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É natural de Lisboa, diz que é por natureza uma mulher reservada e multifacetada. Começou por ser modelo, mas depois deu o salto pra representação. Teve logo muito sucesso na sua estreia enquanto atriz, recebeu vários prêmios e nomeações, já fez teatro, televisão, cinema. Recentemente, ainda abraçou um novo projeto: narrar o mais recente podcast Plus do Observador. Hoje recebemos Soraia Chaves no "Em 40 Minutos". Bem-vinda, Soraia.

Olá, Soraia. Bem-vinda.

Olá.

Obrigada por estares aqui conosco.

Obrigada eu pelo convite.

Vamos começar precisamente por este desafio recente que tu abraçaste. Fizeste a narração do podcast Plus "Um Rei na Boca do Inferno". Tu numa entrevista disseste que nunca estás à espera que apareça um próximo projeto, ou seja, que és sempre surpreendida. Foi uma coisa assim do gênero. Portanto, pergunto como é que foi então a reação quando recebeste esta proposta pra fazer uma narração?

Fiquei surpreendida, porque eu não trabalho tão frequentemente com a voz. Já fiz alguns trabalhos, mas não é o core do meu trabalho.

Sim. Fizeste algumas dobragens, não foi?

Fiz algumas dobragens, sim. Também já dei voz a uma marca de um carro. Mas foi uma campanha muito específica, eles precisavam de uma voz muito específica, portanto, não é realmente a minha especialidade enquanto intérprete. Fiquei superfeliz, fiquei: "Uau, que giro, vai ser um desafio novo."

Sim, diferente.

Vou poder desenvolver aqui as minhas capacidades e também a minha curiosidade por esta área. E achei muito interessante pelo próprio objeto, por ser um podcast, que é uma coisa que em Portugal ainda não está tão-

Está a explodir agora, não é?

Exato. E achei muito interessante a proposta que foi feita.

Conhecias a história?

Não, não conhecia esta história em particular, que é sobre a Casa da Boca do Inferno e o príncipe, ex-rei de Inglaterra, que tinha lá estado.

Portanto, tu a narrar também entras na história.

Absolutamente.

Encarnas ali.

Absolutamente. E eu achei a proposta do texto jornalístico superinteressante, porque passa-se numa época que é fascinante. Continua a ser passada estas décadas todas e tantos filmes, séries e livros que já saíram sobre.

Parece que nunca é demais.

Nunca é demais.

E há sempre alguma coisa nova, não é?

É isso. É uma época, realmente, uma fase, uma parte da nossa história que é efetivamente fascinante.

Descobrimos sempre histórias. Há sempre uma história qualquer nessa altura que ainda não foi contada.

Sim, e eu achei muito engraçado o facto de parte dessa história se passar aqui em Portugal.

Sim.

E nós não fazermos ideia. Eu acho que muita gente não faz ideia disso. Eu já sabia, já tinha conhecimento de que o Ian Fleming se tinha inspirado.

Exatamente. Nos espiões do James Bond.

Sim, nuns espiões que por cá passavam nessa época.

No Estoril, principalmente.

No Estoril, sim. Portanto, o James Bond foi escrito cá, penso eu, ou foi inspirado.

Pelo menos inspirado.

Sim, pelo menos inspirado num espião que por cá andou.

Exato.

E isso eu conhecia.

E fluiu e resultou muito bem.

Há pouco disseste que não é o core do teu trabalho, a questão da voz.

Só a voz.

Não é aquilo que fazes mais.

É, porque é diferente. Sim, desculpa.

Não tem problema. Este projeto ajudou também a quereres fazer mais isso, trabalharem mais ainda com a voz? Tu já tinhas feito dobragens também, não é?

Sim, sem dúvida.

Mas ficaste com mais vontade de fazer ainda mais coisas?

Fiquei, porque eu adorei fazer. Me diverti imenso, mas sobretudo acho que é muito desafiante. Não é nada fácil este trabalho de transportar o ouvinte pra uma história, cena ou emoção.

Senão é só ficar ali e ler.

Não é preciso interpretar, mas neste caso dos podcasts, tudo vive do som. E eu, enquanto intérprete, vivo da minha voz e da emoção que eu consigo transmitir através da minha voz, mas é óbvio que também o episódio não tem só a voz do narrador. Tem toda uma construção e uma edição de sonoplastia, tem a música da Cláudia Pascoal, e eu de facto quero dar os parabéns. Eu faço parte do projeto, mas quero dar os parabéns a toda a equipa por esta série e por todas as que têm feito, porque de facto eu acho que resulta lindamente. E a equipa que eles juntaram.

Fluiu muito bem.

Sim. E eu acho muito interessante isso de conseguirmos, mesmo enquanto ouvinte, entrarmos num outro mundo ou ficcionado, ou neste caso com a característica de ser também um trabalho jornalístico, portanto ser real. Nós somos transportados só através do som. Não estamos a ler, não estamos a ver. O único estímulo é o som, eu acho incrível. Pra além de prático.

Ai, sim.

Porque podes estar a ouvir.

Enquanto conduzes, enquanto corres.

Fazer mil e uma coisas.

Então já sabem, não esquecer, "Um Rei na Boca do Inferno". Para continuar a ouvir, continuam a sair episódios.

Sim.

Portanto, nesta altura em que estamos a gravar, estamos no quarto.

Quarto episódio. Espectadores assinantes do Observador já têm acesso a tudo, podem ouvir esta história incrível narrada pela Soraia.

Soraia, olhando aqui pro teu início, vamos recuar ao princípio da tua vida.

E não vamos a Paredes.

E não vamos a Paredes.

Não vamos a Paredes.

É porque há aqui uma parte interessante que é: em todo lado, quase, que nós encontrámos, e nós até tínhamos essa pergunta aqui pronta. A Filipa está a rir, nós vamos explicar por quê. Nós tínhamos aqui pronta a pergunta: como é que foi crescer e sair da pequena freguesia de Besteiros, em Paredes, ao pé do Porto, pra depois ir pra capital e pro resto do país brilhar? E tu não nasceste em Besteiros?

Não, mas não se pode mesmo acreditar em tudo que está na internet.

Tu já foste buscar lá?

Nunca. Isso é um mito.

É mito urbano.

É um mito.

Que está espalhado por toda a internet.

Já está espalhado por toda a internet já há alguns anos. Não sei. Não faço a menor ideia.

Não faz sentido nenhum.

Não faço a menor ideia. Foi alguém que resolveu introduzir essa informação, penso que no Wikipedia.

Sim. Nós encontramos lá também.

Sim, eu acho que as mesmas gente já tentaram retirar essa informação. Não percebo porque é que continua lá. Eu acho que é aquela coisa: once you go to the internet, you never have. Nunca mais sais de lá. Deve ser isso. Mas não, para esclarecer, isso é um mito. Eu não sou do Porto.

Tu és de Lisboa?

Eu nasci em Lisboa e cresci na Trafaria.

Ok.

Portanto, um bocadinho longe.

Sim, o trajeto para a capital foi da Trafaria.

Sim, da Trafaria.

Foi mais perto, foram só 20 minutos de barco.

Exato, realmente é mais pertinho.

A não ser que haja uma Soraia Chaves em Besteiros.

Se calhar trocaram. No entanto, não sei se terá a ver com o meu nome, porque eu sou Chaves. Também houve uns mitos que como eu era Soraia Chaves, portanto era de Chaves. Não, eu não sou de Chaves.

Essa era uma associação também demasiado óbvia.

Mas também já apareceu em algum momento em alguma revista, não sei.

Então és da Maia, portanto.

Mas tenho sangue do Porto, tenho sangue do Norte, não do Porto, de Trás-os-Montes. Sim, a minha família, a parte da minha mãe é de Trás-os-Montes, é transmontana, e do meu pai, da Beira Alta. E as famílias, tanto do meu pai como da minha mãe, vieram para Lisboa, migraram para Lisboa nos anos 50. E foi aí que já nasce a terceira geração.

E na tua infância tu costumavas ir, por exemplo, passar férias a Trás-os-Montes, para o norte do país?

Não tanto. Não muito. Acho que esses laços foram um pouco quebrados, porque a família veio toda para baixo. No entanto, recentemente, digo recentemente, há uns anos, fizemos essa viagem à aldeia da minha avó e à casa da minha avó e na altura das festas da aldeia. Eu identifico-me muito com a cultura transmontana. É engraçado, eu acho que há coisas que de facto, obviamente, que ficam porque nos são transmitidas através da nossa educação. Através dos valores e da cultura. E pronto, já estou aqui perdida.

Portanto, quando eras pequenininha, não ias muito para Trás-os-Montes, mas agora fizeste uma viagem, fizeram todos uma viagem ao norte do país.

Fizemos.

Foram para a terrinha.

Exato. E também houve uma série para a RTP, que são os Contos da Montanha, que é inspirada nos contos do Miguel Torga. Eu tive o privilégio de fazer um desses contos. Todas as personagens são personagens de Trás-os-Montes, portanto, é um retrato de Trás-os-Montes. E nessa altura eu também voltei a reavaliar e a repensar no que são as minhas origens e no que é que a gente transmontana transmite. E é uma série que eu gostei muito de fazer e que já que estou aqui a falar convosco, recomendando.

Já lá vamos às séries todas.

Pronto, então já vamos falar.

Não, mas se deixas as recomendações todas, estou-te a fazer. Acho muito bem, que faz aos nossos ouvintes super bem.

É um retrato lindíssimo sobre Trás-os-Montes.

Como é que era o nome? Relembra-me.

Os Contos da Montanha.

Contos da Montanha. Histórias da Montanha.

Contos da Montanha é do Miguel Torga. A adaptação depois feita, Histórias da Montanha, é um belíssimo e poético retrato de Trás-os-Montes que todos podem ver.

Muito bem.

RTP.

Olha, Soraia, então aqui a tua infância não foi no Norte, foi em Lisboa.

Caparica.

Caparica. Como é que tu eras quando eras mais nova? Mais extrovertida, mais tímida, eras uma mistura das duas? Como é que era?

Na escola.

Na escola era tímida.

Fora da escola?

Fora da escola, não.

Era outra coisa.

Exatamente. Não, mas eu venho de uma família, eu tenho quatro irmãs.

Irmãs, todas meninas.

Somos todas mulheres, somos cinco mulheres. Portanto, venho de um mundo extremamente feminino.

És a mais nova, mais velha, és o meio?

Sou a quarta, tenho três mais velhas, uma mais nova. Portanto, acho que isso foi uma coisa que naturalmente me marcou imenso. Esse universo feminino sempre esteve muito presente. Agora, em relação à minha personalidade, eu acho que sempre tive uma personalidade muito forte. A minha mãe, se me estiver a ouvir, poderá dizer que forte, pronto.

É a palavra mais simpática.

Sim, eu acho que sempre tive vontades próprias muito fortes e sempre fui muito curiosa. Na minha infância não me lembro muito bem, sinceramente, mas lembro-me só de ter este ambiente familiar sempre muito vivo com as minhas irmãs, uma forte ligação à natureza, portanto, uma sensação de liberdade, porque nós vivíamos a brincar na rua, não é como hoje em dia os miúdos brincam já nos telemóveis ou se vivem numa cidade estão mais fechados num apartamento. Não, portanto, tinha um espírito muito livre e curioso. E isso manteve-se depois na minha adolescência e eu acho que essa característica é uma característica realmente forte em mim, porque me acompanhou e tem-me acompanhado ao longo desta vida.

Boa.

Falavas na adolescência, adolescência um bocadinho mais à frente, aos 15 anos.

Aos 15.

Ganhaste o Elite Model Look Portugal.

Exatamente.

Portugal aqui. Aproveitei o resto estrangeiro. Foi isso que também sentiste que Que isso foi um primeiro passo para o resto do mundo que conseguiste conquistar.

Absolutamente. E era aí que fazia a ligação entre este espírito de curiosidade. Eu sempre tive muita vontade de conhecer o mundo e de sair do sítio onde estava e explorar.

Já faço pelas viagens.

Depois as viagens.

As viagens também, já lá vamos. Sim. E então, na altura, fui eu que fui atrás desse desafio, porque eu via as revistas na altura, estamos a falar dos anos 90, portanto em 96, 95, eu tinha 13, 14 anos, e havia um boom das top models. A cultura estava muito voltada para esse mundo das top models, então havia muitas revistas de modas. Revistas de moda para mim eram fascinantes, porque era o glamour e era todo um mundo novo para mim. E numa dessas revistas eu vejo um anúncio para quem quisesse fazer uma sessão fotográfica profissional, que deveria inscrever-se. E eu na troçaria disse: "É já!"

Ok.

Então inscrevi-me e foi realmente esse o primeiro passo, foi ter essa coragem para "é isto, ok, agora vamos". E a partir dessa sessão fotográfica, comecei a ser representada pela agência Elite Model, a Elite que é internacional, mas que existe também em Portugal. Vou para o concurso nacional com 15 anos já, participo no concurso nacional, ganho esse concurso, vou representar Portugal a Nice, foi a Nice esse ano, em 1997.

E ganhaste?

E não ganhei. Claro que não. Ainda ontem as minhas sobrinhas me perguntavam: "Já ganhaste um concurso?" E eu: "Sim". "E quantos concursos ganhaste?" "Só um." Eu tipo: "Também não me enervem." Não, está tudo bem. Só que ganhei um. "Mas quantos foste?" "É dois."

É 50% aproveitamento.

Exato, podia estar pior.

Mas eu senti que esse foi um momento para uma miúda da minha idade, eu tinha 15 anos, eu estive em contacto com 100 miúdas do mundo inteiro. E lembro-me perfeitamente do que mais me marcou nessa competição. Não foi sequer a competição, foi só o fascínio que eu tinha por cada uma delas, porque cada uma vinha de uma cultura diferente. E a minha curiosidade sempre esteve realmente muito presente nesse sentido. E eu, sinceramente, estava uma porrifária.

Pois era isso que eu ia perguntar: tu foste numa de vou me divertir ou foi "não, eu quero mesmo ser modelo e vou"?

Não.

Foi numa de vou divertir-me e vou experimentar coisas novas.

Que incrível! Vou fazer uma viagem ao sul de França e vou estar com pessoas de todo o mundo. E sim, foi isso que aconteceu.

Que bom.

Nessa fase.

E depois seguiste uma carreira de modelo que ainda durou alguns anos.

Sim, eu queria perguntar isso e antes de fecharmos esta primeira parte, o que foi para ti o melhor e o pior da carreira de modelo?

Para mim, o melhor foi de facto muito cedo eu tive acesso a esta liberdade, digamos assim, que era uma coisa que eu valorizava muito na altura, era a liberdade. A independência financeira também, na altura, foi importante.

Pagava bem?

Pagava-me bem, sim, também foi importante para mim e as viagens que eu fazia, sobretudo.

Claro.

Pronto, isto a nível pessoal.

A parte boa.

A parte boa e pessoal. A nível profissional, não tenho a menor dúvida que foi também por ter tido uma carreira de modelo que fui desenvolvendo e na altura eu já fazia bastante publicidade, portanto, as pessoas começaram a conhecer-me no meio. E o primeiro convite que me surgiu para fazer um casting enquanto atriz, foi relacionado com-

Essa posição enquanto modelo.

Exato, enquanto modelo. Portanto, as coisas ficaram interligadas a partir daí e portanto teve também essa importância. No entanto, eu acho que o lado negativo.

Se é que houve, pode não ter.

Pois, pode não ter havido um lado negativo. Não sei, porque eu não gosto muito de pensar nas coisas com "e se". Mas não sinto que tivesse sido-- sim, ok, já me lembro. O lado negativo veio ao mesmo tempo que o lado positivo, e eu acho que é sempre assim na vida, não é?

Claro.

Ou seja, ao mesmo tempo que a minha carreira de modelo me proporcionou uma oportunidade para trabalhar enquanto atriz, ao mesmo tempo, por ter tido essa carreira, foi-me colocado, na altura, um rótulo de que eu não era atriz, era modelo. Portanto, durante anos eu tive de lutar e de defender.

Tentar descolar-se desse rótulo.

Descolar-me disso e defender que o facto de ter sido modelo não retirava a minha seriedade e o meu empenho numa carreira de atriz.

Claro.

Que não era só uma coisa de querer exposição ou de querer fama. Não, era séria a minha paixão e o meu interesse e o meu empenho nesta profissão. E esse empenho e essa seriedade e o profissionalismo mesmo foi questionado durante muito tempo. E pronto, talvez então essa tenha sido a parte menos boa. Exato, mas foi uma luta que correu bem.

Ganha, uma luta ganha.

Soraya, vamos aqui fazer um pequeno intervalo para atualizar as notícias. Já voltamos à conversa. Soraya Chaves no "Em 40 Minutos" desta semana. Até já.

Até já

Segunda parte do "Em 40 Minutos" com a Soraia Chaves. Soraia, bem-vinda mais uma vez.

Bem-vinda.

Vamos agora entrar no mundo da representação. Começámos a falar disso no final da primeira parte. Tu em 1998, se não me engano, participaste no Médico de Família?

Não.

Não? Pronto, mais uma coisa que a Wikipédia errou.

A Wikipédia, e não só.

É uma desgraça. Mas a tua estreia foi com o papel Amélia?

Exatamente.

O Crime do Padre Amaro. A tua interpretação neste filme teve muito sucesso logo, mas também teve o seu lado menos bom. Disseste numa entrevista que houve quase que uma objetificação por parte da imprensa. Como é que lidaste com isso?

Isto foi em 2005, que acontece a estreia do Crime do Padre Amaro, e o Crime do Padre Amaro foi de facto um sucesso em Portugal e foi objeto de muita polémica. Houve muita coisa a ser escrita sobre o filme. Ao mesmo tempo que é um enorme sucesso, porque as pessoas realmente aderiram e foram em massa ao cinema, e na altura foi o filme mais visto em Portugal de sempre nas salas de cinema. Depois surgem, ao mesmo tempo, muitas críticas.

Tinhas que idade na altura, Soraia?

Eu tinha 22, 23.

E para uma pessoa que tem 22, 23, é fácil lidar com isso?

Não, primeiro porque foi uma enorme surpresa pra mim. Em relação à sensualidade, porque eu representava uma miúda, uma rapariga jovem, muito livre e muito sensual. O filme retratava isso também, a sensualidade e o papel da sexualidade também na vida das pessoas, neste caso, um padre com uma miúda mais nova. E eu, enquanto jovem mulher, na altura, sempre achei perfeitamente natural que se abordasse esta questão. E a exposição do corpo feminino pra mim sempre foi uma coisa naturalíssima.

Nunca foi tabu.

Nunca foi um tabu na minha cabeça e, portanto, aceitei como perfeitamente natural a exposição e mesmo o retrato da sensualidade de uma mulher. No entanto, o que acontece é que eu fiquei surpreendida, na altura, com o conservadorismo do pensamento das pessoas, da sociedade em geral.

E achas que melhoramos nisso?

Claro.

Completamente.

Completamente. Na altura, fiquei mesmo surpreendida, porque eu, que era uma miúda, tinha esta mentalidade mais aberta. E, de facto, fiquei um pouco chocada com a forma como foi recebido. Porque posso dar um exemplo: somos o padre e a Amélia. Os dois têm cenas de sexo, ou cenas eróticas, porque não há sexo explícito. Cenas eróticas. E só se falava do corpo feminino exposto, e não se falava do corpo masculino exposto. Depois havia outra questão, que era: este filme era baseado na história do crime do Padre Amaro, portanto, Eça de Queirós. Houve algumas alterações, porque foi uma adaptação, mas há um acontecimento nesta história, tanto no livro como no filme, que é: o padre envolve-se com uma miúda mais jovem, ela engravida, ou seja, há uma gravidez fruto dessa relação, e é o próprio padre que força a mulher a abortar. E como consequência desse aborto, no livro do Eça de Queirós, ela morre no aborto. Morre a criança e morre a mãe. E esta foi a grande crítica que o Eça de Queirós quis fazer. E no nosso filme, ela acaba por se suicidar, porque não aguenta a pressão.

Pois.

E tudo o que se falava era sobre um corpo nu, eram umas mamas.

Com tantas conclusões que se poderiam tirar.

Sim, e isso foi o que mais me surpreendeu e que me entristeceu também.

Claro.

E eu, enquanto mulher, enquanto miúda, fiquei de facto abalada com isso. Não vou dizer que não, agora já se passaram muitos anos, mas senti-me objetificada. Senti-me diminuída enquanto mulher.

Uma mensagem tão forte que o filme estava a passar.

Várias.

E como é que no final das contas aquilo é que é?

Mas de facto, eu acho que a sociedade entretanto já evoluiu um pouco.

Um pouco, mas...

Mas não chegamos lá ainda.

Ainda não chegamos lá.

Achas que o filme, por exemplo...

Eu acho que há certos objetos que são importantes para desbloquear.

Sim, ser desbloqueador, claro.

Não sei, certos preconceitos.

Achas que se o filme tivesse acontecido agora, saísse agora em 2024.

Acho que saiu. Saiu uma em 2023.

Uma nova versão.

Mas eu confesso que não vi, portanto, eu não sei.

Mas se o teu saísse agora.

Se eu saísse agora não ando.

No filme, naquele contexto.

Naquele contexto.

Sim. Achas que não teria sequer tantas críticas?

Eu acho que não. Eu acho que entretanto a cultura pop ajudou bastante.

Quero acreditar que não se vê tão mal.

Sim, também já é mais frequente agora vermos isso também.

Tanto no cinema como na cultura pop.

Sim.

Como estava a dizer, aquela forte imagem das mulheres que aparecem, sei lá, a Beyoncé, a Madonna. A Madonna já fazia isso nos anos 80. Já há uma série de mulheres que usam a sua sensualidade com orgulho.

This empowerment.

Sim, e com esse direito.

E muito bem.

E por falar nisso, há pouco também estavas a falar da questão da objetificação e acho que até antes de irmos para o intervalo, estavas a falar da questão de separar as águas da Soraya Chaves modelo e da Soraya Chaves atriz. Tu sentes que depois de teres feito "O Crime do Padre Amaro", também o "Call Girl", que explorava muito essa imagem da mulher sensual. Tu sentiste alguma vez dificuldade em descolar-te dessa imagem? Se é que querias descolar-te, mas sentiste essa dificuldade?

Absolutamente. E a certa altura quis mesmo descolar-me. Sendo que o "Call Girl" que falas, muito bem, que recordas, porque foram os dois primeiros filmes que fiz. Portanto, sim, é um filme, depois o segundo é do António-Pedro Vasconcelos, e ela é uma prostituta, e portanto é também uma mulher que carrega essa mensagem da sexualidade, da sensualidade. E foi um filme que eu amei fazer. E amei o filme assim que li o guião, precisamente pela força que aquela mulher transmitia. Eu achava incrível, e continuo a achar, que existam papéis fortes femininos e que não tenham esse pudor. E na altura tive a oportunidade de conhecer o António-Pedro Vasconcelos, que foi efetivamente uma das pessoas mais importantes na minha carreira, porque na altura em que ele me convida para fazer este segundo filme, já eu estava carregada das críticas e do estigma de ser só uma modelo.

Certo.

E provavelmente poderia não ter tido uma carreira a seguir. Não sei o que é que iria acontecer ou não. Mas ele foi muito importante, ele e o Tino Navarro, que é o produtor do filme, que foram importantíssimos, porque eles disseram: "Não, a Soraya é atriz".

Claro.

E então daí, quase como uma validação, aconteceu na altura, que é: vamos apostar nela. E foi uma aposta que de facto depois influenciou o resto da minha carreira.

Tu também depois acabaste por passar para a televisão, não foi?

Sim.

Como é que foi essa transição? É que a televisão eu acredito que seja muito diferente das gravações para cinema.

Sim, é muito diferente. São formas muito diferentes, formas de expressão muito diferentes. Sim, eu fiz alguns filmes e depois comecei a fazer séries, penso eu, e depois do formato série, comecei a fazer também telenovelas. Como é que foi essa transição? Acho que são, de facto, formas muito diferentes de trabalhar e ainda hoje em dia eu acho que é bom fazer um pouco de tudo. Portanto, não foi fácil a adaptação, porque é muito exigente fazer, por exemplo, vamos falar de uma telenovela e do formato da telenovela. São muitos episódios, que são gravados num determinado espaço de tempo, que também é curto para a quantidade de horas que precisamos de gravar.

Portanto é intenso.

É super intenso, é muito exigente para o ator. Nós conseguirmos passar de uma emoção para outra, cinco emoções diferentes ou cinco momentos diferentes de um personagem numa manhã. É de uma exigência absolutamente extraordinária para qualquer ator. E eu admiro imenso os atores que fazem bem as novelas. Sempre admirei, porque no início eu tive muita dificuldade, confesso. Eu tinha dificuldade. Porque era para mim difícil ter essa ginástica.

Claro. Você passar de um registo completamente diferente.

Exatamente.

Requer adaptação.

Requer adaptação. E eu tinha estudado. Depois de fazer esses primeiros filmes, fui estudar teatro. Eu não cresci, realmente, a minha formação não foi televisão, mas foi depois acontecendo à medida que fui fazendo. Já fiz várias telenovelas e estou neste momento a fazer uma também. Eu ainda não estou no ar, mas vou aparecer brevemente, que é "A Promessa", que está a passar na SIC.

Cuidado com o spoiler.

Não vou fazer spoiler, mas portanto é um formato que eu continuo a fazer e que ao longo dos anos fui me sentindo mais confortável e eu acho que esse desafio é até bastante enriquecedor para a ferramenta de um ator.

Claro, muito bem. Houve também uma altura, Soraya, da tua vida, que tu foste para Madrid. Estiveste por lá três anos a estudar. Também fizeste parte de uma minissérie. Como é o ambiente de gravações fora de Portugal? Muito diferente?

Sim.

Interessante.

É muito diferente, porque eles têm um mercado maior.

Pois.

Portanto, eles têm mais condições, têm condições diferentes das nossas.

Sentiste isso também na "Operação Maré Negra"?

"Operação Maré Negra" foi uma-

Tendo em conta que, para dar contexto, foi uma coprodução com a Amazon, não é?

Com a Amazon, com uma produção da Ficcion Producciones, que é galega.

Sim. E da RTP.

E da RTP, produzido pela Pandora. Portanto, eu acho que uma coisa positiva que está a acontecer é que agora existem cada vez mais estas coproduções entre Espanha, Portugal ou mesmo Brasil Estas competições têm sido fantásticas para nós.

E nota-se logo a diferença de condições?

Sim, nota-se que existe mais dinheiro investido em cada projeto. No entanto, eu amei fazer esta série. Atores maravilhosos, uma equipa maravilhosa. E o que eu posso dizer é que acabamos por ter mais tempo para fazer cada episódio. Isso é fantástico para todos. No entanto, há muitas séries que eu fiz, outras que vi, séries só portuguesas, só produções portuguesas de séries, infelizmente, com orçamentos baixos e que eu considero que são autênticos milagres. Porque eu acho que existe imenso talento por parte da escrita, realização, montagem, direção de fotografia, toda a parte artística. Existe imenso talento, a óbvia capacidade de criarmos este conteúdo. Infelizmente, é muito difícil para os produtores, logo é muito difícil para todos nós. E eu tenho pena que não haja mais investimento, efetivamente, por parte do governo na cultura. E isto iria abranger não só cinema, séries de televisão, mas teatro, todas as áreas artísticas.

Claro.

Não sei, se conseguimos fazer tanto com pouco.

Se tivéssemos mais, o que é que nós faríamos?

Isto só para dizer que a diferença entre a qualidade artística, a capacidade artística entre Portugal e Espanha, não vejo. Vejo é que existe mais investimento e mais trabalho no mercado espanhol. Eles também são muito maiores.

São muitos mais.

São muitos mais. Têm uma população muito maior. E existe muito trabalho lá. E era bom que houvesse também muito trabalho cá. E espero que um dia isso venha a acontecer.

Soraya, nós não temos é muito mais tempo. Faltam cinco minutos.

Mas queremos falar de mais coisas.

Sim, queremos olhar aqui. E agora nos últimos minutos fizemos aqui uma retrospetiva, um pouco, de certa forma, da tua carreira.

Sim.

Tu fizeste papéis mais sérios. Fizeste, por exemplo, a Generala, muito intenso. Fizeste papéis mais cômicos, por exemplo, eu adorava esta série quando era mais novo, que era o "Aqui Não Há Quem Viva".

"Aqui Não Há Quem Viva".

Adorava ver o "Aqui Não Há Quem Viva".

Muito divertida.

Muito.

Obrigada.

Só me veio agora a palavra inglesa range.

Range.

Esse alcance que tu tens. Quais eram os teus papéis favoritos?

Dramáticos ou os mais cômicos?

Dramáticos, mais leves, mais cômicos.

Eu gosto efetivamente de ter essa possibilidade de viver diferentes emoções. Portanto, não tenho um preferido. Eu acho super difícil fazer comédia, por exemplo.

Como é que te safaste no "Aqui Não Há Quem Viva"?

Na altura, tinha muito pouca experiência. Fui-me safando, porque eu acho que tenho algum sentido de humor e talvez um ritmo natural para a comédia, e eu acho divertidíssimo fazer. Também adoro fazer drama, porque eu adoro drama psicológico. Adoro tragédia.

Esta frase.

Tive de olhar enquanto tu disseste.

Por exemplo, quase já fiz em novela papéis mais cômicos. Não posso dizer.

Só se for.

O que é que vais exercer, Soraya?

Eu não tenho um preferido e gostava de ter a oportunidade de continuar a fazer de tudo, porque, de facto, o meu interesse por esta profissão de atriz é muito a psicologia humana e também a forma de cada um se expressar. Portanto, eu gosto de poder navegar, e para mim é um privilégio se puder navegar através das personagens que me são propostas por diferentes universos, e espero que continue a ter possibilidade de o fazer.

Muito bem. Olha, Soraya, sabemos que há novidades a caminho, mas não podes revelar muita coisa, por isso vamos passar aqui a uma vertente da Soraya, que é as viagens, antes de fecharmos aqui este programa.

É uma boa forma de fechar.

Primeiro, como é que é Soraya Chaves fora das gravações, fora dos filmes, fora das séries? Se tens algum hobby, se não tens, tirando as viagens. E depois, claro, o que é que tu encontras nas viagens, que prazer é que as viagens te dão? Que viagem é que queres fazer em breve? Conta-nos um bocadinho.

As viagens sempre fizeram parte da minha forma de vida. Por exemplo, há pessoas que me dizem: "Ah, grandes férias que tu tiveste." E eu acho que te respondi uma vez: "Pois, mas não é bem férias, é uma forma de vida mesmo." Porque sempre o fiz, porque para mim sempre foi muito importante sair. Felizmente, tenho essa oportunidade. Felizmente, a minha profissão permite-me fazer isso, porque eu tenho vários períodos em que estou mais livre. Mas eu sempre fiz muita questão. Houve uma altura, aliás, no início da minha carreira, que eu parei mesmo para sair, para viajar e para estudar. Mas muitas vezes eu saio só durante uns meses para poder conhecer outras culturas, para ter uma perspetiva mais abrangente sobre o que é este mundo em que nós vivemos e também sobre mim própria Para contemplar, para evoluir, para crescer. Para mim é importante conhecer outras realidades.

E notamos nas tuas redes sociais que há ali, não sei, podes contrariar-nos, um certo fascínio pela zona da Tailândia, Sri Lanka, todas essas zonas.

Sim.

A Soraia agora vai dizer: "Não, é tudo mesmo". Amo tudo.

É mesmo tudo, sim, porque de facto eu já tinha estado na Ásia há 12 anos. Fiz várias viagens pela Ásia. Depois fui explorar a América do Sul e depois da América do Sul, é por fases, fui explorar países africanos.

É por continente.

Sim. E agora pensei: "Não, eu quero voltar à Ásia". E isto acontece com uma necessidade minha, nesta fase em que estou a viver, de uma descoberta espiritual e pensei: "Esse é o sítio certo e eu quero ir para a Ásia". Então fui para o Nepal em janeiro deste ano. Fui para o Nepal porque eu queria conhecer a cultura budista, a cultura hindu e também a filosofia do yoga.

Tu és crente, Soraia?

Não.

Mas estás à procura dessa...

Dessa espiritualidade. Não sou crente, não, mas tenho um lado espiritual que está em desenvolvimento e tenho uma enorme curiosidade.

E essa viagem ao Nepal ajudou ainda mais a intensificar esse lado teu, não achas?

A intensificar esse meu interesse, sim. Depois estive na Tailândia, também numa escola de yoga e também a passear. E depois também estive no Sri Lanka e tudo dentro deste universo que eu estou agora a querer explorar, que é o da espiritualidade. E a próxima viagem, portanto, ainda está ligada a isso e já está a ser planeada. Eu não costumo marcar nada. Não está marcada. Pois, eu não costumo marcar.

Está pensado.

O foco já está lá e será a Índia.

Que bom!

Será a Índia, porque eu tenho esta vontade de realmente conhecer melhor a filosofia hindu e budista e quero fazê-lo na base.

É o sítio certo mesmo.

E tendo a oportunidade, é isso que vou fazer.

Muito bem. Olha, Soraia, foi um gosto.

Obrigada.

Muito obrigada por teres estado aqui conosco. Passou muito rápido.

Não se esqueçam de ouvir "Um Rei na Boca do Inferno" e continuar a ouvir a Soraia.

Ouvir a Soraia e estejam atentos também na SIC, na Soraia a aparecer por lá, não é?

Tenho a promessa.

Soraia, muito obrigada mais uma vez.

Obrigada eu.

Obrigado. Até à próxima.

Em 40 minutos na Rádio Observador. Obrigada.

Obrigada, foi um prazer.