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"Quente e Frio", todas as tardes na Rádio Observador, olhamos para o clima, para a meteorologia, com a ajuda da Filomena Martins. Olá, Filomena, boa tarde.

Olá, Nelson.

Parece que a previsão de temperaturas altas em grandes partes do território continental durante os próximos dias, parece mesmo que estamos a assistir a um regresso do verão. Será esta a última semana de verão? É que estamos em pleno outubro.

Sim, e pode ser mesmo esta a última semana de verão de outubro, porque depois vem o verão de São Martinho, em novembro. Mas já lá vamos. Esta semana é de verão. Começa com tempo geralmente seco, muito sol, temperaturas muito elevadas pra esta época. Quarta-feira, por exemplo, vai ser um dos dias mais quentes, com os termômetros a chegarem aos 30 °C e a ultrapassarem esse valor em praticamente todo o país. Há previsões pra 33 °C em Évora, portanto, temperaturas de verão. Só que este calor tem uma particularidade: não se faz sentir da mesma forma durante todo o dia e as manhãs vão começar muito fresquinhas, com neblinas e bancos de nevoeiro, sobretudo nos vales e nas zonas mais úmidas. Depois, à medida que o sol aquece, as temperaturas sobem muito pressa e há aquelas grandes amplitudes térmicas que já sabemos, uma diferença muito acentuada entre a temperatura mínima de madrugada e a máxima da tarde. Só um exemplo, Viseu tem uma previsão de 11 °C de mínima e de 28 °C de máxima, significam 17 °C de diferença.

Isto já para amanhã, terça-feira, na região de Viseu.

Sim, é uma gripe, às vezes garantida.

Sim, estas amplitudes são péssimas pra isso. E a chuva, volta ou não?

Isso ainda não te sei dizer. O frio é certo, a chuva ainda vamos ver. Os modelos, neste momento, meteorológicos apontam para uma alteração importante da circulação atmosférica na Europa e para a aproximação de ar mais frio à Península Ibérica. Isso vai acontecer na próxima semana, entre 19 e 25 de outubro. A descida pode ser mesmo muito acentuada das temperaturas. Mesmo que estamos agora quase com todo o país nos 30 °C e as máximas passarem a não passar dos 20 °C ou até ficarem abaixo disso. Em cidades como Vila Real, Viseu e Guarda, as temperaturas podem subir mais de 15 °C entre a madrugada e a tarde, mas ficar ali muito baixinho. Na Guarda, depois das máximas de 25 °C esta semana, provavelmente não passará dos 15 °C na próxima e na segunda-feira. São menos 10 °C do que estão esta semana. Viseu também, a máxima desta semana de 28 °C poderá baixar pros 19 °C na próxima. E as madrugadas também vão ficar ainda mais frias. Poderá haver, por exemplo, 7 °C só na Guarda, 8 °C em Vila Real. É bastante acentuada a baixa temperatura. Sobre essa outra possibilidade, o regresso da chuva. Aqui ainda é preciso prudência, os modelos ainda não concordam quanto à trajetória das perturbações, das depressões que aí podem vir. Não sabemos se a chuva vai chegar só a Portugal de forma significativa. Alguns cenários colocam essa possibilidade, outros apontam mais para mais chuva ali naquela zona do Mediterrâneo, a de sempre, Valência, Barcelona, e deixam Portugal de fora. Mas é preciso ter atenção, porque pode mesmo aí vir chuva já. E, portanto, despedirmo-nos do verão esta semana, pra já, esperarmos que possa faltar ainda um bocadinho, porque na próxima semana o outono poderá finalmente começar a impor-se com temperaturas mais baixas e chuviscos pontuais.

Vamos ao fenômeno que trazes hoje. O que está por trás desta mudança que vamos assistir nos próximos dias?

É um fenômeno chamado bloqueio anticiclônico. E pra percebermos como é que funciona, é preciso imaginar um mapa da Europa visto de cima. À esquerda, tens o Atlântico, mais acima a Islândia, ao centro as Ilhas Britânicas e mais abaixo Portugal e Espanha. Normalmente, muitas das depressões que trazem chuva e vento aqui à Europa chegam do Atlântico e deslocam-se de oeste pra leste, ou seja, ali da Groenlândia e do Mar do Norte pra Europa. Agora, têm de imaginar que sobre as Ilhas Britânicas se instala uma enorme área de altas pressões. É como se fosse uma gigantesca barreira no caminho das depressões. Está ali um muro e elas não passam. E em vez de atravessarem esta região, como é habitual, muitas dessas depressões, muitas tempestades, são obrigadas a procurar outros caminhos pra contornar este anticiclone. E lá veríamos algumas trajetórias a fazer uma grande curva pra norte, em direção às Noruegas e às regiões muito mais a norte da Europa. E é este o efeito de um bloqueio anticiclônico, uma alteração persistente da circulação atmosférica, capaz de mudar o caminho habitual das depressões durante muitos dias. E o bloqueio que os modelos estão a desenhar poderá ser particularmente intenso, fala-se até num bloqueio record. Há previsões que apontam pra pressões atmosféricas da ordem dos 1040, 1046 hPa, nas proximidades ali das Ilhas Britânicas. E pra termos uma referência, esta é a medida da pressão atmosférica. Ao nível do mar, ela anda ali nos 1013, 1010 hPa. Portanto, os 1046, nesta altura, são uma previsão dos modelos, não um valor observado, mas podem vir a ser record.

Mas este é o anticiclone dos Açores? Não, não é o mesmo, ou é?

Não, não é o mesmo. Há uma diferença importante em relação ao anticiclone dos Açores, que estamos sempre a ouvir falar. Este é uma estrutura habitual, está lá sempre, na circulação atmosférica do Atlântico Norte. Às vezes anda pra trás, pra frente, pro lado, pra cima e pra baixo.

Tem que mexido, não é? Muito.

Mexe muito, pode ser mais fraco ou mais forte. Só que este bloqueio agora corresponde a uma configuração persistente, que vai morrer a uma determinada altura, e que se pode instalar numa posição capaz de interromper ou de desviar esta circulação normal das Do tempo seco, das massas de ar frio, tudo isso. E do outro lado, temos na região da Islândia, normalmente uma depressão que está sempre centrada ali e quando se forma um bloqueio desta dimensão, a circulação deixa de seguir os seus caminhos habituais, tem de procurar outros. Isso não significa que toda a Europa fique sem chuva, significa que algumas regiões podem passar vários dias sob o tempo estável e outras ficar muito tempo com chuva. E é esta reorganização que vamos ter de acompanhar nos próximos dias para ver se vamos ter chuva ou não.

Vamos à curiosidade de hoje. Há uma corrida aos diamantes dos Pirineus. Há pedras que valem centenas de euros. Não há disto na Serra da Estrela, é só nos Pirineus?

Na Serra da Estrela acho que não, não dei conta disso, mas existe uma verdadeira caça ao tesouro nos Pirineus franceses, do lado de lá. A seca fez baixar tanto o nível da água do rio Gave de Pau, que deixou mais acessíveis pedras que escondem cristais transparentes e brilhantes. Eles são conhecidos como os diamantes dos Pirineus, mas não são diamantes, são cristais de calcite, um mineral que pela sua transparência e o brilho, fazem parecer uma pedra preciosa. E não sendo, alguns destes exemplares, sobretudo os maiores e os mais bonitos, podem ser vendidos na internet por muitas centenas de euros. Portanto, a seca deixou o leito do rio mais à mostra e houve uma autêntica corrida ao rio, com assinadores, curiosos, caçadores destes minerais, andam à procura dessas pedras pra encontrar os tais exemplares mais valiosos. Só que esta caça ao tesouro, estás a ver no que se transformou. Não é um problema ambiental. Houve associações locais que denunciaram que há pessoas a utilizar martelos pneumáticos, perfuradoras e outras ferramentas pra partir as rochas e tentar retirar os cristais. Em alguns locais, ficaram buracos no leito do rio. Um dos responsáveis pela defesa daquela zona já comparou a paisagem a estas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Portanto, há autoridades a alertar, obviamente, para o risco de destruição do ecossistema. E há um último pormenor: estes cristais não foram criados pela seca. A seca deixou-os à mostra. Eles estão lá, estão escondidos nas rochas há muito tempo, só que a falta d'água facilitou o acesso a eles. Ou seja, é uma seca que revelou um tesouro geológico, mas que também desencadeou uma corrida capaz de destruir o próprio lugar onde o tesouro estava escondido.

Muito bem, e é assim que fechamos o "Quente e Frio". Dias ainda muito quentes nos próximos dias em Portugal. Depois vamos ter uma mudança no horizonte. Também falamos hoje deste bloqueio atmosférico que está sobre a Europa e fechamos com os cristais escondidos nas montanhas francesas que estão a gerar esta corrida aos Pirineus. De facto, são parecidos com diamantes, mas não são. É um mineral, mas são bonitos. A Filomena Martins regressa amanhã com mais um "Quente e Frio", depois do jornal das 16h.

Até amanhã.