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Estamos aqui com Paulo Núncio, líder parlamentar do CDS no Congresso dos Democratas Cristãos em Alcobaça. Paulo Núncio, queria começar logo aqui, não diria a matar, mas reparamos que referiu os ex-líderes parlamentares todos e também aqueles que depois foram líderes partidários, mas não referiu o Telmo Correia, não é uma inspiração para si?
Não, o Telmo Correia foi um magnífico líder parlamentar. Eu limitei-me a referir alguns daqueles que foram grandes líderes parlamentares e também foram líderes de partido. Foi esse o meu ponto.
Também citou alguns que não foram líderes.
Certo, mas eu queria, acima de tudo, reforçar a invocação de Adelino Amaro da Costa. Adelino Amaro da Costa foi o grande, foi o maior de todos. Foi aquele, pelo menos a mim, que me inspira na minha atividade partidária diária. E é fundamentalmente a evocação de Adelino Amaro da Costa que eu quis que ficasse dessa evocação geral.
Portanto, o Telmo Correia também o inspira nessa função?
O Telmo Correia foi um magnífico líder parlamentar, como foram todos os outros. E por isso, com certeza, o Telmo Correia teve também um percurso no grupo parlamentar do CDS, que eu sigo e que eu procuro seguir.
Não me parece tão entusiasmado a falar dele, mas é natural, porque está a compará-lo com Adelino Amaro da Costa. Já agora aproveito só essa deixa, porque o Adelino Amaro da Costa, em determinado momento, com Sá Carneiro, chegou a pensar institucionalizar a AD, tornar a AD mesmo uma espécie de uma força política, senão unificada, uma coisa muito mais estanque. Isso faria sentido, uma solução desse gênero?
Eu penso que não. Eu penso que o PSD e o CDS são partidos diferentes, têm origens diferentes, têm histórias diferentes, têm programas políticos diferentes. O CDS sempre se colocou mais à direita do que o PSD e é assim que deve continuar. E eu acho que uma coligação tem tudo a ganhar em ter dois partidos diferentes, com naturezas diferentes, com princípios diferentes, até com alguns valores diferentes, porque temos mais capacidade, temos mais abrangência. Eu, aliás, também sou daqueles que acha que o eleitorado da AD é superior à soma dos votos dos dois partidos em separado. E por isso eu acho que a AD, de facto, é uma coligação, mas é uma coligação de dois partidos diferentes. Mas é importante também dizer que embora os partidos mantenham sua individualidade e a sua autenticidade, são partidos que ao longo da história souberam sempre analisar os momentos e juntar esforços, fazer coligações para governar o país e para fazer reformas estruturais que o país precisa. Isso significa responsabilidade, significa pôr o país à frente dos interesses partidários e procurar resolver os problemas concretos das pessoas.
Mas como é que se afirma essa distinção do CDS para o PSD? É uma espécie de polícia bom, polícia mau. O CDS é uma veia mais conservadora e daí algumas das bandeiras que Nuno Melo referiu. Estávamos a falar do Telmo Correia há pouco, como é que ministro como Luís Neves, que parece mais próximo daquilo que era a ideia do Partido Socialista, coabita com a ideia securitária ou de dar relevância à segurança, que é do CDS?
Não, eu acho, francamente, que o CDS e o PSD são partidos diferentes e têm tudo a ganhar em continuarem a manifestar essa diferença. O CDS tem um conjunto de valores próprios que o identificam, que o identificam há 50 anos, embora o CDS, eu reconheça, tenha tido várias nuances e várias presidências que de alguma forma foram diferentes. Mas, por exemplo, eu estou convencido que na vitória de 2024 e na vitória de 2025, muito eleitorado que se considera de direita votou na AD, porque o CDS está nessa coligação. E nessa medida, o CDS acrescenta, o CDS traz o eleitorado para a Aliança Democrática, para a AD, que nunca votaria no PSD. E nessa matéria, o CDS é fundamental para que este projeto reformista, este projeto de centro-direita, se continue a afirmar como um polo catalisador, como um polo que transforma o país, que aprova reformas e que continua a ser o polo dominante da política portuguesa.
Eu quero perguntar sobre a presença de Manuel Monteiro, mas aproveitava agora essa deixa que me dá. Se é verdade que o CDS atrai eleitores que não votariam no PSD, também não é verdade que pode perder eleitores que não querem votar no PSD e por isso procuram outras opções mais à direita, por exemplo, no Chega?
A solução da AD é uma solução vencedora. Nós ganhamos as eleições em 2024 e reforçamos a legitimidade democrática em 2025. E por isso, eu hoje estou convencido que o governo da AD tem melhores condições de governabilidade que tinha em 2024. E por isso os portugueses reforçaram a confiança na AD. E eu acho que este projeto é um projeto ganhador. É um projeto que as pessoas reconhecem que é um projeto sério, consistente, formado por dois partidos que também são sérios e consistentes e que quando fazem propostas para resolver problemas, são propostas à séria, não são propostas a brincar como alguns partidos gostam de fazer.
Falemos então na presença de Manuel Monteiro. Fomos surpreendidos com essa aparição.
Tinham anunciado que não havia nenhum presidente do partido presente no Congresso. É uma boa surpresa.
Até o momento desse anúncio, claro.
É verdade
Não deixa de ser uma surpresa. Eu pergunto se é única para este fim de semana e se é um sinal também de união do partido.
Sim, eu acho que é um sinal de união. Foi possível juntar Manuel Monteiro e Paulo Portas há dois anos, precisamente quando Nuno Melo assumiu a presidência do partido, e foi uma forma de unir duas personalidades que foram importantes no seu tempo no CDS, mas que, todos sabemos, tiveram as suas divergências. Foi possível encontrar aí um espaço de união e a vinda de Manuel Monteiro a este congresso é particularmente importante. Manuel Monteiro representa um CDS conservador, representa um CDS claramente de direita, sem medo de se afirmar de direita. E eu acho que é importante esse discurso. O CDS, na sua matriz, nos seus valores, sempre foi um partido de direita e é importante afirmar essa matriz, esses valores, esses princípios e esse posicionamento no atual panorama português.
E quando destaca esses valores de Manuel Monteiro, está a dizer que não há espaço no CDS para quem tem medo de se afirmar como direita, é isso?
Não, o CDS sempre foi um partido plural. Agora, eu entendo que o CDS para crescer, tem que afirmar a sua matriz originária, tem que afirmar a sua matriz democrata cristã e conservadora. Eu, aliás, devo lhe dizer que acho que o CDS tem mesmo um lugar único no Parlamento português e estes últimos dois anos são particularmente relevantes nessa matéria, porque há partidos que se dizem de direita e que defendem políticas de direita na economia, mas depois são de esquerda nos valores. E há também outros partidos que também se dizem de direita e que até têm alguns valores de direita, mas depois são de esquerda na economia. E o CDS é o único partido que é de direita nos valores e na economia. O CDS, se quiser, é o único partido no Parlamento português que é plenamente de direita. E é essa a linha que eu acho que o CDS deve seguir no futuro.
E já que falamos de Manuel Monteiro, o antigo presidente do CDS está, mas não está, posso enumerar, Paulo Portas, no mínimo, que saibamos até agora, Paulo Portas, Assunção Cristas, Francisco Rodrigues dos Santos, também algumas figuras como Cecília Meireles ou Diogo Feio. Como é que isto se explica, a ausência destes, chamemos assim, pesos pesados no partido do governo?
Tem que lhes perguntar a eles e à Cecília, a ela, porque é que não vieram ao congresso. Mas todos esses nomes não estão neste congresso, mas continuam filiados no CDS, continuam a ser quadros do CDS.
E Francisco Rodrigues dos Santos continua afiliado?
Bem, o Francisco Rodrigues dos Santos, também tem que lhe perguntar a ele. Eu acho que é difícil explicar a evolução de Francisco Rodrigues dos Santos nos últimos tempos.
É mais fácil ele aparecer na convenção do Bloco de Esquerda do que aqui, é isso que está a dizer?
Eu acho que Francisco Rodrigues dos Santos está, de alguma forma, a começar a abraçar o preâmbulo da Constituição e o caminho para um socialismo que nós não percebemos ainda qual é, mas tem dado sinais nesse sentido. Enfim, é uma decisão, é um percurso pessoal que está a fazer, respeitável, legítimo, mas efetivamente a distanciar-se cada vez mais daquilo que é a matriz do CDS.
Só para quem nos está a ouvir, Paulo Núncio é conhecido no CDS por partir a loiça toda. No caso, o som que estamos a ouvir não é da responsabilidade nem do Paulo Núncio, nem do Observador. Nós é que nos chegámos um pouco aqui mais à parte para estarmos com mais à vontade, para não estarmos na sala do congresso, e daí estes sons de fundo. Esclarecida essa parte, há pouco só me ficou a faltar uma questão, na questão da relação de forças, que é se o CDS, de facto, estando preparado para isso nas próximas legislativas, se o mandato for todo cumprido, deve preferencialmente ir a votos sozinho ou se isso é uma avaliação que tem que ser feita na altura.
Eu, em primeiro lugar, quero lhe dizer que eu não sou comentador, não me pagam para fazer cenários. O que lhe posso dizer é duas coisas. Primeira: um partido político tem que estar naturalmente preparado para ir a votos sozinho. Faz parte da natureza de um partido. Tem que estar preparado para propor políticas que têm a ver com o seu programa, de as defender no espaço público e de convencer os eleitores a votarem nelas. Isso faz parte do ideário de qualquer partido e da natureza de qualquer partido. Dito isto, o CDS está profundamente comprometido com a AD e com a agenda reformista que a AD representa. E como já foi por várias vezes dito, não só pelo presidente do PSD, mas por outros dirigentes, quer do PSD, quer do CDS, este projeto é um projeto a oito anos, é um projeto a duas gerações. Não é possível reformar o país apenas numa legislatura. Nós temos necessariamente que governar pelo menos durante oito anos para ultrapassar os graves problemas que herdamos dos oito anos de estagnação e de mobilismo da governação socialista. E por isso, digo-lhe, o CDS, por natureza, tem que estar preparado para ir a eleições sozinho. Foi-o nos últimos dois anos, foi ainda recentemente na Madeira, fomos a votos sozinhos, elegemos, fazemos parte do governo regional da Madeira e somos um fator decisivo na estabilidade da região. E também fomos a inúmeras câmaras municipais nas eleições autárquicas, o CDS mostrou sempre capacidade de ir sozinho e nas eleições autárquicas, por exemplo, reforçamos o estatuto de quarto maior partido autárquico português. MasNo país, nós estamos comprometidos com este programa. E devo lhe dizer que essa pergunta, é curioso, muitas vezes vem da esquerda. Por quê? Porque a esquerda sabe que foi a coligação da AD, foi a coligação entre o PSD e o CDS que derrotou o PS, que retirou o PS do poder depois de oito anos de governação. E por isso é natural que a esquerda procure afastar o CDS do PSD, procure destruir esta solução, que é uma solução ganhadora. A AD já mostrou que é uma solução ganhadora. E se tivermos tempo, como lhe digo, preferencialmente, idealmente, oito anos, duas legislaturas, estou absolutamente convencido que o país que entregarmos será um país muito melhor do que aquele que herdamos dos socialistas.
E do ponto de vista, não da esquerda, mas até dos eleitores de direita e de direita em toda a linha, como o Paulo Núncio há pouco a descrevia, não entendo que pode ser visto como motivo de preocupação que o CDS vá a eleições legislativas três vezes seguidas, sem estar representado no boletim sozinho?
É como digo, o CDS esteve várias vezes representado no boletim sozinho. Nas eleições autárquicas, estivemos em centenas de autarquias, um boletim sozinho, e reforçamos o peso autárquico do CDS. O CDS hoje tem mais vereadores, mais presidentes de Câmara, mais deputados municipais, governa mais Câmaras. Em coligação com o PSD também, subimos para, se não me engano, 54 Câmaras coligados com o PSD, mas temos sete sozinhos. E, por isso, o CDS, quando foi necessário, foi à eleição sozinho na Madeira. E sem medos, elegemos deputados. O CDS, em 2020, foi sozinho às eleições dos Açores e também, a seguir, formámos uma coligação, mas pós-eleitoral, com o PSD. E já foi anunciado, em 2028, o CDS irá sozinho nas eleições dos Açores, porque, como já foi dito, a coligação com o PSD terminará em 2028, depois de três mandatos sucessivos. E, por isso, o CDS tem que estar preparado para ir à eleições sozinho. Agora, nós não confundimos interesses partidários com interesses nacionais. Neste momento, o projeto passa por uma coligação, passa por um esforço dos dois partidos de continuarem a liderar o processo político em Portugal e continuarem a reformar o país. O CDS está na AD para reformar o país, para fazer as reformas que são necessárias. E temos que ter tempo para reformar o país.
Há pouco ouvimos no seu discurso, uma referência muito direta, a não ser que o queira negar, a Diogo Feio, ele que defende uma espécie de fusão do centro-direita, ou seja, entre o PSD e o CDS. Eu pergunto-lhe se essa ideia que Diogo Feio defende é assim tão diferente da realidade atual, com esta coligação da AD a ir tantas vezes junta à eleição.
Não é só Diogo Feio. Eu falei daqueles que acham que o CDS está diluído na coligação e daqueles que abertamente, como Diogo Feio, defendem uma fusão entre o CDS e outro partido. E eu acho que essa proposta feita dessa forma é um desrespeito, é profundamente desrespeitosa.
É uma ideia feia, como disse há pouco.
É feio. É feio propor isso, é uma ideia muito feia, porque desrespeita 50 anos de partido, desrespeita os valores, as causas, as bandeiras do CDS durante 50 anos, desrespeita os militantes, os dirigentes, desrespeita a própria história da pessoa que faz essa proposta. E por isso eu entendi por bem, e no Congresso, para que toda a gente ouvisse, que me oponho frontalmente a essa ideia e acho que o CDS tem caminho e tem caminho para o futuro. E o caminho do CDS não é diluição ou fusão com outros partidos. O caminho do CDS é a afirmação e a afirmação plena dos seus valores, dos seus princípios. O CDS, como dizia há pouco, é o único partido plenamente de direita em Portugal, é o único partido de direita nos valores e na economia, e é por aí que nós temos que ir.
Paulo Núncio, já estamos com pouco tempo, mas queria só questioná-lo, porque há pouco falámos da vinda de Manuel Monteiro e o Nuno Correia e Silva, que é o principal adversário do Nuno Melo neste Congresso, foi secretário-geral dele. E sabemos também, que está aí na história dos bastidores, que em Guimarães, o próprio Manuel Monteiro foi desafiado a avançar. Esta entrada de rompante de Manuel Monteiro pode mexer aqui com as coisas, pode dar mais força à oposição interna a Nuno Melo, ou está tudo controlado para uma reeleição tranquila?
Eu penso que para quem já vem a congressos CDS há muito tempo, e também para os observadores, jornalistas, ficou claro que a esmagadora maioria dos delegados, congressistas no Congresso, está com Nuno Melo. Nuno Melo levantou duas vezes a sala durante o seu discurso, e não foi só no princípio e não foi só no fim. E, por isso, parece-me, à partida, os congressos CDS muitas vezes são congressos pouco previsíveis.
Vamos voltar a Telmo Correia.
É verdade, mas olhe, por acaso nessa altura eu apoiei Ribeiro e Castro. E para lhe dizer, os congressos CDS têm sempre essa marca de imprevisibilidade, mas eu estou convencido que a esmagadora maioria dos congressistas que estão com Nuno Melo reconhecem o mérito e a coragem de Nuno Melo. É bom recordar. Eu não gosto muito de falar do passado, gosto mais de falar para frente. As pessoas quando ouvem os partidos e os políticos, gostam de ouvir propostas e gostam de ouvir ideias para futuro. Mas é importante não esquecer que foi com Nuno Melo que o CDS, de facto, recuperou a sua presença no Parlamento, integra hoje o décimo governo constitucional da sua história e por isso o partido tem uma dívida de gratidão para com Nuno Melo, porque foi com ele, efetivamente, foi com a sua coragem e foi sob a sua direção que o CDS voltou novamente ao seu lugar de sempre.
E Nuno Melo referiu há pouco que esta direção salvou o partido. Paulo Núncio, muito obrigado pela disponibilidade para falar com a Rádio Observador.
Muito obrigado, mais uma vez.