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Nasceu na Rodésia e foi viver para Itália. Anos mais tarde veio para Portugal. Diz sentir-se cada vez mais um português de gema. Estreou-se na televisão em 1990, mas para além da televisão também faz cinema e teatro e diz que é no papel de argumentista que se sente mais completo. Marco António Del Carmo em "40 Minutos" na Rádio Observador. Bem-vindo.
Uau, que voz.
Olha quem fala. Nunca deixaste de fazer rádio?
Não. Olá, antes de mais nada a todos.
Olá, bem-vindo.
À audiência. Não vou falar nas meninas como o Miguel Guilherme, embora isso pudesse ser viral nesta entrevista, seria fantástico.
Estávamos a falar no início, antes de começarmos, de uma entrevista que o Miguel Guilherme deu ao João Paulo Sacadura no "Convidado S" da Rádio Observador.
O Miguel, bem haja por ele. Não tem papas na língua e ainda bem que não. Quando eu era mais pequeno, lembro-me de brincar às rádios. Em Itália surgiram as rádios piratas. Na altura eu tinha 12, 13 anos e brincava com os amigos no quarto, fingíamos que fazíamos uma emissão. Depois gravávamos com microfone e fiz não sei quantos programas para mim e para os meus amigos.
Mas depois nunca levaste mais.
E fazíamos cobertura de notícias, de guerras, de futebol, de tudo, programas de concursos. A sério, passávamos tardes naquilo.
Uma das coisas mais importantes em rádio é o nome. Quantas vezes é que já trocaram o teu?
Em Itália não trocam. Mas aqui o primeiro dia de aulas era sempre problemático. Para já, porque tinha este nome. E no primeiro dia de aulas não queres dar nas vistas. Portanto, chegava à chamada.
É um bocadinho difícil.
Quando chamavam: "Marco António".
Levantavas logo: "Sou eu."
E Marco António Del Cano. E houve uma altura em que mesmo as televisões e vocês, os jornalistas, tratavam por Marco António Del Carmo, porque eu fiz uma novela com a Dalila Carmo em que fazíamos par amoroso.
E então adotaste o nome.
Não, fui eu que adotei. Mas chegavas a uma produtora para fazer um filme, e eles diziam: "Marco António Del Carmo." E eu dizia: "Não, no genérico tem que pôr Del Carmo."
Mas qual foi o nome que mais vezes achas que trocaram? A imprensa já trocou também.
Tem uma história muito policia-- agora não, já foi há algum tempo. Eu vou muito ao Porto dar formação. Adoro ir ao Porto, o norte em general. Normalmente vou à sexta e venho embora ao domingo. E no domingo, sempre que me venho embora, antes de me meter no carro, eles têm aqueles croissants maravilhosos no Porto e há um sítio que eu conheço. Não vou fazer publicidade, mas é ótimo. E eu vou sempre lá depois de acabar a formação, de acabar de dar aulas e vou comer um croissant. E vou sempre com o boné escondido para não me conhecerem. Mas há pouco tempo o senhor do café reconheceu-me. E eu estava a fazer na novela de guarda GNR. E o senhor chamou o colega e disse: "Anda cá, anda cá ver." Eu não vou fazer o sotaque para os senhores do Porto não ficarem chateados, mas com o sotaque é muito mais bonito. Mas ele chamou o senhor e disse: "Anda cá ver quem é que está aqui", e diz: "Está aqui o Marca Del Antônio que faz de bombeiro na novela." E eu fazia de GNR. Eu não disse mais nada.
Foi um quito de trocas.
Marca Del Antônio nunca me tinham chamado.
Tu foste cedo também para Itália. De resto, é um local que tu visitas frequentemente. Como é que foi depois quando vieste para Portugal? Na altura foi um choque?
Não, eu adaptei-me rapidamente. Quando vim para cá já estava quase no fim da adolescência, portanto não tive um grande choque. Eu às vezes falo com as pessoas, porque eu acompanhei uma evolução de Portugal fantástica, nomeadamente Lisboa, onde sempre vivi. Quando eu cheguei cá, eu vinha de um país onde havia 40 canais na televisão. Todos tínhamos telecomando. Cheguei cá, só tinha dois canais, tinhas de te levantar para mudar de canal e às 11h terminava. Ainda antes de ontem falava disto, já não me lembro com quem. Isto é autêntico. Eu morava na Portela, perto dos Olivais. As pessoas iam ao domingo, não eu, mas muitas pessoas, Lisboa inteira e do país inteiro, vinham ver os aviões.
Sim!
E faziam piqueniques ali no Aeroporto da Portela. A avenida não estava toda feita e estavam naqueles relvados com toalhas, o farnel todo. E era uma tarde que passavam ali para ver os aviões. Uma tarde cheia, porque as pessoas não viajavam.
Mas ao dia de hoje ainda há muita gente que vai ver. A sério! Nunca mais passaste por ali? Eu também, como vivo ali perto, de vez em quando vou. E tiram fotografias.
Já sei com quem eu estava a falar.
Os spotters.
Já sei com quem eu estava a falar. Eu disse isto era com o Henrique Garcia, que é um grande amigo meu, foi um grande jornalista deste país. E estávamos a lembrar-nos disso, de ir à praia. Era uma aventura. Tu não ias à praia como hoje, que é: "Vou duas horas à costa e dar um mergulho e venho-me embora" ou metes-te no carro e vais. Não, saías às 8h. Era o conto do Miguel Guilherme.
Exato.
Tu saías às 8h com o farnel, estavas horas para atravessar. Na altura do Henrique nem sequer havia ponte. Já havia, pelo menos, estou a ver. Mas tu estavas horas para chegar e depois para voltar. Não havia aqueles bares na praia como há agora, os apoios. Tu passavas o dia na praia. Por exemplo, uma das coisas que eu me lembro quando eu cheguei a Portugal, as pessoas eram muito pequeninas Porque a média do português era pequena.
Altura mesmo.
Altura. Tu hoje tens portugueses altos. E era uma das coisas que eu comentava com o meu pai. Tu se morares ali ao pé, tu conseguias fazer da Portela à Praça do Comércio, fazias em 15, 20 minutos. Coisa que hoje não fazes, fazes em duas horas e tal.
Sim, eu ia dizer.
Em hora de ponta. Não havia hora de ponta. Foi muito giro ver esta evolução. Eu, por exemplo, fiz o interrail muito cedo e tu encontrares um tuga, esquece. O que tu encontravas, muitas vezes nos comboios, eram os imigrantes. Mas encontrares um português da minha idade, com 16, 17 anos, a fazer o interrail, quando encontravas era uma festa. O português não viajava, não tinha, de facto, recursos para isso.
Em Itália era bem diferente, então?
Em Itália era diferente. Mas depois Portugal, para mim, teve um encanto que foi aquela fase de sair da adolescência, da idade parva para a lateralidade um bocadinho menos parva, mas ainda parva. E foi a descoberta, eu tive aquela coisa fantástica da noite, por exemplo, de Lisboa. Ou seja, eu tive o grato privilégio de ver, e depois estar no filme, que é fantástico ver isso, de ver a entourage do António Variações a entrarem nos Três Pastrinhos, que foi um bar mítico de Lisboa. E isso foi uma coisa incrível. Porque na altura, por exemplo, a estrela rock, a malta não tem esta noção. Hoje tu olhas, se é um cara do rock ou um cara de pop, o cara que toca música, não sei, todos eles têm aquele look, aquela coisa fashion, os oxes cus. Na altura, o Variações era uma coisa extraordinária.
O Variações não era um símbolo de Portugal no sentido em que era.
E a entourage, mas não era só o Variações, o Reininho, toda essa malta.
O Rui Pragal da Cunha, também.
Sim, os Heróis do Mar.
Estavam muito à frente do tempo.
E não só isso. Tu não comprava disco, na altura comprava-se discos, hoje não, hoje há o Spotify, mas na altura tu compravas discos e tu não tinhas discos cá vendendo. Eu lembro-me de irmos para casa de um amigo, ouvirmos o Supertramp de forma religiosa, sem dançarmos, só ouvir as faixas todas e depois repetirmos e depois discutirmos aquilo. Tu saíres à noite, por exemplo, não havia as lojas que há agora, as marcas que há agora.
Sim.
E as pessoas à mesma queriam marcar uma posição, queriam ser alguém. E então era muito gira a noite de Lisboa, porque agora está tudo um bocadinho uniformizado, percebes? É tudo mais do mesmo. Mas um bar como o Frágil, antes do Lux, tu não entravas no Frágil. Tu para entrares no Frágil, tinhas que passar por várias etapas, até aí quando entravas sentias tu.
Era quase um clube.
É, é uma coisa engraçada. Também por aí foi muito giro, porque eu tive uma pós-adolescência e entrada na vida adulta muito divertida, porque conheci uma Lisboa e um Portugal absolutamente fascinantes, que continua, mas foi giro ver esse processo.
Olha, tu tens sangue italiano, isso transparece para a tua forma de viver?
Eu sou italiano, na verdade. O que a minha prima diz, a minha prima filha da irmã do meu pai, diz que somos muito chegados, diz que quando eu estou em Itália, ela acha que eu sou estrangeiro, que eu tenho ali qualquer coisa de estrangeiro. Quando eu estou cá, as pessoas que me conhecem, por exemplo, com os amigos italianos, quando me encontro, etc. E com a minha filha, que fala só italiano.
É sério?
Sim, nós em casa estabelecemos isso. A Iolanda fala sempre em português e eu falo sempre em italiano. E de facto, a Iolanda diz: "Tens outro registo, passas a ser outra pessoa quando falas italiano". Eu da minha parte não te sei dizer, por mim continuo. O que eu tenho de italiano é talvez o toscano, porque eu sou toscano, é o ceticismo. O toscano é muito cético. O ceticismo e nunca levo nada a sério, estou sempre a brincar e a fazer coisas aos outros e isso é o toscano. Talvez seja isso, mas eu nunca pensei muito nisso. Aliás, eu cada vez mais português do que propriamente. Só me lembro que sou italiano quando falo com a família em Itália ou quando vou para Itália.
E vais com alguma frequência?
Sim, ou quando falo com a Simone, porque senão, cada vez mais sou português. Aliás, ontem eu fui dizer poesia num sítio e disse alguma da poesia em italiano e ficou toda a gente muito espantada. "Você é italiano?", eu disse sim.
É sério? Ainda há gente que não sabe, há pessoas que, pronto.
Não sei se sou ou não. Porque como eu sou belga, as pessoas não-
E tu já estás há tantos anos cá em Portugal, não é?
Sim. Mas o Estado português ainda não me dá a nacionalidade. Chamada de atenção.
Não tens nacionalidade portuguesa?
Não tenho, tenho a nacionalidade italiana, porque o Estado português, estas coisas, à portuguesa, temos coisas muito boas, mas temos coisas muito más, nomeadamente a burocracia portuguesa. Por uma única questão, eu para ter acesso à nacionalidade portuguesa, tenho que apresentar entre alguns documentos, o certificado criminal, ou seja, dizer que na Rodésia-
Da Rodésia, sim, onde nasceste.
Ou seja, há de dizer que quando nasci, e eu só estive na Rodésia até aos seis meses, eu acho que até aos seis meses eu não assaltei nada, nem roubei ninguém. Mas se eu não apresentar, e não tenho, porque não há maneira de obter esse certificado, porque já passou, foi em 65, eu não sei. E portanto o Estado português não me dá a nacionalidade.
E há quanto tempo é que isso dura?
Não preciso de uma medalha, preciso só mesmo da nacionalidade.
A primeira vez que a nacionalidade pediu?
Já foram dois, mas agora desisti porque esbarrei nisto e não há maneira. E já explicou, os meus advogados explicaram: "Mas agora não é fácil, é difícil. A Rodésia virou Zimbabué. Portanto, eu nasci em 65. 65 era o Ian Smith, depois veio a mudança no Zimbabué e a minha papelada desapareceu e eu só estive até aos seis meses. E isso eu tenho que comprovar. Até aos seis meses ninguém comete um crime. Só se roubar um biberão a alguém.
E essa forma que tu tens de comprovar que só estiveste lá até aos seis meses não é válida?
Não. O Estado português não.
Diz que não.
Sabe-se por quê. Mas eu também já desisti. Não me querem português, continuo italiano. Sou português em muita coisa. Nos amigos, no gostar tanto deste país. Adoro este país. O meu pai dizia uma coisa dos portugueses muito divertida. O meu pai dizia: "Os portugueses são como os sicilianos, não por causa da máfia, mas são como os sicilianos. Ou seja, o português quando sai à rua, se está sol, sorri e é um dia fantástico. Se estiver a chover, pega no chapéu-de-chuva e sai à mesma". E isto era uma coisa muito gira que o meu pai dizia do português. O meu pai sempre adorou Portugal, e eu adoro. E já conheço algum mundo, não todo, mas conheço algum mundo e não há nenhum país como Portugal. Por isso é que toda a gente quer cá vir viver. Come-se bem, as pessoas são fantásticas, o país é lindo. Há muita gente que conhece ainda mal o seu próprio país.
Sim, verdade.
Eu aconselho vivamente, em vez de gastarem tanto dinheiro, que também é giro, ir ali fora, às Maldivas e essas coisas, descubram Portugal. Portugal tem coisa, e eu conheço Portugal de lés a lés. Tem coisas maravilhosas.
E lembras-te do dia em que decidiste que querias ser ator?
Eu vim parar para isto completamente por acaso. Eu nunca fui daqueles que foi ao teatro pequenino. Eu escrevia era muito, como a minha mãe. Talvez herde isso da minha mãe, porque a minha mãe também escrevia muito bem. Não quer dizer que eu escreva bem, mas ela escrevia muito bem. E eu vim para isto por acaso. Não vou contar essa história outra vez, já contei 20 vezes, mas vim realmente para isto por acaso. Lembro-me o primeiro dia, que foi a primeira aula que eu tive com o João Mota, que foi um dos meus grandes mestres, diretor da comuna, e em que eu ia desistir. Eu ia ficar: "O que eu vou ser ator?" Porque eu entrei por acaso. Ia desistir e pagar os 300 escudos, qualquer coisa que se pagava na altura pra inscrição, porque ainda eram algumas cervejas no Bairro Alto. Só que a senhora da secretaria nesse dia atrasou-se porque tinha uma consulta. Eu entrei para isto por causa disso. A senhora tinha se atrasado e eu estava ali à espera dela. Entretanto, o João Mota fez a chamada. E eu fui ter a primeira aula do João. E achei qualquer coisa de engraçado na primeira aula. Pensei: "Está bem, vou anular à tarde. Depois vou anular no dia seguinte". E há 33 anos que faço isto, não anulei.
Mas e se não fosses ator, terias sido o quê?
Sei lá. Meu pai gostava que eu tivesse sido advogado. Eu acho que teria sido um péssimo advogado.
Por quê?
Porque sou cético. E para ser um bom advogado, tu tens que acreditar muito na lei.
Claro, em quem está.
Talvez tenha uma costela. O meu avô era anarquista, claramente, e fartou-se de levar porrada dos camisas negras e do fascismo italiano. Talvez eu tenha herdado um bocadinho essa costela anarquista e torço sempre o nariz um bocadinho a tudo. Estou a tentar fazer com que a minha filha não seja assim, mas eu acho que ela já começa a ir pelo caminho.
Mas isso tem algum reflexo no dia a dia?
Acima de tudo, defende-me. Eu tive muito esta educação do meu pai. Meu pai dizia sempre: "Lê sempre nas entrelinhas, nunca nas linhas". Ele dizia sempre uma coisa: "Não leias só os parangonas do jornal, lê o artigo por completo". Ainda por cima, no que nós estamos a viver hoje, vocês fazem parte dessa máquina, nós neste momento não temos comunicação. Nós temos um excesso de comunicação, e esse excesso de comunicação faz uma desinformação constante. As pessoas andam constantemente desinformadas. Dou-vos o exemplo das intempéries. E houve alguém agora, e ainda bem, um senhor que eu vi agora há pouco tempo também na rádio, um tipo qualquer, não sei se é do Instituto do Mar, enfim, um doutorado qualquer que sabe destas coisas e que dizia com muita justiça: "Atenção com a comunicação social, porque o excesso de pânico que se criou". Claro que nós tivemos problemas. Lisboa foi inundada, houve pessoas que inclusive morreram. Certo. Mas o exagero que se fez à volta disto e tem que se fazer uma outra coisa. Não é esconder as coisas às pessoas, mas dizer: "Ok, vamos com calma, vamos ver o que é que vai acontecer". E isto foi, de repente, parecia que tínhamos um tsunami em Portugal. Voltando à questão, nós vivemos, de facto, uma desinformação. E nessa desinformação eu tento estar minimamente informado. Às vezes não é fácil, mas eu tento e acabo por também ser um desinformado. Não há nada a fazer. As redes sociais, não sei o quê. Enfim, mas isto era uma conversa que não dava 40 minutos.
Não, não dá.
Não dava.
Tem que ficar pra outro.
Tem que ficar pra outro.
Marco António, tu há pouco falaste nos teus pais. Inevitável. As ausências e as perdas.
Aquela coisa tipo Daniela Oliveira. O que é que os teus olhos...?
Não.
Estou brincando. Já te disse que eu sou brincalhão.
Eu sei. Mas isso também pode ser um escape, às vezes. Por exemplo, agora neste tema que pode ser, e eu sei Que é um tema que mexe, e mexe com qualquer pessoa, dos pais. E neste caso eu ia-te perguntar se as ausências e as perdas marcam-te muito. Mas será que também é um escape teu?
Não, não é escape, porque eu não finjo que não sofro com a ausência deles. Eu já perdi os meus pais, o meu irmão mais velho e portanto eu não finjo que não sofro com eles. Mas eu tenho uma relação, e isto herdei da minha mãe. Eu sou uma pessoa às vezes até bastante negativista. A minha mãe era extremamente positiva e portanto alguma positividade também herdei da minha mãe. Eu lido com isto de forma muito prazerosa, ou seja, o que eu me lembro da minha mãe, do meu pai e do meu irmão é tão bom, que não me faz pensar na dor deles me faltarem. E eu lembro-me do meu pai sistematicamente, principalmente do meu pai, com quem tive uma relação muito forte e que era o meu ídolo, e continua a ser. Mas eu lido porque me lembro dele enquanto caçador em África, enquanto pescava, enquanto construía fábricas, e das pessoas que ainda hoje, a única família próxima que eu tenho cá em Portugal é a minha madrinha de batizado, que é portuguesa, e ela foi muito próxima do meu pai, como o meu padrinho, e quando estou com ela, ela conta coisas absolutamente extraordinárias do meu pai. Ou seja, em vez de ficar a pensar: "Ai, meu pai morreu, ai meu pai já não está cá". Isso já sei. Já chorei o que tinha a chorar, agora vivo pensando nele. E por exemplo, agora com a Simone, eu penso: o que é que o meu pai fez comigo? O que eu vou seguir do que o meu pai fez e o que eu não vou seguir?
Claro.
Porque como todos os pais falham, eu irei falhar, sem dúvida, muito com a Simone, mas pelo menos vou tentar não falhar aquilo que o meu pai falhou e fazer aquilo que o meu pai fez de bem comigo. Portanto, essa relação, e eu acho que isto é um conselho que eu dou também. Eu não sou de muito dar conselhos a ninguém, mas eu acho que quem tem uma perda, depois de passar, obviamente, o tempo de desespero e de chorar e por aí fora, pense que essa pessoa está lá, continua lá, tem coisas boas, no teu dia a dia. É com isso que se deve lidar. Portanto, se eu ficar a perder tempo a chorar e não sei o quê, eu não vou relembrar o meu pai, nem a minha mãe, nem o meu irmão, naquele bonito que eles me deram. Portanto, prefiro ir por aí. Não é nada assim de extraordinário.
Tu já falaste inevitavelmente na tua filha, na Simone. Tu foste pai depois dos 50. Isso mexe contigo? O facto de teres sido pai aos 50.
Dorme pouco.
Pronto. Já íamos para além das coisas óbvias, que foi dormir a dormir muito.
Sabes o que é mais irritante? É quando encontras um pai ou uma mãe e diz: "Não, o meu dorme 12 horas seguidas". E tu ficas assim: "Como é que é possível?" Não, ela agora está a dormir muito melhor. Mexe comigo neste sentido, que é pensar: eu por acaso, por um lado, acho ótimo só ter tido agora, porque eu sou uma pessoa muito mais calma agora, muito mais serena, muito mais paciente, que não era. A minha alcunha, que foi a Iolanda que me pôs quando me conheceu, e uma amiga da Iolanda que chamaram-me, ainda hoje me chamam, o Gru mal disposto. Portanto, estás a ver. É como elas me chamam.
Mas por quê?
Porque eu às vezes tenho um feitio, explodo quando há uma injustiça. Por exemplo, hoje estou muito mais calmo no trânsito. Eu antigamente no trânsito, dizia. Hoje não, vem um cara, começa a fazer sinais, eu: "Passa". Sou muito mais paciente, muito mais calmo, e isso é ótimo pra relação que vou ter com a Simone. Porque eu acho que se tivesse tido um filho aos 30, e depois aos 30 eu tinha tanta coisa pra fazer ainda. Agora já não tenho assim tanta coisa pra fazer. Tenho a coisa mais maravilhosa e mais importante na minha vida, que é criar a Simone. E tenho a disponibilidade total. Continuo com uma vida de loucos. Filmes, séries, novelas, teatro, aulas. Mas tenho um tempo mental que se calhar aos 30 não tinha, percebes? Portanto, acho muito mais giro agora. É óbvio que depois pensas: "Epá, quando eu tiver 60, a Helena tá ali numa fase que é..." Tu pensas nisso. Mas é mais uma vez, lá está, se a gente pensa sempre no que é mau ou no que é menos bom, não gozas o que é bom. E eu acho que o grande problema neste momento do nosso tempo é este: as pessoas pensam demasiado no que é mau. Pensam demasiado.
E acabam por não aproveitar.
E há coisas más, de facto, não há dinheiro no final do mês. Mas há muita gente que tem até, de facto, uma vida económica estável, porreia, mas estão sempre a pensar no pior. Epá, e não pensem. Pensem um bocadinho que a vida não são dois dias, como dizia o outro, e a tua passagem por aqui é tão curta, que se não aproveitas o que é bom, não levas nada. Isto passa a correr. Agora que já percebi que estou a começar a ficar velho. Aconteceu uma coisa, eu agora fiz recentemente uma série pra Netflix e a miúda, que já não é miúda, já tem 30 e tal anos. Mas a fotógrafa de cena veio ter comigo, nós estávamos a filmar nas Açores e ela veio ter comigo e disse-me assim: "Você foi meu professor". E eu: "Aé?" Porque eu dei durante muitos anos aulas de expressão dramática a miúdos pequeninos, aos sete anos. Não, até aos cinco. Dos quatro aos seis, já não me lembro. Eram muito pequeninos. E ela foi minha aluna. "Foi teu professor?" Eu pensei que era um destes cursos de formação que eu dou nas empresas. "Não, no King Elizabeth School." Eu: "É lá?" E ela já está muito calmeirona.
E aí caiu-te a ficha e tu pensaste: "É."
Não, e tem me acontecido várias vezes, tenho apanhado pessoas que foram minhas alunas com cinco, seis anos. E de repente dizes: "Ah, ok. Tá bem." E é muito giro, por exemplo, agora as equipes tratam por você E eu digo que fico logo irritado. "Mas porque é que me estás a tratar por você? Já dei por mim a fazer um filme ou fazer uma novela. Marco António, podemos então ir mudar de roupa?" "Sim, é a sua vez." "Estás-me a tratar por você porquê?" Portanto, aí começas a perceber.
E há planos para mais filhos ou não?
Sei lá, vou-te dizer a ti.
Mas a parte do você eu estava a lembrar-me: hoje estás a tratar o Marco António por tu.
Não, mas eu nunca tive aquela coisa da minha vida privada. Eu acho isso um disparate. Acho que se uma pessoa vem para isto e ainda assim faz televisão como eu faço, tem que ter a consciência que é uma figura pública, não é uma estrela. Eu costumo dizer: estrela é o Ronaldo, esse é que tem 58 mil seguidores. Nós fazemos novelas.
Mas não se fazem planos no sentido de, porque muitas pessoas fazem, quero ter uma família com determinado tipo de características, com não sei quantos filhos, viver numa casa ao pé do mar.
Isso é tão chato. Agora há pouco tempo estava a dar uma formação numa empresa e estávamos a falar dos chats, aquela coisa dos encontros.
As aplicações?
Não é ticket line, isso é dos bilhetes.
O Tinder.
Tinder! E a dizer: "É tão disparatado." E havia pessoas a dizer: "Não, mas assim a gente já vai a alguma segurança." Eu adorei levar as tampas que levei. Tu perderes tempo a seduzir uma mulher e depois ela dá-te uma tampa e depois ficas a chorar. É tão bom. "Que idade é que tens? Peso?"
As tampas digitais custam menos.
Isso é para descobrir. Pois, percebes? E acho que as pessoas andam todas um bocadinho, estão a perder o sal das coisas. As pessoas querem tudo já formatado. Tipo, quero uma família formatada.
Querem a felicidade imediata.
Sim, mas depois não a tens. As pessoas juntam-se, separam-se ao fim de seis meses, porque afinal perceberam que não houve nada, planearam logo tudo, a casa, os filhos. E depois aquilo é uma seca, é uma chatice. Eu acho que as pessoas deviam acalmar-se um bocadinho.
E tu és muito assim, um dia de cada vez?
Não é um dia, é um minuto de cada vez. Não consigo. Felizmente, tenho uma mulher extraordinária, que é a Yolanda, que nos safa enquanto família, porque se não fosse ela era o caos, e que trata dos papéis e que trata das coisas todas, mas eu não consigo ser assim.
A sério?
Não consigo, porque tenho que ter o meu tempo. Sério, tenho que gerir as minhas coisas com o meu tempo. E se começo a pensar: "Ok, tenho 20 coisas para fazer" e pensar que tenho que as fazer todas de uma vez, é o momento em que não as vou fazer. Nem uma. A minha vida é uma loucura. Entre filmagens, aulas, a Simone, ensaios de teatro. E aí eu consigo gerir. Por exemplo, eu odeio tudo o que é burocracia. Eu quando tenho que ir tratar de um papel, eu entro em depressão, fico mesmo deprimido. Fico sem apetite. Não, a sério, quando eu tenho que ir tratar de um papel.
E as finanças é uma coisa assim.
Por exemplo, a altura do mês em que tenho que mandar as coisas do IVA para o meu contabilista, que tem uma paciência também enorme comigo, que é o Carlos, que é meu contabilista já há muitos anos e que tem todos os clientes dele, nomeadamente a Yolanda, que mandam com as micas as pastinhas. E ele vai tudo escrito no papel, em caixas de sapatos. E essa altura do mês em que tens que te sentar, em que tens que fazer a divisão do que é para quê, eu fico deprimido. Mas fico mesmo deprimido. Perco o apetite.
E a Yolanda não se irrita com isso?
A Yolanda irrita-se comigo diariamente. Tem uma paciência de santa. Mas pronto, mas depois tem outras coisas boas.
Como em tudo, faz parte da relação. As relações também não se querem assim.
Não há relações perfeitas.
Era isso que eu ia dizer, não se querem perfeitas.
Toda a gente está à procura da relação perfeita e ainda não percebeu que não há, não existe.
Tu achas que isso também as redes sociais também vieram, e há pouco estávamos em off a falar de redes sociais, também ajudaram precisamente a que se criasse essa imagem de relações perfeitas. É tudo perfeito no digital.
Eu acho que se está sempre a culpar as redes sociais de tudo.
De tudo.
E eu acho que não é isso. Claro que as redes sociais têm questões que devem ser vistas e analisadas, quem tem filhos sabe isso. Eu te confronto, o dia que a Simone vai querer um telemóvel, como todos os miúdos vão querer, como é que a gente vai gerir isto? Porque não vais poder excluir a Simone de uma rede social ou do TikTok ou o que será nessa altura.
Sim.
Porque senão depois ela é marginalizada na escola com os seus miúdos e por aí fora. Mas tens que dosear. Agora, eu acho que se culpabiliza sempre as redes sociais de tudo e mais alguma coisa, ou os jogos de computador. Eu acho que em casa é que tem que começar tudo. E se não começa em casa, é muito fácil depois dizer: "O tipo entrou na escola e matou não sei quantos, porque jogavam um jogo agressivo." Tu tens que pensar quem é que lhe comprou o jogo, como é que ele chegou a esse jogo, quando é que ele viu esse jogo. Porque culpar o jogo é muito fácil. É como dizeres: "A minha filha deixou de comer, passou a ser não sei o quê." Pronto, por quê? Porque se calhar tu lhe davas em casa. Não sei. Percebes?
Há sempre um problema que é preciso identificar.
E as redes sociais são um fenómeno. Eu não tenho nada contra, não sou um grande frequentador, uso as redes sociais estritamente para trabalho. Mas é um fenómeno como outro qualquer. Eu lembro-me, o Solnado dizia uma coisa muito gira na altura, estávamos a gravar uma novela e ele disse uma coisa muito gira que é: "Tu já te imaginaste?", e era a altura que a gente tinha aqueles telemóveis grandes. Estavam a começar os telemóveis em Portugal, ainda éramos do tempo do bip. E o Solnado, que não percebia nada de telemóvel, mas que tinha um telemóvel, dizia: "Oh, filho, como é que a gente viveu a nossa vida toda sem isto?" E a verdade é que a gente viveu, tínhamos a cabine telefónica.
Sim, eu tive o meu primeiro telefone quando fui pra faculdade.
Claro. O 25 de Abril, o Salgueiro Maia, quando sai de Santarém, todo o contingente dele ia à frente com o Garcia dos Santos, que eu fiz numa série, que foi a cabeça de todas as operações do 25 de Abril, e eles tiveram que fazer silêncio rádio. E para comunicarem com o Pontinha, que havia toda a comunicação e eram eles que dirigiam tudo, eles iam três carochas à frente, à civil, com militares lá dentro, e eles iam parando onde era possível, ou seja, onde havia uma cabine telefónica para comunicarem com o Pontinha. E fizeram o 25 de Abril. Eu lembro que quando tu combinavas com alguém e atrasavas, como eu hoje convosco, não tinhas uma mensagem no WhatsApp e a pessoa ficava à espera. Pronto, não havia nada a fazer. Portanto, ainda bem que nós temos o WhatsApp.
Mas isso é bom, era isso que eu ia perguntar. A evolução é boa.
É ótima. Tu antigamente tinhas uma dor de dentes, ias ao dentista e era um desassossego. Já agora fui desvitalizar dois dentes, não sofri nada. Só isto. No início do século XX, o meu pai, durante a guerra, o meu pai fez a guerra, tiraram-lhe dentes e a anestesia era beber uma garrafa de aguardente. E depois uma senhora com alicate tirava-lhe os dentes. O meu pai passou por isso.
Pois, sim.
Nós evoluímos e eu acho isso ótimo, eu adoro tecnologia. Tenho os meus gadgets. E acho que culpar a tecnologia, a tecnologia somos nós que a criamos. O problema não está na tecnologia, está em nós. Eu tive uma história muito gira, não sei que tempo é que temos, mas é uma história muito curta. Enquanto estava a dar aulas exatamente a esses miúdos pequeninos, muito gira essa história, que tem a ver de alguma maneira com o que estamos a falar. Então, um dos processos que eu faço com as crianças é: eles criam uma personagem a partir de um desenho. Eu não acredito nas peças de teatro para os miúdos, para as infâncias, como se faz normalmente, que é pegas em 300 miúdos, larga-os no teatro. Não, eu não acredito nisso. Ou faz o: "Olá, eu sou macaco". Os miúdos não são atrasados, são pessoas. Bom, e então eu faço esse processo. E uma vez que estava a fazer isso, nunca mais me esqueço da miúda. Se me estiver a ouvir, miúda, que agora terá 30 e tal anos. A Constância, não me lembro o apelido, a Constância apresentou-me um desenho. Isto em vídeo. Quem está na rádio não ouve, mas era um retângulo com um risco ao meio. Esse era o animal dela. Porque uns faziam o pato, outros faziam o leão, outros faziam o cão, quase todos faziam o cão, porque tinham cão em casa. E eu olhei para aquele retângulo com um risco no meio e como é óbvio, os miúdos são muito cruéis uns com os outros, não chamei a atenção à frente. Quando terminou a aula, os miúdos saíram e eu peguei na Constância e disse: "Constância, anda cá". Ela tinha seis anos. E eu disse-lhe: "Constância, qual é este animal?" Ela disse: "É o frango". E eu disse: "Não, é a galinha". E disse: "A galinha?" E fiquei tipo: "A miúda das duas, uma: ou tem um atraso ou é genial". "Então explica-me lá." "É, é a galinha que a minha mãe compra no supermercado." Isso é a galinha que eu estou a ver. Sim, então era o quê? Os peitos de frango. E que antigamente até tinham aquela risquinha branca no meio. E, portanto, para ela a galinha era aquilo. Isto é um bocado na conversa que estávamos a ter. O miúdo que passa a vida dentro deste mundo das redes, dos jogos, e que nunca foi a um parque brincar, claramente vai ficar nesse mundo. E quem é a culpa? Do Instagram, dos jogos de computador? Não, é de quem está por trás dele.
E o que fazes com a tua filha para que ela não fique nesse mundo?
Ela ainda é muito pequenininha. Passo a noite a mudar fraldas às bonecas. Esta é a nossa advento tecnológica, e é muito gira. Aliás, ela é muito pouco de gadgets. Agora começa com o telemóvel. Fazemos videochamadas às vezes para a mãe ou a mãe para mim. E é um desassossego, porque ninguém vê nada, porque ela quer ficar com o telemóvel.
Claro.
Tivemos agora um episódio muito giro. Fomos passar um dia a casa de uns amigos nossos e de repente desapareceu o telemóvel da Iolanda. Claro, tinha sido a Simone, tinha pegado e dois dias depois descobrimos o telemóvel, viemos embora e dois dias depois a Iolanda foi ver as fotografias, porque tinha não sei quantas fotografias. Então tinhas coisas assim. E era ela que tinha andado com o telemóvel.
Oh, muito giro.
Guardamos, ela guardou aqui. Parecia um filme de terror.
Olha, tu já falaste aí um bocadinho de memórias e dos teus trabalhos, estamos mesmo na reta final. Guardas memória de algum trabalho que ainda hoje tenhas feito, certamente vários. Mas aquele que olhas, viajas no tempo e guardas com muito carinho ou que te arranca um sorriso ou uma gargalhada, ou o contrário.
São muitos. Sim, lembro-me de trabalhos horríveis que fiz.
Olha, por acaso eu tenho aqui. Algum nesta altura que ao dia de hoje pensas: "Epá, hoje teria dito que não."?
Sim. Hoje teria dito que não, porque aquilo era de fato muito mau. A peça era muito má, mas tive o privilégio de trabalhar com o Nicolau Breyner, com o grande Nico, que nunca tinha trabalhado, embora eu comecei com o Nico.
Exatamente.
Eu comecei a trabalhar com o Nico. Aliás, o meu primeiro trabalho profissional foi com o Nico. Mas tive a oportunidade, por um lado, de trabalhar com o Nicolau, mas a peça era muito má e o próprio Nicolau odiava, todos nós odiávamos aquilo e estávamos todos arrependidos de termos feito aquilo. Mas sabes que eu, de uma maneira geral, tenho tido muita sorte. Tem me aparecido o trabalho e também eu nunca fui muito de esperar que o telefone toque.
Vais tu atrás.
Não, eu estou sempre a inventar coisas. E é isto.
Olha, pergunta final.
O que dizes o teu nariz.
Não, nada disso. É onde é que as pessoas te podem encontrar, o que é que estás a fazer ou o que é que vais fazer?
Para já estou a fazer a novela.
A novela, exatamente. Magnífico.
Vou começar agora a fazer uma digressão com um espetáculo que eu já fiz em tempos, que é um espetáculo a solo, que se chama "Era uma Vez ou Duas ou Três", que são vários contos, desde o Mia Couto a contos tradicionais japoneses, e que é um espetáculo que é quase uma conversa com o público. Não é um espetáculo com luzes, cenários, é uma coisa completamente informal, muito para bibliotecas. É um espetáculo feito muito para bibliotecas. E em princípio, para o ano também vou fazer uma série. Dou muitas aulas.
Pois, já percebi. Professores.
Sim, professora.
Marco António.
E é isto. E tenho que mudar muitas fraldas com a Simone, para as bonecas dela e para ela.
Muito bem, Marco António, obrigada.
Obrigado.
Foi um prazer.
Obrigado eu.
Marco António Del Carlo, hoje em "40 Minutos", aqui na Rádio Observador.