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Boa tarde a todos em Vilar, aos presentes no estúdio e também aos ouvintes da Rádio Observador. Não sei se isto não serão contradições que acabam por ser superadas pelo projeto ideológico e político que Donald Trump tem. Eu julgo que algumas destas contradições aparecem de forma calculada. Dou apenas o exemplo de uma que ainda não foi referida: Donald Trump tem o descaramento de criticar a elite corrupta que tem tomado conta politicamente dos Estados Unidos. Convenhamos que ouvir isto da boca de muita gente podia suscitar alguma surpresa, da boca de Donald Trump eu julgo que é uma comédia que dá muito para rir. Isto objetivamente é um fito, que é iludir a base a partir da qual Donald Trump é eleito. Isto pode aparentemente parecer uma contradição, mas eu julgo que encaixa num objetivo político e ideológico que Donald Trump tem, que se compreende com um alcance mais vasto. Mas eu talvez utilizasse aqui a metodologia das apreciações anteriores para procurar com três ou quatro adjetivos caracterizar algumas das coisas que me parecem mais importantes. Primeiro, acho que o discurso de Donald Trump é um discurso desavergonhado. Donald Trump diz exatamente aquilo que vem impor o poderio dos Estados Unidos a quem quer que se tenha do outro lado, seja em relação ao México, seja em relação a quem for, há uma lógica de afirmação de poder contra os outros e afirmação de poder para lá de toda a capacidade de lhe resistir. E desse ponto de vista, é um discurso desavergonhado que em várias áreas da vida nacional dos Estados Unidos e até internacional, acaba por dar essa expressão exata àquilo que vem. Em segundo lugar, acho que é um discurso de clivagens. A forma como Donald Trump procura encontrar em cada um dos temas que aborda uma dicotomia em que acentuando aquilo que quer fazer e justificando aquilo que quer fazer em função de um objetivo que quer alcançar, não deixa de introduzir um elemento de contradição para justificar com essa clivagem todos os meios que possam utilizar para o outro objetivo. Essa referência que faz, por exemplo, às elites corruptas, contrapõe-na aos trabalhadores e aos imigrantes. Em relação à guerra, ele acaba por dizer que as administrações norte-americanas que vão defender as fronteiras de outros países não defendem suas fronteiras do assalto dos imigrantes. E portanto, há aqui uma lógica de clivagens e discurso de ódio para procurar encontrar a partir dessas clivagens, do ponto de vista social, particularmente com grupos sociais em situação mais fragilizada, encontrar os bodes expiatórios da utilização de todos os meios que permitam alcançar os fins que tem. Em terceiro lugar, parece-me que é um discurso que acaba por fazer transparecer, acho que em alguns casos até de forma muito evidente, um objetivo de ajuste de contas muito claro. A propósito das questões da comunicação social, da desinformação, da censura e da liberdade de informação, a propósito das questões da Justiça, é claríssimo o programa de ajuste de contas e eu diria que esse ajuste de contas não tem a ver apenas com o projeto de poder de Donald Trump. Donald Trump já terá alcançado o limite máximo de mandatos que pode exercer, portanto, já não é propriamente uma perspetiva de ajuste de contas. Veremos até onde é que essa ambição vai, mas à partida dir-se-ia, não é nele que está a pensar. Está a pensar em quem? Estes ajustes de contas, quer até do ponto de vista político, também faz algumas referências em relação à própria organização institucional dos Estados Unidos. Estes ajustes de contas é a pensar em quem? Certamente em alguém que permita garantir alguma perspetiva de perpetuação do poder, não sei se pela via genética, se por alguma outra via, mas que eventualmente tenha essa perspetiva. Um último aspeto que me parece relevante.

Para avançarmos, João.

Que é um aspeto que me parece que acaba por estar nas entrelinhas. Faço referência à propósito da questão das guerras. Salvo erro, ele diz que venceremos as guerras em que participamos, mas sobretudo venceremos aquelas em que não participaremos. À partida, isso parece uma boa afirmação. Há um conjunto de asserções que vêm depois desta que talvez não sejam, porque verdadeiramente eu acho que aquilo que Donald Trump está a dizer é que vamos encontrar outras vias de resolver os problemas que temos para resolver e da mesma forma como comecei, impondo o nosso poder em relação a outros. Quando nós tivemos há umas semanas aquela ideia de tentar comprar a Gronelândia à Dinamarca, não me parece que esta ideia de os Estados Unidos não participarem em guerras não signifique propriamente uma pacificação ao nível global. Parece-me que é exatamente o contrário, sobretudo tendo em conta o historial que teve a sua primeira presidência, acho que é exatamente o contrário. Julgo que o crescimento do militarismo que ele próprio assume nesta intervenção será acompanhado de um conjunto de outros mecanismos para garantir a imposição desse domínio hegemônico que os Estados Unidos e particularmente na presidência de Donald Trump, têm como objetivo.