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E até sensivelmente às 16h30 à conversa com a Teresa Martins, CEO da Near Advance, uma empresa aqui de Braga. E quando digo aqui, é mesmo tudo daqui de Braga, já vamos perceber porquê. A Near Advance é uma empresa especializada no desenvolvimento de soluções inovadoras para automação industrial. Teresa Martins, obrigado por ter aceitado o nosso convite. Uma ótima tarde. Que soluções são essas que a Near Advance criou para a automação industrial?
Muito boa tarde, muito obrigada. É um prazer estar aqui à conversa consigo. Uma solução desenvolvida pela Near Advance vai automatizar uma tarefa, a priori, que é repetitiva num processo industrial. Imagine que está numa linha de produção e tem que garantir a qualidade do produto que está a ser produzido. Tem que olhar para o produto, ver se tem defeitos, se tem algumas características que estão defeituosas, se faltam outras características. Tem que estar a olhar continuamente, oito horas do seu dia de trabalho, para o mesmo objeto à procura de um determinado conjunto de defeitos nessa peça. O que uma solução da Near Advance faz é desenvolver uma solução ou desenvolveu soluções, tem hoje produtos.
Através de sensores, computadores e toda a parafernália tecnológica disponível.
Através de imagens que são adquiridas por câmeras e por software. Imagens que são adquiridas num ambiente controlado em termos de iluminação, desenvolvemos software que vai automatizar esta tarefa de inspeção. Ou seja, esta tarefa, que estava a ser feita anteriormente por um operador, passa a ser feita por uma solução industrial que vai, no fim da sua execução, determinar se a peça está conforme ou não conforme os requisitos de produção. E portanto, esta solução está sempre disponível, não se cansa, não se distrai, é eficiente, é precisa.
Não faz pausas.
Não faz pausas, não fica indisposta. Isto é um exemplo de uma solução que nós desenvolvemos para automatizar essencialmente tarefas repetitivas do processo produtivo. Que são repetitivas, às vezes complexas, de acesso difícil ou que estão em ambiente difícil, mas a visão por computador e a inteligência artificial na indústria, no caso da Near Advance, estão muito focados na automatização de tarefas do processo.
A Near Advance é uma empresa de que tamanho, quanto têm de colaboradores?
42 pessoas.
42 pessoas.
Maioritariamente engenheiros, mestres e doutores.
Daqui da Universidade do Minho?
Sim, a maior parte de nós somos da Universidade do Minho, mas temos de Aveiro, do Porto, de Lisboa. Mas é natural, porque a Near Advance nasceu em Braga, licencia-me na Universidade do Minho já há muitos anos, portanto esta rede de contactos.
É natural que assim seja, porque aqui é um ecossistema.
E já deve ter ouvido hoje que Braga é uma cidade jovem, em que captou muita juventude à custa da Universidade do Minho, e portanto, os colaboradores da Near Advance também são desse ecossistema.
Dizia que a Near Advance é uma empresa fundada por si.
Sim.
A Teresa também é uma filha, se podemos dizer assim, da Universidade do Minho.
Sou sim, senhor.
Se não tivesse surgido a Universidade do Minho aqui em Braga, não haveria Teresa Martins, engenheira de sistemas informáticos, não haveria negócio Near Advance, não havia nada disto.
Provavelmente não. Eu entrei para a universidade em 86. A engenharia de sistemas informático era um curso muito procurado na altura. Não interessa muito para o contexto, mas é interessante. Se calhar alguns ouvintes querem saber que quando eu entrei para a universidade, 50% dos candidatos ficavam fora da universidade, porque não havia números de clausulas suficientes. Ou seja, metade de nós, que terminávamos o 12º, não conseguíamos entrar porque não havia vagas, não havia lugares suficientes para os candidatos. Hoje há lugares sobrantes nas universidades, é exatamente o contrário. Mas há 40 anos atrás, metade de nós ficava fora. E sistemas informáticos era-
Ascendiam-se muitas velinhas.
As mães deviam rezar imenso, porque era um período em que-
Era boa aluna e entrou na Universidade do Minho em 1986 para estudar Engenharia de Sistemas Informáticos. Foi pioneira, não é então?
Sim, éramos menos raparigas do que rapazes, sempre fomos. Mas sim, licenciei-me ao fim de cinco anos, era um curso de engenharia com cinco anos, muitos trabalhos de grupo. Modéstia à parte, nós saíamos muito bem preparados, porque o curso era um curso de engenharia de sistemas informáticos, ou seja, nós tínhamos toda a componente de engenharia, uma componente de sistemas, produção e a componente informática. Eu sempre gostei muito da informática, mas também muito do processo produtivo. Portanto, este curso deu-me também logo essa possibilidade de, no momento da formação, eu ter logo cadeiras distintas. Não é um curso de informática puro. Hoje este curso já não existe com esta configuração, mas no meu tempo o curso tinha sistemas e tinha informática, portanto, tínhamos cadeiras de produção, conhecíamos bem o processo produtivo, as dificuldades, os desafios e o bichinho terá ficado logo aí.
Pois hoje em dia provavelmente há mais cursos dirigidos para a programação informática e depois para a gestão industrial.
E cursos de gestão industrial, a produção, a informática, sim.
Com a necessidade de reindustrializar o país e agora com o aparecimento da inteligência artificial, a Teresa acha que se deveria dar um novo foco aos cursosUniversitários, fazê-los regressar a esse espírito inicial dos anos 80, em que se juntava a produção com a informática, ou não?
Eu acho que a informática abrange muitas áreas. E portanto, se calhar é bom termos cursos que estão segmentados, que são mais verticais, porque dão a possibilidade que os alunos estejam melhor formados nessas áreas. Ou seja, o que se faz hoje e que eu defendo, faz sentido, e aprecio os meus colaboradores, os candidatos que vêm para a Netavance nesse sentido, que é fazer uma engenharia, que pode ser mais generalista, faz um curso de engenharia de três anos e depois vai fazer um mestrado ou uma formação pós-laurea mais especializada numa área. Isso faz todo sentido, porque nós não podemos ser bons em tudo. Nós precisamos de tentar ser melhor formados, mais competentes, com mais conhecimento numa determinada área. Acho que faz sentido.
Contratar pessoas para fazer crescer o negócio tem sido um problema ou nem por isso?
Tem sido desafiante.
Desafiante por quê, Teresa?
Nós já passamos aqui várias fases e o mercado da informática também tem sofrido alguns ajustes. Não há quantidade suficiente para as necessidades das empresas. Já há algum tempo se fala que-
No caso da Netavance tem sido entrave? Ou seja, sente, na qualidade de CEO, que queria fazer crescer a empresa e que não sente que o mercado laboral lhe dá o conforto que precisa para se aventurar?
Houve um período, o período pós-Covid, talvez mais para o Covid, em que nós tivemos a vaga das grandes multinacionais, das empresas americanas, do norte da Europa, que vieram contratar os nossos recursos. Quando começamos com o trabalho full remote, em que eles contratavam os nossos recursos, eu perdi três bons recursos nessas condições, em que passavam a trabalhar aqui com os salários dessas empresas. Portanto, aí foi quando sentimos a maior dificuldade.
Perdeu-os porque não consegue competir com eles do ponto de vista salarial.
Como, é óbvio. Não havia negociação possível que pudesse ser feita porque eles trabalhavam em Braga, com o clima de Braga, com a boa comida de Braga, mas com os salários das empresas americanas e da Noruega.
Quão mais pagam essas empresas?
Não tem comparação.
Não quero valores absolutos, mas 10, 20, 30%, 40, 50%? Mais?
Algumas mais 50%, 30% era banal.
Uau, claro, é difícil segurar o talento dessa forma.
Algumas o dobro.
Algumas o dobro?
Sim, algumas o dobro. Estamos a falar há cinco anos.
Agora estamos em outra fase, é isso?
Agora estabilizou um bocado, porque estamos na fase em que a IA está a ser aplicada nas empresas. As empresas também estão a aprender a usar a IA. Isto não é nada definitivo, não passamos dos zero aos 100 rapidamente.
Mas há outras necessidades.
Há outras necessidades e as empresas de software estão um bocadinho mais retraídas. Algumas dispensaram um grande número de pessoas, porque a IA veio aqui ajudar a acelerar o desenvolvimento dos projetos, então não precisam de tantos colaboradores. Isto vamos ter aqui um ajuste. Isto vamos ter aqui um ajuste, porque a IA também não vai agora, de repente, permitir que se dispensem 50% das pessoas. Não é isso. Mas estamos aqui numa fase diferente, em que não há tanta procura, digamos assim, porque a IA veio libertar algumas tarefas e os projetos fazem-se com menos pessoas.
Com menos. Esse desafio não é?
Mas isto vai ter que estabilizar, não está ainda num ponto estável de contratação.
Criou a empresa em 1981.
Criei a empresa em 2001.
Em 2001. Quais foram as dificuldades por que passou a Teresa, não só a fundar a empresa, a Netavance, mas também a fazê-la crescer e a cimentá-la no mercado? Ou foi fácil? Se calhar foi fácil.
Não, não foi fácil. Foi interessante. Mas a maior dificuldade foi ter os primeiros clientes, ter nome no mercado. Durante dois anos não tive nenhum cliente. Depois consegui o primeiro cliente numa circunstância interessante, uma empresa de Oliveira de Azeméis que me adjudicou um trabalho, porque tinha o fornecimento de uma solução semelhante de uma empresa alemã, não estava satisfeita, principalmente com a assistência dessa empresa.
Então nesses dois anos viveu de quê, Teresa?
Vivi de dar umas aulas e de algum investimento que tinha.
É difícil, não é?
E pronto, é começar devagarinho. Mas sim, ter os primeiros clientes, depois quando comecei a fornecer grandes multinacionais ao fim de cinco anos, ficou tudo muito mais fácil.
Entrou em velocidade de cruzeiro.
Ter clientes como uma Bosch ou como a Aptive, que são grandes multinacionais aqui do setor automóvel em Braga, a partir daí é completamente diferente. E as dificuldades foram, às vezes não conseguimos contratar quem queríamos, perdemos alguns colaboradores que não queríamos, gostar de crescer mais ao ano e não conseguimos crescer tanto. Foram mais essas lutas, mas depois de ter clientes de referência, fica tudo muito mais fácil.
Teresa, eu gostava que me explicasse, nós já tivemos a oportunidade de ouvir várias vezes aqui ao longo da tarde, e também durante a manhã aqui no Contracorrente, falar muito deste espírito de Braga que potencia o aparecimento de empresas e há aqui um espíritoO que se passa aqui neste cantinho do país?
Eu acho que nós não somos especiais, não somos diferentes. A Universidade do Minho também é uma universidade nova. O departamento de informática, que é o meu departamento, está a celebrar 50 anos este ano. Eu acho que tudo isto também foi uma boa semente, ou seja, os professores que vieram para cá também vinham motivados em fazer crescer uma universidade e depois em fazer-nos crescer a nós como alunos e com perspetivas.
É o efeito novidade.
Um bocado talvez o efeito novidade. O norte é uma área muito industrial, não podemos fugir a isso.
Ou seja, há aqui uma tradição.
Isso, há aqui uma certa tradição. Aquilo a que se dá o nome de empreendedorismo é uma realidade e é necessário. E depois há o exemplo. Eu acho que, para o bem e para o mal, o exemplo de um colega que criou uma empresa e teve sucesso é um exemplo bom. Eu digo para o bem e para o mal-
Dá alento, é isso?
Dá alento.
Se ele conseguiu, eu também vou conseguir.
Por exemplo.
A Teresa deitou-se muitas vezes a pensar nisso?
Não foi tanto, foi mais: "Devagarinho, passo a passo, vamos lá chegar".
Muito bem. E hoje dirige a Near Advance, que emprega 42 pessoas. Tem planos para o futuro, para a empresa, para onde quer levar a Near Advance? E a fazer o quê, Teresa Martins?
A Near Advance, felizmente para os meus colaboradores, está integrada hoje num grupo internacional. E o futuro deles nesta área está assegurado, porque é um grupo com uma tradição muito grande na indústria e vamos continuar a desenvolver soluções de automação para controle de qualidade e para guiamento de robôs por muitos e muitos anos. O objetivo da empresa é continuar a desenvolver soluções complexas para automação para este tipo de tarefas.
Criação de um robô está nos vossos planos?
Não.
Ou um humanoide?
Não. Guiar robôs por visão, por imagem, sempre. Nós fazemos o guiamento fino do robô.
Teresa Martins, foi um gosto. Muito obrigado e boa sorte para a Near Advance. Venham daí boas notícias no futuro.
Muito obrigada.
Muito obrigado.
Foi um gosto. Muito obrigada.