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Está em vigor um alerta e recomendação de evacuação da margem esquerda do Mondego, já na parte jusante de Coimbra. As atenções estão viradas para aquela zona do rio, sobretudo por causa dos diques e da ameaça de poderem colapsar perante a força e o volume da água. Eu sou o Ricardo Conceição, comigo está a Judite França. Judite, quem é o nosso convidado?
Vamos conversar com o Bastonário da Ordem dos Engenheiros, Fernando de Almeida Santos. Bem-vindo, obrigada pela disponibilidade. Vamos começar pelo mais elementar. Perguntas que parecem muito simples, mas para que seja perceptível: qual é a função de um dique e como é que funciona?
Muito boa tarde pelo convite, em nome da Ordem dos Engenheiros. A função de um dique é precisamente suster, neste caso particular, a força da água para individualizar ou separar a parte do rio, chamemos-lhe assim, ou a parte úmida da parte que é margem. Pode ser também para travar uma barragem, que também é um dique, mas um dique com outras funções, nomeadamente energéticas ou de armazenamento de água, não de separação de populações e transcurso do rio ou do mar, mas neste caso tem uma função de separação.
Mas neste caso, só para entendermos melhor, os diques estão paralelos à forma como corre o rio, fazendo quase um muro para a margem, ou são horizontais?
Muitas vezes os diques estão na margem do rio a separar o curso do rio, normalmente no curso natural do rio.
Portanto, longitudinalmente ao rio.
Exato, mas podem servir para mudar cursos de rios. Não é o caso em particular, mas podem existir diques ou caixas de dique que alteram o curso do rio e estão preparados para isso em termos de cálculo, naturalmente, também.
E a água passa como? Porque ela contém o caudal, mas como é que se alivia a pressão?
Alivia-se através do cálculo estrutural do dique, que tem que ter capacidade suficiente para aguentar a pressão, a força da água, o impulso e tudo isso. Agora, vamos lá ver uma coisa. Esse tipo de infraestruturas, que de alguma maneira são críticas porque podem pôr em risco populações, neste caso, têm que ser devidamente calculadas e estruturadas para a função, têm uma vida útil e têm, dentro da vida útil, obrigatoriamente, de estar sujeitas a manutenções periódicas para que essa vida útil seja garantida. Se me perguntarem se isso está a ser feito, eu não sei responder a esta questão, se a manutenção está a ser devidamente feita. Agora, em termos de projeto e de cálculo, não tenho dúvidas de que isso foi projetado para uma determinada vida útil, e isso há responsabilidades inerentes aos projetistas que, pelo menos, assumem a responsabilidade da vida útil e do cálculo que fizeram.
Nós já percebemos que a zona está inundada, sobretudo na margem esquerda. O rebentar do dique faria com que, de um momento para o outro, uma massa enorme de água se espalhasse em volume e em velocidade, é isso? Por isso é que falamos aqui na imagem de uma bomba.
Depende da altura do rio e depende do caudal do rio nesta fase. É um risco grande, é calculável e é precisamente por isso que a proteção civil e as divisões públicas levaram à evacuação das populações, porque esgotada a mitigação coletiva, ou seja, ultrapassado tudo aquilo que são as intervenções técnicas a montante de ocorrência de um risco, tem que se salvaguardar, naturalmente, as populações de forma direta e, portanto, a interpretação que nós temos é que, neste caso particular, a alerta já está direcionada exclusivamente para a vida das pessoas, é sinal que o risco é muito elevado.
Do ponto de vista, ajude-nos aqui a perceber, vou tentar aqui explicar porque não estamos a ver, estamos na rádio. No fundo, o dique está oblíquo em relação ao leito do rio, como se fossem duas palmas da mão abertas sobre as margens. Portanto, ele rompe por quê? Porque há água nos terrenos à volta e essas águas e esses terrenos estão a fazer pressão contra essa parede?
Há muitas eventuais causas. Pode haver desgaste e fadiga do dique por utilização excessiva, por falta de manutenção, por insuficiência de cálculo face à dimensão das águas que entroncam no rio. Há muitas causas.
O facto da barragem estar a descarregar ou ter que ir descarregando.
Aumenta claramente, aumenta o risco, aumenta o caudal, aumenta o volume da água e tudo isso conta, mas teoricamente o dique tem que estar preparado para essas eventualidades. E o dique novo. A questão é que o dique já não será novo e, portanto, tem aí algum desgaste, depois confrontado com os encontros que defende, pode ser insuficiente para suster a força das águas. Teríamos que perceber, naturalmente, face ao projectista, para que força e pressão o dique está calculado na forma como está construído, ou seja, no oblíquo face à corrente do rio, e se realmente esta força do rio ultrapassou esse cálculo para o qual o dique está calculado. Presumo que não, mas há outros fatores, fator de terreno envolvendo saturação dos solos, impacto da água, desgaste do betão, fissuração, falta de manutenção. Há aqui algumas questões que têm que ser vistas. Eu quero salvaguardar que, de uma maneira geral, em tudo que são infraestruturas críticas diretas, como pontes, viadutos, aeroportos, nós temos conhecimento e, como se tanto causa, que a manutenção e a monitorização é feita de forma vistoriada e com reabilitação atempada desse tipo de infraestruturas. Relativamente a este tipo de infraestruturas mais ocultas, ligadas a leitos de cheia, sustentação de margens, etc, não temos conhecimento se é realmente igualmente feito ou não e, portanto, provavelmente essa pode ser uma das causas.
Portanto, não tem garantias que essa vistoria regular ou que essa monitorização é feita de forma regular.
Não tenho. Vamos esclarecer. Também vamos pedir às entidades competentes se realmente isso é feito para nós podermos estar cientes do assunto. Agora, o que nós temos, isso eu não tenho dúvidas, há engenharia capaz em Portugal para resolver estes problemas de forma atempada e a montante, se realmente não estiverem acautelados. É como digo, não sabemos e, portanto, sob esse ponto de vista, há uma coisa que é certa. Eventualmente, o risco está em grave crise de cedência. Há várias coisas que podem acontecer. Isso era tratável e trabalhável, não sendo nesta fase das circunstâncias.
Exatamente. Queria-lhe perguntar se nesta fase em que estamos, nesta altura, é possível fazer alguma coisa para tentar minimizar essa possibilidade de colapso?
Há sempre medidas circunstanciais, que podem não resultar, que é juntas de areia.
Exato, estava a pensar, por exemplo, uns sacos gigantes, sejas de areia, uma coisa desse género.
Mas isso tem que ser calculado na mesma, mas isso não invalida que se tire de lá a população, porque a primeira salvaguarda tem que ser a população. E aí entendo que a Proteção Civil e os poderes públicos têm não só a obrigação, como o cuidado de atuarem e estão a atuar bem. E nesta fase das circunstâncias, tem mesmo que ser assim. Isso não invalida que nós não possamos atuar imediatamente naquilo que são medidas circunstanciais do momento. Há medidas para isso. Não sei de que forma é que se pode acautelar isso através de sacos de areia e batendo, e até outro tipo de medidas. Isso tem que ser estudado ao detalhe face à circunstância especial. Mas agora aqui uma questão que a Ordem dos Engenheiros já tem recomendado, não é uma crítica a nenhum governo, seja os anteriores, seja este, não é isso que pretendemos, mas em termos de recomendação, há mais coisas que podemos fazer. E uma delas, que não está pronta, é em circunstâncias de risco e nalguns casos de colapso de estruturas, porque acontece, derrocadas, etc, como tem acontecido ao longo de estradas em Portugal, e não só, existir uma verba no Orçamento de Estado que obrigue e disponibilize uma atuação especial, obrigatória e direta, sem ter que se fazer um Conselho de Ministros extraordinário, disponha da verba e estar à espera da legislação e a contratação pública, que demora imenso tempo administrativo, para resolver problemas urgentes e que têm que ser acautelados. Nalguns casos até em antecipação, e se calhar este era um deles. E portanto, se nós tivéssemos isso, que não existe em França, que não existe noutros países, tivéssemos isso acautelado, se calhar não estávamos a pensar agora em começar a resolver alguns problemas, mas se calhar já estavam alguns mitigados. Não digo que seja este, mas alguns estariam. E isso é uma recomendação forte que a Ordem dos Engenheiros tem feito, porque penso que estamos a contribuir para soluções que beneficiam o país e a população em geral.
Senhor Bastonário, muito obrigado. O Bastonário da Ordem dos Engenheiros, Fernando Almeida Santos. Obrigado.
Obrigada.