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Está no ar o Explicador da Rádio Observador, hoje dedicado à crise de resultados no Sporting. São convidados para analisar a crise leonina o Augusto Inácio e o Bruno Roseiro. A moderação deste Explicador é do Paulo Ferreira e do Bruno Vieira Amaral.

Três derrotas consecutivas, um registo que não acontecia no Sporting há cinco anos, o risco de ser ultrapassado pelos rivais no campeonato e em poucas semanas o Sporting, que teve um início de campeonato perfeito, passou do céu ao inferno. Bruno Roseiro, bom dia, bem-vindo a este Explicador. Olhando para a forma como a equipa tem jogado nestas últimas partidas, para as escolhas do treinador, o que mudou com João Pereira que possa explicar esta súbita inversão dos resultados e do desempenho da equipa?

Eu diria que mudou tudo e em cinco dias vimos cinco anos esfumarem-se por completo. Pode parecer um exagero, não é. Passo a explicar o porquê. Quando o João Pereira entra, ele sabe que vai partir para um jogo desequilibrado. Ou seja, se ele ganhasse, o mérito era daquilo que Rúben Amorim tinha deixado. Se ele perdesse, a responsabilidade era apenas sua. Mas ainda assim, tinha aqui dois pontos importantes. Era que os responsáveis máximos seriam sempre Frederico Varandas, porque escolheu João Pereira, e Rúben Amorim, porque deixou o comboio a meio, depois de ter andado a pedir aos jogadores para ficarem no comboio, pelo menos durante mais uma temporada.

Ou seja, o João Pereira tinha pouco a ganhar.

Sim, aparentemente vendeu-se a ilusão de que era uma solução win-win, quando era uma solução lose-lose.

Pelo menos para ele.

Sobretudo para ele. Mas ele quis entrar também no comboio dos responsáveis. E então, o que ele fez? Decidiu colocar o tal, muitas vezes esta expressão, colocar o dedo na equipa. Pode parecer que o dedo é uma coisa menor, mas foi o dedo que estragou tudo o resto. E por quê? Porque o plantel do Sporting, a equipa do Sporting, é construída para jogar numa determinada ideia de jogo. O Gyökeres e o Ulman, quando chegam às mãos de Rúben Amorim como hipótese de serem contratados, não são apresentados como o melhor avançado ou o melhor médio, são apresentados como o médio e o avançado que melhor vão cumprir aquilo que tu precisas para a equipa. E foi assim, nesta condição, que eles foram os dois contratados. E aquilo que se vê, não entrando muito na parte tática para também não se tornar aborrecido, é uma equipa que joga cada vez mais pelo meio, ou seja, perdeu largura. Uma equipa que faz uma dose incomum para aquilo que era normal de cruzamentos, como se tivesse alguém fora de série a jogar de cabeça na área. Uma equipa que claramente não percebe aquilo que o treinador quer. Eu não digo que os jogadores estejam contra o treinador, são os jogadores que não percebem aquilo que o treinador quer. E chegamos ao cúmulo, e isto para mim é o exemplo paradigmático do espelho da atual realidade do Sporting, e agora estou só a falar na questão dos problemas, depois entrará as soluções, de se me perguntassem se o Sporting jogar só com um avançado, quem é que deve ser o avançado, para mim, nesta altura, é muito mais titular o Hendar do que o Gyökeres. E estamos a falar de um dos melhores avançados da atualidade europeia.

Mas isto por causa de João Pereira.

Pela maneira como ele construiu esta nova ideia de jogo. Ou seja, quando nós chegamos a este patamar, há claramente qualquer coisa que não está bem.

Augusto Inácio, bom dia, bem-vindo também a este Explicador. Concordas de facto que em poucas semanas o Sporting perdeu a construção de cinco anos desta forma?

Bom dia a todos. Bem, este é o Sporting, segundo o seu presidente, Frederico Varandas, tinha um projeto tão sólido que bastava sair um, entrar outro e a coisa rolava na mesma. Mas cada pessoa é uma pessoa. Tu podes ter um modelo de jogo e teres um treinador, neste caso estava na equipa B, que jogue com o mesmo modelo de jogo. Mas depois é a tua visão, o teu início do jogo. Tens uma equipa, depois o jogo desenrola-se, tens que mexer na equipa e tudo isto faz com que sejam pessoas completamente diferentes com modelos que pareciam que são iguais e não são. É verdade aquilo que o Bruno Roseiro disse, que o Sporting perdeu, na minha opinião, largura, perdeu profundidade e acima de tudo abusa de um jogo que não tem nada de característica para o Gyökeres. Acima de tudo, os jogadores também perderam, aos poucos e poucos, foram perdendo confiança. Ontem foi notório o enorme número de passes erráticos que o Sporting teve. A pressão sobre o portador da bola não é a mesma, a reação à perda não é a mesma e com isso traz intranquilidade.

Augusto Inácio, mas qual é que é a origem, na tua opinião, e tu que conheces tão bem as dinâmicas de balneário, quer como jogador, quer como treinador, o que é que está na origem dessa perda de confiança? São essas nuances táticas, essas pequenas alterações táticas, ou é uma questão de liderança? Ou seja, esta mudança dos jogadores antes olharem pro banco e verem um líder que se afirmou ao longo de quatro temporadas e agora olharem pro banco e verem João Pereira, que estava na equipa B do Sporting.

Repara numa coisa. Quando há comunicação, a gente nota logo a grande diferença. E através da comunicação, a gente deduz também que dentro do balneário, também há essa comunicação e pode não entrar tão dentro dos jogadores como fazia o Rúben Amorim. Por isso é que eu digo que os jogadores perdem confiança, porque começaram a perder um primeiro jogo com o Arsenal e da maneira como perdeu, e depois quando se perspectivava que o Sporting no jogo do Santa Clara Ganhasse o jogo, voltava tudo à normalidade. Perdeu. A partir desse jogo, automaticamente o jogo de ontem tomou uma dimensão muito maior em relação ao que era o expectável. Repara que o Sporting estava numa almofada de seis pontos de avanço, de repente perde três pontos com o Santa Clara, fica numa situação ainda de vantagem e vai a Moreirense, que é um clube, atenção, e nós estamos só a falar do Sporting, mas temos de dar muito mérito ao Moreirense, da maneira como jogou também e como se comportou. E o que é certo é que a desconfiança entra dentro de um jogador, porque perdeu um jogo, isto entra no intelecto do jogador, perde um segundo jogo e a equipa já parece que não acredita.

Moreirense, deixa-me só acrescentar, Moreirense que eliminou o Futebol Clube do Porto da Taça e empatou com o Benfica para a Liga. Também é importante dizer, era um jogo que não era fácil.

Exatamente, até porque o Moreirense quando o Benfica empatou foi quando saiu Roger Schmidt. Foi sorte do Benfica, foi o Moreirense ter empatado com o Benfica. Mas isto é uma brincadeira, que foi verdade o que aconteceu. Mas eu diria, o Sporting sabia perfeitamente bem o jogo difícil que era. Mas aquilo que mais me impressiona é que também é preciso o treinador ser um bom treinador, mas também tem que acompanhar um pouquinho de sorte. E quando eu digo um pouquinho de sorte, estou a referir-me, por exemplo, ao Santa Clara, como toda a gente sabe, houve duas grandes penalidades a favor do Sporting e com isso o Sporting até podia não jogar bem e ganhar o jogo, a coisa passava em calme. E depois de ontem, mesmo que o Sporting não estando a jogar bem, que não jogou, também teve duas bolas nos ferros em que a bola não entrou. E depois qualquer erro que o Sporting cometa ou os seus jogadores cometam, aquilo parece que dá logo golo. Um erro de marcação no livre do um a um e depois no lançamento com a mão do

Do Kenda.

Um lançamento lateral do Geny Catamo.

Do Geny Catamo. Exato.

Do nada, rematou à baliza e fez o golo. E sabes que essas coisas marca psicologicamente um jogador e uma equipa. E isto é uma bola de neve. A coisa começa a entrar e depois eu vi os jogadores do Sporting correrem, atenção. Eu vi os jogadores do Sporting a trabalharem, a quererem ganhar, mas as coisas parece que já não saem. Quer dizer, aquilo que era com o Rúben Amorim, em que o Sporting podia estar a perder e a gente sabia: "Ah, mas o Sporting vai dar a volta, o Sporting vai acabar por ganhar."

Havia uma estrelinha que parece que se apagou.

Será que o Sporting vai ganhar? A desconfiança é de tal maneira que os jogadores já começam a interrogar-se e a dizer assim: "Não sei se a gente vai ganhar, isto vai ser muito complicado."

É uma espiral de pessimismo. Bruno, aquilo que parecia uma transição segura, suave, dentro da equipa do Sporting, pode afinal ter sido uma precipitação do presidente do Sporting?

Sim, eu nesta altura já coloco como precipitação e a seguir logo a Santa Clara, não precisava do jogo do Moreirense, ou seja, eu vi ali em 90 minutos, percebi um filme inteiro. Não acredito que o Sporting vá mudar agora antes de um jogo da Liga dos Campeões. Acho que claramente o Sporting já tem em vista um plano B. Há três hipóteses aqui. Uma hipótese mais acessível, que será dentro do Campeonato Português. Uma hipótese que colocaria menos risco e que poderia vir de fora, e neste sentido olharia mais para Abel. Uma solução que para mim era a solução ideal e que pelos vistos é um nome proibido em Alvalade, não por questões desportivas, mas por outras questões de valores, etc., que se chama Sérgio Conceição, que para mim seria a principal resposta nesta altura à atual crise. Frederico Varandas tem aqui um problema. Um, as pessoas não se esquecem que antes de Rúben Amorim houve N escolhas erradas em termos desportivos e, portanto, Rúben Amorim nesta altura aparece como a única escolha acertada de Frederico Varandas em termos desportivos. Dois, as pessoas não se esquecem que João Pereira é apresentado como um treinador que daqui a quatro ou cinco anos estaria num clube europeu. Já leva três derrotas consecutivas, é apenas o segundo treinador com três derrotas nos primeiros quatro jogos no Sporting. E depois, as pessoas também não se esquecem que Frederico Varandas até ironizou quando lhe perguntaram em relação à saída de Rúben Amorim e também de Hugo Viana, quase gozando, a dizer: "Então, mas e nós? Não pode sair o treinador, pode sair o diretor desportivo, porque nós temos uma estrutura que consegue aguentar à vontade todo este projeto". Não é isso que se está a ver. E depois, há aqui um ponto importante, também de análise, a breve e a médio prazo. A distância entre o insucesso desportivo e a contestação à direção no Sporting é muito mais pequena, o caminho é muito mais pequeno do que no Futebol Clube do Porto ou no Benfica. Ou seja, o próprio Frederico Varandas tem de pensar que a médio prazo, daqui a dois anos, vai ter eleições e por muito trabalho e por muito legado que esteja a fazer, que está, se a bola começa a não entrar e se voltam outra vez os erros desportivos, isso poderá também refletir-se naquilo que é a sua liderança no Sporting.

E por isso mesmo, Augusto Inácio, por esse risco que existe, e estamos a chegar ao fim do Explicador, Frederico Varandas deve começar já a procura do plano B, de um novo treinador, ou ainda deve manter a aposta em João Pereira?

Bom, se nós repararmos bem, o Bruno Roseiro tocou aí no ponto que falhou muitas contratações de treinadores e só acertou no Rúben Amorim, mas não podemos esquecer que ele disse, e isto é palavras dele, tentou quatro ou cinco possibilidades e todos disseram que não. E o João Pereira teve a coragem, segundo disse ele, a coragem de tomar conta do Sporting. Eu pergunto onde é que está aqui a coragem. Era uma grande oportunidade para ele.

Não, Augusto, ele quando falou na questão dos quatro ou cinco tentados, foi na altura do Rúben Amorim. Aí é que andavam todos a recusar e o Rúben Amorim é que aceitou. Agora o João Pereira foi escolha única, solução única.

Sim, mas eu sei que antes do Rúben Amorim houve outras hipóteses também.

E nessa altura é que ninguém queria agarrar no Sporting, em 2020.

Exatamente. E então, deixa-me dizer que o João Pereira foi a solução que o presidente do Sporting abraçou, teve as palavras que disse, e nesse aspecto, realmente, o Frederico Varandas de humildade não tem nada. E o que é certo é que agora a malha está a apertar tanto que Frederico Varandas vai ter que tomar uma decisão.

E qual é que deve ser essa decisão? É ir à procura de um novo treinador o mais rapidamente possível?

Quer dizer, isto agora depende daquilo que, de fora, eu visto de fora, sinceramente, eu acho que vai ser muito difícil o João Pereira aguentar-se ali à frente da equipa do Sporting. Frederico Varandas, como foi uma aposta dele, não sei até que ponto é que vai a teimosia dele, até que determinado tempo. Não sei. O que eu sei é que o Sporting agora, depois desta derrota no Moreirense, e agora vai a Bruges para a Liga dos Campeões, e se tiver outro resultado negativo, é natural que o Sporting possa ir à procura de um novo treinador.

E são sempre os resultados a determinar o futuro dos treinadores. Bruno Roseira, Augusto Inácio, muito obrigado pela vossa participação neste Explicador. Um bom dia e um bom fim de semana.

Bom dia.

Bom dia.