas na primeira fila, como é óbvio.
E eu estava lá, claro, eu ia a tudo. Rancho folclórico, dança hip-hop, associação de jovens.
Tudo o que havia que fosse cultura.
Eu estava lá, sempre.
E foste tu que escolheste a trompete?
Sim.
Por quê?
Porque para já o maestro disse: "Isto é normalmente tocado por homens". E eu: "Ah, é? Que giro."
Então já foste.
E depois toquei. E é muito difícil tocar à primeira. E eu mandei uma notinha sem querer, não sei como é que eu fiz aquilo. E pensei: não, é mesmo este que eu quero. E acabei por ficar fascinada com o trompete. Agora, o trompete é um instrumento, tal como todos os outros, que requer Que requer frequência, disciplina, consistência, constância e eu efetivamente não tenho tido isso. Já devo ter perdido a embocadura, já não tenho aquele músculo ativo para tocar música do início ao fim. Nunca tive muito isso, porque nós fomos muito mais, não estávamos a preparar-nos para a atuação, ou seja, nós trabalhávamos logo uma música. As aulas de solfejo foram curtíssimas.
Vocês trabalhavam para um momento em específico, não é?
Sim, para entreter as pessoas da aldeia.
Isabela Valadeiro, vens aos 18 anos para Lisboa seguir o teu sonho. Tu na altura deixaste então de parte a faculdade de Letras, seguiste para a Escola de Atores, estudavas de noite e trabalhavas durante o dia. Como é que tu te adaptaste a essa realidade e sabendo que a questão da escola de atores acabava por vocês terem sempre trabalhos e podemos dizer que é um curso muito exigente no sentido das emoções e teres de lidar com muita coisa, personagens que eventualmente treinavam também. Como é que tu lidavas com esta dupla realidade de durante o dia estou a trabalhar aqui, à noite vou estudar?
Olha, para mim foi muito calminho, porque o meu trabalho na altura era bastante calmo e então eu tinha tempo para preparar também a minha noite.
O que é que fazias em termos de trabalho?
Eu trabalhava numa loja de cigarros eletrônicos.
Uau. Um quiosque?
Uma coisa, uma boutique. E portanto eu acabava por ter muito tempo.
Que é uma realidade que agora, sem qualquer desprestígio, mas imaginar a Isabela Valadeiro de repente é interessantíssimo.
Sim, eu já nem fumo, nem tenho nada a ver.
Mas é interessantíssimo porque mostra que isto pode mudar de um momento para o outro.
Sim, claro. Mas eu sempre estive muito focada.
Claro, era o teu sonho.
Sim, e aliás, eu acho que a venda ao público, o trabalhar com venda ao público.
Ajuda imenso.
Também acaba por te dar ali uma estaleca fantástica. Tens que saber lidar com aquilo que te dizem, com possíveis reclamações.
Tornar-te à vontade com todas as pessoas. Tu recebes de tudo. Tens a pessoa bem disposta.
Mais ou menos. Tens o grumpy, tens aquele que diz: "Ai, ajuda-me".
Que está com os pés de fora. Apanhas de tudo.
Acaba por ser também uma escola.
Sim, a tua primeira escola de atores.
Na verdade, foi uma escola partilhada. Foi um workshop. A memória que eu tenho da escola de atores naqueles três anos foi uma coisa muito leve. Eu estava nas sete nuvens. Eu estava a viver o sonho. Eu estava mesmo feliz por estar ali todos os dias. Aquilo era segunda, quarta e sexta, ou seja, não era um curso assim tão exigente.
Era tudo prático a nível de avaliação. Não havia nada de testes escritos.
Não.
Que maravilha.
Tudo prático. Depois tínhamos sempre um espetáculo ao final de não sei quantos meses, para aí seis, já não tenho muita memória. Esta é a memória que eu tenho, reparem, se calhar na altura, mas eu acho que foi sempre assim, tudo muito calmo, muito tranquilo e eu estava a viver o sonho. Lá está. E continuo nessa. Eu acho que quando se faz o que se quer e quando se estuda para o que se quer. Obviamente que haverá certamente escolas mais exigentes que outras. Acredito que a escola de Cascais, o nível de exigência será outro, o conservatório será outro. Em Nímes acabava por ser uma escola mais leve, no que toca a horários, no que toca à prática. E foi também fantástico, porque nós tínhamos que fazer um bocadinho aquele trabalho de casa que não nos é imposto, ou seja, se queremos saber mais, se queremos fazer melhor, temos que ir para casa, fazer as nossas pesquisas, temos que ser autodidatas. Eu acho que Em Nímes deu-me isso também e também a minha vontade de fazer sempre melhor. Não me contentar só com aquilo que é ensinado.
Claro. Isabela, para fechar esta primeira parte, porque o tempo passa a correr e já estamos a terminar a primeira parte. É verdade. Tu depois do curso que fizeste, há ali um hiato de quase três anos até ao teu primeiro projeto. Nesse momento, o que é que assalta-te dúvidas ou pelo menos dúvidas sobre o que é que vais fazer a seguir?
Não houve.
Não demoraste três anos até ao primeiro? Foste logo?
Foram três anos na escola de atores e depois comecei logo a trabalhar na Herdade.
Sim, é isso. Eu expliquei mal, não é propriamente um hiato, mas há ali um momento de três anos. Nesse espaço de três anos. Exatamente.
Nesse espaço de três anos.
Tu tens dúvidas sobre se isto vai correr bem, não vai correr bem.
Eu saí do Alentejo a dizer: "Eu prometo-vos", aos meus pais, porque obviamente eles sempre me alertaram que era uma área instável, que podia não dar certo, para eu manter as expectativas não muito altas, que quantos e quantos atores estão desempregados. Quantas e quantas pessoas não saem à procura de uma melhor oportunidade ou de trabalharem no âmbito e não conseguem. Os meus pais sempre foram muito realistas.
Mas isso é ótimo.
Mas eu disse: "Não, eu prometo-vos que vou fazer diferente. Eu prometo-vos que eu vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que não haja essa instabilidade toda e para começar a trabalhar o quanto antes". E depois também propus-me logo a trabalhar ao mesmo tempo que estudava. E portanto eu, a meio do curso da escola de atores, no último ano, eu fui trabalhar para Milão como modelo, porque já na altura me diziam: "Devias ir para modelo." Eu: "Para modelo?" Porque nunca foi nada que me puxasse assim verdadeiramente. E então, de repente, fui procurar agências, consegui uma, depois mudei, depois fui para outra, que me punha em vários anúncios, e eu: "Isto eu já gosto mais." Depois outra: "Não, agora vais fazer aqui umas modinhas, vais vestir umas roupinhas." E eu: "Isso eu não gosto tanto." Mas fazia e eu estava mesmo confiante de que aquilo era um meio para chegar a um fim. Inclusive, depois ganhei um concurso de moda na altura e fui para Milão. E em Milão eu ganhei um arcaboiço de não que foi espetacular. Ainda que não estivesse, lá está, estava no meio para chegar ao fim, mas aquilo deu-me um arcaboiço espetacular, porque para já É um meio muito exigente, a moda. Desenganem-se quem acha que é só glamour.
Sim, a parte bonita.
A parte bonita. Como todos os meios artísticos, tem os seus prós e os seus contras. E aí é que se vê se a pessoa realmente ama aquilo que faz ou não para superar todo e qualquer obstáculo ou contra que se ponha à frente. Na moda, em Milão, eu acabei por fazer muitos castings por dia, tipo 10 castings ao dia, aquilo era tipo um caça ao tesouro. Logo no primeiro dia: "Tu vais para Garibaldi, depois vais para Navigli, depois vais para não sei o quê." Para onde? Acabei de chegar, ajudem-me. Acabei por fazer muitos castings, consegui alguns trabalhos. Tinha feito um casting para uma novela antes e não tive nenhuma resposta. Fui pré-selecionada, depois não tive nenhuma resposta e eu fui para Milão e respondiam-me com muita frequência não, não, não ou sim ou não, ou sim, mas olha aqui, esta moça é mais adequada.
Quase que ficaste treinada.
Fiquei muito treinada, mas nunca se fica completamente treinada.
Até porque os trabalhos são diferentes, o teu sonho continuava a ser a representação.
Exatamente. Eu lidava com aquilo de uma maneira mais fresca.
E se calhar também como tinhas tantos castings, às tantas nem dava para processar um não, porque no dia seguinte já estavas a receber um sim.
Nem sabias bem para o que estavas a fazer casting. Olha, este é para uma marca para grávidas.
Grávidas, uau.
Eu só cheguei a perceber depois que eu fiz o casting, ninguém me tinha dito. Foi uma ótima experiência, deu-me imenso arcaboiço e quando voltei eu já estava muito mais fortalecida. Veio um outro casting e eu fui fazer e estava numa de: "Não, eu vou dar o meu melhor, mas se ficar, fiquei, se não ficar, não fiquei. É mais um não, está tudo certo." E acabei realmente por dar o meu melhor e era um casting para a Herdeira.
E nasceu a Safira.
E nasceu a Safira.
E nós vamos falar da Safira logo na abertura da segunda parte, porque agora temos que fazer aqui uma pequena pausa para notícias e já voltamos com Isabela Valadeiro. Até já. Em 40 Minutos com Isabela Valadeiro, onde estávamos aqui prestes a entrar na história da Safira, que eu não sei, eu acho que isto para um ator é sempre difícil de dizer se é a personagem, neste momento, nestes sete, oito anos de carreira, que marcou o teu percurso.
Foi o meu início, foi muito especial fazer essa personagem. E eu estava muito feliz em fazer essa personagem, eu estava: "Era isto que eu queria."
Era a primeira também.
Que fixe. E depois era um elenco brutal, não sei se vocês têm memória, mas estavam lá todas as estrelas do panorama nacional, digamos assim. Aquelas pessoas que nós víamos nos Manhãs com Açúcar não sei quantos anos atrás, estavam todos lá. E depois era uma história muito gira, os decors eram muito giros, a minha personagem era muito engraçada e essa personagem também foi crescendo ao longo da história, o que foi para mim espetacular.
Como é que foi estar com essas estrelas todas?
Foi o teu primeiro contacto com pessoas do meio, esses grandes artistas de que estás a falar.
Sim, foi o primeiro contacto, mas depois eu geri-o bem, acho. Nos primeiros dias ficava assim um bocado: "Olha, que giro."
E superou a expectativas daquilo que tu tinhas?
Superou. Eu estava mesmo feliz. Depois dançava. E depois era mesmo for real, ou seja, nós estávamos mesmo com figurantes ciganos prontos para nos dar também mais insights daquilo que podia ser a comunidade cigana, daquilo que podia acrescentar à nossa perspectiva enquanto atores a fazer de conta que somos ciganos. Portanto, foi mesmo enriquecedor. Eu adorei fazer essa novela.
Que bom.
Muito bem. E para uma pessoa que é, e nós conseguimos perceber isso através desta conversa que estamos a ter agora, uma pessoa muito segura de si. Vamos fazer aqui uma pequena viagem para trás, voltar à moda, e podemos fazer também aqui uma comparação com o mundo da representação. O mundo da moda, nós temos aquela ideia que é um mundo de glamour, como já dissemos, mas para uma pessoa que é tão segura de si e tão, podemos dizer, um bocadinho reivindicativa, respondona às vezes, tu assumes também, como é que tu lidavas com essa questão de às vezes ser tudo muito rígido, podemos dizer, ou pelo menos a ideia que temos?
Masiavas regras impostas?
Eu acho que a segurança nunca foi uma característica permanente em mim. Eu acho que a segurança eu fui ganhando com o tempo, com terapia, com o investimento na minha saúde mental, que é muito importante. Agora, relativamente ao fato de ser respondona, é assim, como é que eu ia dizer?
Não somos nós que o dizemos, atenção.
Eu fiz uma campanha, lembro-me perfeitamente, em Milão. Foi das poucas campanhas que eu fiz, não fiz muitas mais, porque eu fiquei só mesmo 28 dias em Milão, uma coisa assim. E também acho que não fiz muito mais, porque não estava muito para aí virada. E eu lembro-me de estar a fazer, porque é uma realidade na moda, tu fazes campanhas de verão no inverno e campanhas de inverno no verão. E eu lembro perfeitamente delas, das clientes quererem imensa coisa com uma roupa muito fininha e estavam tipo menos seis graus e eu estava com os lábios negros. Eu assim: "Ai, não consigo mais." Ou seja, não estava em respondona.
Era perceptível o teu desconforto.
Era. Mas hoje em dia nunca agiria assim. Acho que a maturidade traz isso, que é: ok, este é o teu trabalho, vais dar o teu melhor, independentemente da circunstância, da condição climatérica, do que seja. Acho que é por aí. Eu reivindico aquilo que eu acho que poderá estar certo, como todos nós.
Claro. Todos temos um bocadinho desse lado.
Mas hoje em dia sou muito mais ponderada.
A maturidade também ajuda.
A maturidade traz isso. Mais uma vez, a terapia traz isso também.
Os nãos, se calhar, também trazem isso.
Os nãos também trazem isso. E também aprender a ouvir mais. Eu acho que isso também é muito precioso. Nós tendemos a falar sempre muito.
E às vezes nem nos ouvimos a nós próprios e aquilo que estamos a dizer.
E acabar com os queixumes é uma coisa fundamental na vida de qualquer pessoa. Se uma pessoa está constantemente: "E isto, e aquilo, ai está frio." Lida, deal with that. Se é a tua profissão, deal with that. E foi isso que também os anos me trouxeram.
Isabela Valadeiro, a tua pronúncia alentejana, já ouvimos aqui várias vezes. Está aqui no meio de nós.
Ela paira de vez em quando.
Ela paira aqui de vez em quando. Algum dia foi um entrave a nível de representação? Alguma vez alguém chegou perto de ti e disse: "Se calhar está um bocadinho de mais."
Nunca. Inclusive agora estou a fazer um projeto, não posso falar muito sobre ele.
Eu adoro esta frase. Isto é o momento em que nós tentamos te espremer. Estão brincando.
Mas basicamente, às vezes sai-me, quando falo mais alto. Não sei, às vezes sai-me e chamam-me a atenção para isso, mas é só um apontamento, que é para eu, porque às vezes eu não tenho consciência disso, muito raramente, então tento readaptar-me. Aliás, na Safira, curiosamente, voltando para trás, obviamente, foi o meu primeiro projeto, mas foi-nos pedido que não falássemos com o sotaque cigano. Então eu esforcei-me muito para não falar, porque acaba até quase por ser semelhante ao alentejano, de alguma forma. Eu esforcei-me muito para falar o mais lisboeta, o neutro que é pedido. Eu não sei o que é o neutro. Neutro para mim é lisboeta.
São diferentes realidades, no fundo.
Exato.
O que para uma pessoa pode ser neutro, para outra pessoa não é. Mas gostavas que se ouvisse mais sotaques na representação em Portugal? Representação, nos meios de comunicação.
Eu acho que era muito importante, mas também ao mesmo tempo eu percebo as produtoras, as produções. O tempo é muito pouco para trabalhar em sotaques e também para fazer, olha, o caso do Rabo de Peixe, acho que os atores já contaram essa história. É preciso muito tempo de preparação.
E às vezes não há esse tempo. Ou não há investimentos também para poder ajudar esse motivo.
No caso do Rabo de Peixe, não sei como é que foi, não vou falar, mas há muitas novelas, inclusive eu fiz a Terra Brava, que era uma novela, acho eu, que se passava no Alentejo, e eu era a única personagem de Lisboa, fiquei tão triste. Mas ou seja, muitas vezes não se exploram os sotaques porque não há tempo para isto. Lamentavelmente, porque eu acho, sim, que devíamos explorar. Mas depois também há atores que têm mais facilidade, outros que não têm tanta facilidade e o mais fácil é optar pela opção neutro. O que para mim é neutro há de ser o lisboeta, mas não sei se é bem o neutro. Não sei, fica a dúvida.
Entretanto, somaste vários projetos, teatro, televisão. Queres muito fazer cinema, já vamos falar disso também. Sabemos que é uma ambição tua. Com todas estas coisas que já fizeste, tu és uma pessoa que fica satisfeita facilmente, ou seja, consegues ver: "Não, eu aqui estive a 100%."
Irrepreensível.
Ou és muito exigente contigo?
Não, sou muito exigente.
Mas consegues dizer: "Eu aqui estive muito bem."
Consigo. Sim, consigo. Consigo reconhecer quando é bom, mas consigo reconhecer quando é mau e quando está aquém ou quando podia ter feito melhor. Consigo.
Se calhar é mais importante, até.
Muito mais importante.
Sentes isso ao fazer ou depois a ver? Aqui estamos a falar da questão da televisão, o teatro é um bocadinho diferente.
Ao fazer e a ver, sim.
Costumas ver as coisas que fazes depois?
Depende. Há coisas que sim, numa perspetiva de melhoria, porque as novelas normalmente são projetos longos, então para mim é importante ver o que é que está feito para perceber onde é que posso evoluir. Mas sim, normalmente vejo tudo o que faço, acho importante.
E gostas? Não é estranho?
Às vezes é um bocado estranho, às vezes não gosto assim tanto, outras vezes acho que podia ter feito melhor. Depende sempre um bocadinho do papel e de todo o resto. Não sei.
Ao nível da cultura, dos apoios e dos incentivos que há para a cultura em Portugal, podemos dizer que não há um investimento tão forte na cultura em Portugal face a outros países. Não vamos estar aqui a mencionar, é notório. Isto para um ator que está a trabalhar no meio, sentes isso ou como não tens ainda, se calhar, um meio de comparação, não se sente tanto?
Não tenho um meio de comparação, efetivamente, mas sente-se, está em todo lado. Uma produção carece de mais meios e nós sentimos que há falta de determinados meios. Às vezes pormenorzinhos, esta coisa da produção, de preparar um sotaque, por exemplo, é só ter tempo para trabalhar a personagem.
Às vezes é começar a preparação da novela, se calhar, um bocadinho antes.
Com mais tempo, com mais antecedência. Novela ou série ou o que for. É necessário dinheiro para que isto aconteça. E outras tantas e inúmeras coisas. É um sem fim de questõezinhas, que parecem questõezinhas, mas que faria tanto sentido serem exploradas e serem olhadas com outros olhos, com mais apoio, com mais carinho por parte do governo. Que é fundamental prestar-se atenção ao teatro, às companhias independentes, projetos, filmes que podiam ser muito apoiados, contam histórias muito interessantes.
Tu que fazes os dois, teatro e televisão, sentes que o teatro acaba por ser mais prejudicado ainda do que a televisão, nesse sentido, nos apoios?
Eu acho que depende das produtoras, sempre. Depende sempre do capital de cada produtora. Acho que isso varia de caso para caso, mas acho que o teatro acaba por ficar mais fragilizado, sobretudo quando há companhias independentes. O mesmo se aplica ao cinema independente ou cinema que não é apoiado de maneira nenhuma. Nós temos o ICA, que apoia alguns filmes, mas que não apoia a maioria. E portanto, faria falta esse tipo de apoios. Também as plataformas de streaming vieram aqui trazer algo fantástico, que é a acessibilidade à cultura, por exemplo, em regiões como a minha. Na minha aldeia, as pessoas hoje em dia já conseguem ver clássicos que nunca, se calhar, tinham visto antes. No entanto, ainda acho eu, não há nada que proteja o ator na venda da série ou do que quer que seja para fora, worldwide e para tempo ilimitado. Ainda não há uma lei que se aplique neste contexto, que eu acho que também carecia aqui de um olhar e de uma legislação. Mas acho que é isso. Acho que há países que olham para a cultura como algo indispensável e acho que nós não somos ainda esse país, no entanto, estamos a caminhar para lá. Eu sou muito positiva em relação a isso e acho que Lisboa agora é uma cidade tendência, por assim dizer, e estamos a desenvolver-nos muito no que toca à cultura, a receber os turistas, os nômades digitais, os novos artistas. Quantos e quantos atores não estão a viver agora em Portugal, estrelas de Hollywood, etc. Portanto, eu acho que as coisas estão a mudar, gradualmente, mas estão a mudar. Isto é a minha perspectiva, sempre muito positiva, se calhar um pouco idílica e utópica, mas eu acredito nisso e acredito que vamos conseguir ir mudando as coisas aos poucos e poucos.
Isabela, já falámos sobre este tema que te vou questionar agora, com outros atores e atrizes também. Já disseste por várias vezes que te irritas quando colocamos as pessoas em caixinhas, em gavetas.
Não me irrito.
Mas é aborrecido.
Não gosto muito de categorização, mas eu acho que é uma característica do ser humano. Nós tendemos a categorizar para também nos organizarmos, em termos de pensamento.
E fazer tantas coisas diferentes.
Uma das coisas que já nos disseram aqui é que, por vezes, há um certo preconceito com os atores e atrizes que fazem novelas.
São todos.
Porque lá está, há o rótulo de que fazes novelas, se calhar não estás tão apto a fazer outro tipo de produtos. Tu notas também esse preconceito ou essa dificuldade de saltar das novelas para outro tipo de conteúdos?
Eu acho que a novela é dos produtos mais exigentes que existe.
Isso até é contraditório.
Sim, acaba por ser um contrassenso.
Eu acho que a maioria dos atores portugueses faz novelas. Mas o que acontece? Eu acho que há atores extraordinariamente esforçados e que têm uma formação extraordinária, que são extraordinários atores e que depois não conseguem, eventualmente, trabalhar em novelas e por isso criam as suas companhias independentes e vão para o teatro, etc. Depois há atores que fazem novelas e não conseguem entrar no teatro ou no cinema por haver este preconceito. Eu acho que é a altura de quebrar essas paredes todas que existem. E percebemos quantos e quantos, a maioria dos atores portugueses que fazem novelas, fazem teatro, fazem cinema.
Isso é estranho. Não sei se tu concordas, André, para uma pessoa que está de fora, eu pelo menos sinto que não há barreiras, só que depois, ao ouvir os atores e percebemos, se calhar, das dificuldades, percebemos que existe esse preconceito, essa dificuldade, porque para nós é como se fosse tudo, não é a mesma coisa, mas é como se fosse bastante fácil saltar tanto do cinema para o teatro, do teatro para a televisão.
Não creio que seja assim tão fácil. Hoje em dia eu acho que provavelmente está melhor, mas acho que temos um caminho a percorrer e acho que isto é geral, provavelmente. Não sei, haverá outras áreas em que também existe um bocadinho este preconceito de uma coisa para a outra, dentro da mesma área. Agora não me lembro de nenhum exemplo, mas haverá certamente. Aqui na representação é um bocadinho isso. Acho que um ator de novela acaba, às vezes, por ser considerado um ator de novela. Mas depois é contraditório, porque a maioria dos atores, acho eu, salvo algumas exceções, obviamente, destes atores forçados e que têm todo o potencial para estar em qualquer área da representação e não fazem. Mas eu acho que a novela é realmente um desafio muito exigente. Também te traz vícios, é facto, vícios de representação.
Mas depois também por ser mais desafiante, porque sais da zona de conforto.
Todas são desafiantes à sua maneira, mas a novela acaba por ser muito desafiante pelo tempo. A novela tem um plano geral, ou seja, o ator acaba por estar menos protegido, digamos assim, do que um ator em cinema, com uma câmera à mão, dependendo do filme, obviamente, e do realizador. Mas eu acho que há desafio em toda a área e eu acho, idealmente, na minha visão positiva e utópica, mais uma vez, eu gostaria, obviamente, que o nosso meio fosse muito mais unido, que nos apoiássemos muito mais uns aos outros e que fluísse tudo em harmonia, de uma área para a outra e da outra para a outra. Acho que isso seria o cenário idílico.
Isabela, sabemos que há uma grande ambição tua, e nunca te tinha visto dizer: cinema. O que é que o cinema tem que te chame tanto?
Os teus olhos brilham quando falam em cinema.
Este sonho tão grande.
Eu gosto muito de cinema, gosto muito de filmes, gosto muito de festivais de cinema. Aliás, tenho andado de festival em festival. Há filmes que mudam a perspectiva, há filmes que mudam a perspectiva de uma pessoa, há filmes que nos acrescentam, há filmes com os quais nós nos identificamos, há filmes que transformam vidas. Como eu ainda não fiz, há esta vontade ainda maior de lá chegar. Acho que é por aí, mas é sobretudo porque o cinema é imortal.
É mágico.
Tem a magia da identificação, da transformação, quebra um bocado esta coisa do distanciamento e une-nos de alguma forma. Mas como todos os trabalhos de representação. No entanto, o cinema acaba por ganhar um lugar de grande destaque nas minhas vontades, por ser ainda um objetivo não atingido.
Sim, e se calhar é aquela questão de há sete, oito anos, era a questão da representação, de conseguir chegar lá e agora o cinema acaba por te tornar criança outra vez, no sentido de que quer chegar ali.
Eu acho que é muito isso.
E depois daí é o quê? O que é que vem daí?
Para mim é o cinema global. Cinema global, séries, ou seja, a internacionalização. Se bem que eu quero ter sempre um pé cá. Tenho o maior dos respeitos. Aliás, temos a Laura Carreira a ganhar prémios em todo lado, o Miguel Gomes a ganhar o melhor realização em Cannes. Deixa-me muito orgulhosa e deixa-me com muita vontade também.
Temos muitos atores lá fora, Daniela Melchior, Joaquim de Almeida, Daniela Ruah.
Exatamente. Portanto, eu acho que cada vez é mais acessível, de alguma forma, não me interpretem mal. Acessível não quer dizer que seja um caminho fácil. No entanto, é isso. Temos aqui espanholado, que tem um dos meus realizadores preferidos, o Pedro Almodóvar. Eu estou muito virada para essa internacionalização, de facto, e eu sei que vai chegar.
Isabela, para fechar, porque estamos mesmo a pisar o nosso tempo limite. Para quem conhece a Isabela, que cresceu, nasceu no Alentejo, que característica é que tu manténs desses tempos para agora? O que é que continua aí da Isabela Valadeiro?
Vou dizer uma que eu nunca disse e por acaso só no outro dia é que me lembrei que podia ser isto. Sou um bocadinho selvagem, digamos assim.
Em que sentido?
Calma, não me interpretem mal.
Tens de explicar agora.
Como é que eu vou dizer isto? Às vezes digo coisas. Tento ser o mais genuína possível e esse agora tem sido o meu objetivo principal quando faço terapia, porque parece uma coisa realmente simples. É ser genuíno. E não é. Nós ganhamos muitas defesas ou agimos muito com o ego, porque achamos que ou não somos suficientes ou não merecemos, etc. E ser genuíno é realmente algo fantástico e traz-te esta coisa da unicidade, de seres o que tu realmente és. Como é que eu hei de dizer isto? Eu gosto de dizer o que me vem na alma, sem grandes filtros.
E é isso que é ser selvagem.
Não sei se é isso que é ser selvagem.
É um pouco também.
Vou procurar o conceito de selvagem para me assentar nos próximos 40 minutos.
Da próxima vens e voltamos a fazer mais uma parte.
Quando já tiveres feito cinema.
É isso.
Exato.
Quando Isabela Valadeiro já estiver naqueles grandes ecrãs, voltas aqui.
A selvagem vai dar várias coisas, não vai?
Acho que esclareceste bem. Temos de ficar por aqui. Isabela Valadeiro, foi um gosto.
Muito obrigado por teres estado connosco.
Obrigada.
40 minutos. regresso para a semana, não com a Isabela Valadeiro, com mais um convidado, mas quem sabe se voltas cá. Esperemos que sim. Obrigado. Até à próxima.
Obrigada.