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A pouco mais de uma hora da oficialização da candidatura do almirante Henrique Gouveia e Melo à Presidência da República, chamamos a esta tarde política a socialista Ana Gomes, antiga candidata a Belém, que desta feita deixa para outros protagonistas da área socialista a corrida à presidência. E será que vai estar ao lado de António José Seguro, caso o antigo secretário-geral do PS decida dar o passo em frente? Ana Gomes, na Tarde Política, uma entrevista conduzida pela Judite França e pelo Miguel Videira.

Doutora Ana Gomes, boa tarde. Bem-vinda à Tarde Política da Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado o nosso convite. Se calhar, começava aqui com este preâmbulo. Estamos à espera que Luís Montenegro, que já foi indigitado primeiro-ministro, possa fazer uma curta declaração no Palácio de Belém. Deixe-me perguntar se corremos o risco de a perder, caso decidamos passar essa intervenção de Luís Montenegro.

Com certeza, não há problema.

Não há problema. Bem-vinda mais uma vez. Obrigado por ter aceitado o nosso convite. Depois de Luís Marques Mendes, hoje é Henrique Gouveia e Melo que dá o passo em frente com a apresentação da candidatura a Belém. Começam a ficar atrasados os candidatos da área socialista para dizerem presente?

Não, de maneira nenhuma. Olhe, eu lembro-me que para eleições em janeiro, eu apresentei-me em setembro e foi muito a tempo. Portanto, não há nenhum atraso.

E Henrique Gouveia e Melo e Marques Mendes é que porventura se lançaram para esta corrida cedo demais?

Como?

Perguntava se terá sido Henrique Gouveia e Melo e Marques Mendes que porventura se lançaram para esta corrida presidencial cedo demais.

Eles lá sabem das suas estratégias. Eu tenho a sensação que o doutor Marques Mendes foi, de alguma maneira, empurrado a antecipar por causa da atenção, na minha opinião, extemporânea que os media deram às questões presidenciais antes do tempo, antes inclusivamente de ter sido convocado este recente ato eleitoral para as eleições legislativas, que depois veio tudo a tirar de cima da mesa relativamente às presidenciais. Agora, pelos vistos, o processo é retomado com a apresentação da candidatura do almirante. Ele lá saberá, ele e os seus conselheiros. Pode-se ver também o tempo que resta, tanto como uma oportunidade para se fazer conhecer, que ele é vastamente conhecido, o que não se conhece de todo são as suas ideias e, portanto, se calhar, por essa é a razão, porque entendem que precisam de tempo para se conhecerem as suas ideias. Aquilo que eu já vi ser posto cá fora, não me parece que seja extremamente animador.

Deixe-me só perguntar se então percebe por que António José Seguro ainda não avançou.

Percebo, quer ele, quer outras pessoas, mas percebo que não há pressa nenhuma, até porque o país vai estar focado nas eleições autárquicas, que vão ser em setembro ou outubro. As presidenciais são só em janeiro, portanto, não há necessidade nenhuma de os candidatos estarem a apresentar-se. Enfim, cada qual terá a sua estratégia, mas se eu tivesse que aconselhar algum deles, era que não se precipitasse, não apresentasse, deixasse isso para depois das autárquicas.

E também é por isso que ainda não declarou apoio a nenhum candidato?

Eu estou a ver quem é que se posiciona, naturalmente. Já me pronunciei no sentido de, primeiro, deixar que o meu partido, o PS, tem que ter posição. Não concedo que mais uma vez, na linha socratista e costista, o PS não tenha posição. O PS tem que ter posição para as presidenciais, porque não ter posição, no fundo, é desvalorizar o cargo como Presidente da República. É uma perspectiva, do meu ponto de vista, errada democraticamente, no fundo, tudo centrar no poder do primeiro-ministro, quando obviamente a democracia, no nosso quadro constitucional, funciona também com a intervenção do Presidente da República, e bem. Estamos, como sempre tivemos, a demonstração ao longo do percurso democrático, da intervenção decisiva que os presidentes da República, para bem ou para mal, tiveram sempre. Estes anos, por exemplo, do presidente Marcelo Rebelo de Sousa ficam marcados pela instabilidade, que tem a ver, de resto, com o personagem traquinas que ele é, com a instabilidade que levou a este excesso de eleições nestes últimos anos, quando não havia necessidade.

Sobre os candidatos da área socialista, António Vitorino já disse que não, que não apoiaria uma eventual candidatura de António Vitorino à Presidência da República. António José Seguro ainda não deu o passo em frente. Gostava de ver mais algum nome perfilado para entrar nesta corrida a Belém?

Eu volto a dizer que acho que há várias personalidades socialistas e da área socialista, não tem que ser um socialista. Tem que ser alguém da área democrática que encarne os valores e princípios que se compatibilizam naturalmente com a perceção dos socialistas sobre o que são as aspirações e as necessidades de Portugal. Mas sim, em relação a nomes que já foram ventilados, eu tomei já posição em relação a um deles, dizendo que me parecia que não tinha condições. E não é por não ter perfil político, divergência, sabedoria e cosmopolitismo, etc. É por outras razões que têm a ver com o seu percurso Pessoal, profissional, que do meu ponto de vista não recomendo a nenhuma que se candidate a algarve. Aliás, eu sempre pensei que como António Vitorino, e é dele naturalmente que estou a falar, já nos habituou a isto, sistematicamente sugerir que está a pensar e que está a refletir e depois nunca avançar pra nenhum lugar. É uma estratégia até certamente rendosa do ponto de vista profissional. Em relação a António Guterres Seguro, estou à espera que ele se declare. Acho que se ele se declarar, e tudo indica que sim, e eventualmente ainda podem surgir outros nomes. Hoje também falaram do professor Sampaio da Nóbrega, mas António José Seguro, do meu ponto de vista, é uma das personalidades que tem um perfil que se compatibiliza com o que acho que é exigível para poder ser apoiado pelos socialistas. E ao contrário do que algumas pessoas tendem a sugerir, que ele não tem experiência internacional, não é verdade. Ele foi eurodeputado e eu devo dizer que enquanto eurodeputada ouvi falar muito bem de António José Seguro pelo papel que desempenhou no Parlamento Europeu.

Com a saída de Pedro Nuno Santos da liderança do PS, pode ser mais fácil uma candidatura de António José Seguro a Belém apoiada pelo Partido Socialista?

Admito que sim, isso vai ter que ser decidido nos órgãos próprios do partido. Ainda ontem vi, na entrevista da grande reportagem ao candidato a secretário-geral José Luís Carneiro, que ele justamente dizia que isso será decidido nos órgãos próprios do partido. Mas admito que, até por se conhecer a relação de amizade que existe entre José Luís Carneiro e António José Seguro, que isso de alguma maneira também facilite um consenso em torno de António José Seguro, desde que ele, naturalmente, se apresente, porque é evidente que as candidaturas à Presidente da República não são candidaturas de partido. Não devem ser. São candidaturas pessoais, que podem ser apoiadas pelos partidos, mas exigem o ato pessoal de cada um se apresentar.

Mas também exigem, como Ana Gomes bem sabe, uma ajuda da rede do partido.

Bem, se é pela negativa.

Certo.

Porque não a tive.

Exatamente.

De qualquer maneira, também sai na mesma. Enfim, depois digamos que tive informalmente de uma parte do partido, ou de militantes, naturalmente, mas não do partido. É evidente que esse também é um aspecto que pode ser importante. Em particular pra algumas pessoas, isso pode ser importante. Pra mim, em última análise, não foi o que me fez avançar. Pelo contrário, até foi exatamente por discordar totalmente da posição de António Costa, que tinha exprimido naquela sessão da Autoeuropa, que estamos bem lembrados, o apoio a um segundo mandato de Marcelo Rebelo de Sousa, que me fez avançar. Esse foi mesmo um fator bastante importante para depois eu avançar, mesmo sabendo que não tinha o apoio do partido.

Não pensou, desta feita, em dar esse passo? Voltar a candidatar-se à Presidência da República? Não foi incentivada a tal também?

Não, eu fui. Pedro Nuno Santos quis saber quais eram as minhas ideias e a minha percepção. Eu conversei com ele, já em janeiro, sobre essa matéria e disse-lhe que não sancionava candidatar-me, porque eu acho que quem quer ter o apoio dos socialistas, tem que ser alguém que una e federe o PS. Ora, eu sei bem que não sou nada...

Não é unificadora.

Não unificadora, nem quer ser. Há mesmo muita gente que eu combato fora e dentro do PS, porque são todos aqueles que aplicam políticas que do meu ponto de vista são erradas. E muitos deles estão no PS, sendo o PS um partido de poder, tendo o PS o papel que teve nos últimos anos de governação do país, nalguns aspectos com uma herança positiva e noutros com uma herança bastante negativa, que aliás explica a situação em que neste momento está o próprio PS.

A liderança de José Luís Carneiro é o que o PS precisa agora ou faz falta um momento de pausa e reflexão?

Essa cena da reflexão. A reflexão faz-se ao mesmo tempo que a ação, o país não para. E há desafios que o PS tem imediatamente que se preparar, que já estavam a ser preparados e que tem que continuar a preparação, como sejam das autárquicas e depois também das presidenciais. E, portanto, a reflexão tem que se fazer ao mesmo tempo em paralelo com a ação. Uma coisa não impede a outra, pelo contrário.

Mas este calendário definido ajuda, por exemplo, a que outras candidaturas possam surgir ou, pelo contrário, é um entrave ao agendamento das diretas já para o próximo mês, dia 27 e 28?

A única razão porque não surgem mais candidaturas é porque as pessoas não querem. Se depois utilizam um argumento qualquer, como a reflexão ou o tempo, ou o que quiserem, é um problema delas, mas a única razão porque as pessoas que eventualmente gostariam de ser secretários-gerais se não apresentam, é porque fazem cálculos políticos e acham que este não é o momento de se apresentar. Porque nada impediria, tanto quanto eu ouvi dizer, de acordo com o calendário que foi aprovado, até dia 12 podem ser apresentadas candidaturas. Portanto, ninguém se pode escudar em nenhuma razão, a não ser a sua própria vontade ou o seu próprio cálculo político, para não se apresentar agora. E eu penso que era positivo Para o PS, para a democracia e para o país, que obviamente houvesse uma competição sã, democrática, no seio do PS para escolher o próximo secretário-geral. Isso não é incompatível com o timing que foi aprovado já pela Comissão Nacional e que prevê eleições no final de junho.

Então não concorda que José Luís Carneiro foi demasiado rápido a posicionar-se para uma candidatura?

Não concordo. Acho que até devemos louvar o fato dele imediatamente, a seguir ao momento em que o secretário-geral Pedro Nuno Santos apresentou a demissão, imediatamente se chegou à frente. Era o que eu gostaria que outras pessoas que têm também pretensões a vir a ser secretário-geral fizessem, apresentassem a sua candidatura, em vez de se refugiar atrás de argumentos que só mostram que têm estratégias calculistas. Infelizmente, eu já vi isso. Eu já vi isso, por exemplo, quando António Costa, a seguir a Sócrates, fez avançar Francisco de Assis contra António José Seguro, quando era óbvio que a única razão porque ele próprio, Costa, não avançava logo, é porque achava que aquele não era o momento, aquele era um momento difícil de apanhar os cacos. E ele guardava-se para mais tarde, como veio a acontecer.

José Luís Carneiro, ficámos há pouco sem perceber. Considera que tem o perfil adequado para tomar as rédeas do Partido Socialista nesta altura ou preferia ver alguém com outras características e posicionamento ideológico no seio do PS?

Eu só posso decidir em função de vários candidatos que se apresentassem, mas sem dúvida que o que conheço de José Luís Carneiro é uma pessoa que sabe ouvir, o que é importante neste momento. É uma pessoa que tem experiência governativa, não só na administração interna, mas no MN, onde, de resto, deixou uma excelente imagem, muito respeitado pelos profissionais do MN, portanto, meus colegas. E também é um homem que tem a experiência do terreno, tendo sido autarca 10 anos e portanto conhecendo bem o país. Penso que estas são características extremamente importantes neste momento.

É uma característica importante para as eleições autárquicas?

Muito importantes, sem dúvida. E também é um homem que tem visão cosmopolita. Ele foi professor de Direito Internacional, de Relações Internacionais. Portanto, tem bem a perceção dos desafios que se apresentam a Portugal no contexto da própria União Europeia e no contexto internacional. E isto é muito importante. Foi um tema que esteve bastante ausente da recente campanha eleitoral, na minha opinião. Foi aqui e ali aflorado, mas não como devia. Aliás, o Governo enganou-nos, o AD enganou-nos, porque inclusivamente o primeiro-ministro chegou a desmentir que tivesse a ideia de vir a cumprir a solicitação de 5% do PIB para a defesa, como aparentemente se está a falar no quadro NATO, e agora, pelos vistos, isso já foi comunicado pelo ministro de Negócios Estrangeiros à própria NATO. Portanto, estas questões são questões importantes, têm que ser discutidas, que deviam ter sido discutidas em campanha. Ora bem, é o tipo de questões para que José Luís Carneiro tem sensibilidade também. E portanto, desde que ele se proponha fazer oposição, porque eu acho que o papel do PS, essa história de estarem todos para aí a falar de quem é o líder da oposição não interessa para nada, o que interessa é quem é que efetivamente exerce o papel de líder da oposição. E o PS, na minha opinião, tem que assumir que o seu papel, tendo perdido as eleições, é liderar a oposição. E quando eu digo liderar a oposição, é caso a caso, ter propostas alternativas, se as que o governo propõe não são de todo compatíveis com aquilo que são as nossas visões do que são os interesses do país. E, portanto, eu espero que a viabilização, que compreendo neste momento, do governo de Luís Montenegro, não signifique um cheque em branco, nem signifique que o PS vai de facto ser muleta da AD, quando o que nós precisamos é uma oposição a sério, uma oposição construtiva, uma oposição credível, uma oposição com soluções, e não uma oposição como inevitavelmente, independentemente das fitas de responsável e bem-comportado que agora Ventura faz, que ele inevitavelmente vai fazer, porque está na massa de sangue, e na massa de sangue do seu partido.

Ana Gomes, muito obrigado por ter vindo a esta tarde política, este explicador, e sublinhar esta ideia, apesar de não ser uma personalidade da política unificadora, a verdade é que Luís Montenegro, o primeiro-ministro indigitado, não fez a declaração depois do encontro com Marcelo Rebelo de Sousa, porventura à espera que terminasse este explicador. Muito obrigado pela sua presença e até breve. Boa tarde.