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Explicador da Rádio Observador. O CDS reúne este fim de semana o 32º Congresso em Alcobaça. A Juventude Popular apresenta uma moção que podemos ler como crítica da atual liderança, por entender que o partido se está a diluir na AD. De resto, há dois candidatos à liderança do CDS, o atual presidente e ministro da Defesa, Nuno Melo, e o antigo deputado Nuno Correia da Silva. A moção estratégica "Tempo de Decidir", da JP, prevê também que o partido entre na revisão constitucional, criando condições para que o aborto e a eutanásia, por exemplo, sejam declarados inconstitucionais. Mas antes de tudo, há um problema interno, aparentemente, que já se resolveu, que poderia levar a que 80 delegados da JP ao Congresso ficassem à porta em Alcobaça este fim de semana. Eu sou o Ricardo Conceição e comigo está a Judite França.
E a nossa convidada, presidente da JP, Catarina Marinho. Bem-vinda, obrigada pela disponibilidade. A Juventude Popular chega ao Congresso com uma impugnação em cima da mesa. O que aconteceu exatamente?
Olá, boa tarde, Judite. Boa tarde, Ricardo. Obrigada pelo convite. Na verdade, já não existe problema nenhum e foi tudo resolvido. Os 86 delegados da cota da Juventude Popular estarão amanhã presentes no Congresso do partido e muitos mais estão também presentes, porque foram a partir de listas do partido, a partir das inerências de autarcas e, portanto, já não temos esse problema em cima da mesa, resolveu-se e isso é que interessa e teremos um congresso bastante positivo para nós.
Mas houve um pedido de impugnação, foi isso? Já está resolvido, mas só para percebermos o que aconteceu.
Exatamente. Entrou um pedido de impugnação nos órgãos superiores da Juventude Popular, que ainda está, e agora os órgãos superiores irão tomar uma decisão. Mas a comissão organizadora do Congresso, e bem, aprovou os nomes, porque este pedido de impugnação não tem efeitos suspensivos. Portanto, os nomes estão aprovados pra poderem participar com total direito neste fim de semana.
Vai ser decidido a posteriori, é isso?
Exatamente, sim.
A eleição ocorreu de forma diferente daquela que é habitual, não é? Costuma ser indicação do Conselho Nacional e foi indicado pela direção. Por que aconteceu assim?
Na verdade, era indicação já há alguns anos. Eu tenho 14 anos de filiação e desde o momento em que eu entrei, pelo menos desde o presidente que nós tínhamos na altura, que era Miguel Pires da Silva, que era indicação diretamente da Juventude Popular. Não era necessária nenhuma eleição. O partido este ano pediu-nos, e nós obviamente de boa fé, e assim o fizemos, convocamos um conselho nacional pra poder então proceder a um ato proforma. E o que foi feito é uma lista com militantes do país inteiro, com diferentes visões e opiniões e que se reúnem, mesmo com vozes diferentes, pra poder se apresentar no Congresso e poder fazer parte da discussão, que é esse o nosso principal objetivo.
Nós não temos aqui a Joana Sousa Lara, que é a militante que apresentou esta impugnação, mas pedindo-lhe, Catarina, consegue explicar-nos qual foi a razão que levou a Joana Sousa Lara a pedir esta impugnação?
Olhe, aparentemente, e de facto, o documento que ela apresenta aos órgãos superiores está muito claro nisso. Ela considera que existiram irregularidades. Mais uma vez, eu prefiro não falar, porque como o processo está nos órgãos superiores, se me chamarem aí, sim, obviamente falarei. Mas ela considera que existem uma série de irregularidades, nomeadamente no tempo em que o Conselho Nacional começou. Mas a verdade é que os trabalhos decorreram. E esse é o principal ponto e aquilo que é o mais importante, é que nós tivemos um Conselho Nacional, penso eu, de cerca de duas horas e meia, quase. E no final desse Conselho Nacional, as pessoas votaram. Aliás, houve duas votações, as pessoas votaram nas duas votações e a decisão final foi tomada e a lista de delegados está aprovada. Isso é que importa.
Está tudo bem dentro da JP? Não há um clima de grande pacificação.
Claro, mas nós se tivéssemos também todos a mesma forma de pensar e estivéssemos completamente alinhados no que tinha de ser feito, em princípio indicaria que alguma coisa também estava errada. Portanto, eu, na verdade, fico sempre muito feliz que haja militantes que pensem diferente de mim, que queiram obviamente também estar presentes nas discussões internas que nós temos, nomeadamente neste Conselho Nacional, e estas discussões internas são normais. Obviamente que eu posso concordar mais ou menos com elas, mas isso não quer dizer que não seja algo totalmente democrático e que qualquer militante esteja no seu direito.
Catarina Marinho, essa é a deixa perfeita para avançarmos na nossa conversa, olhando já aqui pro Congresso deste fim de semana em Alcobaça. A JP tem uma moção neste Congresso em que defende que o CDS deve concorrer sozinho nas próximas eleições legislativas. A JP olha nessa altura para o CDS como se tivesse um pouco diluído na AD. É uma imagem correta, que corresponde ao que pensa?
Aquilo que a Juventude Popular quer, e este documento é uma tradução de todas as discussões internas que nós tivemos, em particular durante o mandato em que sou presidente, portanto, há cerca de um ano e meio, em que o que defendemos verdadeiramente é que o partido se deve preparar para quando for a eleições sozinho. Isto não quer dizerQue nós estejamos a apoiar, que seja agora neste momento e acabou a conversa. O que nós estamos a dizer, na verdade, é exatamente o oposto. O trabalho que está a ser feito ao dia de hoje, neste caso com a AD a governar o país, está a ser muito positivo para o país, mas mais positivo ainda para o país é um CDS forte, e também isso vai ajudar numa AD forte. E na minha opinião, claro, o CDS forte até é muito mais importante ainda para o país. Portanto, o que nós defendemos é que existem sempre melhorias. E neste caso, nós apresentamos um documento cheio de propostas para melhorarmos em várias áreas. E é isso que queremos que o partido ouça, é isso que queremos discutir neste próximo fim de semana, porque acreditamos que é possível fazer mais. Se não acreditássemos, nunca valia a pena estarmos aqui.
Nuno Melo diz que separar CDS e PSD levaria o PS ao poder de novo. Discorda desta visão?
Eu tenho uma visão de que, obviamente, o governo, neste momento, é composto por dois partidos diferentes. Os dois partidos têm visões, forma de estar, crenças distintas e é isso que traz e enriquece esta coligação. A nossa opinião, na Juventude Popular, é que nós temos uma herança muito forte, não só dos 52 anos de partido que temos, mas também das várias governações onde nós já estivemos. Obviamente que ao dia de hoje, partir a AD entre o PSD e o CDS iria, muito possivelmente, ajudar o Partido Socialista. Essa não é a nossa proposta. Aquilo que nós colocamos em cima da mesa não é acabar com a coligação hoje, não é que o governo acabe hoje. Nunca dissemos isso e jamais vamos dizer. Mais uma vez, o que nós dizemos? O que nós dizemos é que dentro da governação que nós fazemos parte, o nosso partido, o CDS-PP, tem de se preparar para ir a votos quando esse momento chegar, e não apenas quando o momento lá à frente chegar. Deixe-me só adicionar uma coisa: esta é a décima vez que nós estamos em coligação. Portanto, já houve nove vezes anteriores em que estivemos em coligação e deixámos de estar em coligação, que é uma coisa normal. E, portanto, temos de estar preparados para quando voltarmos a não estar em coligação.
Catarina Marinho, há pouco perguntava, portanto, não se revê nesta ideia de que o CDS está um pouco diluído nesta AD. Não tem, nesta altura, expressão pública e também não sabe quanto vale em votos. Não subscreve esta leitura.
O que nós subscrevemos, e obviamente eu subscrevo, é que o facto de estarmos nesta coligação que governa o país nos está a dar ou retira-nos espaço para nós, de forma muito desvincada, falarmos daqueles que são as nossas grandes bandeiras ou as principais bandeiras, ou de certa forma, porque é normal quando estamos em coligação, termos de ceder de parte a parte. Isto é uma coisa que é uma realidade. E aliás, estando em coligação, seria difícil que isto não acontecesse. Portanto, e na nossa moção, isso está escrito, se nós consideramos que existe muito por onde melhorar, também consideramos que, como é óbvio, estando nós a governar o país com outro partido, também temos de fazer cedências. Mas isso não quer dizer que não haja todo um caminho para se fazer, onde nós mostramos às pessoas que, de facto, o CDS-PP tem um papel muito importante e terá um papel ainda mais importante no futuro, especialmente nos tempos que correm e com a forma como se faz política ao dia de hoje.
Há dois candidatos neste congresso, além de Nuno Melo, o atual líder do CDS. Há também o candidato Nuno Correia da Silva. Já decidiu em quem vai votar?
Olhe, antes de mais nada, deixe-me dizer que eu acho que é um ótimo sinal que haja dois candidatos à liderança do partido. É um sinal que, de facto, para além de existirem visões diferentes, que é muito importante, há também esta vitalidade de nos apresentarmos e de tentarmos mobilizar ideias. Isto é pra mim muito importante. Em quem eu vou votar, para além de não fazer esse exercício, porque o exercício que eu tenho mais importante de todos é representar esta moção que nós levamos, é algo que cada militante terá o seu espaço para decidir. E isto pra mim é o mais importante. Em vez de falarmos sobre lideranças, é falarmos sobre o que verdadeiramente estamos a fazer a nível político e a nível estratégico. Este deve ser o tema do próximo sábado, em particular, que é o dia da discussão.
É que o seu discurso parece identificar-se mais com o Nuno Correia da Silva, se me permite a provocação.
E por que diz isso?
Porque ele defende que é necessário criar mais espaço, recuperar espaço para o CDS. É por isso.
Então olhe, com toda a consideração que eu tenho pelo Nuno Correia da Silva, até porque ele foi presidente da Juventude Popular no passado. A moção da Juventude Popular, na verdade, até foi lançada muito antes e, portanto, nós podemos dizer que somos a cara destas soluções e destas propostas que nós estamos a colocar em cima da mesa, até.
Vamos ainda olhar para a moção que vai defender e defende que, por exemplo, o CDS deve entrar agora em matérias relacionadas com a revisão constitucional e depreendo que isto vá ao encontro do que acabou de dizer, dessa necessidade do CDS ter mais espaço para afirmar as suas bandeiras, que passa, por exemplo, Catarina Marinho, por uma alteração na Constituição que no fundo levaria a que o aborto e a eutanásia fossem declaradas inconstitucionais.
Sim. Nós, a par da revisão constitucional, isto é uma coisa muito importante que eu gostava aqui de dizer, apresentamos, incluindo a revisão constitucional, cinco grandes reformas que queremos para o país, e todas elas da máxima importância. A primeira, que é a educaçãoA segunda é a laboral, a terceira é a fiscal, a quarta é na justiça e depois esta quinta, que é a revisão constitucional. Quanto à revisão constitucional, o que nós vamos levar são variadíssimas propostas, nomeadamente aquilo que eu disse, mas também aquilo que nos acompanha há demasiados anos, que é nós continuarmos a caminhar para esta sociedade socialista. E a nossa proposta, e já tínhamos partilhado isso até anteriormente com o partido, de forma menos estruturada, quando o nosso grupo de trabalho estava ainda a desenvolver as propostas e também com o nosso grupo parlamentar, mas agora sim iremos apresentar tudo junto, é que olhemos de uma forma a colocarmos fim a esta tentativa de depuração ideológica. Mas não gostamos e não gostávamos mesmo de retirar da discussão as restantes reformas que vamos apresentar e que para nós são mesmo muito importantes. E se eu pudesse aqui dizer duas ou três, por exemplo, na justiça, para nós aquilo que seria muito importante, que é o fim da prescrição de homicídios qualificados. Haver pessoas que tiram a vida de forma intencional e depois esperarem calmamente pelo calendário judicial e serem absolvidos, para nós não faz sentido nenhum. Também no apoio às famílias, as famílias a partir do terceiro filho ter a isenção de IRS. Isto para nós, que é muito importante para continuarmos neste investimento na família, que até este governo tem tido um papel bastante importante, mas que para nós tem de facto deparado ser um castigo fiscal, são temas que nós não queremos mesmo tirar de cima da mesa, porque isto impacta e muito a vida das pessoas.
Deixe-me só ir, para finalizar a nossa conversa, se não vê, por exemplo, na questão do aborto ou da eutanásia, a posição do CDS ou, neste caso, a posição da JP como um retrocesso, algo que não conta com uma maioria inequívoca dos portugueses.
Eu considero que nós, qualquer um dos portugueses que nós temos aqui no nosso país, independentemente da opinião que tenham, devem continuar a ter a sua opinião, a defender a sua opinião e a dizer aquilo em que acreditam. E no nosso caso, é isso que nós estamos a fazer. A proposta que nós fazemos na revisão constitucional, na verdade, é para deixar muito claro esta solidariedade e esta necessidade que de facto existe para estarmos ao lado de toda a gente e defendermos e protegermos quem mais precisa. Não achamos que isto seja um retrocesso, achamos que isto é fazer parte da discussão política normal.
Catarina Marinho, muito obrigado pela sua disponibilidade para estar aqui neste Explicador, a presidente da Juventude Popular, e boa viagem até Alcobaça.
Muito obrigada.