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Temos agora Paulo Moura, ele que trabalhou na biografia de Otelo Saraiva de Carvalho. Bom dia, Paulo Moura.
Bom dia.
O Paulo teve um contato muito próximo com Otelo Saraiva de Carvalho. Que lado de Otelo Saraiva de Carvalho os portugueses não conheceram?
Eu tive um contato, eu escrevi a biografia dele e durante muito tempo conversamos muito, tivemos muitas horas de entrevistas. E a memória que eu tenho dele, a principal característica do Otelo Saraiva de Carvalho, fala-se muito do lado do estratega, etc, mas é mais o lado humano que eu recordo dele. Eu acho que ele foi um homem extremamente generoso, extremamente humano, extremamente empático, de uma coragem enorme e também uma capacidade de ação, uma capacidade de realização. E também de uma grande ingenuidade. O que também está ligado a esse seu lado de generosidade, de um homem que era muito de ver suas estratégias, o oposto do maquiavélico da política. E daí também ele depois, na parte política, não ter tido muito êxito. Ele ter acabado por fazer ações erradas, fazer asneiras, como sabemos, mais tarde. E principalmente, algo que eu acho também uma consequência disso, é ele não ter sabido também alimentar ou manter o seu próprio mito como o herói da revolução. Que se perdeu um pouco até pra figura do Salgueiro Maia, por exemplo, enquanto eu acho que o Otelo Saraiva de Carvalho é o grande herói da Revolução de Abril, mas sem margem pra dúvida, nem comparação com mais ninguém. Ele é a figura, antes de mais, porque se não fosse ele, provavelmente não teria havido revolução. Nunca se saberá, mas o papel do Otelo Saraiva de Carvalho não foi apenas do estratega, de alguém que militarmente tomou nas mãos as rédeas da operação. Também foi isso, mas foi a iniciativa de fazer a revolução. Ninguém a teria feito naquela altura se não fosse ele. Tinha havido um golpe falhado, o chamado Golpe das Caldas, uns meses antes. Grande parte dos líderes estavam presos ou exilados, afastados e, portanto, o Otelo tomou nas mãos a iniciativa de fazer a revolução e conseguiu mobilizar toda a gente que esteve envolvida, desde os locutores de rádio que passaram as canções, que foram a senha, até os vários líderes militares das várias unidades, até os próprios responsáveis do regime que estavam já combinados e, portanto, prontos a render-se mal a revolução avançasse. Tudo isso ele conseguiu graças a essa sua empatia, esse lado humano, em que ele conseguiu convencer as pessoas, mesmo pessoas que não concordaram ideologicamente ou eram próximos do regime, ele conseguiu ganhá-los para a causa. E esse lado de generosidade acaba também por depois, durante o processo a seguir à revolução, estar muito ligado àquilo que se chama o Espírito de Abril. Aquilo que depois se manifesta mais tarde quando ele se candidata às eleições presidenciais, acaba por ter uma votação muito significativa, apesar de não ter apoio de partido nenhum. A certa altura, muitas das pessoas identificavam o Espírito de Abril, o verdadeiro ideal da revolução, com o Otelo.
Paulo Moura, Otelo Saraiva de Carvalho esteve ligado a esse papel humano também, por ter sido ele a repensar na estratégia para a revolução. Mas esta manhã também, como já referimos, houve uma presença nas FP 25 que dão aqui uma dualidade na imagem de Otelo Saraiva de Carvalho. Como é que olha para essa participação nestas forças que foi considerada uma organização terrorista?
Sim. Eu acho que calar da história é sempre agradável depois de dar perspectiva a tudo isso. Eu acho que temos que pensar que nesta época, é uma época que havia movimentos desse teor, desse tipo, por toda a Europa. Movimentos de extrema esquerda e direita também, violentos, com métodos violentos. Isso estava integrado numa certa concepção do que devia ser a tomada do poder por certos grupos. E o Otelo, a certa altura, foi envolvido nesse movimento e induzido a participar, ainda que eu, pela minha investigação, estou convencido que ele nunca teve papel ativo designadamente nas ações violentas, nesse tipo de operações. Ele é mais um líder ideológico, uma referência, mas não era um operacional. Mas de facto, ele a certa altura acreditou nisso e pensou que seria uma via para tomar o poder. Isso também, de certa forma, está ligado com aquilo que eu disse há pouco, da sua incapacidade de gerir a sua imagem. Há líderes revolucionários, se pensarmos em Che Guevara, líderes que, pelo fato de terem morrido cedo, não tiveram a oportunidade de fazer asneiras mais tarde. E, portanto, criaram um mito em torno da sua pessoa e do seu papel. Isso não aconteceu com o Otelo, portanto, ele depois acabou por degradar essa imagem, designadamente e principalmente por isso. Apesar de ele ter sido preso antes disso várias vezes, etc. Mas isso acabou por ser o fator que não permitiu que ele se tornasse de uma forma unânime digamos, no país, tivesse esse papel de símbolo de Abril, que eu acho que ele teria.
Se bem percebo, o objetivo de Otelo, no seu entender, não seria chamar o poder a si, mas sim implementar a ideologia que tinha em mente.
O Otelo nunca quis poder. Ele teve-o nas mãos. Ele, a certa altura, quando foi líder do COPCON, nessa unidade militar, que tinha o poder absoluto, praticamente. Ele, a certa altura, teve o poder total em Portugal. Era a pessoa que mais mandava. Ele foi nomeado eleito general, ele foi convidado pra presidente da República, pra primeiro-ministro. Ele nunca aceitou, ele nunca quis cargos de poder. Eu sei disso porque estudei esse período e falei com muitos testemunhos dessa época, que estiveram envolvidos nesses acontecimentos. Portanto, ele nunca quis o poder pelo poder. E também não abraçou propriamente uma ideologia muito concreta. Ele a certa altura teve uma certa proximidade com essa chamada ideologia do poder popular. Uma espécie de democracia direta, em que o povo se organizasse através das suas organizações laborais, etc. Quase fora dos partidos, designadamente depois da sua viagem a Cuba, houve ali um período em que ele teve alguma proximidade com esse tipo de ideologia, mas ele nunca foi alheio, nunca foi um homem de partidos, por exemplo, ele nunca pertenceu a nenhum. O PCP claro que o seguiu desde sempre e outros partidos de extrema esquerda na altura, o Maúisses, etc. Ele nunca esteve ligado a nenhum partido. Ele tinha essa noção de uma ligação direta ao povo e ao país e um sentido de missão. E, portanto, eu diria que ele nunca foi um homem que tivesse procurado o poder pelo poder.
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