Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Está no ar o Explicador das Manhãs 360º, esta segunda-feira sobre o Votómetro. É convidado do Explicador Jorge Fernandes, investigador do CSIC em Madrid e ás do programa Fora do Baralho, e ainda coordenador do Votómetro. A moderação é da Carla Jorge Carvalho e do Bruno Vieira Amaral.
E o Votómetro já está disponível, esta ferramenta interativa do Observador que permite que os leitores, em minutos, descubram com que candidatos a estas presidenciais se identificam mais e para nos explicar o funcionamento e também como é que foi construído, concebido este Votómetro, temos o Jorge Fernandes. Bom dia, Jorge. Bem-vindo a este Explicador. Explica-nos um pouco as características deste Votómetro e naquilo também que se diferencia de anteriores Votómetros e em particular daqueles que dizem respeito às legislativas. Existem grandes diferenças na conceção deste Votómetro?
Olá, bom dia a todos. Bem, na verdade, este Votómetro é muito semelhante aos Votómetros anteriores. Quem já experimentou os Votómetros anteriores, seja em legislativas, em europeias ou até em autárquicas, não notará grandes diferenças. A diferença fundamental deste Votómetro é que este Votómetro centra-se em pessoas e não em partidos, enquanto em Votómetros anteriores tudo era baseado em partidos, em marcas partidárias, portanto, estávamos sempre a falar da proximidade ao PS, ao PSD, ao Chega, ao PCP, enfim, a qualquer um dos partidos. Neste Votómetro centrámo-nos em personalidades, dado que a eleição presidencial é uma eleição unipessoal e em que os partidos podem apoiar os candidatos, podem até dar as suas máquinas partidárias para efeitos de campanha eleitoral, mas os candidatos são pessoas individuais.
E não concorrem com um programa, não apresentam um programa político aos eleitores. Isso também acresce dificuldade na conceção do Votómetro?
Sim, exatamente. Ao contrário dos outros Votómetros, enfim, estes candidatos, muitos deles fazem muitas declarações públicas sobre os vários temas, etc. Mas ao contrário dos partidos, não têm propriamente um programa ideológico. Não sei se a maior parte dos ouvintes têm essa noção, mas há partidos, estou a pensar, por exemplo, no caso do PCP, que lança um documento de 200 páginas densíssimo antes de cada eleição. Enfim, o PS ou o PSD têm documentos em PDF online com 150, 100 páginas, onde existe mesmo muita informação ideológica e em que os partidos dão informação detalhada sobre os vários temas nacionais, internacionais, e em que conseguimos descobrir com muito detalhe onde é que eles se posicionam e quais são as suas posições sobre um conjunto de temas. Neste caso, o que fizemos relativamente aos candidatos foi elaborar as perguntas que achamos que captam de alguma maneira as dimensões de competição que são importantes nesta eleição. Nestas dimensões de competição, temos uma mistura clássica sempre de algumas perguntas que sabemos que são importantes em todas as eleições, legislativas, presidenciais, que no fundo são perguntas que já estão muito testadas, não só em Portugal, mas também noutros países, que nos permitem de alguma maneira posicionar os candidatos na escala esquerda-direita e na segunda dimensão, que é a dimensão conservador-liberal.
Essa é a tal bússola ideológica, não é, Jorge?
Exatamente. A bússola ideológica, no fundo, tem duas dimensões. Tem uma dimensão clássica esquerda-direita, onde colocamos as perguntas maioritariamente aquilo que podemos chamar esquerda e direita econômicas, em que as pessoas se posicionam relativamente a um conjunto de questões, digamos, mais tradicionais. Estou a pensar, por exemplo, na redistribuição, no Estado social, enfim, essas questões mais tradicionais. E depois temos uma segunda dimensão, que é uma dimensão que chamamos tipicamente conservador-liberal, e aqui liberal não no sentido econômico, mas no sentido mais cosmopolita, pessoas que querem, por exemplo, maior integração europeia, liberalização de drogas leves, que têm uma posição mais liberal nesse sentido.
Sim.
E portanto, sob esse ponto de vista, o que nós fizemos aqui foi preparar 15 perguntas que achamos que de alguma maneira cobrem o espectro da discussão tal como ela está a acontecer neste momento em Portugal e portanto, as perguntas que são relevantes e que têm sido discutidas nas presidenciais. Temos algumas perguntas específicas que só têm sentido no contexto presidencial. Estou-me a lembrar, por exemplo, da pergunta sobre o aumento ou a manutenção dos poderes do presidente tal como está neste momento, que é uma pergunta completamente específica a estas eleições. E o que fizemos foi montar essas 15 perguntas e depois para pôr todos os candidatos em pé de igualdade, o que fizemos foi enviar as perguntas tal como elas são feitas às pessoas, enviar a todos os candidatos e dar-lhes a oportunidade para eles se autoposicionarem.
Jorge, só um detalhe. Fizeram isso com oito candidatos, não com todos os que vão constar no boletim de voto, em princípio, mas com oito candidatos. Eles responderam com rapidez e interesse a essa proposta que vocês fizeram?
Quase todos. Responderam todos, para começar. Todos responderam, e isso é um ótimo sinal, e acho que é um sinal, acima de tudo, que o Votómetro já se conseguiu impor como uma marca. Eu lembro-me que nós fizemos isso não em presidenciais, mas por exemplo em partido, que contactámos os partidos em primeiras edições do Votómetro e a maior parte dos partidos simplesmente ignoraram os nossos pedidos, apesar de serem insistentes e apesar de virem de "O Observador", que é uma marca de comunicação reputada e que não é propriamente um jornal desconhecido. Eu acho que isto mostra também que o Votómetro já se impôs como uma marca e como um instrumento que toda a gente sabe o que é. Desta vez, felizmente, tivemos todos os candidatos a responderem, uns mais depressa do que outros, mas era um bocadinho antes do Natal e foi também um momento em que eles estão todos em campanha eleitoral. É sempre um momento complicado, mas claro, todos eles responderam e isso não só nos facilita a vida, o facto de eles responderem não só torna a nossa vida mais fácil, torna a classificação muito mais rigorosa, porque não fomos nós a inferir quais as posições deles sobre uma determinada questão.
Sobre um determinado assunto. E os candidatos também fizeram a ponderação que depois os leitores de "O Observador" fazem, podem fazer no Votómetro ou responderam apenas às questões?
Não. Os candidatos responderam apenas às questões e convém também ressalvar que os candidatos não se posicionaram no sentido de dizerem se estavam de acordo ou em desacordo com a respetiva questão. Isto é, nós fizemos uma pergunta.
Ou seja, não fizeram um votómetro. Os candidatos responderam às perguntas.
Os candidatos posicionaram-se, isto é, nós fizemos uma pergunta, por exemplo: "Concorda com o aumento dos poderes do Presidente da República?" E os candidatos providenciaram-nos um texto em que não só respondiam à pergunta, mas no fundo justificavam a sua posição. E nós, a partir de todo esse manancial de informação, e que foi muito, olhámos para a informação que eles nos deram e a resposta que deram a cada pergunta, e depois a partir daí decidimos então se o candidato ou a candidata estava de acordo, em desacordo, tendia a concordar. E outra coisa importante é que no exercício de calibração, o que fizemos também foi olhar os candidatos em comparação uns com os outros, porque isto pode parecer um exercício trivial ou muito simples, mas muitas vezes não é simples, porque muitas vezes temos candidatos que se nós olhássemos o candidato ou a candidata de forma isolada, pensaríamos que estava, por exemplo, em total concordância. Mas quando olhamos para outros candidatos, se calhar às vezes aquilo dá-nos uma perspectiva ligeiramente diferente e há posições com muito mais nuances do que simples sim e não.
Jorge, há as tais 15 questões iniciais e já explicaste que algumas são muito dirigidas àquilo que é uma eleição presidencial, outras têm a ver com o contexto e com os grandes temas que estão em debate, mas depois há também a tal ponderação destas questões, a importância que cada um dos potenciais eleitores dão ou não a determinadas matérias. Essa fase é facultativa, mas é importante que se faça no Votómetro para se ter uma versão mais fina daquilo que é a posição de quem faz o Votómetro?
Sim, é importante esclarecer e sublinhar que nós não atribuímos nenhum tipo de ponderador aos candidatos. Os candidatos no sistema, digamos assim, no Votómetro, entram com todas as perguntas, têm o mesmo ponderador. O mesmo peso, exatamente. O que acontece é que nós sabemos que na vida real nem tudo é igualmente importante para as pessoas. Para dar aqui um exemplo, certamente que para alguns eleitores, por exemplo, o aumento do prazo da legalização da interrupção voluntária da gravidez para as 14 semanas poderá ter muito peso, mas sabemos, por exemplo, que o acesso ao Serviço Nacional de Saúde, sabemos isso por sondagens e informação da opinião pública, tem muitíssimo mais peso para uma fatia muito maior dos eleitores. O que isso significa na prática é que os ponderadores permitem aos eleitores introduzir e fazer um ranking, uma hierarquia de quais as perguntas e os temas políticos que consideram mais importantes para si e para a sua decisão de voto. Porque o que acontece muitas vezes é que as pessoas podem estar muito próximas e sentir-se muito próximas de um candidato em dois ou três temas-chave e até estarem, de alguma maneira, mais distantes desse candidato noutros temas, mas consideram esses temas menos importantes e podem ter menos influência na sua decisão de voto. O que os ponderadores fazem precisamente é simular isso, permitir às pessoas, depois de responderem às 15 perguntas, dizerem: "Bem, estes são os três ou quatro temas que eu considero absolutamente essenciais e que vão de alguma maneira guiar a minha decisão de voto quando chegarmos a dia 18 de janeiro". E esses ponderadores ajudam a simular e a fazer com que as pessoas consigam perceber com maior fineza o quão próximo ou distante estão de alguns candidatos.
E como é que isso direciona quem responde ao Votómetro para candidatos que tenham basicamente a mesma opinião, tenham dado a mesma resposta à pergunta ou uma resposta tendencialmente idêntica a uma mesma pergunta?
É exatamente isso que descreveste, Bruno. Na verdade, vamos supor que a pessoa está relativamente próxima de um candidato em 10 ou 12 perguntas, mas depois há aquelas três ou quatro que a pessoa sinalizou como sendo mais importantes, e aí a pessoa está exatamente como um determinado candidato nessas perguntas. Aí, o que acontece é que na bússola, no mapa onde vemos as pessoas e onde a pessoa se compara a si própria, a sua posição e a sua distância no mapa euclidiano relativamente aos outros candidatos, aí sim percebemos que a pessoa está mais ou menos distante de cada candidato.
Jorge, há uma questão que está muito clara no artigo do Observador que explica o Votômetros, mas que era importante que explicasse aqui, que diz que quando se escolhe a opção neutro para todas as 15 perguntas, o resultado coloca no topo da tabela Gouveia e Melo. Quer explicar por que isso acontece e como é que deve ser depois lido?
Na verdade, não deve ser lido.
Quando alguém está neutro sobre todas as questões que são aqui colocadas, a afinidade com Gouveia e Melo é maior.
Sim, mas isso não tem nada a ver. Já tivemos votômetros anteriores em que a afinidade era com o Chega, outros era com o PCP.
Com o PAN, creio eu, também.
Exatamente, o PAN era um clássico. Não há aqui nenhuma agenda escondida, nem nada de estranho. Em primeiro lugar, quando toda a gente coloca neutro é uma mera manipulação.
É um teste.
É um teste, exatamente. Ninguém é neutro em tudo. No fundo, é como carregar aleatoriamente em concordo totalmente em tudo, aparecerá certamente um candidato ou uma candidata, que eu nem sei exatamente qual é, porque eu, sinceramente, não fiz esse teste.
Não fizeste essa experiência.
As pessoas pensam que o neutro é uma posição em si mesmo. Quando, neste caso, carregamos neutro e dá Gouveia e Melo, não significa que o Gouveia e Melo seja neutro em relação a todas as perguntas. Significa que no posicionamento bidimensional daquele espaço onde as pessoas se colocam, quando as pessoas escolhem neutro a tudo, a combinação das 15 perguntas e das múltiplas respostas dos vários candidatos simplesmente vai dar uma maior proximidade com aquele candidato, mas não tem nenhum significado, nem político, nem substantivo. Vamos perceber uma coisa: quando projetamos, que no fundo é a palavra técnica, os candidatos num espaço bidimensional, necessariamente constrangimos a realidade a uma projeção, que não é a projeção ri do mundo real. Portanto, sob esse ponto de vista, esta projeção tem sempre pequenas distorções. Quer dizer, em qualquer projeção de um candidato ou de uma candidata multidimensional, em que as coisas nunca são a preto e branco, quando forçamos a sua projeção a um espaço bidimensional e euclidiano, em que temos dois eixos, naturalmente que temos sempre alguns destes resultados. Agora, colocar neutro em todas as perguntas é a mesma coisa, do ponto de vista substantivo, que colocar discordo totalmente ou concordo totalmente. Não tem nenhum significado político, nem substantivo.
Muito rapidamente e mesmo para concluirmos, Jorge, na questão da bússola ideológica, pode acontecer quem responde ao Votômetro ficar mais perto de um candidato que não é o candidato que aparece como preferencial nas respostas ao Votômetro.
Sim, isso é uma questão clássica. O grau de concordância que vemos num momento e o posicionamento da pessoa que vemos noutro momento, são dois exercícios completamente diferentes. O grau de concordância mede exatamente isso. Mede a porcentagem de vezes com os quais o utilizador ou a pessoa que está a fazer o Votômetro tem posições iguais ao do candidato ou da candidata. A projeção é uma coisa radicalmente diferente, até porque na primeira estamos a falar de uma situação unidimensional, em que estamos meramente a perceber qual é a porcentagem de vezes que a pessoa concorda com a mesma posição, com aquele ou com aquela candidata. No outro espaço, é uma projeção bidimensional, é uma coisa muito mais complexa, se quisermos, e permite perceber ao mesmo tempo o posicionamento e a proximidade da pessoa na esquerda-direita e ao mesmo tempo no segundo eixo, no eixo que está ortogonalmente posicionado e que é o eixo liberal-conservador.
Jorge Fernandes, muito obrigada pelas tuas explicações. Boa semana e bom ano.
Obrigado.
Bom ano.
Obrigada.