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Melhor jogador português da década de 80, de verde e branco, de dragão ao peito ou de encarnado, na seleção, em Madrid ou nos restantes campeonatos em que jogou, foi sempre genial, polémico, brilhante e nunca previsível. Paulo Futre, em 40 minutos aqui na Rádio Observador. Paulo, bem-vindo. Muito obrigada por teres aceitado este nosso convite. Isto não foi fácil, porque o Paulo tem uma agenda sempre muito movimentada, entre Portugal e Espanha. Mas já cá estamos. Eu gostava de perguntar: se há uns anos, quando perguntassem ou até mesmo o Paulo pensasse o que eu iria fazer depois do futebol, alguma vez pensou estar onde está?
Em primeiro lugar, é um honra estar aqui contigo, Catarina, também com o Miguel. Um autêntico prazer. Eu sempre dizia, quando era miúdo, se não fosse futebolista, queria ser astronauta. Mas se não fosse futebolista profissional, eu acho que ia ser um grande mecânico, porque eu comecei a trabalhar como bate-chapas com 13 anos. Estive lá ano e meio, dois anos. Adorava, tinha jeito para aquilo e seria a minha profissão, mecânico, se não tivesse jogado futebol.
Mas alguma vez imaginou, depois de terminar o futebol, que estaria onde está? Quer dizer, o Paulo continua super ativo.
Eu conto-te a história. Eu deixei o futebol, comecei a trabalhar como um broker, entre aspas, no futebol.
Um mediador.
Um mediador. Não digo intermediário, pelos meus contactos que tinha com as equipes de futebol, os presidentes e os agentes. Então estava ali no meio. Retirei-me em 98, tive ali um ano e meio nisto, praticamente. Depois comecei como diretor desportivo do Atlético. Em 2003 deixei e em 2004, por aí, 2005, há um grande amigo meu, o Miguel, jornalista, que vai para diretor da Telemadrid, da Televisão Madrid. E liga-me e diz: "Paulo, Paulo, vou para português, necessito que me venhas dar uma mão". Um programa desportivo à tarde, aquilo era das 18h às 19h ou das 19h às 20h. E eu até falei: "Miguel, não me digas, tenho coisas que fazer". Eu vou tentar fugir. Mas ele era um grande amigo meu, então lá fui ao programa dele e no dia seguinte ele ligou-me e disse-me: "Ganhámos, não é? Ganhámos!" E eu: "Ganhámos o quê?" "Ganhámos nas audiências." E aquela frase entrou tão forte dentro de mim. Aquilo devia ser uma segunda-feira e eu na sexta, ele ligou depois na terça, que só sabe se ganha no dia seguinte, como vocês sabem, as audiências. Na sexta-feira perguntei: "Como é que foi o resto?" "Perdemos." E eu: "Então conta comigo na segunda-feira." E fui lá, voltei e acho que foi até hoje. Porque o que eu vivi a nível de televisão, para mim, continuo a ser competitivo. A única diferença que há entre a televisão, os jogos da televisão ou a competição da televisão com a competição dos jogos de futebol é que nos jogos de futebol sabemos logo o resultado depois de 90 minutos, se ganhei, empatei ou perdi. Mas na televisão só sabemos no dia seguinte. Então isto deu-me uma pica tão grande que até hoje.
Mas imagina, a carreira e a vida do Paulo neste momento não se resume só ao futebol. Muito engraçado, porque o Paulo tem feito imensas coisas, fez umas miniparticipações nas novelas, fez uma aparição num reality show. Ou seja, o Paulo nunca fecha portas e gosta de experiências completamente diferentes e novas.
Sim, estou sempre a fazer tudo o que venho, que eu vejo que me vou divertir e que vou passar bem, vou para frente. E também trabalhei em várias televisões em Espanha, mas também estive quatro ou cinco anos no Al Jazeera.
Sim.
Fiz dois Europeus e um Mundial com eles e também foi uma experiência incrível trabalhar com eles, porque é outro mundo. Eles são do Qatar, então aquilo é um mundo completamente diferente, onde eu me diverti bastante também. E passava muito tempo em Doha, incrível. Agora o Mundial vai ser no Qatar, mas eu ia quase todos os meses, quando havia Champions, a Doha, à capital do Qatar.
E esta questão de continuar sempre presente na televisão, nestes eventos paralelos, faz com que as novas gerações que já não o viram jogar continuem a saber quem é o Paulo, abordam-no com isso, a dizer que foram ver vídeos no YouTube, porque continua a estar presente nos dias de hoje.
A minha vida é dois mundos. Eu vivo uma coisa é Portugal e outra coisa é Espanha. Isto é, não me aborreço, porque em Espanha hoje sou talvez o influencer número um nas redes sociais do Atlético de Madrid. O Atlético de Madrid para mim foi tudo, fui jogador, fui capitão, fui embaixador, fui diretor desportivo, hoje sou o influencer número um.
E também por isso agora fez uma tatuagem e tudo.
E também fiz uma tatuagem agora. Eu estou agradecido eternamente ao Sporting, que no fundo é o meu clube. Sem ele não estava aqui. Depois eu digo sempre que tenho duas costelas do Porto, os meus amigos dizem que eu tenho oito. E depois o Benfica para mim foi uma honra enorme jogar, vi a grandeza do Benfica. No primeiro dia que cheguei a Lisboa, porque foi uma honra, estou agradecido a todos.
Ainda é o estádio mais especial onde entra, o do Atlético de Madrid? Onde se sente mais em casa, se calhar.
Começou uma história. E não foi no primeiro ano. No primeiro ano era um miúdo, tinha 21 anos, era um estrangeiro quando lá cheguei, era um profissional e ia dar tudo pelo clube que me ia pagar. Mas depois do segundo ano, ou no meio do segundo ano, há um jogo entre o Real Madrid e o Atlético no Bernabéu, onde foi uma injustiça o que aconteceu naquele dia e a partir daquele dia, até hoje, nasceu um amor enorme dentro de mim e comecei a jogar como profissional, como estrangeiro, mas também já como colchonero. Eu acho que o carinho que existe entre mim e a afición, os adeptos do Atlético de Madrid, é mútuo. Como se diz: "Por que é que és do Atlético de Madrid?" Se fazes uma pergunta aos miúdos ou a alguém, é muito difícil explicar. Então é muito difícil explicar por que este amor entre milhões de pessoas e a minha pessoa. Talvez também porque eu, quando era capitão, e digo com 22 anos era capitão daquele grande clube. Ok, podia jogar muito bem, mas acho também que defendia-o, talvez melhor fora do campo. E sempre dava tudo pelo clube, seja dentro do campo ou fora, nas conferências de imprensa. Tu acabaste de dizer polémico, claro, muitas vezes fui muito polémico, passei os limites alguma vez, mas sempre por defender o clube, o Atlético de Madrid.
Isso é sentir, acima de tudo.
Paixão.
E só assim faz sentido também para o Paulo. É um modo de estar na vida. Tem que sentir, tem que ter.
O meu médico agora diz: "A partir das 19h00 não podes falar" porque quando eu falo meto sempre paixão, entusiasmo, muita emoção. Mesmo a falar por telefone, vou sempre a mil por hora. E ele disse: "Agora já me deixa, mas a partir das 19h00 não podes falar com ninguém. Tens já de estar calminho." E eu mudei os horários depois de me acontecer isto.
Só para contextualizar, Paulo, o que lhe aconteceu? Estamos a falar em agosto, precisamente. Só para quem, entretanto, chegou aqui à entrevista.
A 21 de agosto tive um enfarte, uma artéria entupida. Para terem uma ideia, as pessoas que estão nos a ouvir, como o Iker Casillas, parecido, cada pessoa é um mundo. E foi um susto terrorífico que apanhei. E deixei de fumar, já estou no meu terceiro mês, dia 21 faz três meses. Estou numa guerra grande, mas vou ganhar esta guerra ao tabaco.
É mais uma competição.
Mais uma competição terrorífica para quem fuma lá em casa, mas vale a pena porque comecei a acordar às 7h00, 8h00 da manhã. A minha vida agora é 7h00, e depois às 22h00 já estou a dormir, porque a partir das 19h00, o médico tinha razão, parece que tenho uma granada dentro de mim a querer explodir. Porque tabaco, como é que diria? Também fumava desde os 12 anos e é uma guerra grande, mas vou ganhar esta guerra, não há outra.
Claro que vai. Claro que sim. O Paulo sempre quis ser futebolista? Sempre foi assim a sua-
Sempre foi
...claro que tinha outros planos B, que já falámos, caso não conseguisse, obviamente, mas e esse sonho, qual era o ídolo?
O meu ídolo, entre todos, foi o Chalana, o meu querido Chalana. Deus tenha o pequeno grande génio. Foi ele. Depois com 11 anos, quando fui para o Sporting. Como o Sporting e o Benfica jogavam sempre, ou jogava um fora, o outro em casa, ia sempre para o terceiro anel ver o Chalana jogar. E era do Sporting. Então muitas vezes chegava lá com o cartão da veteração ou da associação de Lisboa, não me recordo, onde podíamos entrar grátis e os porteiros muitas vezes diziam: "O que é que faz aqui um jogador do Sporting a ver o Benfica?" E eu dizia: "Eu não vim ver o Benfica, eu vim ver o Chalana".
O Chalana era diferente porque, ou seja, por exemplo, o Paulo foi um excelente jogador e comunica bem e defendia o clube, como estava a dizer, ia para as conferências de imprensa e defendia o clube. O Chalana, a linguagem dele era só dentro do campo, não é? Ele só falava mesmo a jogar, porque depois tinha aquele ar meio tímido cá fora.
Mais tímido. Mas vou te contar uma história com ele. Sem dúvida, podia ser introvertido cá fora, mas dentro do campo era extrovertido, rebentava com tudo. Isto é, com um pequeno movimento de rins sentava os defesas, sem tocar na bola. E eu tinha tanta admiração por ele e só estive uma vez com ele na seleção. Mas já era craque eu, já era capitão do Atlético de Madrid. E foi um Portugal-Luxemburgo no Bessa. Ele não foi convocável. E quando eu o vi, já sendo eu um craque e era o único português, penso eu, que estava fora do país na altura, até tremi quando o cumprimentei. Até me custou, tinha tanto respeito por ele, até custou-me cumprimentá-lo. Tremi. Muito prazer. Porque marcou a minha infância até aos 16 anos. Depois, no Campeonato do Mundo de Espanha, em 82, tinha eu 16 anos, comecei a ter outro ídolo, que era o Bruno Conti, que jogava no Roma, e comecei a ter um deus, que era o Diego Armando Maradona.
Isso leva-me aqui à história de o Paulo diz que só pediu autógrafos a dois.
Ao Diego e agora ao Messi.
E ao Messi.
Porque eu acho que são os dois esquerdinos, a nível mundial e em toda a história do futebol, que eu considero muito superior a mim. Pode haver algum esquerdino, canhoto, melhor que eu, um pouco melhor que eu. Agora, muito melhor que eu Só o Diego e o Messi.
Ficou surpreendido o Messi quando viu o Paulo a pedir o autógrafo?
Foi incrível, porque eu falo com o Luís Campos, que para mim é uma honra conhecê-lo.
Que é o diretor desportivo do PSG.
Do PSG, já esteve no Real Madrid. O trabalho que ele fez em França com o Mônaco e com o Lille não há palavras. E falo com ele um dia antes e mais ou menos organizamos, não aquela confusão que houve. Mas eu falei com ele: "É possível isso?" E ele disse logo: "Por favor." E é incrível que o Messi não sai ao campo para ver a relva. Normalmente, os jogadores saem todos para ver a relva. Ele não saiu. E quando o Luís Campos dá-lhe a camisola para o Messi assinar dentro do balneário, o Luís volta sem a camisola estar assinada e diz: "Não, eu quero-te assinar, quero assinar a camisola à tua frente". Então foi uma honra tremenda. Acho que até depois assinou. Eu acho que até na Mongólia saiu aquele vídeo. Saiu em todo o planeta, penso eu. Foi uma loucura. E foi o meu segundo autógrafo. E de certeza que falta-me ali nesta camisola, quando tiver com o bichinho, com o menino, com o meu herói, o Cristiano, vou dizer ao Cristiano para assinar ali ao lado.
Para completar.
Aí está, já está.
A galáxia.
Fechamos a fábrica.
Paulo Futre, em 40 minutos aqui na Rádio Observador. Já falámos aqui um bocadinho da infância, dos autógrafos tão especiais que o Paulo guarda. Dois, não é? E espera ansiosamente pelo do Cristiano para juntar. Foi aí que nós ficámos exatamente na conversa. Temos a nossa seleção a caminho do Qatar. Expectativas, Paulo, para esta estação?
Todas.
É como o Fernando Santos, é para ganhar.
Temos de sonhar, acho que todos nós, portugueses, temos de sonhar. Temos na nossa seleção alguns dos melhores jogadores do mundo e eu penso posição por posição, talvez sejamos a melhor seleção do mundo.
E o Paulo, de resto, também já fez aqui um pedido há uns tempos precisamente para o Rafa e o Fernando Santos se entenderem. Se bem que agora já tivemos uma entrevista que foi há uns tempos para o ar, onde Fernando Santos disse que está aberto, que não partiu dele, mas acima de tudo, o Paulo espera é que tudo se resolva porque vê no Rafa um elemento importante para a nossa seleção.
Sem dúvida. Eu acho que o Rafa está num momento de forma incrível, talvez esteja a fazer o seu melhor ano. Não temos um jogador das características dele hoje na nossa seleção e isto é Portugal, isto é o nosso país. E vamos jogar um mundial e todos queremos ganhar. E para ganhar temos que ter os melhores na convocatória. E o Rafa, para mim, hoje, o que está a fazer, talvez seja o melhor jogador português, melhor em forma, neste momento. Está melhor, é o melhor que está em forma, que está a resolver jogos, que está a arrebentar tudo. Tem que estar na nossa seleção, mas eu também entendo. Eu depois fiz uma chamada a uma pessoa que está muito perto do Rafa. Eu não tenho o privilégio de o conhecer pessoalmente, o selecionador sim, que é um grande amigo meu, mas nem falei com ele sobre este tema. Este tema saiu só de mim e nada mais da minha cabeça. E também respeito o Rafa, a decisão que tomou. Também entendo muitos portugueses que não estão contra o Rafa se voltar. Mas para mim, não. Para mim não foi o primeiro, nem será o último a renunciar a uma seleção e voltar depois. E em Portugal houve vários casos. Por isso, simplesmente foi um apelo. Não sei se ainda vai ser possível ou não. Também acho que não se pode convocar jamais ninguém, porque a FIFA não autoriza, só se alguém se lesionar, mas se for este o caso, de certeza que alguém vai ter uma lombalgia mesmo.
E como é que olha para a atual situação do Ronaldo? Alguém que tem sido o melhor do mundo nos últimos anos e agora com algumas críticas este ano.
Não consigo entender, vejo injustas. Não podemos esquecer que o Cristiano foi o terceiro melhor goleador da Premier League. E a Premier League terminou em maio, quer dizer, e em agosto estava terminado ou em setembro tinha que acabar a carreira? Não. Não sei o que aconteceu na sua cabeça depois de ter falecido o filho. Isto foi finais de abril, princípios de maio. Não sei o que aconteceu durante agosto, durante a pré-época. O que eu sei que aconteceu foi uma humilhação terrível que fizeram ao Cristiano, o treinador a ele, porque não se faz a um craque, que foi cinco vezes Bola de Ouro, fazê-lo entrar a dois minutos do fim. Isto não. Isto para mim não foi uma falta de respeito. Isto para mim foi uma humilhação. Ele quis ir para o conflito. O Cristiano foi um campeão que entrou. Mas no 99 eu pensava que ele não ia entrar. Pensava que ele dizia: "Entre tu. A dois minutos do fim, entra tu".
Se fosse o Paulo, o que é que o Paulo fazia?
Eu? Eu era muito mais rebelde do que o Cristiano. Nem se atrevia, o treinador. Porque já sabia que eu ia dizer que não, nenhum treinador podia me fazer. Eu fui Bola de Prata. O Cristiano foi cinco vezes Bola de Ouro, como é que eu fiquei como português? A ver o Cristiano a entrar. O que é que foi um campeão? Foi um profissional, sim, mas o mau profissional, o péssimo profissional, foi o treinador. Se o Cristiano está mal fisicamente, o treinador tem que falar com ele: "Olha, não vais convocá-lo". Se tem que ganhar ritmo, o treinador tem que dizer: "Olha, vais para o banco e vais entrar nos últimos 20 ou 15 minutos." Agora, fazê-lo entrar a dois minutos do fim, não há palavras. Por isso, tenho uma fé tremenda que o Cristiano vai se vingar disso tudo que lhe está acontecendo. Já foi ontem capitão, anteontem capitão. Se ele mete na cabeça.
E ele cresce na seleção.
E é um campeão, é um competidor nato. Ele sabe as críticas que têm lhe caído em cima este início de época, muitas delas injustas. E vai se revingar. E ele normalmente ganha. O que eu diria a Cristiano? O que eu diria a este meu herói? Eu: "Cris, menino" eu chamo-lhe de menino, "menino, deixa a ala, deixa as alas, deixa os extremos, isto é para outros, deixa para outros. Tu, ponta de lança. Tu, só área. Recuas um bocadinho entre a meia-lua da grande área e a meia-lua do meio-campo, só para defender um bocadinho, só estás ali a tapar os buracos. Só ali entre os dois centrais, só para incomodar um bocadinho, mas área. Com os craques que temos e os laterais que temos, que cruzam muito bem, ele de cabeça ainda é fortíssimo. Não sei se salta, fica lá no terceiro andar ainda, que ele consegue parar no ar, mas no segundo andar para."
Ainda vai garantindo.
Ainda vai lá. Temos jogadores, temos craques que cruzam tão bem que ele pode arrebentar o mundial ainda. Se pensar que a ala para ele acabou, que tem que começar uma nova versão do Cristiano Ronaldo, que é só número nove, puro e duro, ponta de lança puro e duro. Por isso, Catarina e eu temos uma fé tremenda que ele vai meter isto na cabeça e depois estão os artistas todos.
Eu também tenho. Ninguém perguntou a minha opinião, eu tenho que dar, mas eu sou grande fã do Cristiano.
Do Cristiano, o nosso herói.
E acredito que ainda tem muito para dar.
Tem algum. Se ele pensa só em ser ponta de lança, eu acho que temos aqui uma nova versão para mais dois ou três aninhos deste extraterrestre.
Deixe-me só fazer-lhe mais uma pergunta aqui sobre mundiais, porque Portugal, por norma, tem pouca sorte em mundiais fora da Europa. O Paulo teve um que foi duro, o de 86, mas depois, por exemplo, Coreia, Brasil, agora mais recentemente, ficamos sempre mal.
É verdade.
Não tem medo agora com este?
É verdade.
Nós parece que nos damos melhor aqui mais perto, no nosso continente. Embora a história de 86 seja diferente.
Temos que mudar esta, como dizem os espanhóis, esta "mala racha". Mau momento. Tem que acabar, mas é verdade. Assustaste-me aqui um bocadinho, só um bocadinho.
Pronto, agora o Paulo. Obrigada, Miguel. Agora o Paulo.
Miguel, vamos pensar em coisas positivas. Vamos mudar isto, este mundial, vamos mudar com isto. Também é o primeiro nas Arábias.
Exatamente.
Por isso vai ser tudo positivo, se Deus quiser. Temos que ter aquela pontinha de sorte, porque também o selecionador, arrebentaram com o selecionador quando foi com a Sérvia e também com a Espanha, também injusto. Todos queremos jogar como o Guardiola. Toda gente quer jogar como o Manchester City, mas Guardiola só há um. Parece que ganhámos também 10 mundiais e 10 europeus. O que eu ouvi do selecionador estes últimos tempos é uma coisa incrível, que só ganhámos uma vez. Não podemos ser ingratos. E eu vi ingratidão com o nosso selecionador, porque só ganhámos uma vez um Campeonato da Europa, uma grande competição. E depois também, à parte do Campeonato da Europa, a Copa, a Taça das Nações. Mas o Campeonato da Europa, só ganhámos uma vez, foi com ele. Temos que ter fé nele.
Eu não sei se é muito típico português, mas facilmente passamos de bestiais a bestas.
Do oito ao 80.
É. Esquecemo-nos muitas vezes de tudo.
Sim. Contra a Sérvia, sobretudo dentro do balneário, ou melhor, foi massacrado. Bastava o empate e os sérvios ganham o jogo no último minuto. Mas para sermos justos, não se pode culpar. Jogámos mal? Sim, mas o empate bastava. Naquele último minuto, os jogadores portugueses, sobretudo dentro do balneário, era entre aspas, como se diz, é para matar. Dentro do balneário é para matarmos a todos. Porque é um canto curto e depois estão seis sérvios na área para três jogadores portugueses. Seis! Falta um minuto ou dois para acabar o jogo. É o Fernando Santos o culpado? Não, são os jogadores. Isto também aconteceu comigo, foi um erro, eles sabem. Como é que é possível? Eu imagino eles dentro do balneário, uns a olhar para os outros, como é que podem marcar um gol. E o sérvio fez o gol sozinho, uma cabeçada. É possível? Como é que pode meter aquele gol? Imagino as críticas que fizeram entre eles, os jogadores.
Pegando no que a Catarina estava a dizer, esta questão do oito e 80 e da ingratidão, o Paulo alguma vez se sentiu injustiçado em Portugal? Tem aquela história antiga da Bola de Prata, que é mais ou menos reconhecido que acabou por ser injustiçado.
Lá fora ou aqui. As minhas grandes homenagens foram no Atlético de Madrid. Ainda agora, há pouco tempo, 70 mil pessoas. Eles ligaram-me logo quando saí do hospital: "Olha, queremos te fazer esta homenagem ao Atlético de Madrid". No cartão do Atlético hoje, há 130 mil sócios ou abonados, e o cartão é minha cara. Uma fotografia minha. Agora vão lançar uma camisola minha, eu acho que só a Roma Penso eu, foi o que me disseram. Só a Roma lançou uma camisola de uma lenda. Foi do Totti. E acho que esta vai ser a segunda, nem Real Madrid, nem Barcelona. Era pra ser lançada na sexta-feira, mas como está havendo maus resultados e a equipe não se classificou nem pra Liga Europa, pensaram numa outra data, que deve ser brevemente durante o mundial. Por isso, ali fizeram todas as homenagens.
Mas mexe um bocadinho com o Paulo, o fato de, por exemplo-
As homenagens dos meus compatriotas, recebo na rua. Eu nunca mais me esqueço, uma vez estava na CMTV e comecei a chorar porque o alcalde de Madrid fez umas declarações, o presidente da Câmara de Madrid, que falou em cinzas, disse à mãe quando era adolescente: "Se eu morrer, mete as minhas cinzas na ala esquerda onde o Futre corre". E aquilo rebentou comigo e eu chorei. Ouvi aquilo em direto e rebentou. Quando oiço ainda "cinzas, mete na ala esquerda onde o Futre corre" é mais do que a conta. Então chorei. E no dia seguinte recebi a maior homenagem dos meus compatriotas, de Portugal, de todos os portugueses. Foi uma loucura, porque eu disse: "Eu sou português".
Portanto, não sente qualquer mágoa, porque sente o carinho que toda a gente tem e recebe diariamente esse carinho nas redes sociais e não só.
O Mário Soares, o presidente, eu na altura tinha que ir pra tropa, em 87. E as Forças Armadas e os políticos queriam me ver na tropa, porque eu era, pra eles, o grande exemplo dos jovens portugueses e tinha que ir pra tropa. Mas a falar com o presidente da República, o Mário Soares teve que entrar nesta situação e foi ele que inventou uma lei pra mim, no fundo, todos depois que vieram atrás de mim, que era os estatutos para atletas de alta competição, atletas de elite. E tive uma prorroga de oito anos. E ele diz pra mim, quando conseguiu isto: "Olha, agora não pode falhar a mim, a Portugal e aos imigrantes portugueses” que na época, eram outros tempos, estavam a passar muito mal na Espanha. E um dia diz-me, já passado estes oito anos, que ele quis logo te condecorar em dezembro, quando vai a Madrid, diz-me: "Ó herói, eu vou te condecorar brevemente". E oito anos depois, quando já estava em Itália, estive um ano e tal sem vir aqui porque acabou a prorroga de oito anos e eu estive um ano e tal sem poder vir a Portugal. E ele ainda era presidente da República, estava no segundo mandato, terminava em março. Isto aconteceu no AC Milão, quando terminou a prorroga, que era os oito anos. E ele liga-me no dia de Natal, que ele sabia que era o primeiro Natal que eu passava fora de Portugal, e ele liga-me, sabia. E ali dá a entender que nunca poderei ser condecorado em Portugal. É um tema político, porque será sempre ele que vai vir. Seja a oposição, seja aquele, seja o outro. Alguém vai sempre dizer que eu consegui o que consegui por Mário Soares. Deu-me a entender isto, por isso é normal que politicamente, aqui em Portugal, possa ser condecorado. Nenhum obrigado. Nenhum obrigado. Só dele.
E olhando para o seu percurso-
Eu estou a falar a nível de governo. Já fui condecorado pela minha terra, Montijo, onde estou agradecido eternamente.
Essas até sabe melhor, não é?
A nível máximo.
E de resto, já que estamos a falar também, em breve, o Paulo também vai estar exatamente num evento no Super Bock Arena, Pavilhão Rosa Mota, no Porto, o Thinking Football Summit 2022, onde também vai ser distinguido no Thinking Football Summit Awards, precisamente tal como o José Mourinho e o Jorge Mendes, portanto, e o Paulo também lá vai estar. Este tipo de homenagens pra si fazem todo o sentido, continua a saborear cada uma delas?
A tocar forte, claro.
Não é só mais uma?
Não.
Na sua vida, isso não existe, não há.
Não há mais uma. Não, é mais uma forte de emoções.
E na sua carreira, Paulo, o momento mais duro?
Foi a lesão, sem dúvida alguma. A primeira lesão, rebentaram-me com o joelho. E depois foi a minha guerra. Parecia que era uma lesão não tão grave, mas foi muito mais grave do que todo mundo pensava e levei três cirurgias. A vida ali não era só futebol. Vou te dar um exemplo. Na minha primeira operação, depois de me operarem em Verona, estava o mundo da imprensa, estava câmaras por todo lado, havia não só imprensa italiana, portuguesa ou espanhola, não, o mundo. Câmaras por todo lado. Um ano depois, na minha segunda operação, estavam quatro jornalistas, locais da Regiana. Quatro. E um ano depois, já no AC Milão, na minha terceira operação em Paris, tive que eu ligar pro Record e pra Bola: "Olha, eu vou ser operado. Querem vir aqui?"
Eu ia perguntar por histórias dos vestidores, mas o Paulo acabou já por oferecer aqui uma.
Faz parte da vida. Então aí começas a ver, eu tinha 29 anos. Tu começas a ver: isto é a vida também. Se me dizes a mim, foi duro. Eu acho que foi uma lição para aprender a saber o que era a vida, o que era o após futebol.
E custou-lhe entender esse pós?
Não, porque toda a gente dizia que eu não voltava nunca mais a jogar. Por isso já não iam, porque eu já estava em traste, já estava morto para toda a gente. O que é que eu vou fazer ali? Mas toda a gente se enganou. Acabei por ser campeão de Itália.
O ar do Paulo adora.
Acho que fui o primeiro português a ser campeão de Itália. Só joguei um jogo, mas consegui. Consegui ser campeão italiano e consegui ainda jogar uns tempos. Isto é, a minha cabeça ganhou aos joelhos.
E há pouco, por acaso, o Paulo estava a falar, e é verdade, eu acho que nisto, quase em tudo o que é desporto e na vida, muitas vezes o poder está mesmo na nossa cabeça.
Sem dúvida.
Há pouco estava a falar do Cristiano e eu acho que ele tem uma força mesmo, está tudo na nossa cabeça, às vezes mais do que no físico. Eu sei que quando falamos de idade, às vezes o físico não consegue acompanhar, obviamente, mas eu acredito que muito, e no futebol também, tudo se passa pela cabeça.
Sem dúvida.
O mental, o psíquico.
O que passou comigo, a experiência. O Milão tinha dois psicólogos e normalmente entravam de manhã no balneário, olhavam para ti e diziam: "Olha, Catarina, depois do treino passa no meu escritório." Olhava para o Miguel: "Não, Miguel, tu estás bem ou o quê?"
Só de olhar.
Só de olhar, não sei o que é que eles viam ali. E foi a primeira vez que eu vi psicólogos no futebol. Quando lá cheguei, cheguei com 29 anos ao AC Milan, porque o Milão estava à frente de todos os outros clubes. E eu estava de rastos. Tinha sido operado. E eles olhavam para mim, quando eu estava lá a fazer a reabilitação no ginásio e com os massagistas e com os médicos, eles olhavam para mim e nunca fui ao escritório deles, nunca tive uma consulta com eles. Eles assim olhavam para mim: "O leão, tu és um leão, Paulo, tu não necessitas de nada." Eu nunca fui. Talvez esta frase deles fosse a melhor que eles viam para me dar força. Claro que eu estava mal. Eu estava de rastos, mas eles, a maneira de me puxarem para cima: "Tu não precisas de nada, tu vais conseguir jogar ainda. Por isso não é preciso teres nenhuma consulta conosco." Eu nunca lá fui ao escritório deles. E a nível mental, isto dava-me força.
Claro.
Esta frase, no fundo, estava a ser mais psicológico do que mandar
Sim.
Do que perguntar: "Então como é que estás? Como é que não estás? Não sei o que, a perna, a atrofia, a tua cabeça". A minha cabeça está um desastre.
Mas às vezes ouvimos ali a palavra certa.
Esta palavra-
Funciona quase como um gatilho para depois tu-
Uma frase: "Tu és um leão, tu não precisas de nós." Claro que precisava deles mais do que todos. Mas aquela frase dá-me uma força. Não preciso de ninguém, eu vou sair disto, eu vou ganhar esta guerra e vou jogar e vou ser campeão de Itália. E assim foi. Mas certeza que o Cristiano basta uma frasezinha para ele chegar agora ao mundial e rebentar tudo ainda. E ele é o goleador, ninguém define melhor que ele. Já que falaste do Cristiano. Ninguém define melhor. E tem 37 anos? Ok, mas quando tinha 37 anos marcou de fevereiro, ele faz anos a 5 de fevereiro. Daí até o final do campeonato fez 12 golos. Doze. Dois pela seleção e 10 na Premier League. Já com 37 anos? Ele tem 37 anos hoje.
Às vezes perdemos um bocadinho a noção do tempo.
Do tempo. E por isso criticamos muito a ele. Sabes porque é que houve tantas críticas, na minha opinião, agora contra a Espanha? Porque nós sabemos como é o Cristiano. Todos nós, os mais velhos. Os miúdos de 17 anos, não. Ou pouco conhecem, mas sabemos que o Cristiano é-
O meu filho tem 10 e é grande fã.
Sim, eu digo é, ele ao dizer, a chegar aqui: "Vou fazer o Mundial e o Europeu." Para muitos portugueses, choca.
Ficam já na dúvida.
Não, ele tem que dizer que se o selecionador achar: "Eu farei este mundial e também o próximo europeu." O achar não houve, ele afirmou: "Vou fazer." E isto choca. Normal. Então, se depois contra a Espanha, que teve duas ou três ocasiões claras, não faz, vai ser criticado até por muitos compatriotas. Mas se vemos no fundo bem quem é o Cristiano, o Cristiano está cá há muitos anos. Isto era o Cristiano. O Cristiano é assim. Ok, não disse se o selecionador achava, disse: "Vou ao mundial e vou." Mas ele é assim e não merecia, por isto, tantas críticas que ouviu, muitas críticas que ouviu, e para mim injustas. Estamos a falar de um herói português. CR7, o Bicho, o Menino, como eu chamo, é um herói português e não imaginas como é que eu tenho fé Que ele se vai vingar de muita gente. Não de cá dentro, do nosso país. Inglaterra.
É engraçado que esta é a primeira vez que eu estou com o Paulo Futre, mas na minha cabeça a imagem do Paulo é sempre assim, realmente para viver tudo ali ao máximo e nota-se que durante esta conversa, por todos os temas por onde nós já fomos, o Paulo fala mesmo com o coração e sente tudo muito. Nesta conversa, eu acho, Miguel, também que é um bocadinho inevitável recuarmos no tempo e recuarmos até a uma conferência de imprensa no Sporting, que eu acho que também funcionou aqui quase como um ponto de viragem na carreira e na imagem que muita gente tinha do Paulo, porque o Paulo aceitou. Para quem, entretanto, pode não estar a acompanhar essa conferência de imprensa, tem a ver precisamente com a contratação que na altura o Paulo falou do melhor jogador chinês da atualidade. Mas as pessoas depois voltaram a ter a figura do Paulo tão presente e o Paulo aceitou tudo aquilo que toda a gente na altura depois viralizou. E o Paulo é assim, aceita e está tudo bem. E no fundo até funcionou, correu bem.
Não correu bem porque-
Não correu bem. Ok, pronto. Não correu bem nesse sentido, obviamente.
Eu quando venho, venho com tudo. As porcentagens eram muito desfavoráveis para nós, então tinha que fazer ruído. E a situação do chinês não fui eu que inventei. Já tinha inventado o Perugia, com o Nakata, o japonês, que trouxe os departamentos, veio os charters por todo lado.
Pronto, era aí que eu queria chegar.
Aquilo não era meu, então sabia que: "Ok, vamos rir todos." Eu sou o próprio a rir de mim, mas cuidado, terminámos com uma grande porcentagem.
Face à expectativa.
Digna. E depois sabia que mais tarde ou mais cedo, a verdade vinha cá acima. O que eu não gostei foram os meus sócios, os miúdos e tudo, aquilo foi uma loucura total. Os miúdos depois diziam: "Vá!" Eles pensavam como eu. Ainda tenho hoje, que eu vivo entre Espanha e Portugal, o meu português é horrível, e ao parecer horrível também, tinha o acento ou pronúncia espanhola. Então muitos miúdos perguntavam ao ver-me: "Este gajo é uruguaio ou é argentino ou é paraguaio?" Então os pais diziam: "Não, este gajo era o meu ídolo." Então os miúdos iam ver o YouTube, ver minhas jogadas. Então quando ia na rua: "Sócio, és o ídolo do meu pai, agora já o meu também."
Por isso é que eu trouxe essa história, porque é nessa perspectiva que eu queria chegar. Não era tanto em termos dos resultados.
Mas tens toda a razão. Eu estava mais em Espanha, já não vinha a Portugal. Isto estava na televisão.
Exatamente.
Na Algeciras, na altura, tinha trabalhado em várias televisões, escrevia para a Marca, na altura também. Tudo Espanha. Tudo em Espanha e Algeciras.
Portanto, isso foi quase que o ponto de viragem outra vez voltar.
Depois diretor desportivo, isto é, não tinha vindo. Há quanto tempo não vinha assim, aparecia forte em Portugal, desde que tinha me retirado para aí. Desde que me tinha me retirado, não aparecia tão forte em Portugal, já tinha passado muitos anos. E os miúdos de 20 nem sabiam quem eu era. Já os garotos de 20 anos nunca tinham ouvido falar em mim, quanto mais os miúdos de 10 e de 11 anos ou 12. Mas no fundo viram: "Este gajo era português." Quando foram me ver: "Este gajo é português. Este gajo jogava muito e era português." E depois viram a história: "Este gajo levou Portugal às costas muitos anos."
Com 20 e 10 e sabe quem é o Paulo.
Mas na altura, depois começaram a ver que este gajo, sozinho, entre aspas, levou o futebol português às costas e abriu as portas para todos os outros. Abriu as portas também para as vendas dos clubes, não só para os jogadores que vieram atrás de mim, como o Luís Figo, os campeões todos que vieram atrás de mim, mas especialmente também para os clubes. Os clubes começaram a vender muito mais caro e a sair jogadores, que na altura era muito difícil saírem jogadores para o estrangeiro, porque só podiam jogar dois estrangeiros por equipa. Então era nos clubes, era muito complicado. E tivemos azar que todos os que saíram antes de mim, por uma razão ou outra, falharam. A nossa fama no estrangeiro era que tínhamos a mentalidade frágil. Eu recordo-me quando ganhámos a Taça dos Campeões Europeus com o Porto, tive duas reuniões com o Real Madrid, duas com o Barcelona e duas com a Juventus. E na segunda perguntei a eles por que essas perguntas. Fazem sempre essas perguntas aos estrangeiros, o que é que eu comia, quantas vezes podia estar sem a minha mãe, quantos dias podia estar sem o Montijo, a minha terra. Testes psicológicos. E eu faço-lhe esta pergunta: por quê a mim? Ou fazem a todos os estrangeiros que vão contratar? "Fazemos-te a ti, porque tu és português e vocês têm a mentalidade frágil, não podem estar muito tempo sem o vosso país, querem logo voltar." Assim estávamos nós em 1987. E eu: "Isto vai tudo mudar." Eu disse isto ao Mário Soares. Quando o Mário Soares a primeira vez fala comigo, também me disse que eu tinha que ir à tropa. E eu contei-lhe esta história. "Você sabe, seu presidente, o que pensam de nós cá fora? Isto de termos mentalidade frágil, nós, portugueses, mentalidade." E foi aí que ele pensa na tal lei que inventou para mim e vai contra tudo e contra todos. Mas tínhamos esta mentalidade, graças a Deus, aquilo mudou tudo. Começam a ver mais ou menos o ídolo do pai deles. Porque eu era o ídolo de toda a minha geração, o ídolo dos avós e dos pais. E vão começar a ver o que é normal, o que este gajo fez. E depois começo a sentir, meses depois desta conferência de imprensa, uma admiração do outro mundo, dos miúdos e dos garotos que nunca me tinham visto chegar.
É quase uma nova vida.
Sem dúvida.
Mas também teve muito a ver depois com a reação que o Paulo teve, porque o Paulo aceitou e entrou no barco.
Sim, é a minha maneira de ser.
Exatamente. E acho que às vezes também passa mesmo por isso.
Eu rio-me de mim mesmo. Isto é a minha maneira de ser. E os meus filhos também. Quem me fez rir mesmo com o chinês é o meu filho mais velho, que começa a rir e eu: "Pai, vai já. Vai com isto". Como eu, ri-se dele mesmo, como eu rio de mim mesmo e tem este caráter. Sempre tive e não vou mudar agora com 56 anos.
Estamos mesmo na reta final. Queria só fazer aqui talvez mais duas questões muito rápidas, Paulo. Primeiro: se arrepende de alguma escolha, decisão que tenha feito? E a segunda é: o que o futebol tem de tão especial que as crianças, os miúdos, e mais uma vez falo como mãe, continuam a ter como sonho ser jogador? O que o futebol tem de tão especial que passe o tempo que passar, continua a ser?
Eu acho que não podes pensar em dinheiro quando tens seis anos, quando começa o sonho. Os primeiros sonhos é porque amas o futebol, amas jogar na primeira equipa tua.
Foi isso que levou o Paulo precisamente a querer jogar futebol. Essa paixão de gostar.
Sim, foi logo. Então com seis, sete anos, eu acho que já queria jogar no Sporting. Adorava, seis, sete, oito anos. O primeiro sonho é jogar, mas depois vem a seleção. E já mais tarde aparece o dinheiro. Porque normalmente, se vires, a maior parte dos miúdos que chegam lá são de classe baixa ou classe média. É muito difícil um miúdo milionário ser um craque de futebol. Não sei se existe ou não, é uma questão de vocês investigarem, mas eu acho que não há nenhum milionário que nascesse num berço super de ouro, chegasse lá acima. Então a partir dos 12, 13 anos, começam os sonhos também do dinheiro. De quereres dar uma casa aos teus pais, uma boa vida à tua família e também para ti. Mas até esta idade, até aos 12, 13, 14 anos, por muito pobre que sejas, os primeiros sonhos é a paixão, é jogar na tua equipa do coração. E depois já vem o dinheiro, é normal. Depois o sonho é jogar a titular no teu clube, ser internacional A e ir lá para fora ganhar muito dinheiro.
Os objetivos vão mudando consoante a idade.
A idade.
Completamente. Só mesmo para terminar então: arrepende-se de alguma escolha que tenha feito, alguma decisão da sua vida?
De certeza, mas há uma que eu não me arrependo. Toda a gente diz que se eu, quando saí do Porto, com 21 anos, tinha ido para o Real Madrid, Barcelona, Milão ou mesmo Inter de Milão, que eu era "people" Inter, hoje tinha três ou quatro Bolas de Ouro, se tinha ido logo. E quando dizem isto, estão a dizer que eu não devia ter ido para o Atlético de Madrid. Não, porque se eu ganhasse três ou quatro Bolas de Ouro, talvez seria um mais destes clubes. E de certeza absoluta, Catarina e Miguel, que hoje, com três ou quatro Bolas de Ouro, nestes clubes, não tinha recebido a homenagem que recebi agora com 70 mil pessoas a aplaudirem-me e com lágrimas nos olhos, como eu estava. Por isso, não me arrependi nada de ir para o Atlético de Madrid. Nunca.
Muito bem. Paulo, muito obrigada por este momento. Foi um prazer. E agora venha a seleção.
Foi uma honra. E vamos sonhar.
Vamos.
Sonhar é grátis, mas neste caso nem sonhar grátis. Vamos sonhar que pode ser mesmo possível. Foi uma honra estar aqui com vocês dois.
Obrigada, Paulo Futre. Hoje em 40 Minutos na Rádio Observador.