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Muito bom dia. Aqui vamos nós para uma emissão especial. Diogo, passaram 70 anos desde a última vez que o Reino Unido e o mundo assistiram à coroação de um monarca, na altura uma monarca. De 1953 para 2023, mantém-se a pompa e circunstância, mas nem tudo vai ser igual. Carlos III, o novo rei, convidou menos pessoas para a celebração, que começa daqui a sensivelmente hora e meia. Ainda assim, vão ser mais de 2 mil convidados a marcar presença. Pouco antes das 10h30 já deve ser possível ver o rei e a rainha a caminho da Abadia de Westminster. De resto, já temos aqui alguns convidados, algumas celebridades que já chegaram, o caso de Nick Cave, que vai atuar, e também da atriz Emma Thompson, mas sobre isso já lá vamos.

E o próprio rei, a própria rainha, já chegaram a Buckingham, já foi possível vê-los nas transmissões televisivas. Chegaram de carro, sorridentes, a acenar aos milhares de pessoas que por esta altura se concentram em Londres para assistirem a esta celebração. Depois de saírem do Palácio de Buckingham, vão fazer esse caminho que começa precisamente no palácio e passa por alguns dos cartões-postais mais conhecidos de Londres, a Avenida The Mall, o Aldermarati Arch e o Parlamento Britânico. Às 11 deve começar a celebração, que chega ao ponto alto uma hora depois, momento em que a coroa de Saint Edward vai ser posta na cabeça de Carlos III pelo Arcebispo da Cantuária.

Ao longo de toda a nossa emissão especial, vamos contar com os comentários e análise do Bruno Vieira Amaral, do Bruno Cardoso Reis. Temos também conosco Isabel Amaral, especialista em protocolo, Eduardo Alves Marques, especialista em joias da coroa, e o Dom Jorge Pina Cabral, líder anglicana em Portugal. A nossa Rita Camarneiro também vai estar conosco ao longo de toda a manhã para nos ajudar a perceber a questão do styling, do dress code.

Saber se o dress code está a ser cumprido.

Cumprido. De resto, até já temos algumas celebridades para comentar, mas já lá vamos. A repórter Diana Rosa será os nossos olhos e os nossos ouvidos em Londres. Eu sou a Catarina Miranda, comigo está o Diogo Teixeira Pereira. A partir de agora, então acompanhamos a coroação do Rei Carlos III com uma emissão especial aqui na Rádio Observador. Venha daí conosco.

As próximas horas também vão ser ilustradas com este som que estamos a ouvir. É o som ambiente que nos chega de Londres, Londres que está em ambiente de festa desde bem cedo. Já há muito movimento na capital britânica. Vamos, por isso, estabelecer o primeiro de muitos contactos com Londres ao longo desta emissão. Diana Rosa, ainda falta uma hora e meia para o início da celebração na Abadia de Westminster, mas de facto já há muita gente na rua.

Mesmo com chuva torrencial a esta hora. Aliás, posso dizer que está previsto que chova durante todo o dia, portanto vamos ver se vai ser ou não uma coroação abençoada. Há milhares de pessoas na rua, aqui junto ao Palácio de Buckingham. Estou aqui desde 05h30 da manhã e a essa hora já não cabia uma agulha, como se costuma dizer, aqui nesta zona. Para além dos milhares de pessoas que nos últimos dias já ocupavam o The Mall, a avenida em frente ao palácio, esta noite o metro de Londres esteve a funcionar ininterruptamente, o que fez com que as pessoas continuassem a chegar aqui a toda hora. A noite foi de chuva e por isso vêm com sacos de plástico para se sentarem no chão ou com pequenas cadeiras daquelas que recolhem e trazem comida e bebida. E o mais curioso é que, apesar das regras apertadas de segurança, a polícia não consegue fiscalizar as malas de toda a gente, portanto é também um ato de fé que tudo corra bem. Há pouco, as autoridades falavam de uma expectativa de oito milhões de pessoas aqui em Westminster. Ora, se tivermos em conta que Portugal tem 10 milhões de habitantes, imaginem o que é ter um país inteiro nesta zona que fica entre o Palácio de Buckingham e a Abadia de Westminster. Estamos a falar de uma distância de pouco mais de 1 km.

Diana, vamos olhar para a agenda. O que está previsto para as próximas horas?

Deixa-me dizer que apesar de estarmos a uma hora e meia da saída de Carlos pelo portão do Palácio de Buckingham, os convidados que vão estar presentes na Abadia de Westminster tiveram de acordar bem cedo, porque na agenda estava indicado que tinham de chegar a esse local da coroação pelas 07h30 da manhã, portanto este dia já começou para alguns. Já quanto ao Rei Carlos III, às 10h20 da manhã vão abrir-se os portões aqui do Palácio de Buckingham para dar início à procissão do rei, um cortejo que vai percorrer toda a avenida, o The Mall, com cerca de 1 km de comprimento. Depois desce-se por Whitehall, onde passa à frente da residência do primeiro-ministro britânico, em Downing Street, e desce-se até ao Parlamento e depois para na Abadia de Westminster, onde vai entrar às 11h da manhã. Dentro da abadia esperam mais de 2 mil convidados para ver a coroação, que vai ter cinco momentos: o reconhecimento, depois o juramento, em terceiro lugar a unção, depois, sim, a coroação propriamente dita e no final, o momento em que o rei e a rainha consorte se sentam no trono. A coroação, que termina à 13h, hora em que Carlos e Camila regressam lentamente pelo mesmo trajeto até ao Palácio de Buckingham e às 14h30 espera-se então o momento em que o núcleo duro da família real sobe à varanda do palácio. É a primeira vez que Carlos III vai a esta varanda acenar à população já oficialmente como rei coroado e onde vai, de resto, assistir ao espetáculo aéreo de seis minutos com três aviões das Forças Armadas a pintar os céus de Londres com as cores da bandeira do Reino Unido.

Diana, nenhum de nós aqui tem idade para se lembrar da última coroação, foi há 70 anos, mas de certeza que conseguimos comparar este dia com aquele em que Isabel II foi coroada e prestou juramento. Quais são as principais diferenças e semelhanças?

Em termos daquilo que é a agitação do povo, eu posso dizer que não estive presente na coroação da Rainha Isabel II, mas pelo que pude ver e comparar, a população britânica, principalmente, está muito mais tranquila desta vez. Não há uma agitação tão grande, não há um êxtase tão grande como se via na coroação de Isabel II. No entanto, esta é uma cerimônia que se diz mais comedida, mas há um detalhe curioso, porque se formos converter para os dias de hoje, para sabermos quanto o Reino Unido gastou com a coroação de Isabel II, estamos a falar de 23 milhões de euros atualmente. Ora, esta coroação de Carlos III, obviamente, não se limita só a este momento na Abadia de Westminster, na verdade, são vários dias de festa, uma festa que vai custar entre 50 a 100 milhões de euros e vai ter 2200 convidados dentro da abadia, em vez dos 8 mil que a Rainha Isabel II levou. A cerimônia da coroação de Isabel II teve também a duração de três horas. Esta vai ser um pouco mais curta. Podemos contar com perto de duas horas.

Diana, chegaste a Londres na quinta-feira e deu certamente para perceber que esta é uma celebração que envolve muitos riscos. Nota-se muito o dispositivo de segurança?

Cada vez mais. Se na quinta-feira ainda estava tudo muito tranquilo, ainda se podia circular por todo lado, à medida que os dias foram passando, foram-se cortando ruas ao trânsito, principalmente, foram aparecendo mais agentes nas ruas de Londres e hoje toda esta área de Westminster, que abrange vários quarteirões no centro de Londres, está completamente cortada. Durante este fim de semana de coroação, a cidade vai contar com quase 30 mil agentes na rua, uma operação liderada pela Polícia Metropolitana de Londres, sendo que só no dia de hoje haverá pelo menos 11 polícias na rua, tanto das forças policiais como das Forças Armadas. Eu lembro que há aqui manifestações a acontecer, são esperadas aqui manifestações no dia de hoje, não no perímetro do cortejo, mas na Trafalgar Square e também na Piccadilly Circus, que fica a cerca de 2 km aqui do Palácio de Buckingham. As autoridades, apesar de tudo, não descartam também desacatos ou mesmo um possível ataque terrorista. É algo que não está fora das preocupações, até porque estão cá muitos chefes de Estado, incluindo o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que nos vai representar, representar aqui Portugal. Portanto, todo o cuidado é pouco e há que prevenir todas as situações que possam acontecer.

Vamos ao longo desta manhã fazer várias ligações a Londres com a repórter Diana Rosa. Para já, damos apenas notas, Catarina, dos ilustres convidados que já estão a chegar à Abadia de Westminster. Já conseguimos ver, como dizias há pouco, Nick Cave. Está também Katy Perry, Lionel Richie, são alguns dos convidados que já estão na abadia e que vão também atuar amanhã no concerto da coroação. Teremos certamente oportunidade para falar sobre isso mais daqui a pouco. Emma Thompson também já chegou e é, para já, uma das pessoas mais animadas desta festa.

Aliás, há pouco, a Isabel Amaral tem até uma história para partilhar, se calhar em off, com a Emma Thompson, mas nós já nos habituámos a ser uma pessoa muito descontraída, para além de ir com um vestido preto, mais ou menos na zona do joelho e um casaco com flores vermelho, lindíssima, mas de resto rica camarneiro.

Bom dia. Bom dia, Catarina. Bom dia, Diogo. Bom dia a todos, todo o auditório. Eu pensava que o vestido era azul-escuro. Será azul-escuro ou preto?

Eu estou convicta que é preto, das fotografias que eu vi parece preto.

Eu pensava que não se podia usar preto na coroação.

Eu também tinha essa ideia, mas se calhar a Isabel daqui a bocadinho vai ajudar-nos.

Acho que não. Bom dia a todos. O dress code é bastante informal, ao contrário do que tem sido ou que foi na coroação da rainha e portanto há diversos dress codes para parlamentares. Para os convidados, eu penso que era fato escuro e vestido. O preto, não sei se o vestido era completamente preto.

Pois, deve ser assim um azul-escuro, não é?

É capaz de ser um azul-escuro, mas ela não tinha só o vestido, tinha mais.

Exatamente, tinha.

Não ia com ar de luto.

Já se fosse toda preta é que podia transmitir luto.

O Nick Cave é que está um bocadinho com-- pois, mas ele já nos habitou a esse semblante. E também não deve ter sido fácil esta última semana, com uma onda de críticas pelo facto de ele ir atuar, tendo em conta que há uns anos, mas depois se calhar o Bruno Vieira Amaral. Bruno, bom dia, também vais falar sobre isso, sobre as atuações e o facto de tanta gente ter dito não. O Nick Cave disse que sim, foi alvo de críticas. Parece que há uns anos foi completamente contra e agora, de repente, vai estar a atuar nesta coroação do Rei Carlos III. Mas como ele próprio disse: "Eu era jovem e nós quando somos jovens fazemos e dizemos coisas".

Somos revolucionários e tornamo-nos conservadores com a idade. Provavelmente foi isso que aconteceu ao Nick Cave e diria eu, ainda bem. Vamos já a esses detalhes todos e mais à frente da nossa emissão, vamos tentar olhar para todo o dress code para saber se está ou não a ser cumprido. Já lá vamos. Mas antes, Isabel Amaral, eu tenho uma curiosidade: como é que é possível que tantos séculos depois desta história ter começado, ainda haja tantas pessoas a interessar-se por ela?

Eu acho que é o fascínio das pessoas por uma espécie de conto de fadas. Para além de ser uma monarquia milenar, tem tanta história, tanta tradição, mas ao mesmo tempo tem se conseguido adaptar. E nós vimos ontem o rei e os príncipes de Gales a saírem e irem cumprimentar. O rei tem aquele dom de saber falar com todas as pessoas, que a mãe não tinha, e ter este gosto de se aproximar das pessoas, ter estado muito à frente do seu tempo quando começou a alertar para as questões climáticas. Eu acho que a popularidade do Rei Carlos III aumentou e as pessoas estão fascinadas também, não é só pelo fato de ser um dia histórico pra Inglaterra, mas também por toda esta imagem destes regimentos com aqueles uniformes fabulosos, toda a beleza da cerimônia, a pompa e circunstância. No protocolo, há sempre uma preocupação entre a tradição e a modernidade, como é que vamos manter interessados os jovens em cerimônias que, às vezes, eu própria, que sou presidente emérita da Associação Portuguesa de Estudos de Protocolo, acho maçadoras e acho que já não têm sentido.

Mas penso que foi agora também uma preocupação nesta coroação de tornar o ambiente um bocadinho mais descontraído.

Muito mais descontraído e, sobretudo, para as pessoas que se preocupam, como eu acho que não há ninguém neste mundo que não se preocupe com a sustentabilidade. Os reis tiveram o cuidado de renovar peças, mantendo as cadeiras históricas, mas mandando restaurar e arranjar. Esta preocupação toda que nós vemos de terem coroas que já foram usadas em coroações anteriores e mantos e tudo. Eu acho que isto faz com que as pessoas estejam, como vimos ontem, a ser entrevistadas, vêm de todo lado, pessoas velhíssimas e que estão ali a dormir incômodas, à chuva, mas querem assistir. E quando ontem houve aquela aparição do rei e dos príncipes, aquilo foi o sonho para aquelas pessoas todas e via-se a tirarem selfies, que nunca ousariam fazer com a rainha, mas com esta geração já é mais fácil. É a única monarquia com esta cerimônia sagrada da unção, o rei ainda é ungido. Os reis em Portugal eram aclamados, nem sequer eram coroados. Eu acho que é isso que atrai as pessoas. As notícias são tão tristes hoje em dia e, de repente, eles estão metidos dentro de um conto de fadas e fazem parte e sentem-se participantes.

E se calhar a série "The Crown" também aproximou e fez com que, eventualmente, até outras pessoas que se calhar não tivessem tanto interesse, ficassem fascinadas e quisessem até saber mais.

Ajuda muito. Eu acho que essas séries ajudam a criar esse fascínio pelo passado. Eu vivi em Inglaterra durante um ano e os ingleses viviam entre, no fundo, o fascínio do passado e o horror de certos rituais que achavam fora de moda e também eram os mais modernos. E hoje eu acho que deverá haver, com certeza, algumas manifestações, porque nem todos são monárquicos.

Já houve detenções de líderes do movimento republicano.

E havia zonas também, segundo sei, Brixton, nem sequer havia uma única bandeira, é como se não existisse hoje nada, nenhuma coroação, passou completamente ao lado. Bruno Cardoso Reis, entretanto, também já chegou. Bem-vindo. Há várias monarquias na Europa, mas nenhuma parece despertar tanto interesse como a britânica. Por exemplo, em Portugal, a espanhola até acaba por estar mais próxima de nós. Como é que isto se justifica?

Olá, bom dia. Pela história. Ou seja, pela história e talvez pela economia também. Acho que não é uma coincidência que os países mais ricos da Europa, boa parte deles são monarquias, e se quisermos, todas as monarquias na Europa são dos países mais ricos. A Espanha é talvez, apesar de tudo, a exceção. Começamos o século XX, basicamente até 1918 havia três monarquias na Europa, atualmente há 12. Peço desculpa, até 1918 havia três repúblicas na Europa, sendo que Portugal só era uma república desde 1910. Obviamente, durante grande parte da história, não só na Europa, mas em todo o mundo, o que predominava eram realmente as monarquias. O que é que mudou? Bem, por um lado, mudou a própria sociedade, a economia. Durante grande parte da história, não só os reis, mas basicamente toda a gente herdava o patrimônio, o estatuto, a ocupação do pai. Era normal um ferreiro ser filho de um ferreiro, um carpinteiro ser filho de um carpinteiro, e o rei ser filho do rei. De facto, com a revolução industrial, com a urbanização, tudo isso começou a mudar. Atualmente, as pessoas só herdam patrimônio, que eu acho que também tem a sua importância. Ou seja, só herdam riqueza, mas, por regra, as coisas são um pouco mais livres. Na verdade, na Europa, como na maior parte do mundo, o grande elemento de mudança de regimes foi a guerra, até mais do que as revoluções ou que eleições ou referendos. Em termos de monarquias europeias, as que foram alteradas por referendo foi a grega e a italiana. Mas mesmo a italiana, por exemplo, na sequência da Da Segunda Guerra Mundial e da associação com o fascismo. Mas realmente os grandes momentos, as duas grandes vagas de criação de repúblicas na Europa são a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. Isso é que altera muitas coisas. Fora da Europa, essas mudanças têm, sobretudo, a ver, por um lado, com a colonização e com a descolonização. Ou seja, muitas monarquias tradicionais nativas foram conquistadas e destruídas pela expansão colonial. Nós também tivemos aí a nossa cota parte, Portugal. Por exemplo, no caso britânico, os britânicos até cooptaram muitas monarquias nativas, só que isso muitas vezes também levou com o processo de independência, a essas monarquias serem deslegitimadas, por exemplo, na Índia, todos aqueles marajás. E por regra, de fato, na descolonização, optou-se, não só as antigas potências coloniais, mas os próprios movimentos independentistas optaram por regra por não restaurar os antigos Estados nativos, que eram por regra monarquias, mas manter as fronteiras coloniais. Isso levou a que, de fato, mesmo fora da Europa, hoje em dia as monarquias também já são uma exceção. Temos 43 monarquias no mundo, são volta de 20, 22% do total dos Estados. Há esta frase famosa que é atribuída ao rei Faruk do Egito, que foi deposto por uma revolução, que é um processo que também existiu, por um golpe de Estado e uma revolução no Egito, um golpe nacionalista. Mas o rei Faruk dizia: "Quando chegarmos ao fim do século XX, só vai haver cinco monarquias, que é o rei de Espadas, o rei de Copas, os quatro naipes e depois o rei de Inglaterra". Ele achava que a Grã-Bretanha seria uma exceção. Realmente, nas monarquias europeias, muitas delas tinham muito este elemento eletivo. Algumas eram mesmo eletivas. Aliás, ainda temos uma monarquia eletiva na Europa, que é o papado. O rei era eleito pela sua vida. Em muitos casos, acabava por ser por tradição dentro de uma mesma família, mas, por exemplo, Polônia, o Sacro Império Romano-Germânico, eram monarquias eletivas importantes, mas não havia assim tantas cerimônias de coroação e portanto, este lado mais sagrado, realmente é algo que eu acho que ajuda também a explicar um pouco a magia especial.

Eu creio que na Europa não existe mais nenhuma.

Atualmente não existe mais nenhuma.

Essa coroação.

Existem algumas monarquias ainda com essa dimensão muito forte religiosa na Tailândia e no Japão, mas de fato, na Europa não existe mais nenhuma. As grandes monarquias históricas eram realmente o Sacro Império. Aliás, até se pensa que as próprias cerimônias de coroação britânicas terão sido inspiradas nas cerimônias de coroação imperial. Por exemplo, o rei Guilherme I, o Conquistador, que é o primeiro que é coroado aqui em Westminster em 1666. Bem, é o segundo, mas enfim, o outro foi rapidamente posto por ele, portanto, não interessa muito, mas, por exemplo, ele fez questão de ser coroado no dia de Natal, que obviamente a primeira grande coroação na Europa no dia de Natal é do Carlos Magno, o primeiro imperador do Sacro Império Romano, restaurado depois da queda de Roma. Havia, sim, o Sacro Império, mas esse é extinto pelo Napoleão em 1806. Depois tínhamos a monarquia francesa, em que a cerimônia de coroação era conhecida, aliás, como sacre. Era a sagração, era uma cerimônia também com fortes dimensões religiosas, também com esta dimensão de unção e tudo isso, mas obviamente, essa desapareceu por efeito da Revolução Francesa, no essencial. A partir de 1830, mesmo as monarquias dos Orleans ou dos Bonaparte não têm essa dimensão sagrada. E, portanto, no fundo, as monarquias que restam têm, de fato, uma dimensão constitucional muito forte. A monarquia britânica tem este elemento, que talvez ajude a explicar também sua resiliência, é uma forte dimensão de rei pela vontade do povo, ou seja, uma forte dimensão constitucional e parlamentar, muito antiga. Realmente, a Grã-Bretanha é talvez a democracia parlamentar mais antiga da Europa, sendo sempre uma monarquia, desde 1688, mais ou menos, quando temos o Bill of Rights, no fundo, naquele período de reconstrução política pós-guerra civil britânica, mas também tem esta dimensão sagrada.

Religiosa e importante, porque o rei é o defensor da fé.

O rei é na Inglaterra também, como aliás em várias destas monarquias protestantes, é também o chefe da Igreja.

E vamos falar também sobre isso mais à frente, quando começar a celebração. Bruno Vieira Amaral, de fato, a monarquia britânica resiste há tanto tempo, porque também dá umas festas bonitas e tem tricas familiares boas ou de fato é mais do que isso?

Há pouco a Isabel falava da questão do conto de fadas. Há sempre aqui um lado narrativo na vida das famílias reais, em particular da família real britânica. A questão das séries, dos filmes que são feitos, também criam uma ligação, uma aproximação com esta realidade. Há os efeitos negativos dessa aproximação da família real, da monarquia em relação ao povo, que é uma certa banalização. Vimos isso muito nos anos 90, que as pessoas se identificavam, mas também houve essa banalização e até o próprio rei Carlos III, na altura príncipe Carlos, foi bastante criticado e nós não nos podemos esquecer de todos aqueles episódios um pouco recambulescos que se verificaram nessa altura. E sempre teve esta dificuldade de lidar entre manter vivas tradições de séculos e adaptar-se às exigências da modernidade E estas cerimónias também tentam trilhar esse caminho um pouco difícil e exigente, porque, por um lado, é preciso manter vivas as tradições. Os rituais têm também um efeito de legitimação do poder simbólico do rei, são fundamentais para isso, sobretudo quando o rei não é eleito pelo povo, ou seja, os próprios rituais legitimam essa autoridade. Não são rituais, ou não devem ser, apesar disso, rituais ocos, que sejam apenas casca, têm que ter substância. Não podemos reduzir ao fausto ou ao ritual meramente simbólico, porque tem de ir para além disso para que seja efetivo. Mas a verdade é que é preciso encontrar esse equilíbrio entre a tradição e a modernidade, porque a sociedade mudou e a monarquia tem se mostrado também capaz dessa adaptação a novos tempos. Não nos podemos esquecer que a rainha Isabel II atravessou um século de grandes mudanças, mudanças mais profundas de qualquer outro monarca que terá vivido, e a monarquia revelou essa capacidade de adaptação.

Desculpa, Bruno, ao ponto de terem mudado de nome. A história aí também é interessante, porque houve vários momentos em que a monarquia britânica esteve bastante abalada e foi alvo de muitas críticas. Mesmo a Isabel II ou a Rainha Vitória, que hoje em dia são vistas como as grandes rainhas, realmente dominaram períodos muito longos da história e se tornaram extremamente populares no final dos seus reinados, até por efeito dessa adoração. Mas em vários momentos, a Rainha Vitória foi extremamente criticada, a Rainha Isabel II também foi muito criticada, mas de facto os Windsor, como agora se chamam, mostraram aqui uma enorme capacidade de adaptação que alguns dos seus pares no continente não tiveram e por força disso acabaram por ser depostos. Mas, por exemplo, eles mudaram o nome. No fundo, nós temos uma dinastia que é essencialmente alemã, germânica. Embora, obviamente, se formos ver a genealogia, lá está o Rei Alfredo e os reis medievais, mas basicamente é uma dinastia de origem alemã. Na Primeira Guerra Mundial, em 1917, quando um avião que ainda por cima tinha o mesmo nome, Coburgo, que é o último ramo da dinastia reinante Saxe-Coburgo-Gota tinha, eles mudam o nome para Windsor, para o palácio lá fora de Londres, para soarem mais britânicos.

E esse é o grande desafio para Carlos III, porque a composição também é até étnica. As crenças dos súbditos mudaram. Então como é que vamos ter um rei, que é o mesmo que representa essa estabilidade e essa tradição, quando a composição étnica, social e religiosa da população está a mudar. Esse é um dos grandes desafios.

Já vamos continuar a conversar. Fazemos aqui só uma curta pausa e já regressamos à emissão especial na Rádio Observador, que estamos a conduzir para acompanhar a coroação do Rei Carlos III.