Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Queremos todos viver para sempre, mas todos com a mesma cara. Eu acho que isto são ferramentas perigosas, porque somos nós a tentar controlar o mecanismo da vida. E isso é perigoso. Agora, que é mais duro para as mulheres, sem dúvida, que a questão do envelhecimento é uma questão que tem de ser pensada eticamente, porque mesmo que tu possas fazer, do ponto de vista físico. Eu não estou a criticar, cada qual faz as suas escolhas. Tu não estás a evitar um processo de transformação que a idade te traz. Acho que é uma coisa muito grave e muito mais pesada para as mulheres. E não é só na ficção, é na vida. Tu também és menos tolerante com as mulheres na vida. As mulheres têm lutado muito para conquistar o seu espaço.
Mas até mesmo as mulheres com as mulheres, no sentido da tolerância, não só os homens com as mulheres?
Sim, eu acho que a sociedade com as mulheres é muito menos tolerante. Tu tens de mostrar muito mais para chegares a determinados lugares. As mulheres e os homens ainda não ganham a mesma coisa nos mesmos cargos. É um processo muito duro de conquista e o mundo é muito mais exigente para as mulheres. Mas as mulheres também têm aqui um papel fundamental e acho que temos de estar muito atentas. E acho que é um papel de todos, dos homens e das mulheres, porque a igualdade é boa para todos.
Diz-se frequentemente que quem descobre a vocação muito cedo resolve metade da vida. Aos 13 anos, no seio do Ribatejo, era uma miúda que carregava o peso de uma insegurança profunda. Procurava um lugar onde pudesse ser sem ter que se justificar. Encontrou o teatro. O palco foi o primeiro território de segurança. Tem a mania da inquietação crônica, tem a teimosia de quem recusa o caminho mais óbvio. No auge do mediatismo, decidiu fazer as malas e voar para Los Angeles e Londres, escolhendo voltar a ser rigorosamente ninguém em salas de ensaio frias, só para aprender a moldar a sua arte de uma forma mais honesta. Quem trabalha com ela reconhece o rigor, a densidade intelectual de quem lê os clássicos com a mesma fome, como quem devora a vida. Hoje, mãe, e com uma carreira construída sob o signo da mais absoluta liberdade, ela continua a ser a mesma miúda rebelde que não se cala perante a injustiça, que recusa que o mercado lhe dite uma data de validade e que usa a palavra como uma arma de empatia e ativismo. Teresa Tavares, em 40 minutos. Bem-vinda aqui à Rádio Observador.
Obrigada, Ricky. Obrigada por esta introdução.
A menina rebelde continua lá? A do Ribatejo.
Sempre.
Ou já conhece outras facetas, outras vertentes ao longo da vida? Vamos crescendo todos.
Sim, absolutamente. E claro que conheço outras coisas. Até porque a rebeldia se transforma, mas está completamente lá. Eu diria que é dos meus traços, uma espécie de obstinação.
Crônica. Eu fiz questão de usar essa palavra aqui na introdução. Até porque descrever-te desta forma e pensar que és uma mulher assim desta forma, alguém que precisa da inquietação, que precisa também de um certo refúgio para se manter honesta, é um exercício diário ou não?
É, absolutamente. A liberdade, que é para mim o valor fundamental, é um exercício diário. Não é só uma coisa que possamos dar por adquirida, como todos sabemos, e agora temos de pensar nisso com bastante cuidado e bastante atenção, por causa das circunstâncias do mundo, mas acima de tudo, é um exercício diário. Esta coisa de eu sou livre, eu tenho uma palavra, mas então, o que eu posso fazer com essa palavra? O que eu posso fazer com as minhas atitudes? Porque depois também não é só o que tu dizes, é o que tu fazes. É diário.
A liberdade é o valor mais inegociável para ti?
Absolutamente.
Ou seja, qualquer tipo de estímulo ou ameaça a essa liberdade que tu tens enquanto mulher, enquanto artista, é o que mais te inquieta neste mundo que vivemos?
Absolutamente. E acho que temos de estar todos atentos. No outro dia eu estava a falar disto com umas miúdas mais novas e dizia: "Pensa assim, se te tirarem isto ou aquilo, como é que tu vais viver? Se te tirarem a liberdade, como é que é?" É inegociável. É absolutamente inegociável.
E sentes que nós muitas vezes não pensamos na liberdade, pelo menos dessa forma? Ou seja, como está tudo dado como garantido ou até mesmo pelas redes sociais. Eu acredito que as redes sociais alimentam muito isto, este ideal de liberdade e nós podermos ser quem queremos.
Olha, eu acho que há muita coisa que é dada por garantida, mas se pensarmos que há muito pouco tempo, se eu pensar que a minha avó não tinha a mesma liberdade que eu tenho como mulher, isso não foi assim há tantos anos. Se pensarmos há quantos anos foi o 25 de abril, basta fazer as contas.
Sim.
Há muito trabalho a fazer. Obviamente que como mulher e como mãe, eu tenho uma filha rapariga, isso é uma preocupação adicional. Há também uma questão, e acho que aí era importante pensarmos noutro ângulo, que é: isto é muito mais do que fazer vídeos, e é muito mais do que fazermos vídeos a correr na pradaria, sem ter nada contra os vídeos a correr na pradaria. E devemos ter cuidado também para não ser escravos das redes sociais, das próprias redes sociais.
Do tal algoritmo.
Sim, esta coisa de eu vou fazer para o algoritmo me ajudar. Nós não precisamos da ajuda do algoritmo. Precisamos da ajuda de médicos quando estamos doentes e precisamos da ajuda da nossa própria consciência para fazermos as coisas bem feitas. Preocupa-me bastante esta espécie de grande submissão ao algoritmo.
Uhum.
Que é isto.
Para um artista, tu és actriz nas mais variadas formas: teatro, cinema, televisão. É fácil fugir desse algoritmo para alguém que tem de estar ligado? Ou não, há pessoas que não têm redes sociais e fogem um bocadinho desse palco, mas é fácil para um artista ceder a essa tentação ou não querer estar tão ligado às redes?
O meu ponto não é estar contra ou não estar ligada. Eu estou ligada, estou nas redes. Eu só acho que a minha comunicação não tem de ser condicionada por isso. Ou seja, eu assumo que estou, só acho que cada um de nós tem a liberdade de comunicar da forma mais genuína, que considera mais eficaz, mais útil e mais interessante. O que me preocupa é a submissão a essa ideia de que isto só vai funcionar se eu fizer da maneira X. Até porque vamos ser sinceros, isso é um bocado uma falácia. É como dizer: "Tu só vais ter sucesso se fizeres assim". Nós sabemos que isso é mentira. Não há fórmulas, porque se houvesse fórmulas, tu saías da escola secundária, davam-te um calendário, tu cumprias aquilo tudo e realizavas todos os teus sonhos.
E tinhas sucesso garantido.
E não tens. O que é fascinante no mundo e no ser humano é este lado absolutamente imprevisível. E, portanto, eu não quero de todo desligar-me. Acho que há imensas vantagens e coisas boas que nos podem vir desta comunicação tão aberta e a todo momento. Acho que temos de fazê-la na nossa medida e não na medida do algoritmo.
Na dose certa.
E a medida tem de ser nossa. Quem faz as minhas regras sou eu.
Isso é sempre o mais importante.
Isto é o mais importante. A partir do momento em que tu começas a abrir precedentes neste sítio, perdes completamente até o que é interessante em ti, que são as coisas que à partida podem ser contraditórias ou podem não ser tão apelativas à primeira vista, ou são mais desafiantes. É isso que torna as pessoas interessantes e únicas.
Tu falavas aí da tua avó, dessa história e também da liberdade que se adquiriu pós 25 de abril. Que histórias é que ela te contava, ou que tu te lembras, desse ideal de liberdade que se esperava alcançar nesse pós 1974?
A avó de que eu estava a falar em particular é uma mulher muito importante na minha vida, que já morreu há muitos anos, a minha avó Rá. E era, na verdade, uma mulher muito livre e muito, vou usar esta expressão, porque acho que se adequa a ela, muito à frente do seu tempo. Portanto, ela desafiou muito as convenções. E eu tive sempre nela um exemplo dessa insubmissão de que estávamos a falar no início.
Mas mesmo pequena, por exemplo, já tinhas consciência disso ou só mais tarde é que te lembravas?
Mais tarde é que comecei a dar nomes, porque quando és pequena não dás nomes.
Claro.
Ou seja, o que a minha avó tinha naturalmente era que era uma mulher insubmissa, era uma mulher que ia contra as regras quando era preciso ir contra as regras, assumia realmente o que estava a sentir. Até lembro-me de ela me falar das histórias dos amini-saias, muito antes de eu nascer, claro, e tudo mais, como sendo um gesto, na altura-
O que na altura seria uma afronta, não é?
Exatamente. Portanto, eu não soube dar nome às coisas até mais tarde. Mas ela pôs-me sempre esta, e deixou sempre claro, e nisso também a minha mãe e a minha tia, a minha família do lado da minha mãe é uma família de mulheres de fortes convicções e destemidas. Foi sempre presente esta questão de: "Não, tu és livre de seres quem és e afirmar isso, e força que nós estamos contigo".
E qual é o melhor ensinamento que aprendeste com essa avó?
Foi: "Tu podes tudo. Acredita".
E mantém-se inabalável até aos dias de hoje.
Absolutamente. E podes mesmo.
Eu li numa entrevista que tu, quando eras mais nova, ainda antes de começares no teatro, que foi o teu primeiro passo rumo a esta carreira que já vamos também aqui desvendar um bocadinho para os nossos ouvintes, eras altamente insegura.
Ainda sou.
Mas nós somos todos um bocadinho.
Sim, somos todos.
Cada um à sua maneira. Mas naquela altura, era o quê essa insegurança?
Era muito profundo, era uma questão de quase uma sensação de inadaptação. Era assim tipo um bichinho do mato. Com as pessoas que eu estava muito à vontade, expressava-me.
Como é que era na escola, por exemplo? Tinhas muitos amigos?
Não, era o oposto da pessoa popular com muitos amigos. Estava no lado oposto. Tinha esse lado muito tímido, muito metido comigo, nos meus pensamentos, nas minhas ideias. Mas tinha depois, imagina, a minha melhor amiga, que é como se fosse uma irmã para mim de infância dessa altura, que é a Diana, que continua a ser a minha melhor amiga até hoje. Vivemos em ruas próximas aqui em Lisboa, em Altimeira, no Rio Patejo. Ou seja, depois tinha ligações muito fortes, obviamente, e com as quais me expressava, mas tinha um lado muito tímido, muito inseguro. Não é tímido, é inseguro.
Normalmente as pessoas que não são do meio, quer seja da televisão, da rádio, o que for, têm esta ideia que as pessoas que trabalham neste meio, que são artistas, são altamente dados. Ou seja, são pessoas com extrema confiança, que gostam de aparecer. E tu eras o oposto disso.
Em miúda era. E eu acho que também as coisas são, ou seja, tu podes ser extremamente dado e entregar-se. Eu estou nesta conversa completamente disponível a ouvir-te e completamente presente e ao mesmo tempo ter uma grande insegurança.
Sim, estar retraído.
Sabes? E eu acho que as duas coisas se podem misturar e acontece isso muitas vezes. Agora, quando era miúda, era mesmo uma questão de insegurança que eu depois suplantei.
E como é que se sobe a um palco com 13 anos com essa insegurança profunda?
A revelação para mí foi essa.
Até propriamente os teus pais acharam, não sei. Ou eles conheciam-te dessa forma.
Eles conheciam o outro lado. A minha insegurança tem um lado também muito escondido, que acho que é como muitos de nós. Nós não estamos a mostrar. Esta ideia de nós não mostramos tudo o que estamos a sentir.
Quem olha para ti vê uma mulher confiante e que se calhar nem pensa que és insegura ou teve esses momentos.
Já tive estes momentos, claro. E eu lembro-me que na altura a revelação para mim foi exatamente subir a um palco e sentir-me, lá está, vou utilizar a mesma palavra, sentir-me completamente livre. E ali é que eu estava a conseguir expressar-me plenamente. E aí percebi: "Ok, se isto é uma profissão, é isto que eu vou ser".
Foi logo nesse dia?
Foi. Eu estou a falar contigo e lembro-me. Eu tive aquela sensação e pensei isso: "Se isto é uma profissão, pronto, está resolvido". Que é exatamente o que tu dizias na abertura, que a Fernanda Montenegro diz muito: "Resolves metade da tua vida".
Sim.
E comecei a resolver. Porque ainda não sabia como é que as coisas iam correr, mas tive a certeza, uma certeza inabalável.
E os teus pais estiveram lá desde sempre? Porque é normal, falando de uma arte como é ser artista em Portugal.
E aos anos foi, não tinhas o mesmo acesso às coisas.
Se hoje é o que é, e sabemos bem o que é essa realidade, há uns anos, se calhar, os pais tinham uma grande dor de cabeça ou não?
Olha, eu tive aquela grande certeza. Lembro-me de falar com os meus pais, de que queria ir logo para a Escola de Teatro de Cascais, porque na Escola de Teatro de Cascais tu podes ir fazer o 10º, 11º e 12º. Aí não tive aberta nenhuma, até porque eu estava bastante longe. Mas também ninguém foi contra, foi: "Pronto, olha, deixa ver". E depois eu comecei, juntei-me a um grupo de teatro em Vila Franca, depois acontece também, ainda estava na escola secundária, faço um casting, sou escolhida e de repente, depois a situação ganha, autonomiza-se. As coisas começam a acontecer rapidamente e os meus pais ficam surpreendidos. "Como é que isto está a acontecer tudo assim?" Mas aí quando perceberam, apoiaram.
Aliás, tu há bocadinho estavas a dizer que não eras nada popular, mas tu acabas por te tornar popular a partir do momento em que és escolhida para participar nos "Jardins Proibidos", que é a tua primeira novela.
Foi do oito ao 80, é verdade.
Foi o rumo ao estrelato de uma forma muito rápida. Como é que tu lidaste com isso também? Para alguém que, como tu já admitiste, eras um bicho do mato.
Era. É isso, só me dava aos meus, às pessoas com quem eu estava muito confiante. Foi uma surpresa, até porque na altura, vamos lá ver, hoje em dia já há muito mais produção nacional. Na altura, os "Jardins Proibidos" foi uma revelação de que a ficção nacional podia chegar mais longe e podia estar mais próxima das pessoas. Houve ali um ponto de viragem com os Jardins Proibidos. Nenhuma de nós estava à espera daquilo. Eu não estava, certamente. Foi incrível. Como é que tu lidas? Vais lidando no dia a dia. Eu fiquei muito feliz de ser escolhida para fazer, obviamente.
Lembras-te do dia em que soubeste da notícia?
Lembro, foi incrível. Fiquei sem falar, foi incrível o impacto. Mas tu não tens noção que aquilo vai ter aquele sucesso todo.
Aliás, ninguém sabia.
Lá está, o que estávamos a falar.
Tanto que houve o remake anos mais tarde dessa mesma novela.
Como estávamos a dizer, o grande sucesso tu não podes prever. E o grande fracasso também não. Tu consegues, obviamente, e é o que eu faço, é o que todos nós fazemos, acredito eu, fazemos as coisas bem feitas, entregamo-nos com tudo o que temos para dar às coisas e com todo o nosso talento, com toda a nossa dedicação, mas tu não consegues prever um grande sucesso, é uma coisa que te acontece.
Mas assim então é mais especial ou não? Ganha outro significado, não é? Não ter essa pressão do sucesso.
Sim, até porque não há como.
E naquela altura tu possivelmente nem pensavas nisso, só querias uma oportunidade.
Eu tinha 17 anos. Tinha acabado de fazer 17 anos, eu nem sequer morava em Lisboa. Eu apanhava boleia com o José Raposo e com a Maria João Abreu, que na altura moravam no Cartax, para vir gravar para os estúdios.
Tinhas uns grandes motoristas.
Eles foram incríveis, até porque deram uma grande segurança aos meus pais, parecendo que não, eles já eram atores muito queridos do público e respeitados. E quando não ia com a produção, quando calhar por causa dos horários que coincidiam, e às vezes coincidiam, ia com eles. Mas tu não tens noção da dimensão de nada disto, nenhuma. Ainda bem que não tens.
É bom para manter os pés assentes no chão.
Sim, porque de facto o nosso trabalho é anterior ao sucesso. Por muito que eu fique muitíssimo satisfeita, e é o que eu quero, que um filme que eu faça seja visto pelo país inteiro, não, pelo mundo inteiro, que as séries que eu faço, os espetáculos que eu faço sejam vistos por toda a gente. O meu trabalho é anterior a isso e não pode depender disso. Eu estou lá, se tiverem cinco pessoas a assistir ou se tiver o país todo a ver ao mesmo tempo ou o mundo todo a ver ao mesmo tempo. O nosso trabalho tem de ser anterior às suas próprias repercussões. E isso eu acho que é muito importante e eu espero manter.
Teresa Tavares, convidada desta semana do 40 Minutos. A primeira parte já passou, mas ainda temos mais histórias para descobrir contigo. Até já.
Até já.
E estamos de regresso para a segunda parte do 40 Minutos, esta semana com Teresa Tavares. Falávamos aqui deste percurso que começou muito cedo, com 13 anos, depois aos 17, Jardins Proibidos, e tu ainda passaste pelos Morangos, mas fazes parte daquela geração que Que o teu primeiro passo não foi nos Morangos, porque há muitos atores que começaram lá, nós conhecemos.
Eu fiz a primeira season dos Morangos, mas já tinha feito antes.
Já havia um background.
Sim.
Sim. E essa experiência também, para muitos atores, e nós sabemos as histórias, o Pedro Teixeira, a Cláudia Vieira, muitos deles começaram por lá. Ter esse segundo projeto e com a dimensão que teve, porque foi também um grande sucesso. Tu estás ligada a grandes sucessos da ficção nacional.
É verdade.
Só percebeste isso mais tarde ou nesse início ias percebendo? Porque hoje o mundo também é muito mais rápido com a questão, mais uma vez voltamos, das redes sociais. Na altura era mais difícil perceber?
Não, tu percebias, e percebias com muita clareza. Até te digo mais, falo da minha experiência. E de facto, na televisão, que eu começo ali com os Jardins Proibidos, depois faço o Anjo Selvagem, mais umas séries. As séries na altura faziam-se muito poucas e não tinham a mesma visibilidade que as séries têm hoje.
Até porque não havia streaming.
Sim, portanto, não tinha a mesma projeção. Apresento o Curto Circuito por ali.
Pois é, essa também é uma aventura.
Sim.
Mais um desafio que, voltamos à velha questão: atriz já é o que é, mas o talento estava lá. Agora, apresentadora, não é que o talento não estivesse lá, mas foi completamente inesperado, não foi?
Sim, foi. E aconteceu. De facto, é a história clássica. Eu já contei algumas vezes, fui ao casting com uma amiga e perguntaram-me se eu queria fazer o casting e eu fiz e depois fui passando as fases.
E a amiga não ficou e ficaste tu.
Mas olha que eu na primeira fase lembro perfeitamente de ter dito: "Olha, eu só venho aqui à segunda vez se a minha amiga também vier."
Hoje em dia ainda são amigas?
Sim.
Boa. Pelo menos a amizade não se perdeu.
Claro que sim. Mas isto para dizer, comparando com os tempos, fala-se muito: "ai, hoje em dia sentes muito mais." Não, o sucesso das coisas.
As pessoas abordavam mais?
Na rua muitíssimo mais, porque havia um lado muito mais intocável. E que eu acho que faz sentido que haja no sentido de haver um desligamento. A mim não me fascina, particularmente. Imagina, eu gosto muito da Cate Blanchett ou da Meryl Streep, ou do Daniel Day-Lewis, e gosto de não saber demasiadas coisas sobre eles. E isto não é porque há uns tempos estava a ter uma conversa.
Mas falas aqui enquanto pessoa.
Enquanto espectadora.
Exato.
Não tem a ver, eles não estão a criar nada, eles simplesmente entregam-se completamente aos seus papéis. E eu quero ir vê-los ao cinema, porque há um gesto. Eu confio no trabalho deles, eu confio no talento deles.
Possivelmente já foste ver filmes que nem sequer conhecias a história e que foste por causa deles.
E eu não sinto que as pessoas tenham de saber tudo da nossa vida. Pelo contrário, acho que é importante haver essa capacidade quando uma pessoa entra no cinema e me vê, ver-me naquele papel, independentemente de conhecer o meu rosto e se foi ao cinema gostar do meu trabalho ou acompanhar-me. Percebes? Acho que isto se consegue conviver tudo. Mas estava eu a dizer, na altura não sentias menos o sucesso, pelo contrário, as pessoas até te abordavam mais na rua, porque não havia esta questão das redes sociais e sentias completamente como te sentes hoje. Absolutamente.
Apegando aí nesse tema que tu falaste, hoje em dia, as pessoas, estando mais presentes ou não, tendo mais canais de comunicação, as pessoas acabam por emitir mais opiniões, pronunciar-se mais. Acreditas que é possível fazer uma separação entre o artista e a pessoa, aquilo que ela defende e aquilo que é a arte? É um tema que tem sido muito debatido, até porque temos pessoas que são extremamente midiáticas, mas que depois as opiniões, se calhar, não concordamos tanto. Tu consegues fazer facilmente essa separação?
Eu acho que cada pessoa expõe o que sente que deve expor. E mais uma vez, acho que não deve haver esta obrigação. Eu tenho uma rede social, eu e muita gente, e percebes os limites. E eu tenho todo o orgulho nisso. Acho que cada qual expõe o que acha que deve expor. E não há aqui julgamentos, não estou aqui para julgar ninguém. E acho que isso é importante. O artista é o seu trabalho e é também a forma como ele olha para o mundo, porque a forma como eu olho para o mundo transparece no meu trabalho, por muito que eu esteja a fazer papéis diferentes. E eu acredito também que por causa disso que me vão buscar para este papel ou para aquele. Exatamente tu como jornalista. Há uma forma de tu olhares para o mundo.
Eu não sou jornalista, mas sim.
Desculpa! Comunicador. Há uma forma de tu olhares para o mundo que faz com que te associem a esta situação ou àquela. Bom, o que eu acho é que as pessoas estão livres de se pronunciar sobre os assuntos ou não, mas têm de perceber, se têm uma imagem pública, que isso tem uma consequência. Ou que isso tem um valor.
Até porque hoje, cada vez mais, fala-se daquela política típica de cancelamento, que é um tema que assusta muitas vezes os artistas, que deixam-se, às vezes, de posicionar ou de falar de temas que se calhar até lhe dizem bastante, mas por respeito ao público ou por não quererem desiludir o público com a sua opinião, acabam por não se pronunciar, não é?
Sim, mas a minha coisa é mais: eu percebo isso. O que eu acho é que temos de ter consciência que a nossa voz importa. É mais fácil de explicar. A nossa voz importa e, portanto, se há assuntos em que nós achamos que a nossa voz pode ter importância, então vamos pensar e vamos falar sobre eles. Há uma coisa hoje em dia que parece que temos de ter todos opinião sobre tudo e às tantas estás a ter opinião sobre coisas que tu nem sabes muito bem. Isso faz-me muita confusão em conversas. Há assuntos que eu ainda não estou suficientemente informada. Já me aconteceu isto em entrevistas. Há uns tempos uma entrevista a falarem-me de um assunto, eu disse: "Olha, sobre esse assunto, eu não considero que tenha informação suficiente para estar aqui a discutir." E eu acho que isto é legítimo, nós não temos de discutir sobre tudo. Agora Também sei que tenho um lado público, há assuntos sobre os quais eu escolho pronunciar, porque acho que é importante ou porque não consigo não o fazer.
E mesmo não te posicionando publicamente, podes ter uma posição e uma opinião sobre o tema. Podes é não fazê-lo publicamente.
Claro. Agora esta cobertura, tudo é político.
Exato.
Não é partidário, evidentemente. Mas tudo é político e portanto, a maneira como nós nos tratamos uns aos outros, a forma como nós agimos em diferentes situações, está a mostrar o nosso ponto de vista sobre o mundo. Também não é preciso ter medo disso. Acho que temos é de ter a consciência sobre o que é que queremos falar. Então, se falamos, assumimos e falamos a sério. A sério, com todo o humor. Quando eu digo isto, não é que temos de ser demasiado sérios. Acho que temos de saber rir-nos muito de nós próprios, as pessoas que se levam demasiada a sério, até acho que pode ser perigoso, mas temos de ter seriedade a falar sobre os temas, isso eu acho que sim.
Teresa Tavares, o que é que tu gostas de falar com os teus amigos? Há bocadinho falaste aí de uma entrevista em que se calhar te fizeram perguntas que tu não estavas tão à vontade sobre temas, mas numa conversa entre amigos, com os teus amigos, do que é que tu gostas de falar?
Olha, gosto imenso de falar sobre filmes. Adoro. E sobre viagens. Gosto de fazer jogos, adoro jogos de tabuleiro. Um bom jogo para mim.
O Monopoly, por exemplo?
Tudo. Todos. Um bom jogo para mim faz-me a noite. Adoro isso. Gosto de ir ao teatro e ao cinema e tudo mais. Gosto muito de jantares. Eu adoro comer. Adoro. Portanto, gosto muito disso tudo. E gosto muito também desta espontaneidade de ires desenvolvendo conversa e uma coisa leva à outra. "Porque eu li este livro", "porque eu conheci este sítio", ou "porque aquela pessoa que teve comigo uma conversa, teve uma reação sobre isto que eu não estava à espera".
Tu és uma pessoa muito de pessoas?
Sim.
Se os teus amigos tivessem de dizer a tua melhor qualidade, qual é que achas que eles iriam dizer? Eu não tenho aqui, não vou poder confirmar, mas gostava de saber.
Vai ser difícil, não sei. Eu acho que tenho uma boa capacidade de escuta.
És a pessoa que é boa ouvinte do grupo, ou seja, tu no jantar és capaz de aconselhar toda a gente.
Não, pois é isso, eu não sou grande conselheira. Eu tenho esta capacidade, que eu acho que tens mesmo de ouvir os outros pra conseguir transformar. Talvez a minha melhor qualidade com amigos, não é a parte de ouvir, é a parte de transformar. Tu precisas transformar a informação pra lidar com ela. Às vezes as coisas são duras.
Descomplicar, no fundo, pode ser isso?
Por exemplo, é descomplicar, mas é ver as coisas sobre outro ângulo. Ok, estamos aqui num berbicacho. Como é que nós damos a volta a isto? Eu acho que sou aquela pessoa que diz: "Espera aí, vamos lá virar isto ao contrário, dar três voltas e arranjar uma maneira de pegar na situação." Eu acho que essa é a minha melhor qualidade.
Vamos ouvir. Estou a brincar, não tenho aqui ninguém.
Não, mas eles se calhar acham uma coisa completamente diferente.
Não, mas agora num próximo jantar, vais ter essa conversa e dizer assim: "Olha, estive no '40 Minutos' da Rádio Observador e o João Costa e Silva perguntou-me: se os meus amigos estivessem aqui, qual seria a qualidade que eles me atribuiriam?" E vai ser giro ouvir as respostas. E depois isso pode se tornar um ritual em qualquer jantar de amigos. Fica a ideia.
E depois vão olhar pra mim e dizer: "Tu disseste isso?"
Não tens mesmo ideia.
Não tens ideia.
Teresa, eu queria também pegar aqui num tema que está muito presente na tua vida: ser mãe. Ter alguém tão perto de ti todos os dias e com certeza transformou a tua vida e até a tua arte, a tua forma de representar também se tornou altamente diferente depois de ter tido esta experiência. A Júlia, qual é a maior aprendizagem que tens tido ao longo destes anos?
É todos os dias, porque as coisas aprendem-se todos os dias, exercitam-se todos os dias, este valor da presença. De estares com o outro, realmente ouvi-lo, realmente transformar, realmente a construir cada momento. Essa é a grande aprendizagem.
E como mãe, neste mundo altamente apressado, sabemos as ameaças, já falámos de algumas delas aqui, qual é a tua grande preocupação? Com certeza, os teus pais também teriam muitas na altura. Mudaram, com certeza, não é?
Eu não sei se mudaram assim tanto as preocupações fundamentais. Os perigos, vou chamar-lhe assim, alguns deles mudaram, certamente, mas as preocupações fundamentais, a minha grande preocupação é que ela seja sempre uma mulher livre e que tenha capacidade de se exprimir pelo que é, sem medo. Portanto, isto é uma coisa muito fundamental. Não sei se mudou muito desde os meus pais ou desde os pais dos meus pais.
A tua mãe também já prezava por isso. Falava vezes sem conta contigo sobre isso.
Falava, sobretudo, sobre uma coisa, era muito giro. Vou dar um exemplo. Quando és miúdo, não sei se tinhas isso, acho que a maior parte dos miúdos têm uma espécie de coisa, quando era mesmo pequenina, aquela coisa das máscaras de carnaval. E eu lembro, na altura também não havia o acesso a máscaras que há hoje. Eu lembro-me que havia um sítio onde se alugava máscaras, onde se ia religiosamente. E eu lembro-me de querer sempre mascarar de fada como as outras miúdas. E da minha mãe me dizer: "Filhota, mas tu queres mesmo ir de fada? É que tu gostas mais daquilo. Tu não tens de ir igual às outras." "Ai, mas depois e se eu não for igual às outras?" "Ó filha, mas é mesmo importante, um dia vais dar valor a isto. Não queiras ir igual às outras."
Isso é tão interessante.
Mas eu lembro desta conversa em particular, eu lembro, por isso é que fui buscá-la. E lembro que acabei por nunca mascarar de fada. E ia escolhendo outras máscaras. E nem eram máscaras assim tão populares, na verdade, porque a fada estava mais na berra ali nos anos 80.
Possivelmente um dia vais ter a tua Júlia a querer se mascarar de fada e essa história vai vir outra vez.
Sabes que eu já tive esta conversa com a Júlia uma vez quando ela estava: "Mas a outra vai se mascarar disto e daquilo", e disse: "Olha A avó dizia sempre isto à mãe e eu lembro da minha mãe uma vez me dizer: "Um dia vais me agradecer. E é isto, não quer dizer que não te possas mascarar de fada, mas mascarar-te mesmo daquilo que tu te queres mascarar." E hoje lembro-me disso muitas vezes e agradeço isso à minha mãe, e já lhe agradeci pessoalmente e também já disse à minha filha.
Fica aqui também essa consideração, até porque ela vai crescer e vai ganhar mundo, não é?
Claro que sim.
E esse ideal de liberdade vai estar sempre presente. Tu estiveste ligeiramente afastada das novelas, agora estás de regresso, estás no ar com uma novela neste momento. Também fizeste duas séries muito impactantes nestes últimos tempos. Aliás, hoje aqui no Observador, enquanto falava com outras pessoas e a dizer que vinhas cá, falámos automaticamente da série "O Arquiteto", que é uma série muito marcante pelos temas que se trata e porque se calhar não estávamos tão habituados, na ficção portuguesa, vamos dizer assim, ver este tipo de temas retratados daquela forma. Foi um trabalho altamente exigente e denso no sentido de que todos conhecemos a história, a inspiração que tem aquela história. Foi um trabalho intenso e altamente desafiante?
Foi um trabalho muito intenso e muito exigente. E mais do que pela história, porque aquilo é livremente inspirado em factos reais, pelo tema. E eu faço questão e, como calculas, em entrevistas falam muito sobre "O Arquiteto". Aliás, é uma série de que as pessoas me falam muito, continuam a escrever-me sobre a série, continuam a ouvir a série, continuo a ter muito feedback. Acho que a grande questão aqui é o tema e o que é tão perturbador é que o tema continua a ser tão atual. O tema do abuso, o tema das mulheres não terem espaço para ter voz, de terem uma voz que muito dificilmente é ouvida, de não sentirem que conseguem dar a volta ao trauma do abuso, é um tema infelizmente muito atual. Aliás, quando nós estávamos a gravar a série, lembro-me perfeitamente, estava a decorrer o julgamento da Gisèle Pelicot, que eu acompanhei, que eu acho que é extraordinária e que acho que é uma das grandes figuras do século XXI, certamente.
De resistência também.
Absolutamente. É um símbolo para todas as mulheres e eu acho mesmo que é uma das grandes figuras do século XXI até agora. Estava a decorrer o julgamento e aquela sua célebre frase: "A vergonha tem de mudar de lado." Em 2025, a Gisèle Pelicot diz isto e a vergonha tem, de facto, em 2024, espera que eu acho que o julgamento ainda foi no final de 2024.
Eu vou confirmar.
Enfim, mas a Gisèle Pelicot ainda diz isto no século XXI: "A vergonha tem de mudar de lado", e isso ainda não é claro para toda a gente. E muitas mulheres não se sentem ouvidas, nem sentem espaço.
Terminou em dezembro de 2024. Quase 2025, foi ali na passagem.
Ainda foi em 2024. O que eu acho que é importante na série é abordar esse tema. É livremente inspirado em factos reais e tu vais buscar uma história que as pessoas podem ter recorrências, mas acima de tudo, eu espero que ponha as pessoas a pensar no trabalho que ainda temos que fazer hoje em dia. Sabes que é uma coisa engraçada, por exemplo, uma coisa que já me disseram muitas vezes, inclusivamente homens, porque eu também recebo muitas reações de mulheres, mas também de homens, acredita. Mas muita gente me diz: "Eu andei tanto tempo a gozar, a dizer aquelas frases, agora é que eu percebi a dimensão."
A dimensão.
A dimensão daquelas, porque às tantas, as coisas descontextualizadas viram uma piada e muita gente me diz isso, que só depois de ver a série é que lhes caiu a ficha de: "Epá, eu andei a gozar, a dizer aquelas frases e aquilo tinha uma dimensão muito grave e muito danosa, na verdade."
Abordar estes temas é sempre altamente desafiante, até porque falamos, e sendo um caso inspirado em factos reais, de vítimas que foram altamente atingidas por isto. Esse é o grande desafio, mas sentes que a ficção, e neste caso a indústria, deve continuar ainda mais a falar destes casos? Porque da mesma forma que estamos aqui a falar sobre isto, tu estás-me a dizer que recebeste mensagens de homens que se calhar não é tão habitual porque não se colocam nestes sapatos, não é?
Não sei. Eu tento ser uma pessoa completamente sem preconceito, mas todos nós os temos.
Sim.
Como eu comecei a receber, quando a série estreou, muitas mensagens de mulheres, pensei que ia ter muito mais esse feedback feminino. E, portanto, se calhar para mim foi surpreendente receber também várias mensagens de homens, porque não estava à espera. Foi preconceito meu pensar: os homens não vão ter essa abertura, não para ver a série, porque eu acho que isso têm, mas para falar.
Exato.
O que eu hei de ir falar com uma atriz?
Podes ver e apreciar, mas daí até enviar uma mensagem e expor aquilo que sentes.
Parece que não, mas é um caminho.
Sim.
Agora, eu acho que a ficção é altamente transformadora. A arte é certamente altamente transformadora, como todos nós sabemos. O Guernica a transformar a guerra. Mas toda a arte é altamente transformadora. A ficção tem esse poder, ainda por cima chega a muita gente, não nos merecendo a uma ideia de entretenimento. O entretenimento bem feito também nos põe a todos juntos a pôr-nos na pele daquelas pessoas. Ou seja, tudo isto são processos transformadores e a ficção certamente pode transformar, pode pôr-nos a olhar de uma maneira diferente para as coisas e, sobretudo, provoca uma coisa que é tão importante hoje em dia. Estávamos a falar que é a questão da empatia. Eu acredito que, no limite, as pessoas vão ao cinema, ou teatro, ou ligam a televisão para se verem a si próprias
Ou para procurarem uma representação delas próprias.
Para procurarem uma representação de si próprias através dos atores. E a partir do momento em que tu tiveres a capacidade de olhar para aquela história, para aquela ficção, teres esse processo de identificação e de empatia com o ator, a atriz, a personagem, no caso, que está a viver aquilo, isso te põe num sítio de escuta, de presença e de atenção que é altamente transformador. Se nós conseguimos fazer isto, já estamos a dar passos enormes.
Mas é preciso ter essa sensibilidade, ou não?
Sim, acho que é preciso ter.
E disponibilidade, no fundo.
Sim, mas eu acho que tem de haver essa sensibilidade. A emoção que eu acho que é a mais importante. Eu estou a entrar aqui por um campo. Bom, a empatia é, de facto, um valor fundamental. Esta questão de conseguirmos gerar empatia, de olharmos para o outro e conseguirmos vê-lo realmente. Porque se o conseguimos ver realmente, ele provavelmente também nos vai conseguir ver realmente a nós, e isso é transformador. Eu acho que a ficção pode colaborar muito para manter esses laços de empatia, que depois tu transportas para a vida.
E daí esse poder que tu acreditas transformador de todas as histórias que participas.
Sim, como os livros também têm esse poder.
Isso é uma coisa que eu ia te perguntar, por acaso tu gostas de escrever?
Eu às vezes escrevo. Eu gosto mesmo de ler.
Qual foi o último livro que leste?
Eu li a tradução para brasileiro, que é "Monique Liberta-se", que é um livro que eu gosto muito do Édouard Louis. Já tinha lido todos os livros dele e faltava-me este, o "Monique Liberta-se", e encontrei a tradução para brasileiro.
Tu tens guilty pleasures, coisas que ninguém sabe sobre ti, que tu gostas imenso?
Tenho imensos.
Mas sempre relacionados com arte ou nem por isso?
Não.
Há coisas parvas por aí?
Guilty pleasures são coisas parvas. Eu também não sinto uma grande culpa.
Então pode sempre falar sobre eles aqui na Rádio Observador.
Não, não vou falar. Mas, por exemplo, imagina, há uma coisa que eu gosto, se eu não estiver a filmar ou ensaiar, ou o que seja, gosto mesmo de sair de manhã, cedo. Eu costumo acordar cedo, até porque a minha filha também acorda cedo e vai pra escola. Sair de manhã e vou à Feira da Ladra, porque eu já morei ali perto e sempre gostei muito de fazer aquilo a pé. E depois vou por aí e levo geralmente só uma mala com livro e com caderno, e vou começando a explorar. A Feira da Ladra é um sítio que eu gosto particularmente para começar, ali às terças-feiras, quando tenho essa hipótese. E vou tirando fotografias, e vou caminhando e vou fazendo o que me vai acontecendo. Geralmente, pelo meio, encontras sempre alguém, vais fazer qualquer coisa que não estavas à espera. E isto depois leva-me aos sítios mais diversos e aos encontros mais inesperados. E esta coisa de fazer um dia em que tu não planeaste, só planeaste o início, que foi: "Olha, vou sair de casa de manhã".
Gostas mais dos dias que não são planeados?
Depende, há dias planeados que eu adoro. Há dias planeados incríveis. Mas gosto muito de ser arrebatada. Sabes, esta sensação de mesmo dentro do planeado. Nós podemos ter tudo planeado. Nós planeámos esta entrevista, tu combinaste comigo, mandaste uma mensagem há bocado para eu não me esquecer da hora, eu estava cá à hora, dá tudo certo.
É verdade, pontualíssima.
E mesmo assim, no meio disto, tu consegues sempre arrebatar. Esse lado passional das coisas. Eu gosto do lado passional das coisas. Tu podes estar a fazer uma coisa toda organizada e há ali um arrebatamento.
E esse é o poder das entrevistas também, é ter tudo planeado e depois a pessoa esquece do que está aqui escrito e está só a conversar. E é o poder da escuta ativa, que falávamos há pouco.
É isso. O que eu gosto mesmo na vida é o arrebatamento. E tu consegues encontrar isso. Tu consegues procurar, eu não acredito muito, tens de te entregar às coisas, senão estás sempre à procura. Mas tu consegues, se estiveres verdadeiramente nas coisas, encontrar isso em tudo.
Quando é que foi a última vez que te surpreenderam?
Que me surpreenderam? Deixa-me ver. Olha, há dois dias, que me surpreenderam. Foi, mais uma vez, uma coisa que não era muito planeada. Combinei com uma amiga, porque eu faço às vezes kickboxing, mas nunca tinha feito box, só kickboxing. E fui com ela treinar com o treinador dela, que é um treinador a sério.
Essa ênfase já conseguimos perceber que foi duro.
Foi duro, mas teve aquela coisa de, e como eu já fiz ou pratico sempre que posso kickboxing, apesar de tudo, é uma modalidade com a qual eu não sou uma pro, mas estou relativamente à vontade. E eu estive lá uma hora com ela e arrebatou-me, porque eu não consegui, de facto, pensar em nada, tal foi a intensidade de tudo aquilo.
Deu para expulsar todos os-
Não, e de repente estávamos mesmo num ringue. Eu também não sabia que ele ia ter um ringue de box na sala onde treino com ela. E foi absolutamente uma hora vertiginosa em que tu te achas só ali. Isso foi surpreendente. É uma coisa pequenina, eu sei. Posso depois falar de grandes surpresas, a minha filha surpreende-me todos os dias com coisas que diz. Tu ficas: "Uau, tu disseste isso?"
Já está nessa fase em que tu própria ficas arrebatada com esse avançar da idade?
Sim.
E a inteligência, não é?
E a perspicácia e às vezes a simplicidade.
Ser perspineta.
E há uma coisa muito gira nos miúdos, que é esta coisa da simplicidade. Às vezes as coisas mais simples são as mais arrebatadoras e são as que mais te levam e que te abrem uma janela nova sobre os acontecimentos. E se tu estás a ouvir com atenção uma criança, eles, de facto, têm São muito espontâneos e às vezes na sua simplicidade dão completamente a volta à questão e tu ficas: "ah, ok!" Isso é muito bonito. Gosto muito disso.
Teresa Tavares, voltando à indústria, muitas mulheres falam sobre o prazo de validade na indústria da ficção portuguesa. Deixa de haver, à partida, papéis para mulheres mais velhas. Tu ainda és muito jovem.
Muito obrigada.
Não vou dizer a tua idade, porque seria ser indelicado. Mas isso arrebata-te de alguma forma? Ou seja, pensas nisso com o avançar da idade, é algo que te vem às vezes à cabeça?
Que bom que tocas nesse tema, porque eu acho que há uns ângulos importantes. É claro que penso nisso, porque em cima de ser atriz, artista, sou mulher, isto tudo tem os seus condicionantes. E há esta questão das idades que de facto pesa muito mais nas mulheres do que nos homens.
Eu lembro-me sempre de uma conversa que tive aqui no "40 Minutos" com a Inês Castelo Branco, em que ela falava dessa ditadura da imagem e em que ela admitia mesmo que é muito mais penalizadora para as mulheres.
É muito mais penalizadora para as mulheres do que para os homens. Há outras coisas, não é só em Portugal, é no mundo inteiro. Basta olhares para a ficção americana. A partir do momento em que lá é assim, quando chega aqui, isto já vem num sítio onde tu estás completamente a correr atrás do prejuízo. Depois há outra coisa que eu também acho que se calhar é importante refletirmos todos, que não é uma questão só da indústria, é uma questão da sociedade. A partir do momento em que a sociedade tem um discurso que só privilegia a juventude e de repente há uma espécie de ideia de que a beleza está só associada à juventude. Isso é um ponto de vista, não vou dizer que é verdade ou é mentira, mas é um ponto de vista. E de repente, quando a sociedade só privilegia a juventude, quando nas redes sociais tens 30 filtros para pareceres mais nova, como se mais nova fosse sinónimo de ser melhor, mais interessante, mais perspicaz, mais bonita, mais tudo. Depois claro que isso traduz para a ficção. O que eu quero dizer é que a pressão é muito maior para as mulheres, porque na vida a pressão é muito maior para as mulheres. E não é uma coisa só da ficção, é uma coisa que nós temos de pensar e trabalhar no nosso mundo.
Mas isso não acaba por ser um contrassenso, tendo em conta aquilo que nós estávamos a falar há bocadinho, que é: as pessoas vão ao cinema, veem ficção, novelas, séries, para tentar encontrar uma representação de si próprias. Não é um contrassenso? E aqui falo em relação à indústria.
Eu percebo-te, mas acho que as pessoas vão à procura disso para encontrarem um eco das suas próprias emoções.
Sim.
E de situações e tudo mais. Mas primeiro a imagem que nós temos de nós próprios já é deturpada.
Sim.
Ou seja, a forma como eu me vejo é diferente da forma como tu me vês. Onde é que está? Isto muda, não é? Cada um de nós tem um olhar particular.
Por isso é que não achamos tudo bonito. Sabemos bem disso. Cada um tem os seus gostos.
Exatamente. E depois, o que eu acho que acontece é: a sociedade tem este grau de exigência e há uma valorização de uma ideia de juventude generalizada. Portanto, as pessoas também ficam mais confortáveis quando veem no ecrã uma imagem de juventude. Há uns tempos estava a ler um texto.
Mas por quê?
Eu acho que é porque provavelmente o retrato que estão a ter não é o retrato exatamente que corresponde a elas, mas uma projeção. Mesmo que esteja a passar pelas mesmas emoções e tudo mais, há uma projeção que está mais de acordo com a norma. E aí eu acho que é uma questão muito difícil das redes sociais, que é fazer norma das coisas. Como se fosse normal ser assim ou normal ser assado. Na verdade, tu estás a engavetar muito mais as pessoas hoje em dia.
E isso por si só pode ser já, entre aspas, um preconceito.
E a criar muito mais preconceito. Eu acho mesmo que nós devemos ter mais diversidade a todos os níveis, na nossa televisão, no nosso cinema, no nosso teatro. Também acho que ao nível das idades, com certeza, eu acho mesmo que se devia escrever mais histórias para mulheres de 50 ou 60 anos. Agora pergunto-te: no mundo onde tu vives, pelo contrário, havia uma ideia antigamente que com a idade tu ganhavas uma certa sabedoria. Isto está a ser completamente desvalorizado. Isto é o fast food da vida.
Até porque nós estamos a ter uma população cada vez mais envelhecida.
A que tu não ligas porque temos é de estar todos mais novos. Depois se pensares no grande contrassenso disto tudo, é toda a gente querer viver tantos anos e toda a gente querer ter sempre a mesma cara. Eu não estou a criticar, juro. Mas isto é um contrassenso.
Sim.
Queremos todos viver para sempre, mas todos com a mesma cara. Eu no fundo acho que isto são ferramentas perigosas, porque somos nós a tentar controlar o mecanismo da vida. E isso é perigoso. Agora, que é mais duro para as mulheres, sem dúvida, que a questão do envelhecimento é uma questão que tem de ser pensada eticamente, porque mesmo que tu possas fazer, do ponto de vista físico, alterações. E eu não estou a criticar, cada qual faz as suas escolhas. Tu não estás a evitar um processo de transformação que a idade te traz.
Estás só a adiar.
E não estás sequer a adiar do ponto de vista interior. E como não estás a adiar do ponto de vista interior, estás a ter as mesmas consequências interiores, só que estão camufladas. Portanto, isto tem de ser uma coisa profunda. Agora, acho que é muito mais duro para as mulheres e acho que de facto aí é escrever mais histórias para mulheres mais velhas. É também olhar de outra maneira. Tu pensas sempre no amor e endeusas a ideia de amor nas pessoas jovens. Ai, o primeiro amor! O primeiro amor é ótimo, atenção. Mas então Se tu começares a valorizar e teres mais ficção, mais narrativa de amores que não são o primeiro, nem o segundo, nem o terceiro, são o 11º, quando tu tens 50 anos, e se de repente encontrares histórias desse amor arrebatadoras, vais chamar as pessoas para as ver. Acho que é uma coisa muito grave e muito mais pesada para as mulheres. E não é só na ficção, é na vida. Tu também és menos tolerante com as mulheres na vida. As mulheres têm lutado muito para conquistar o seu espaço.
Mas até mesmo as mulheres com as mulheres, no sentido da tolerância, não só os homens com as mulheres?
Sim, eu acho que a sociedade com as mulheres é muito menos tolerante. Tu tens de mostrar muito mais para chegares a determinados lugares. As mulheres e os homens ainda não ganham a mesma coisa nos mesmos cargos.
Tu sentiste isso em alguma parte da tua carreira, já com 25 anos?
Eu vou ser sincera. Na nossa área, curiosamente, embora haja essa diferença, e já tenha sentido nalgumas coisas essa diferença, não é das áreas mais gritantes, porque às vezes tu consegues chegar a um sítio em que tens mulheres que conseguem conquistar um estatuto, vamos chamar assim, um lugar. Estatuto é uma palavra que eu não gosto nada, mas um lugar que as põe taco a taco com os homens. Mas tendencialmente, na sociedade toda, um homem e uma mulher a fazerem a mesma coisa, os homens ganham mais. Porque isto é um processo de transformação que leva muitos anos, foram muitos séculos disto.
A tua avó, possivelmente, não falava destas coisas, mas já estava a entender essa questão.
Já estava a entender isso. Na Arábia Saudita, que era o último país onde as mulheres não podiam conduzir, só passaram a poder conduzir em 2018. Ou seja, foi há muito poucos anos. Nós estamos a conquistar. Há muitas jovens no mundo que ainda não podem estudar porque são mulheres. É um processo muito duro de conquista e o mundo é muito mais exigente para as mulheres. Mas as mulheres também têm aqui um papel fundamental e acho que temos de estar muito atentas. E acho que é um papel de todos, dos homens e das mulheres, porque a igualdade é boa para todos. Não é só para nós, é para toda a gente. Mas temos um longo caminho pela frente. Sim, mas é mais duro para nós, em envelhecer também.
Falaste aí de histórias que faltam ser escritas. Se eu te desse agora um papel e um lápis para anotares algumas delas, terias alguma ideia na cabeça de histórias que fazem falta serem representadas em televisão ou numa série ou até no cinema, por exemplo?
Eu não sou escritora, portanto, eu tenho imenso respeito, porque o meu namorado é argumentista. Imenso respeito pelo trabalho de cada um.
Teria de estar aqui também, não é? Entrava agora nesta parte da conversa.
Mas acho que temos muitas histórias pessoais. Sabes, esta ideia das histórias do dia a dia que são realmente transformadoras. E dar o devido valor a essas histórias é o que eu acho que é importante. E ser aberta a isso ao nível das faixas etárias, ao nível dos temas que tu abordas e abrir porta também a abordar temas que não são tão consensuais e que geram discussão. Eu gosto de sair de um filme a discutir aquele tema, ou de um espetáculo, a discutir aquele tema. Eu gosto que a ficção me levante questões. Eu gosto que aquilo seja transformador nesse nível. Eu agora vou resolver isto, eu não fico necessariamente confortável. Hoje em dia também vivemos numa sociedade onde se está a privilegiar, acima de tudo, esta ideia de conforto, de estar sempre confortáveis. Não existe dor. Não, eu lamento informar, mas existe dor e existe também desconforto. E é da capacidade de lidarmos com essa dor e com esse desconforto que nós transformamos as coisas e que nós transformamos o mundo também. Portanto, às vezes também há cenas que nos impactam, ou mesmo que tu vês, de repente, na vida real, certamente, mas também na ficção, que te impactam ou que te deixam desconfortável, e isso também faz parte. É preciso isso para nós conseguirmos ter um olhar sobre as coisas e para conseguirmos transformá-las. Se nós estamos sempre supertranquilos e nada nos afeta, alguma coisa não está bem.
É preciso agitar as águas às vezes um bocadinho.
E é preciso permitirmos que as coisas nos afetem.
Estarmos disponíveis também para isso, não é?
Sim, e é aí que o scroll pode ser perigoso.
O comodismo leva a isso mesmo, não é? O scroll que tu falavas, estarmos confortáveis em nossa casa.
Porque depois tu já não estás a ver nada. E eu não estou com isto a julgar. Eu também faço scroll, fazemos todos, mas eu acho que é preciso estar consciente dos perigos desta ferramenta e que o tempo que eu estou aqui, que não estou a ver nada, que estou só a ganhar uma tendinite. E olhem que tendinite é um problema para o futuro.
Eu acho que vamos ser todos. Já ouvi falar em pessoas que eventualmente vão ficar com dedos deformados pela forma como pegam no telemóvel e acredito que isso vá acontecer.
E acredito, e certamente já aconteceu enquanto nós estamos a falar, mas acima de tudo é: o que nós queremos fazer com a nossa vida e com o nosso mundo? Quem é que manda? Sou eu ou é o algoritmo? Sou eu.
O poder está sempre em nós.
O poder está em nós. E esse resgate desse poder é que é importante e que é uma ferramenta que eu acho fundamental. Em nome da liberdade, em nome da igualdade e, olhem, no limite, eu acredito, em nome da felicidade.
Teresa Tavares, para terminar, o que te inquieta?
Ai, tudo.
O que há nesse tudo?
Inquieta-me, mas também me apaixona, porque as coisas têm sempre os dois lados da moeda. O mundo que é imprevisível, que eu acho que é fascinante, mas que oferece tantos perigos. Claro que me inquieta o futuro da minha filha, obviamente. Tudo isso inquieta-me e assumo essa inquietação e trabalho com ela e faço o que posso para tornar as coisas melhores ou, diria eu, mais justas.
Um exercício diário, como falávamos no início.
Absolutamente.
Todos os dias.
Todos os dias, de manhã à noite e também quando se está a sonhar.
Teresa Tavares, muito obrigado por teres vindo ao "Em 40 Minutos". Uma grande conversa. Obrigado.
Obrigada.
Muito sucesso. Até breve.
Até já.