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Tenho também em linha Joana Amaral Dias, que deixou a militância do Bloco de Esquerda em 2014. Joana, bem-vinda à Rádio Observador e esta emissão especial. Faço-te a mesma pergunta que fiz a José Gusmão: surpreendida com esta saída de Catarina Martins?
Bom dia, obrigada. Não, não estou surpreendida. Eu penso que a saída de Catarina Martins ontem já era tarde. Só uma correção: eu não saí do Bloco de Esquerda em 2014, saí em 2007, mas isso agora também não é relevante para o caso. Porque, de facto, estes resultados do Bloco de Esquerda, em primeiro lugar, os resultados eleitorais são uma calamidade, mas sobretudo, mais do que o resultado eleitoral, no qual eu estava a ouvir o Gusmão a comentar, é o facto de o Bloco de Esquerda se ter descaracterizado em absoluto com a geringonça. O Bloco de Esquerda, a partir do momento que se uniu a este PS, ao mesmo PS de agora, o PS dos casos, dos casinhos, da corrupção, o PS do ataque a direitos essenciais, o PS que não defende a escola pública, que não consegue reabilitar o Serviço Nacional de Saúde. O Bloco de Esquerda deu-lhe a mão, deu a mão a António Costa e tornou-se numa espécie de café sem cafeína ou manteiga sem gordura, sem o seu princípio ativo. É uma mutação genética, na verdade, aquilo que aconteceu ao Bloco de Esquerda depois de 2015.
Não houve conquistas à esquerda do PS, fruto desse acordo parlamentar?
Substantivas não houve, que realmente viessem de encontro às expectativas do eleitorado do Bloco de Esquerda ou de um determinado eleitorado mais progressista, etc. Não, não existiram. Na verdade, aquilo que aconteceu foi termos o Bloco de Esquerda à segunda, quarta e sexta, durante esses anos, a atacar o despesismo da banca e à terça, quinta e sábado, a assinar por baixo das resoluções o dinheiro injetado no Novo Banco, por exemplo. Portanto, esse tipo de contradições, esta é só a título ilustrativo que eu estava a dar, mas esse tipo de contradições completamente insanáveis afastaram muito eleitorado do Bloco, como aliás aconteceu no Partido Comunista. Mas isso agora são contas de outro rosário. Portanto, a grande responsável por esta decisão da geringonça, que repare, a questão da geringonça do ponto de vista político, era completamente legítima, ao contrário do que disse Cavaco Silva e alguma direita na altura, era completamente legítima, era um acordo parlamentar, um arranjo parlamentar, como aliás se vê nos demais países europeus, e de nenhuma forma não sofria desse suporte. Agora, a questão, que eu aliás logo na altura levantei em 2015 e que mantenho, é que politicamente era um erro. Era um erro porque o Bloco ia perder esse seu capital que construiu desde o início, desde a sua fundação, um capital de contestação, de alguma rebeldia, por que não dizê-lo, de trazer questões novas, inovadoras até mesmo à sociedade portuguesa, as chamadas questões fraturantes, que foram em certa medida esvaziadas por José Sócrates, mas que foram completamente atropeladas por António Costa com a geringonça. Portanto, esse é que foi o grande golpe duro.
Sente, Joana, que a penalização do Bloco de Esquerda pelo eleitorado acontece precisamente, e a forma aparente, pelo chumbo de um orçamento de Estado que acabou por precipitar eleições antecipadas. Portanto, foi o contributo que o Bloco de Esquerda deu para o fim da geringonça e que acabou por ter o reflexo eleitoral que teve com a perda de 14 deputados.
Não, não me parece que assim seja. Sinceramente, não me parece que assim seja. Aquilo que se sente no Bloco de Esquerda, que aliás nunca conseguiu ter um enraizamento popular, local, autárquico, aquilo que se sente é de facto que esse tal capital central, que muitas vezes correspondia a uma malha urbana e mais cosmopolita, de facto desiludiu-se. Eu estava a ouvir o Gusmão a dizer que, tal como depois da derrota de 2011, o Bloco de Esquerda erguer-se-á agora depois desta crise de liderança que tem vindo a atravessar, mas eu duvido que assim seja. Duvido que assim seja, para não falar que o cenário político em 2011 é completamente diverso, é distinto do que estamos agora em 2023, nomeadamente ao nível da oferta político-partidária. O Bloco hoje tem adversários e tem rivais que na altura não existiam em 2011. Portanto, efetivamente, o leque é completamente outro.
Quem é que gostava de ver?
Até nisso pesa sobre as ambições do Bloco de Esquerda. Mesmo ao nível europeu, porque vai ser o próximo combate que o Bloco de Esquerda vai ter, ao nível europeu, a verdade é que, mesmo com a Marisa Matias, perdeu o fulgor que também teve outrora e, portanto, o cenário é bastante sombrio.
Quem é que gostava de ver suceder Catarina Martins?
Eu gostava, sobretudo, de ver o Bloco, mais do que uma cara, de responder a essa pergunta de que rosto, eu gostava era de ver o Bloco a conseguir. Parece-me um caminho um bocadinho das pedras, porque me parece que é um bocadinho irreversível. Existem coisas irreversíveis na vida e eu penso que esta hemorragia deste tal capital de rebeldia e de inovação talvez tenha sido uma perda difícil de reparar, ou muito complicada de reparar. Mas o que eu gostava era de ver uma liderança que conseguisse justamente resgatar esse tesouro que o Bloco de Esquerda construiu e que deixou partir, esvair-se nas suas mãos em nome do António Costa, que tem sido extremamente hábil do ponto de vista tático e que, aliás, não é por acaso que neste momento continua a desfilar sem oposição tantos anos volvidos que está no Governo.
E admite um regresso à militância ativa do partido, caso o Bloco retome essa matriz que defende?
Não, o que eu gostava de dizer há bocado, eu afastei-me do Bloco em 2007. Eu fui uma datária da Juventude de Mário Soares em 2006 e pouco tempo depois afastei-me do Bloco, passei a estar numa posição estritamente observadora e depois acabei por me desfiliar, efetivamente, mas desde 2007, portanto há mais de 15 anos que não estou no Bloco de Esquerda nem pretendo voltar a militar. Mas gostava de ver que o Bloco fosse capaz de reverter este caminho sinuoso que trilhou.