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Explicador da Rádio Observador. Recebemos Luís Silva, aluno que vai entrar este ano no curso de Engenharia Aeroespacial com uma das médias mais elevadas, e David Moura, que terminou o mesmo curso com uma das notas mais altas. Bem-vindos. E a começar com um desafio, que era perguntar ao Luís quais são as expectativas que tem pra este curso e depois comparar com a experiência do David, pedindo ao David que não provoque já desilusões face às expectativas iniciais do Luís. Luís, começava por si, que expectativas é que tem pra este curso e por que escolheu também esta área?
Antes de mais, boa tarde a si e a todos os espectadores. Finalmente, as expectativas são altas. Acho que é um curso que reúne bastante as minhas áreas de interesse, seja a nível da matemática, seja a nível da física. Escolhi o curso muito no sentido do desafio e de conseguir continuar a estudar as áreas que eu gosto, seja a física, seja a matemática, sempre desafiar-me com novas perspetivas e olhando sempre um bocadinho pro futuro e o que aí vem, que acho que é uma área que no futuro vai se destacar e vai ter bastante influência tanto nas nossas vidas, na minha, como dos outros.
David, com que expectativas também é que entrou pra este curso e se foram cumpridas agora já nesta reta final, em que já consegue fazer também esse balanço?
Antes de mais, também boa tarde. Obrigado pelo convite. Eu acho que as minhas perspetivas à entrada foram muito parecidas com as do Luís. Foi uma área em que eu sempre tive bastante interesse, porque sempre me cativou. E ao longo do curso, essa curiosidade e esse fascínio acho que foi cumprido e às vezes ultrapassado, porque houve vários aspectos que eu não estava a contar aprender e que não estava a contar passar por eles no meu percurso acadêmico, e que acho que foram bastante valiosos e que me ajudaram a desenvolver como pessoa e como estudante, como acadêmico.
David, a perspectiva que tem pra carreira a seguir corresponde à ideia que tinha inicial ou acabou por mudar um pouquinho de perspectiva com o passar do curso?
Eu acho que a minha visão que eu tinha das carreiras possíveis acabaram por se alterar um pouquinho, mas a visão que eu tenho da minha carreira que quero prosseguir mantém-se mais ou menos igual.
E que é?
É estar na área do planeamento de missão a nível espacial, no setor espacial.
E isso implica, já agora, ficar cá, ir pra fora?
Provavelmente ir pra fora, sim, mas já tem havido bastante mais oportunidades. Têm sido criadas muitas novas oportunidades aqui em Portugal que não existiam quando eu comecei o curso, muito menos antes.
Luís, entrar com uma das médias mais altas do país traz orgulho ou mais pressão pro primeiro ano?
Claro que primeiro há o orgulho no sentido de que fazes um trabalho que é concluído, chegar ao fim de uma etapa e saber que consegui concluí-la com sucesso e com mérito, mas claro, também tem a componente da pressão e agora saber que vou entrar numa nova etapa e claro, também tenho as expectativas pra mim e um compromisso comigo de tentar dar sempre o meu melhor e dar sempre o que eu tenho, portanto, acabo que acho que é um pouquinho do misto dos dois, acredito.
David, como é que se tira 20 valores num dos cursos teoricamente mais difíceis e exigentes?
Eu acho que é preciso bastante dedicação, principalmente é isso. É tentar sempre trabalhar, acompanhar as aulas, não deixar as coisas ficarem pra trás e manter-se sempre atualizado, em dia e fazer o esforço que é necessário, mesmo quando fica complicado.
Abdicou de muita coisa da vida acadêmica, por exemplo, pra ter este desempenho?
Algumas coisas. Nós temos um horário muito apertado, é sempre necessário fazer opções, mas não abdiquei daquilo que me dá prazer à nível pessoal ou social.
Luís, deixa eu me perguntar o que o fez escolher este curso específico, não só Engenharia Aeroespacial, mas na Universidade do Porto. Não sei se o Luís é da região, se é de outra zona do país. Que critérios é que ponderou mais ou que deu mais prioridade pra escolher este curso nesta faculdade, nesta universidade?
A decisão, no meu caso, não foi fácil. O primeiro dilema foi escolher entre a área da engenharia e a medicina, que foram sempre duas que me atraíram, mas ultimamente acabei no fim por escolher engenharia, principalmente pela questão do gosto e pensando sempre um bocadinho nas perspectivas futuras. Cada vez mais, como o David já disse há bocado, vemos os investimentos em Portugal, seja no estrangeiro, em novos ramos, principalmente da área de engenharia aeroespacial, seja em missões espaciais, drones, aviônica e outros. E acabei por escolher a Universidade do Porto, porque sou aqui da zona, mas também porque vejo a SEUP como uma referência a nível nacional, como uma faculdade de engenharia, e acho que é capaz de me preparar e formar muito bem engenheiros para o mercado de trabalho.
David, perguntava-lhe a mesma coisa. Na altura, o que é que o levou a escolher este curso nesta universidade?
O ano em que eu entrei foi o primeiro ano em que abriu o curso de Engenharia Aeroespacial aqui na SEUP. Por isso eu, quando estava a preparar pra tomar a minha decisão, não tinha a expectativa de ter a possibilidade de estudar a área que eu gostava na SEUP. Por isso, quando surgiu essa oportunidade, que foi no final de maio do ano letivo em que eu entrei na faculdade, fiquei bastante contente, porque era uma oportunidade que é perto de onde eu moro, é mais fácil logisticamente, e porque já conhecia a SEUP como instituição. Já tinha ido lá algumas vezes em atividades que eu Proporciona ao aluno do secundário. Gostei bastante das instalações e do modo de trabalho, e já conhecia bastantes ex-alunos de lá, que sempre falaram bem da qualidade do ensino, dos professores, por isso, mesmo sendo um novo curso, saberia que ia estar em boas mãos.
David, se pudesse voltar ao primeiro dia de aulas no primeiro ano, que conselho daria ao David do passado?
É uma pergunta difícil.
E que pode servir agora pro Luís também.
Exato.
Claro. Diria para ter confiança nas suas escolhas, tentar sempre procurar o máximo de coisas a fazer na faculdade, o máximo de experiências que conseguir arranjar, e perseverar, continuar a trabalhar.
Luís, ir para fora do país no fim do curso é um objetivo?
Não diria um objetivo, diria uma possibilidade, não excluo. Claro que, indo pra um curso destes, em que vemos as oportunidades serem principalmente fora do país, deixa-se a possibilidade muito em aberto e com uma grande possibilidade, com alta probabilidade. No entanto, não digo objetivo, porque caso surjam oportunidades cá no país, que acredito que eventualmente vão surgir e vão começar a surgir cada vez mais, ficar cá é sempre, até digo, uma prioridade e uma mais-valia, caso seja possível. David, há pouco já falou um bocadinho nisso, e como tem mais esta questão das perspectivas profissionais mais a curto prazo, porque está a terminar. O que eu perguntava é que desenvolvimento é que teve este setor da engenharia aeroespacial em Portugal, que permite agora já poder sonhar, diria eu, com o fato de ficar no país e trabalhar nesta área? O que se tem desenvolvido no país nos últimos anos que permite agora já poder pensar nisso?
É um ponto importante, porque efetivamente começamos pela Agência Espacial Portuguesa, que tem crescido bastante, está agora a desenvolver uma base espacial, instalações concretas nos Açores, uma série de empresas de construção aeronáutica. Por exemplo, a Airbus tem uma fábrica em Santo Tirso, a Lufthansa está a construir outra fábrica em Santa Maria da Feira, há um polo da Embraer e da Ogma em Évora. E depois também há muita aposta no setor dos drones em Portugal. Drones quer para o civil, quer para o uso militar. Tem havido muito investimento nisso e muito desenvolvimento na infraestrutura e na inovação. E depois, por último, também no setor espacial, que era muito pouco desenvolvido antes, mas agora já há várias empresas que fazem atividade de investigação, de desenvolvimento e até também de produção de lançadores, principalmente, e também de cargas para satélites.
De tudo isso que nos falou, o que se vê a fazer?
Eu sempre estive mais interessado no setor espacial, por isso vejo-me mais a fazer algo ligado com ou o lançamento ou o planeamento e depois a parte de manipulação de órbita para satélites ou até a parte mais mecânica de propulsão e essas áreas.
Luís, olhando para estas perspectivas, para estes vários setores dentro da engenharia aeroespacial, tem algum preferido ou preferencial à partida pra entrada no curso? Bem, por agora, acho que não consigo dizer nenhum. Realmente, eu fui para engenharia aeroespacial por olhar para essas todas áreas possíveis e ter quase um bocadinho de paixão por todas elas. Acredito que ao longo do curso e à medida que for tendo as unidades curriculares e for aprendendo mais e for frequentando o ambiente da FEUP, vou me inteirar, vou começar a perceber qual será das áreas que vou acabar por gostar mais, porque agora, acabando, estou a começar caloiro, sinto que todas elas atraem, digamos assim.
David, qual foi o momento mais difícil do curso, aquele em que pensou: "Isto é muito mais duro do que eu imaginava"?
Eu acho que esse momento foi no primeiro semestre do segundo ano, porque há uma série de cadeiras que achei bastante complexas e que me deram muita dor de cabeça. E foi um momento duro, ainda por cima estava a tentar conciliar isso com uma altura de grande atividade na minha outra área, que é a parte musical, por isso acho que foi o período mais trabalhoso.
Manteve como hobby, ou mais do que isso, essa parte musical de que fala?
Eu tive formação de música, formação clássica, na guitarra clássica, e entretanto tenho mantido a atividade através de uma pequena orquestra que eu e mais alguns colegas fundamos no nosso 12º ano, que por coincidência inclui aqui o Luís, que nós somos da mesma terra.
Ah, ok. Portanto, já se conhecem.
Certo, já nos conhecemos bem.
Ah, ok.
Mas já agora, houve influência direta do David, Luís, na escolha deste curso? Ou já estava pensado à partida? Não diria direta, mas claro que vendo o que ele foi passando e as cadeiras, o que ele ia aprendendo, foi suscitando um certo interesse, claro. Acho que é um bocado inevitável ver o que ele foi fazendo e ir gostando, deixou aquele bichinho de se calar, daqui uns anos poder ser eu também a passar por isso.
Já agora, deixem-me perguntar, vocês são da zona, não é? Portanto, não supôs questões relacionadas com a procura de habitação, a procura de quarto ou de casa pra morar, mas isso era algo que pesava na vossa escolha se tivessem que
Enfim, por exemplo, ir para outra faculdade, como o Técnico.
Sim, no meu caso, definitivamente, porque eu não sabia que ia haver o curso na FEUP. Por isso estava a preparar-me para ou ter de ir procurar alojamento em Guimarães para a Universidade do Minho ou em Lisboa para o Técnico. Por isso foi um grande alívio, efetivamente, quando abriu aqui o curso.
Luís.
Partilho da mesma opinião, claro que, ao contrário do David, tinha essa segurança quase desde o início do secundário, que o curso que eu queria querer estaria certamente na Universidade do Porto. Mas agora olhando para a crise da habitação em Portugal, deixa aquele medo de chegar e conseguir entrar no curso, mas depois ter todo o problema da habitação por trás. Portanto, claro que é um fator e acho que, de forma geral, para todos os estudantes que acabam por ficar deslocados, acaba por pesar bastante.
Deixe-me só aqui já numa reta final perguntar, David, antes da escolha do curso, de olhar para este setor como área profissional, como é que se começou a interessar por esta área? Se foi desenvolvendo algum hobby antes de entrar no curso, como é que surgiu esse interesse?
Eu nunca tive 100% de certeza que queria exatamente este curso. Eu andava um bocado indeciso inicialmente entre Medicina e as Engenharias, depois, no 12º ano, mais concretamente entre as Engenharias Mecânicas ou Engenharia Física, ou até mesmo só a Física. Por isso, eu acho que o interesse especificamente nesta área, eu não diria que veio de nenhum hobby em concreto, foi apenas algo que se foi desenvolvendo, o interesse pelas missões espaciais, pela história da exploração espacial e também um bocado fruto do pico de atividade que temos vindo a sentir nesta área nos últimos anos. Acho que também estar exposto a esse ambiente em que lançar um satélite a cada dia é uma normalidade e acho que esse fato ajudou bastante a tornar isto mais uma realidade possível de alcançar do que um sonho irrealista.
E o Luís?
Quase de forma muito idêntica ao David, acrescento só a questão dos contactos e as pessoas que nós vamos conhecendo ao longo do caminho, seja os professores, seja os amigos e familiares, que vão falando, referem o curso, depois alguém curioso vai pesquisar e realmente encontra aquelas notícias todas dos satélites, dos aviões, depois começa a pesquisar e começa a ser uma bola de neve que vai suscitando esse interesse. Portanto, acredito que foi muito derivado daí. E depois, claro, a exposição toda que nós vamos tendo, Física, Matemática, indo além do programa, e ver e gostar realmente dá essa vontade de escolher o curso.
A componente salarial foi importante na escolha do curso, David?
Eu diria que foi um fator a considerar, claro, mas não foi um fator decisivo. É bom ter a segurança de saber que a área que eu estou a estudar vai provavelmente ser bem recompensada no futuro, mas não foi isso que decidiu a minha escolha.
Luís, faço-lhe a mesma pergunta.
Novamente, muito da mesma forma que o David. Eu acho que, acima de tudo, tem a ver o gosto pelo que nós fazemos. Claro que estando em Engenharia Aeroespacial, acho que cada vez mais ganhamos a segurança que efetivamente, no fim, vamos ser devidamente recompensados pelo que vamos fazer. Mas claro que saber que no futuro íamos fazer algo que gostamos, para mim, foi o mais importante e foi o fator final na decisão.
David, só para terminar, diga-me lá, agora aqui o desafio é que o Luís possa fazer o curso sem ter que também tirar tempo à orquestra onde estão os dois, não é? Já que o David conseguiu.
Quando eu convidei o Luís para participar na orquestra, realmente ele não estava ainda na faculdade, por isso tinha mais tempo livre. Mas eu conheço-o bem nestes anos e ele tem desenvolvido já muitas atividades em conjunto, por isso tenho a certeza que consegue fazer a gestão do tempo necessária.
Isso da gestão do tempo é muito importante quando se fala em tirar este tipo de notas?
Eu acho que é se calhar o mais importante, sim. Saber onde aproveitar o tempo, como aproveitar o tempo e como fazer as escolhas necessárias para na mesma conseguir ter um tempo para si e para não ficar sobrecarregado.
Luís e David, obrigado pela vossa disponibilidade, por se juntarem a esta conversa e boa sorte ao Luís no curso e ao David agora na carreira profissional. O David e o Luís que estiveram neste Explicador da Rádio Observador.