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É isso mesmo, André. Vamos conversar com Telmo Correia durante os próximos minutos. Estamos no Congresso do CDS, como dizias, Pavilhão Cidade de Viseu. As portas abriram há pouco, os congressistas vão se sentando nos seus lugares para, daqui a alguns instantes, escutarem também o discurso final de Nuno Melo neste 31º Congresso do CDS. Já temos conosco Telmo Correia. Comigo está também Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política do Observador. Para começar esta entrevista, Telmo Correia, deputado com muita experiência, vice-presidente do CDS, já tinha desempenhado também cargos de ministro, agora assume a Secretaria de Estado da Administração Interna. Por que aceitou este cargo e também que prioridades é que tem para esta pasta? Ontem já escutamos alguns sinais que quer dar nesta pasta.

Obrigado, Miguel e Miguel. E cumprimentar também, obviamente, todos aqueles que nos ouvem. É uma boa pergunta, mas a resposta não é difícil. De resto, o Miguel Carrapatoso tinha me perguntado nessa altura, e eu não lhe podia responder ainda, porque estava sujeito a um dever de confidencialidade de quem tinha sido sondado e convidado. A resposta é muito simples, eu não fui candidato a deputado há dois anos, por decisão minha, independentemente das circunstâncias, não fui candidato nestas eleições, não estava no meu horizonte mais próximo, nem mais decisivo depois de ter saído da política desta forma. Nunca abandonei o partido, nunca deixei de estar com o partido, mas não estava a desempenhar cargos partidários, tirando um do que eu gosto particularmente, que é o de presidente da Assembleia de Freguesia de Belém, não é uma freguesia qualquer, em Lisboa. Tirando esse, não estava a desempenhar cargos institucionais de espécie nenhuma. Mas por quê? Porque eu estive, de fato, como o Miguel lembrava, muitos anos no Parlamento, em bom rigor, 21 ou quase 22.

Sete legislaturas, se não estou em erro.

Sim, por aí. E durante esses anos, interrompidos por um pequeno período no governo, como lembrou também. E durante esse período, passei por várias comissões, mas a minha comissão residente, por assim dizer, foi sempre a Primeira Comissão. De resto, a Primeira Comissão, nesse período, foi ocupada essencialmente como coordenadores por três deputados: por mim, pelo Nuno Melo e pelo Nuno Magalhães. E, portanto, sempre acompanhei estes assuntos da administração interna, das forças de segurança, das condições das forças de segurança, das próprias leis de combate ao crime. Sempre foi uma, passe a expressão, não é que seja uma praia, mas sempre foi um pouquinho a minha praia, por assim dizer, em termos parlamentares. E portanto, quando foi posta a possibilidade de passar para o outro lado, ou seja, de passar do lado de quem analisa, de quem é crítico e de quem fiscaliza, que é o trabalho que se faz no Parlamento, ou apoia os ministros, quando estivemos do lado da maioria, passar para o lado de ter a experiência de pegar num tema que eu acho que conheço e em que acho que posso ser útil. Passe a brincadeira, vi ontem um comentário de um famoso desportista que foi governador da Califórnia, em que ele dizia que a palavra-chave fundamental que ele tinha aprendido pra vida dele é: és útil ou não és útil? Seja no que for, numa determinada função. É daquelas coisas de-

De motivação

...de motivação, e tal. E eu, isto é uma brincadeira, como é evidente, mas seguindo um pouquinho essa lógica, posso ser útil ou não posso ser útil? E eu achei que podia ser. E é evidente que aquilo que eu disse ao doutor Nuno Melo, que foi quando ele me sondou, foi a primeira pessoa que me sondou, havia outras hipóteses, havia outras pessoas, mas a ser nesta área, teria que ser alguém que tivesse ligação. Se for nessa área, é um desafio muito-

Telmo Correia, isto não poderá ser, de alguma forma, um presente envenenado, não para si, mas para o CDS, mexer com uma pasta tão difícil, com negociações muito exigentes, numa altura particularmente crítica também da vida do CDS, falhando, não há aqui um risco enorme para o partido?

Sim, mas isso é um risco que faz parte da vida e da política e faz parte de quem assume este tipo de funções para todos nós. O risco é absolutamente inerente a este tipo de atividade. Ou conseguimos e vencemos ou não conseguimos.

Mas a imagem para satisfazer e para acalmar um setor.

Certo, mas para o CDS, há uma ideia que eu repeti ontem perante o Congresso, que estava, na minha opinião, também no discurso do Nuno Melo, que é: o CDS é uma instituição, portanto aquilo que eu consiga fazer não determina o futuro do partido no seu todo. Ou seja, se várias pessoas do CDS não estiverem à altura das suas responsabilidades, é evidente que se o partido não sair a melhor, sair a pior. Mas o CDS tem um grupo parlamentar, voltou a ter um grupo parlamentar, tem dois deputados, que são pessoas, de resto, muito competentes, lidera o Ministério da Defesa, e aí é responsabilidade sua direta. Agora, os riscos em política são para assumir, por um lado. Por outro lado, eu digo o seguinte: eu estou absolutamente convencido que nós vamos ser capazes de, enfim, não digo conseguir-

Imagino que não possa adiantar grandes detalhes sobre a solução que vai ser encontrada com os representantes do setor, mas há uma evidência, não há dinheiro para tudo. Como é que se consegue serenar o setor?

Não há dinheiro para tudo. As forças de segurança são instituições, todas elas hierarquizadas e hierárquicas, e o Ministério da Administração Interna também é. Portanto, sobre essas matérias, quem fará os anúncios e quem tomará as posições e quem estará em condições de falar será, obviamente, a juíza conselheira Margarida Blasco, que é ministra da Administração Interna. Mas a minha convicção é de que nós chegaremos a cumprir aquilo que nós temos como desígnio e que está no programa de governo. Não é uma invenção minha. De resto, alguém não percebia ontem, achou que eu estava de alguma forma a inventar qualquer coisa de novo. Não, aquilo que eu disse é o que está no programa de governo, dignificar e valorizar as forças de segurança, incluindo na componente salarial, de resto, também está no programa de governo, no que diz respeito à parte da defesa. Esse é o nosso compromisso.

Em melhorar rendimentos, em melhorar condições de trabalho, material se for necessário, onde for necessário. Há condições para fazer tudo isto?

Não, eu não sei se há condições para fazer tudo isso. Eu não me posso comprometer, como o Miguel Carrapatoso, e bem, não posso comprometer aqui que temos condições para tudo. Agora Vamos ver qual é o ponto de partida e qual é que será o ponto de chegada. É evidente que há coisas que terão que ser prioritárias. Esta negociação sobre a questão do suplemento de risco ou de missão, como lhe queiramos chamar, tem nomes diferentes consoante as forças e será explicado a seu tempo. É preciso ter em conta a realidade de cada uma das forças. A realidade da PSP não é igual à da GNR. Os suplementos que são aplicados a uns não são os mesmos suplementos que já existem para os outros. É diferente da Polícia Judiciária também, portanto, é preciso ver caso a caso. Na GNR, por exemplo, temos associações profissionais, não temos sindicatos. Na PSP temos sindicatos, logo aí há uma diferença de modelo negocial, por assim dizer. Portanto, cada caso é um caso. Agora, há uma aposta da parte deste governo e do parte do Ministério da Administração Interna, liderado, repito, pela Ministra Margarida Blasco, em, para já, procurar resolver esta situação e chegar a um acordo. Não sei quando é que chegaremos a um acordo. De resto, a proposta da nossa parte está a ser trabalhada.

Não tem uma ordem de grandeza, de que impacto financeiro e orçamental poderemos estar a falar?

Todos esses cenários estão a ser trabalhados, como é evidente. Não vamos partir para isto sem estar preparados para esse facto, mas não posso adiantar nada sobre isso. De resto, eu sou o que menos saberei, porque o Ministério tem estado a trabalhar intensamente, inclusivamente estas negociações envolvem o Ministério das Finanças. A senhora secretária de Estado da Administração Pública está incluída na equipa negocial e, portanto, o Ministério das Finanças está envolvido nesta negociação. Há equipas a trabalhar esta matéria e a trabalhá-la intensamente. Alguém dizia: "Mas vão chegar a um acordo?" Eu não sei se vamos chegar a um acordo, quando se abre um processo negocial.

Mas o governo vai apresentar uma proposta.

O governo chegará a uma proposta. O governo já assumiu, a ministra já assumiu, que vamos definir a metodologia, vamos definir os pressupostos, vamos definir um calendário, vamos apresentar aquilo que é comum neste tipo de negociações, o chamado protocolo negocial, e vamos partir para negociações. Será possível chegar a um acordo? Pegando numa frase célebre, desculpem-me a expressão, mas que é de um filme que foi usado várias vezes pelo presidente Reagan, "it takes two for a tango". É uma expressão conhecida e muitas vezes usada na política. Quando há uma negociação, há duas partes e se as partes chegarão a acordo agora, daqui a uma semana, não sabemos.

Falou na questão das duas partes, aqui não necessariamente sobre os representantes do setor, mas sobre a própria relação com o Partido Social-Democrata. É evidente que a correlação de forças nesta coligação não é idêntica à de outras mais antigas. Ainda sobre a administração interna, mas projetando o que pode ser o resto da legislatura e as outras áreas de intervenção, o CDS tem como particular bandeira a questão da administração interna, tanto que foi escrito na Secretaria de Estado.

Da Autoridade de Estado, eu diria.

Exatamente. Como é que o CDS conseguirá impor a sua própria agenda ao Partido Social-Democrata? Não há o risco de ficar com a parte pior do bolo?

Eu digo-lhe outra vez, os riscos existem sempre e não há que ter receio desses mesmos riscos. A minha convicção e aquilo que eu lhe posso dizer é que eu espero, obviamente, até porque é o presidente do partido que está à frente do Ministério da Defesa e acompanhado, ainda por cima, por um secretário de Estado, que é também vice-presidente do partido, o Álvaro Castelo Branco, que corra muito bem na Defesa, passando para a Administração Interna. Disse-o ontem e repito hoje, a experiência que eu tenho destes primeiros dias é de eu, pessoalmente, encarar com enorme satisfação integrar uma equipa liderada por quem é. Ou seja, a juíza conselheira Margarida Blasco, pelas funções que desempenhou no passado, seja como diretora dos serviços de informações, seja liderando a IGAI, tem um conhecimento profundíssimo de tudo aquilo que é administração interna, das forças, das polícias. Devo lhe dizer que o espírito de trabalho conjunto da equipa do MAI, temos estado, provavelmente não terão reparado, porque são coisas que são um bocado limitadas ao setor, por assim dizer, mas temos estado sempre em conjunto, seja na Liga dos Bombeiros, seja junto à Autoridade Nacional de Proteção Civil, seja nas tomadas de posse que já ocorreram na PSP. O espírito é de funcionar como uma equipa. E uma equipa são, neste caso, três pessoas: a Ministra da Administração Interna, eu próprio, como Secretário de Estado da Administração Interna, e o meu colega e amigo Paulo de Ribeiro, como Secretário de Estado da Proteção Civil. A lógica é uma lógica de equipa. E chegaremos, obviamente, em equipa, a bom porto ou não. A minha convicção, e de resto digo com sincero otimismo, é de que vamos conseguir. Vamos conseguir tudo? Não, com certeza. Há dinheiro para tudo? Não, com certeza que não, mas vamos conseguir melhorar significativamente aquilo que encontrámos. E há situações muito complicadas.

Pedia que concretizasse. Ou seja, qual é a mais-valia do CDS neste governo? Qual é a agenda que o CDS vai levar, que de outra forma o PSD, porque tem características diferentes, não conseguiria ou não daria prioridade a implementar?

A minha ideia é que o CDS não se pode ou não se deve limitar às áreas onde está no governo. Ou seja, o CDS tem que ter opinião sobre os mais variados assuntos e sobre todos os assuntos. É por isso que tem um grupo parlamentar e seguirá o dia a dia do Parlamento. O CDS, na minha opinião, isto é difícil de dizer, é daquelas coisas que é completamente como os melões. E melões no bom sentido, não é melões no sentido desânimo. É só abrindo é que saberemos o que é que vai acontecer. Mas a minha opinião é a de que o CDS tem que conseguir duas coisas. O CDS tem que ser útil à Aliança Democrática e, na minha opinião, ser útil à Aliança Democrática é, de alguma forma Pela sua forma de estar, pela sua agenda, pelo seu posicionamento, pela sua história, que é uma coerência ao longo destes 50 anos e particularmente ao longo destes últimos 10 ou 20 anos, de ser aquilo que eu disse ontem aqui ao Congresso, um pouco o braço direito da AD, repescando até uma frase antiga de uma campanha do CDS. Repisquei duas, de resto, a primeira, ser útil a Portugal, a segunda, ser o braço direito da AD. Se o CDS conseguir fazer esse papel de ser o braço direito da AD, o CDS é um partido à direita do PSD, naturalmente. De resto, por isso é que o CDS, e bem, no Hemiciclo, neste momento, se senta precisamente a seguir à Iniciativa Liberal e antes do Chega. Portanto, o CDS é o partido que é uma ala direita, por assim dizer, e isso representa, em todos os assuntos e em todas as matérias, um pensamento próprio.

E ser braço direito não é a mesma coisa que ser uma muleta?

Não, é uma coisa completamente diferente, porque a muleta limita-se a ser uma mera ajuda, o braço direito resolve muitos problemas, até eu que sou canhoto. Mas o braço direito é sempre muito útil e tem uma identidade própria, por assim dizer. Ou seja, o CDS, numa coligação tem que ser leal, e é leal. O CDS não entra para uma coligação, muito menos uma coligação de governo, nesta situação em que o país está, com os problemas que temos pra resolver. Estamos a falar de polícias, mas há professores, há médicos, há enfermeiros, há oficiais de justiça, há guardas prisionais, enfim, os problemas são enormes. Nestas circunstâncias, o CDS tem que ajudar a resolver os problemas e portanto, para isso tem que ser leal. Agora, tem que encontrar um equilíbrio entre ser leal e manter a sua identidade própria. Isto é uma coisa. Outra coisa, no governo. Nós andamos a dizer, e acho que ninguém contraria, eu sou vosso ouvinte regular e ninguém contraria, que o CDS é reconhecidamente um partido de quadros e, portanto, a mais-valia que o CDS também tem que demonstrar, seja nos elementos que estão no governo, que são só três, mas depois em todas as pessoas que vão trabalhar com a governação e que vão ajudar a governação e que terão responsabilidades, é que o CDS efetivamente é um partido de quadros, tem gente capaz e pode ser competente e por aí reafirma também a sua identidade. Às vezes até tem pessoas que podem não estar em funções políticas neste momento no CDS, mas que são a voz do CDS e que são a opinião do CDS. Dou-lhe um exemplo, a doutora Cecília Meireles, neste momento não está na política ativa, mas como comentadora, como analista, é um quadro importantíssimo que faz a opinião do CDS. O doutor Pedro Mota Soares. Dou-lhe dois exemplos.

Estava há pouco a falar da necessidade de abrir o melão pra perceber, de facto, se tem qualidades. Estamos mesmo no final deste congresso, o melão está mais do que aberto e parece que diz que o partido-

Tem quatro anos pra provar.

Sim, mas diz que o melão deste congresso. E diz que o congresso parece que é um partido mais conservador. Tem essa leitura?

Não, o CDS sempre teve uma alma conservadora. Isso é da natureza do partido. Eu conheço muito bem o partido desse ponto de vista e se pegarmos num congresso do CDS, mas às vezes nos do PSD também, não é só no CDS. Se alguém puxar por posições mais marcadas e mais conservadoras, provavelmente conseguirá uma maior empatia do próprio congresso. Isso sempre foi assim, está um bocadinho na alma do CDS. Coisa diferente é aquilo que o CDS tem que fazer na sua proposta política, onde equilibra várias coisas, várias correntes de opinião. De resto, uma daqueles que será uma das novidades, e eu acho que uma boa novidade neste futuro do CDS, o doutor Vasco Weinberg dizia ontem: "Nós sempre que nos remetemos a uma posição purista e monolítica, perdemos". E eu estou absolutamente de acordo com ele. Há várias sensibilidades. É evidente que eu sei que a alma do partido, o entusiasmo do partido vai sempre pra posições mais conservadoras, é da sua natureza. O partido nasceu como um partido à direita do sistema, o partido mais à direita do sistema durante muitos anos e portanto isso é normal, é incontornável. Mas o partido é feito de várias opiniões, ou seja, há liberais que têm espaço no partido, há conservadores como eu que têm espaço no partido, embora não acompanhe algumas das posições conservadoras mais vincadas que tenho ouvido nos últimos tempos, porque tenho uma posição, se quisermos, conservadora-liberal em muitas matérias. O CDS não tem a dimensão que teve no passado, mas na minha opinião pode continuar a aspirar a ser uma casa comum de direitas. Já não será a casa comum das direitas, por assim dizer, já há outras direitas e há outras direitas ideológicas e com afirmação e expressão parlamentar, mas ser uma casa comum de direitas. Não a casa comum de direitas, mas uma casa comum de direitas.

Antão Correia, muito obrigado por ter estado conosco aqui na Rádio Conservador, nesta conversa no 31º Congresso do CDS