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Recordo que um homem de esquerda, sem a mínima dúvida, mas um homem que era capaz, na sua zona ideológica, de ser um verdadeiro democrata, um respeitador dos direitos humanos. Eu lembro a plataforma de integração dos estudantes sírios, com quem a Câmara de Sintra trabalhou com o seu plano de acolhimento e integração de migrantes. Lembro-me agora com a crise do Afeganistão, do que aconteceu na retirada dos Estados Unidos do Afeganistão. Eu peço desculpa, estou bastante emocionado. Eu quero pedir desculpa, porque estou realmente emocionado.
Obviamente que todos compreendemos que é um momento difícil também para si nesta altura.
Repare, na minha primeira candidatura a Sintra, o número um da minha candidatura de apoio, da Comissão de Honra, chamava-se Mário Soares. O número dois era Jorge Sampaio e o número três, o Diogo Freitas do Amaral. Já morreram os três. E tudo isto me deixa muito perturbado pela vulnerabilidade. Mas agora há momentos que marcam em relação ao Jorge Sampaio, há realmente este momento de amizade, de profundo respeito. Era um mestre dos direitos humanos, era um mestre da democracia, era um mestre do equilíbrio entre a liberdade e os direitos sociais. Era realmente uma pessoa que merecia ser ouvido com respeito. E eu sempre o fiz. Estava o doutor Cavaco Silva do outro lado, o CDS tinha apoiado o doutor Cavaco Silva nessa altura.
Mas Basílio Horta, pedia-lhe só que retomasse dez segundos atrás o seu raciocínio. Tivemos aqui um pequeno corte, mas que retomasse aqui o raciocínio.
Com certeza. Não estava a dizer que o doutor Jorge Sampaio era realmente um homem de esquerda. Mas era um sinal, era um homem, era um verdadeiro representante da defesa dos direitos humanos, era um verdadeiro representante do equilíbrio entre a liberdade, intransigente defensor da liberdade, mas também dos direitos sociais, intransigente defensor do princípio da igualdade de oportunidades, do princípio do combate às injustiças, de uma sociedade mais justa, onde houvesse paz nas ruas e paz nas consciências. Ele era realmente, mesmo para um homem como eu, que não sou de esquerda, sou um democrata-cristão. Por isso também não sou de extrema-direita, sou um democrata-cristão. Era uma referência. Nós podíamos divergir em muita coisa, fundamentalmente na raiz da nossa ideologia, mas encontravamo-nos muito nesta necessidade de que a democracia fosse também uma maneira de viver, uma maneira de construir uma sociedade em que o desenvolvimento fosse integral e inclusivo. Ele era um grande defensor desta ideia, e não só defensor, era um praticante desta ideia. E portanto, o doutor Jorge Sampaio é uma referência obrigatória no meu passado e será sempre uma referência obrigatória na minha atuação política.
Falava também no plano político, do fato de Jorge Sampaio ser um homem claramente de esquerda. Com Basílio Horta não é bem assim. E onde é que se encontravam também, qual era o ponto de equilíbrio nessa relação desses apoios políticos entre alguém mais ligado à direita ou centro-direita e também alguém do centro-esquerda e da esquerda em Portugal?
O ponto de equilíbrio imediato era o respeito pelos direitos humanos e pela integração dos migrantes. Ou seja, nós temos em Sintra um plano de integração e de acolhimento de migrantes, que é um programa exemplar líder a nível da Comissão Europeia, da União Europeia e do Comitê das Regiões. Bom, esse é um ponto de encontro. Nós também achávamos como o doutor Jorge Sampaio, que as pessoas, por terem uma cor diferente de pele ou por terem uma religião diferente, não merecem menos respeito que todas as outras. E que este princípio é um princípio fundamental do humanismo e que sem humanismo não há nenhuma doutrina que possa ser democrática e não possa nenhuma liberdade agir em paz, não é possível. E isso era um ponto de encontro imediato. E depois na defesa intransigente da liberdade, na diferença e nos direitos sociais. Talvez em relação aos direitos sociais e ao papel do Estado, o doutor Jorge Sampaio tivesse uma ideia mais interventiva e de um Estado com maior poder de intervenção e com uma maior subordinação dos interesses privados ao Estado. Talvez eu não vá tão longe, não iria tão longe como ele foi em muitos momentos, mas acredito, e a plataforma de entendimento também era essa. Ou seja, o interesse coletivo, o interesse comunitário, o interesse da comunidade deve prevalecer sobre os interesses egoístas, isso não há dúvida. Agora, a forma de o fazer e os casos se verifica, aí poderíamos eventualmente não estar sempre de acordo. Mas era um mestre. E realmente, eu há pouco dizia e repito, quando foi a minha primeira campanha em Sintra, ele, sintrense de gema e ilustre sintrense, ele e a família. Disse-me logo: "Olha, eu estou contigo". E foi assim, número um era o doutor Soares, número dois, doutor Jorge Sampaio e o número três, o Diogo. E como há pouco dizia, morreram os três. E à medida que o tempo corre, os desgostos de quem parte vão se acumulando. Há pouco tempo foi o doutor Jorge Coelho, outro grande amigo, com o doutor Jorge Sampaio. É a vida. Mas o doutor Jorge Sampaio deixa um legado que ainda não está convenientemente estudado, porque o legado do doutor Jorge Sampaio é um legado complexo, vivido. Quando ele vai a primeira vez à Câmara de Lisboa, faz o primeiro acordo com a extrema-esquerda. É verdade que o faz. Se pergunta: você concorda com esses acordos? Não, realmente, efetivamente, não. Mas era a maneira de ser dele.
Bom, ficamos agora momentaneamente sem som. Estávamos aqui com alguns cortes. Basílio Horta, pedia-lhe só que finalizasse também essa ideia. Tivemos mais uma vez aqui um corte, mas para finalizar também esse depoimento.
O doutor Jorge Sampaio deixa um legado que merece ser seguido e fundamentalmente, que merece ser estudado. Acho que o Partido Socialista, todo o Partido Socialista hoje está de luto, mas não é só o Partido Socialista que está de luto. Todos os amigos do doutor Jorge Sampaio, os que aprenderam e viveram com ele, estão com um profundo desgosto. É tudo.
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