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Começa agora o Explicador da Rádio Observador. Esta quinta-feira falamos sobre a situação financeira da TAP depois do anúncio de lucros no terceiro trimestre e para isso convidamos, para estar conosco nas manhãs 360, Gonçalo Pires, administrador financeiro da TAP. O Paulo Ferreira é quem conduz esta entrevista.

Muito bom dia, Gonçalo Pires. Bom dia, bem-vindo e obrigado por aceitar o nosso pedido para olhar um pouco aqui para as contas da TAP. Lucros de 111 milhões no terceiro trimestre, que foram conseguidos essencialmente com uma forte subida das receitas regulares, isto é, da venda de passagens. Podemos dizer que depois do impacto da pandemia, a atividade da empresa já está normalizada?

Paulo Ferreira, a chamada caiu neste momento. Estamos a fazer aqui um compasso de espera. A nossa produtora, Inês Santos, já está a estabelecer a ligação outra vez e já aqui está.

Gonçalo Pires, agora sim, em linha. Bom dia.

Bom dia, como está?

Muito bem, obrigado. Vou repetir o obrigado por ter aceitado estar conosco a olhar aqui para as contas da empresa e vou então olhar aqui para estes lucros de 111 milhões de euros no terceiro trimestre, que foram conseguidos essencialmente, confirme isto depois, com a forte subida das receitas regulares da empresa, que são as vendas de passagens aéreas. Nós podemos dizer que depois de dois anos de pandemia, a atividade da empresa já está normalizada?

Este ano ainda vamos voar 92% do que voamos em 2019, por isso a incapacidade, de facto, ainda estamos a recuperar. Para o ano já atingiremos os níveis de capacidade de 2019, mas os resultados deste ano estão a ser conseguidos precisamente voando menos, com melhores margens e aviões mais cheios, o que nos permite apresentar esta melhoria operacional, que nos leva mesmo a níveis recorde de receita no terceiro trimestre e a níveis recorde de margem operacional também no ano, ou seja, nos primeiros nove meses do ano.

E isto já com uma frota relativamente mais pequena do que aquela que existia em 2019.

Sim, voamos hoje menos nove aviões, ou seja, em 2022, do que voávamos no final de 2019. No próximo ano, como sabe, dentro do plano de reestruturação da Comissão Europeia, temos algumas imposições, alguns compromissos. Um deles é um limite ao número de aviões que podemos voar, um limite à frota. Este ano o número máximo é de 96, mas para o ano já será de 98 e por isso poderemos recuperar um pouco mais da capacidade. Mas mesmo com menos, estamos a fazer melhor.

Isto é mais eficiência, eficiência logística, aviões mais cheios quando voam.

Sim, a reestruturação e o plano de reestruturação é isso mesmo, ou seja, nós temos que ter a capacidade de conseguir maximizar receitas, ao mesmo tempo que controlamos custos. Nós temos que ser uma TAP, uma empresa mais eficiente e mais rentável. No universo da TAP, trabalham hoje menos de 2000 pessoas. Mas também temos um controle de custos que nos obriga a rever contratos com todos os nossos parceiros, desde os pequenos aos maiores. E como tenho vindo a anunciar já diversas vezes, nestes primeiros meses de implementação do plano, já negociamos ou renegociamos 800 contratos para poupanças de 130 milhões de euros.

Permanentes essas poupanças por ano, é isso?

Exato. Isto são as poupanças que conseguimos com a renegociação de contratos e vamos continuar. Ou seja, estamos a olhar para todos os contratos na empresa, precisamente para conseguir reduzir custos e ter melhores margens.

Esse trabalho de redução de custos está de alguma forma terminado já ou ainda há ganhos substanciais a conseguir, nomeadamente no próximo ano, e mesmo em relação ao pessoal? Qual é o ponto de situação?

Não estamos a falar de acordos de emergência, que foram implementados, como sabem, em abril do ano passado. O objetivo da empresa e para os próximos meses, como foi anunciado pela Christine diversas vezes, e especialmente ontem nos resultados, nós já começamos um processo de negociação dos acordos de trabalho e pretendemos com esta negociação e com este trabalho com os sindicatos, conseguir acordos de trabalho que sejam mais modernos, que consigam dar mais produtividade à empresa, mesmo que signifiquem mais rendimento para os trabalhadores. Por isso, eu acho que esse é um princípio fulcral e decisivo nos próximos meses da vida da TAP e que esperemos que seja concluído nos próximos meses com sucesso. Sobre os outros contratos, ou seja, com os grandes fabricantes como Airbus, Boeing, CFM e todos os outros parceiros da TAP, que são parceiros estratégicos fundamentais na nossa atividade, com o qual temos contratos e custos, como deve imaginar, muito altos todos os anos, estamos a revisitar todas essas relações, precisamente para conseguir mais benefícios financeiros para a TAP.

Perspectivas para o final deste ano. Houve lucro, de facto, no terceiro trimestre e substancial. Olhando para o ano todo, para os primeiros nove meses, ainda há perdas, ainda há um prejuízo acumulado de 90 milhões. Este já será um ano de lucros para a TAP?

Não sabemos, ainda faltam três meses e são três meses decisivos, onde nos vamos deparar com alguns desafios operacionais.

Está a falar da questão laboral de tripulantes com licenças de parentalidade pedidas, é isso?

Sim, também e os upgrades aos sistemas dos controles aéreos, não só em Portugal, a NAV, que é um tema que estamos a viver hoje, mas que dentro de umas semanas começará também em França. Sobre as perspectivas, nós temos boas perspectivas que vamos superar os números do plano de reestruturação, mas essa visibilidade conseguiremos nos próximos meses. Eu acho que o que demonstram estes resultados é que não só o plano está a resultar e que estamos no bom caminho. Esta melhoria significativa operacional já resulta num EBIT, numa margem operacional nos primeiros nove meses de 150 milhões de euros, que é um número recorde pra empresa, mas também diz que esta performance tem que continuar, porque, de facto, e é um ponto que realçamos ontem, nos anos antes da pandemia, a TAP cresceu muito e muito rápido. Com esse crescimento, veio muita dívida, ou seja, a TAP é hoje uma empresa mais alavancada do que os seus concorrentes, e teremos sempre mais dificuldade em apresentar margens, resultados líquidos positivos, enquanto não começarmos um processo de desalavancagem. Por isso é crítico não só termos melhores margens operacionais, como estamos a conseguir, comparando com os nossos concorrentes, pra precisamente termos capacidade para reduzir dívida e apresentar bons resultados no futuro.

Gonçalo Pires falou há pouco e ontem também na conferência de imprensa, isso foi referido. De facto, essa questão que se coloca agora pra altura do Natal, de poder haver muitos tripulantes ou mais tripulantes do que é habitual, fora da empresa, beneficiarem de licenças de parentalidade. Há alguma forma de contornar isto? Como é que a empresa vai gerir isso?

Pois, é um tema que infelizmente é recorrente. O tema do absentismo é um tema que afeta algum do pessoal de voo na TAP, que nós obviamente temos tentado controlar e minimizar. E eu acho que é um tema que também tem que ser tratado nos novos CLAs, nos novos acordos coletivos de trabalho. E, entretanto, tentamos proteger a operação o mais possível e os nossos clientes durante todo o ano, mas especialmente em períodos críticos como o do Natal.

Tem alguma expectativa da necessidade de deixar de realizar voos que estão previstos?

Nós estamos a trabalhar internamente, dadas as restrições que temos, não só a que menciona, das licenças pra parentalidade, mas também dos desenvolvimentos tecnológicos nos operadores aéreos, quer em Portugal, quer em França. Estamos a reequacionar a operação e anunciaremos um plano que precisamente proteja a operação e os clientes. Ainda não está finalizada essa análise.

Mas levará, certamente, à não realização de voos previstos.

Ou seja, provavelmente implicará a redução do número de voos, mas tudo atempadamente planejado, anunciado e comunicado. Por isso, poderemos falar de troca de horários ou troca de dias, e isso será sempre comunicado, porque esse é precisamente o objetivo. É não só proteger a operação, mas proteger os nossos clientes e os nossos passageiros.

Vamos agora olhar aqui para as relações financeiras entre a TAP e o Estado. A empresa ainda apresentava, no final de setembro, um capital próprio e negativo de 850 milhões de euros, que é aquilo que se costuma dizer, uma empresa tecnicamente falida, olhando apenas para as contas. Esta situação de capitais próprios negativos vai acabar com a chegada dos 990 milhões ainda este ano, que vem do Estado?

Esta injeção de capital, e tal como estava previsto, tem precisamente o objetivo de reequilibrar a posição de capital da empresa. Como sabe, nós estamos nos primeiros nove meses de implementação do plano. O plano de reestruturação dura até 2025. Nós estamos acima do plano e a executar melhor do que o plano, mas é apenas uma fase. Nós estamos no bom caminho, mas há um longo caminho a percorrer. A injeção de capital tem precisamente o objetivo de equilibrar não só a posição de capital, mas reforçar a liquidez da empresa para podermos precisamente implementar aquilo que o plano nos exige, que é uma TAP financeiramente sustentável a prazo. A ideia não é apresentar resultados bons uma vez, é que temos que apresentar resultados bons consistentemente, porque a missão da empresa é precisamente reduzir a dimensão da sua dívida e pra isso, a injeção de capital é crítica.

Quando chegarmos ao fim deste ano, depois desta transche de 990 milhões, que vem do Orçamento de Estado, a TAP terá recebido 3,2 mil milhões, o tal pacote que estava definido. Isto tudo a fundo perdido. Ficamos ontem com essa garantia. Dividendos. A TAP planeia pagar dividendos ao Estado?

Deixe-me só fazer uma pequena correção.

Diga.

Quando se injeta capital, está-se a investir precisamente em capital da empresa. Quando se faz uma ajuda do Estado com dívida, aí existe uma maturidade e obviamente uma obrigação de devolução.

São coisas diferentes, Gonçalo Pires, certo.

Sim, exatamente.

O que, nomeadamente o governo foi dizendo ao longo de 2020 e 2021, é que a TAP ia devolver em 2024, 2025, aquilo que o Estado estava lá a colocar. Portanto, havia o pressuposto que era um empréstimo e não uma capitalização.

Sim, o primeiro empréstimo que foi injetado na TAP no mês de junho de 2020, tinha como compromisso uma conversão em capital assim que fosse aprovado o plano. Quando o plano de reestruturação foi aprovado, esses 1.200 milhões, que é a primeira transche das ajudas do Estado Foi convertido em capital. Os montantes que entraram, entretanto, no final do ano de 2021 e agora no final do ano de 2022, serão sob a forma de capital, ou seja, sob a forma de equity. O Estado reavirá o seu dinheiro na medida em que monetizar a participação em capital que tem na empresa, se a prazo houver algum processo de abertura de capital.

No fundo, a privatização. Isto é, o Estado pode recuperar algum deste dinheiro se vender uma parte do capital a privados. Antes de passarmos à questão da privatização, depois desta injeção deste final deste ano, que garantias é que há que a TAP, em condições de operação normais, é evidente, sem nenhuma pandemia, vamos já deixar isso de lado, que a TAP não precisa de mais um centavo dos contribuintes?

A melhor garantia é os resultados que estamos a apresentar. Estamos a apresentar resultados operacionais melhores do que os esperados e temos hoje uma posição de liquidez melhor que os esperados. E esta posição de liquidez e a injeção de capital que temos até o final do ano, permitem-nos precisamente dar esta estabilidade a prazo, que é fundamental para a empresa e fundamental para a capacidade que todos temos de executar o plano. A forma como os mercados ontem reagiram à apresentação dos resultados é também um sinal de que existe confiança e que começa a existir confiança cada vez mais nos números e na execução do plano da TAP. E isso é a melhor certeza que temos que o plano continuará a ser cumprido e acima dos esperado.

Entretanto, está anunciada de alguma forma, dito na praça pública, que a TAP vai ser privatizada, vai ser aberto capital. É obviamente uma operação que compete ao governo conduzir. De qualquer maneira, por exemplo, a avaliação da empresa já está a ser feita, isso competirá, certamente, à administração também conduzir esses trabalhos.

A administração gere a empresa. O acionista, se e quando começar um processo de abertura de capital, terá que ser obviamente decidido e executado pelo acionista. A administração colaborará em tudo o que lhe for pedido. O que lhe posso dizer é que nada começou e nada foi pedido à administração da empresa.

Nem há, sequer na perspectiva dos gestores, um calendário para essa operação.

Não, neste momento não temos calendário. Nem instruções, nem indicação.

OK. Portanto, o governo ainda não deu essa indicação. Não conseguimos ter uma ideia do valor da TAP neste momento?

Nem me cabe a mim fazer esse tipo de comentários, como deve imaginar.

Não, os comentários não. Seguramente, Gonçalo Pires será a pessoa mais bem-informada sobre o valor da empresa neste momento.

Acho que o que sabemos é que é uma boa notícia a quantidade de interessados que tem vindo a público em ser parceiros da TAP. Isto é sinal de que estamos a fazer um bom trabalho a executar o plano e que todos juntos estamos hoje a fazer uma TAP que é não só mais eficiente e mais rentável, e um ativo interessante para muitas companhias aéreas. Essa é a nossa função. E quando fizermos o nosso trabalho, estaremos a defender o valor do acionista, que é basicamente o valor de todos os contribuintes portugueses.

Gonçalo Pires, estamos quase a chegar ao fim. Se não for este ano, então será no próximo ano que a TAP tem, de uma forma sustentável e dentro de uma atividade normal, lucros. É isso?

Vamos trabalhar para conseguir os melhores resultados possíveis. E como lhe digo, estamos em linha para executar o plano e acima dos prazos. Por isso estamos confiantes que vamos continuar a apresentar bons resultados.

Muito bem, Gonçalo Pires, administrador financeiro da TAP. Obrigado por ter estado no Explicador desta manhã, onde olhámos de facto para o ponto de situação financeiro da TAP. Obrigado, bom dia.

Muito obrigado. Bom dia.