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Estamos aqui com o João Almeida, deputado do CDS, neste congresso em Alcobaça. João Almeida, agora estava a ver uma moção da JP, que queria mais chatear o líder. Lembrei-me de um momento em que houve uma moção da JP no Congresso em que o líder era José Ribeiro e Castro, que quase ia ganhando.
Sim.
Faz algum paralelismo com isso ou não?
Acho que não. Sinceramente, na altura havia uma discussão interna sobre a liderança do partido, que neste momento não existe, e eu acabei por protagonizar, e a moção da JP por ter esse papel instrumental também, alguma dessa discussão interna. Não me parece que neste momento o cenário seja parecido, mas obviamente que lembra alguns momentos desse tempo.
Apesar da JP poder ter eventualmente a sua moção ficar abaixo da moção A, que é do líder Nuno Melo, e que previsivelmente será reeleito, há alguma razão nesta reivindicação de que o CDS devia ir sozinho a votos por uma questão de afirmação e de alguma forma, para não se diluir. Aliás, esta é uma crítica que também está na moção, dessa sim uma candidatura à liderança do Nuno Morais da Silva. Portanto, essa preocupação é legítima, vê algum mérito nessa discussão?
Tenho alguma dificuldade em ver, porque não há votos, não há eleições marcadas. Portanto, essa coisa de dizer que o CDS deve ir sozinho a votos, num congresso que antecipa dois anos políticos em que não vai haver eleições, é uma coisa um bocadinho desfasada da realidade, eu tenho alguma dificuldade em compreender. E mesmo que seja retrospectivamente, a última eleição, tirando as eleições presidenciais, que não são partidárias, foi uma eleição autárquica em que o CDS foi sozinho em todos os sítios onde era poder e ganhou em todos. Portanto, acho que é bastante desfasada da realidade. Percebo-a conceptualmente, devo dizer. Acho que o CDS, como partido político, obviamente tem de estar preparado sempre e em qualquer momento para ir sozinho a votos. Mas ouvimos, por exemplo, o presidente do CDS Açores, que é provavelmente a próxima eleição, se o calendário eleitoral se cumprir, é a eleição na região autónoma, dizer que não tem problema nenhum ir sozinho. Portanto, o partido está perfeitamente preparado. Tem de dizer alguma coisa quando se apresenta uma moção e isso aparece como chamariz.
Mas outra discussão que nos permite aqui é posicionar ideologicamente o CDS, porque, por um lado, parecem às vezes esmagados pelos liberais, pela iniciativa liberal e, por outro lado, pelo Chega numa direita mais conservadora, radical, talvez também populista. E onde é que o CDS se deve posicionar aí? Nós ouvimos o Manuel Monteiro a falar na doutrina social da Igreja, a tal inspiração democrata cristã. Onde é que o CDS se deve posicionar?
Essa sim é uma discussão muito relevante, porque o CDS ocupava um espaço à direita, onde indiscutivelmente, neste momento, tem dois concorrentes. Isso é indiscutível e ignorar essa realidade seria um disparate. Nós não podemos ter a representatividade que tínhamos antes de existirem estes dois concorrentes no nosso espaço político, porque é o nosso espaço político. O que eu acho é que o CDS tem uma resposta e uma representatividade mais abrangente do que qualquer um desses partidos, mas em termos de abrangência ideológica, obviamente que tem de lutar para que essa abrangência ideológica seja também uma abrangência em termos de votos. E esse é que é o grande desafio do CDS no futuro, e no futuro próximo, é conseguir que um partido que sempre representou na sociedade portuguesa, à direita do socialismo e da social-democracia, democratas cristãos, conservadores e liberais, tendo um partido mais conservador e tendo um partido mais liberal a concorrer nos seus espaços, consiga continuar a ter essa representatividade. E eu aí acho que a grande virtude do CDS é a complementaridade, porque acho que a iniciativa liberal e o Chega não têm resposta para algumas questões às quais o CDS tem resposta, exatamente por estarem mais focados e não terem a mesma abrangência. Agora temos que convencer disso o eleitorado, e é um desafio grande.
Mas quais é que seriam essas bandeiras do CDS ou essa forma de estar, que também pode ser uma maneira de se diferenciar. Há pouco o Telmo Correia falava de maior sentido de Estado ou, se quisermos, do próprio mento Chega.
Eu resumo isso muito simplesmente. O CDS é um partido institucionalista, defensor da soberania da lei e da ordem. E portanto, nisso não há nada que o Chega possa defender, em termos de representatividade de uma direita democrática, que o CDS não defenda. O CDS defende um modelo liberal de economia, em que a prosperidade é essencial para que o país cresça, tenha de crescer mais, em que pessoas e empresas paguem menos impostos e assim consigamos ter competitividade, subamos o salário médio e subamos também aquilo que é o rendimento per capita. E tem uma complementaridade, que depois a iniciativa liberal também não tem, de pela sua inspiração na democracia cristã, defender uma coesão social, que isto não leva que uma parte das pessoas fiquem para trás. E portanto, que defende essa lógica socialDe irmos buscar aqueles que com todo esse desenvolvimento, com todo esse crescimento, possam, por alguma razão, não ter tido as mesmas oportunidades, para as terem e para poderem ser recolhados. E, portanto, isto joga com uma direita, que é a direita que existe na maior parte dos países europeus, é a direita do Partido Popular Europeu. E aí, dá-se até o caso de o CDS ser muito mais representativo da direita do Partido Popular Europeu do que propriamente o PSD. E, portanto, aí acho que o que há é uma evolução do sistema partidário em Portugal diferente do que aconteceu noutros países, ainda mais agora com esta concorrência. Mas objetivamente, o CDS representa uma direita que é uma direita bastante competitiva na maioria dos países e que tem, neste momento, eu diria, um modelo de governação que pode servir de inspiração, que é a governação de Meloni em Itália, que claramente eu diria que é provavelmente o exemplo de governação mais próximo daquilo que o CDS poderia representar se fosse partido liderante.
Giorgia Meloni que também já foi apontada como exemplo por André Ventura.
Sim, mas o André Ventura está na família política do Salvini, não está na família política da Meloni. E essas coisas que às vezes nós não estabelecemos os paralelos para cá. Há hoje em dia, no Parlamento Europeu, três grupos à direita do PPE e o grupo onde está Meloni, onde estão soluções mais reformistas à direita, não é o grupo em que está o Chega. O Chega está no grupo onde estava Órbane, onde está a Aliança Nacional em França e, portanto, respostas de uma direita que é chamada muitas vezes de direita social e que eu critico muitas vezes por ter soluções socialistas. E é de uma direita que cede muito facilmente ao socialismo nas questões econômicas. E isso tem acontecido com o Chega também em Portugal.
E então falando em casos concretos, por exemplo, a reforma laboral é um exemplo-
É um exemplo claríssimo.
Do que o CDS pode fazer também para aproveitar esse posicionamento do Chega para recuperar esse eleitorado.
O CDS, ao mesmo tempo que defende, na reforma da legislação laboral, uma aproximação daquilo que é o nível médio na OCDE, nós somos um país que tem, seja em relação ao banco de horas, seja em relação ao outsourcing, por exemplo, soluções que mais nenhum outro país ao nível europeu tem. Nós estamos, do ponto de vista da competitividade laboral, da rigidez laboral, no fim da lista da OCDE, é pior que a União Europeia, mesmo do que outros países. E aquilo que a suposta direita do Chega tem para propor é baixar a idade da reforma. Ora, baixar a idade da reforma é hipotecar a esperança das novas gerações. As novas gerações olham para o nosso sistema de pensões e percebem uma coisa: que cada vez mais aquilo que vão descontar não terá reflexo naquilo que virão a receber quando chegar na idade da reforma. E o que é que diz o Chega? Vamos dar mais uma paulada na cabeça e vamos aumentar ficcionalmente a esperança de uma geração à custa de todas as outras que vêm a seguir. Isso não é justo. Do ponto de vista de um pacto intergeracional, não é justo e tem que ser denunciado. Não há exemplo, provavelmente, maior de populismo do que esse. É quem vier a seguir que resolva o problema dos jovens, nós agora tentamos agradar aos que votam agora. Não faz sentido.
E aqui falávamos de tentar recuperar eleitorado e também recuperando a questão do início da entrevista, de coligação ou não, o que o CDS ganha, o que o CDS perde, estando coligado com o PSD, não é também um perigo que o CDS esteja tão próximo de um partido que é um partido catchall, que atrai eleitorado também, por exemplo, do centro, do centro-esquerda. Isso não pode assustar eleitores tradicionais do CDS que depois escolhem votar no Chega, por exemplo, ou na Iniciativa Liberal?
Pode. E é um grande desafio do CDS, da próxima vez que for a eleições sozinho, conseguir justificar essa descolagem, um dia que aconteça, de um partido que é diferente do CDS, que obviamente tem a sua história e o seu caminho próprio, e o CDS conseguir autonomizar-se. Não é segredo nenhum que a crise pela qual o CDS passou tem muito a ver com o facto de não ter conseguido isso quando saiu do último ciclo de coligação a seguir à Troika. Mas aí havia também as condições especiais de ter governado num período crítico e, do meu ponto de vista, ter gerido mal o pós-governação da coligação PSDCDS, liderada por Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, em que o CDS não assumiu esse legado e permitiu ao Chega e à Iniciativa Liberal, muitas vezes serem eles a defender o legado de um governo que tinha salvo Portugal da bancarrota, e o CDS e o PSD algumas vezes terem vergonha desse legado. E eu acho que foi isso que contribuiu muito para a afirmação do Chega e da Iniciativa Liberal, que ficaram com esse patrimônio, que não era deles, mas que ficaram com esse patrimônio para si.
O Congresso também é um momento de balanços dos últimos dois anos. Há aquele momento que eu tenho curiosidade, porque o CDS hesitou um bocadinho na escolha, no apoio a Marques Mendes para a candidatura presidencial. Perdeu-se uma oportunidade para a direita ter uma figura como Paulo Portas ou até outra da área do CDS que pudesse eventualmente ter chegado à Presidência da República?
Perdeu-se a oportunidade, volto à questão. Em termos teóricos, a questão é que estas questões não se resolvem com teoria. Ou havia esse candidato ou não havia esse candidato. Se houvesse esse candidato, o CDS devia tê-lo apoiado. A questão é que não apareceu. E, portanto, nós na política temos que ser muito pragmáticos. Nós não podemos ficar presos a cenários hipotéticos. O CDS esperou todo o tempo possível pela hipótese de surgir uma candidatura que representasse esta direita que eu disse há pouco, que pudesse unir uma dimensão maisConservador, liberal e democrata cristã não apareceu. E portanto, não aparecendo essa candidatura, entre ir apoiar candidaturas que representavam parte do seu eleitorado ou apoiar a candidatura do seu parceiro de coligação, com quem está coligado no governo, e tentar fazer um bloco que acrescentasse à eleição presidencial aquilo que já existia no domínio da governação, faria mais sentido ter essa opção, fez mais sentido ter essa opção. Em termos teóricos, teria sido melhor ter uma candidatura própria, desde que ela tivesse existido, era preciso que alguém se tivesse chegado à frente para isso.
João Almeida, só apontando ao futuro, não é que a Iniciativa Liberal esteja resplandecente neste momento, num crescimento galopante, nem nada que se pareça, mas há sempre o perigo, ou essa espada está na cabeça do CDS, de os três em conjunto terem uma maioria e a Iniciativa Liberal passar a ser o partido privilegiado e o parceiro privilegiado, e o CDS ser passado para um terceiro plano num acordo a três, o que de resto se ensaiou talvez ali em Lisboa, mas isso no futuro pode ser um problema?
Não me parece, sinceramente. E vejo isso exatamente na sequência das autárquicas. Se olharmos hoje para a governação no Porto e para a governação em Lisboa, o CDS não perdeu nenhum protagonismo, nem numa governação, nem noutra, com o facto da Iniciativa Liberal ter entrado. E o exemplo maior no Porto, onde a Catarina Araújo é vice-presidente da Câmara do Porto, e portanto, mesmo tendo a IL no Porto dois vereadores e o CDS tendo um, a vice-presidência da Câmara com pelouros essenciais é desempenhado pelo CDS. E portanto, aí há uma questão que nós ainda não falámos, mas normalmente se fala cada vez que se discute o CDS, que é o CDS ter essa lógica de ser um partido de quadros, ainda continua a valer. O CDS, mesmo em sítios onde quantitativamente essa balança pode eventualmente desequilibrar um pouco, qualitativamente acaba por se afirmar e tem pessoas que no exercício das funções prevalecem por aquilo que é a sua qualidade, não é dizendo que outros não a tenham, mas obviamente que partidos mais recentes têm ainda um caminho para fazer para a afirmação desses quadros e o CDS já o fez há mais tempo.
E esses quadros, a Cecília Meireles, também ex-líderes como Paulo Portas, a própria Assunção Cristas enviou um vídeo, não deviam estar no Congresso do partido.
Acho que as pessoas têm a sua vida. Eu não vejo nada essa coisa como um apoio mais forte, menos forte. Há uma coisa extraordinária que é: o CDS passou por uma fase muito difícil, voltou agora ao governo, o que também às vezes gera algum problema para as pessoas se afirmarem. Eu não vejo nenhuma dessas pessoas em outro partido. Surgiram dois partidos na nossa área política e o máximo que se pode dizer é que as pessoas vieram ou não vieram ao congresso, o que desde logo é uma decisão individual, e há pessoas que até têm compromissos hoje em dia profissionais que não lhes permitem ter essa disposição. Eu estive dois anos sem pôr os pés numa iniciativa partidária, porque esse era o meu compromisso profissional. A partir do momento em que saí da política, assumi a responsabilidade na entidade onde estava, que não tinha intervenção política. E isso acontece neste momento com algumas dessas pessoas.
Mas o Adolfo, o Sócrates, o Mendes da Silva, essas pessoas voltariam?
O Adolfo, na moção do Nuno Melo, é uma das pessoas que aparece, aliás, está referido no texto da moção e não era preciso que tivesse referido quem lê a parte sobre inteligência artificial da moção do Nuno Melo, percebe perfeitamente quem é que a escreveu. E portanto, essas pessoas têm toda a disponibilidade. Eu vi-os em campanhas. O Adolfo é autarca de CDS, foi eleito na Covilhã e portanto, eu acho muito mais importante que, por exemplo, o Adolfo tenha sido cabeça de lista numa lista do CDS, em coligação também com a IL, na Covilhã, e seja neste momento deputado municipal na Covilhã, acho que é um testemunho muito mais forte da sua presença e do seu apoio ao partido do que vir a um congresso umas horas. Acho sinceramente que esse compromisso de quatro anos de mandato autárquico na terra dele significa muito e significa essa participação, como do Paulo Portas, que inúmeras vezes já apareceu.
Mas não está previsto para amanhã, não é?
Não faço a mínima ideia, sou sincero, não faço a mínima ideia, mas o Paulo Portas tem aparecido em todas as campanhas eleitorais. Na última apareceu ao lado do Carlos Moedas em Lisboa, apareceu ao lado do Pedro Duarte no Porto, mas também apareceu ao lado dos nossos candidatos nas câmaras em que disputávamos com o PSD e que voltámos a ganhar. E portanto, teve sempre essa disponibilidade. Portanto, acho que é a vida normal de um partido também que, obviamente, passou por um ciclo difícil, as pessoas foram à sua vida e isso é bom sinal também. São pessoas que, felizmente, têm procura no mercado e que estão neste momento profissionalmente envolvidas em projetos que alguns não lhes permite ter intervenção política.
João Almeida, muito obrigado pela disponibilidade. Obrigado.