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Abrimos agora espaço para um novo explicador da Rádio Observador sobre o escândalo político que envolve Venezuela, tráfico de influências e José Luís Zapatero. Para isso convidamos para estar connosco o politólogo Diogo Noivo. A moderação é do jornalista Luís Soares. Bem-vindo Diogo Noivo. A Polícia Nacional de Espanha revistou durante cinco horas o gabinete de José Luís Rodriguez Zapatero. Ele é arguido no âmbito deste caso Plus Ultra. Os agentes descobriram, por exemplo, um cofre com 103 joias e também alguns bens de luxo. Que impacto terá este caso na vida política espanhola, Diogo Noivo?

Olá, bom dia. É difícil aferir o impacto, porque todos os dias estamos a ter novas revelações, novas informações que surpreendem até quem acompanha a política espanhola diariamente e que já estava a par das suspeitas. Ontem descobriram-se joias num cofre, o que em si não tem nada de extraordinário. É normal ter joias num cofre, o problema é que o cofre estava no escritório do ex-presidente do governo José Luís Rodriguez Zapatero, e não num cofre de casa, mas no cofre do escritório. E acontece que o escritório está num imóvel que é propriedade do Partido Socialista e naturalmente isso complica bastante o caso que já estava em curso. O caso inicial começa com o resgate a uma pequena companhia aérea de capitais venezuelanos. Esse resgate é feito com dinheiro público espanhol. Quando o resgate é feito, foi para toda a gente pouco evidente a explicação para esse resgate. Insisto, uma empresa de capitais venezuelanos que à época tinha cinco aeronaves, foi considerada de interesse estratégico pelo governo de Pedro Sánchez e resgatada com 53 milhões de euros. De acordo com o Ministério Público, em particular com a Audiência Nacional Espanhola, esse resgate aconteceu por influência de José Luís Rodriguez Zapatero, que já há muito tempo funcionava como uma espécie de embaixador oficioso do regime venezuelano de Nicolás Maduro e portanto Zapatero terá intercedido junto do governo espanhol para que houvesse este resgate de 53 milhões de euros de dinheiro público, e Zapatero terá recebido cerca de 2 milhões de euros por esta demarche. Acontece, porém, que como disse há pouco, todos os dias temos novidades e sabemos hoje também que Zapatero atuava como uma espécie de mediador de interesses chineses, além de venezuelanos, e aparentemente teve influência na escolha de uma companhia de telecomunicações chinesa com contratos que fez com o Estado, mesmo havendo por parte das forças e serviços de segurança espanhóis muitas dúvidas quanto à segurança de entregar contratos públicos a essa empresa chinesa. Aparentemente, Zapatero foi parte importante nesse caso também. Portanto, o caso está a ter um impacto muito grande, porque primeiro Zapatero é um ex-presidente do governo, segundo porque é e tem sido sempre uma espécie de mentor de Pedro Sánchez, o atual presidente do governo, e porque Zapatero é, para uma parte importante, senão toda a esquerda espanhola, uma espécie de referência moral. Zapatero era tido em conta como um grande presidente do governo, que teve uma agenda progressista e que era um homem cujos valores e cuja ética estava acima de qualquer suspeita, muito embora existissem sinais de dúvida sobre o seu comportamento uma vez tendo deixado a política. E portanto este caso é, se me permite uma linguagem mais popular, um tiro no porta-aviões, não só do governo, mas do conjunto da esquerda espanhola, que tinha em Zapatero uma espécie de referência moral, de farol moral.

Diogo Noivo, Zapatero já é indiciado por vários crimes, entre eles organização criminosa, tráfico de influências, falsificação de documentos, branqueamento de capitais. Como é que isto em Espanha se processa, na perspetiva de ser, precisamente como dizia, um antigo chefe de governo?

Esta investigação nasce de outras duas investigações que estavam em curso em França e na Suíça. Importa ter presente que tudo isto começa quando França e Suíça contactam as autoridades judiciais espanholas, dizendo que em investigações sobre branqueamento de capitais venezuelanos apareceu o nome Plus Ultra, que é a tal companhia aérea que foi resgatada. E é a partir daí que a Audiência Nacional, que é um órgão, uma instituição do poder judicial espanhol, começa a fazer essa investigação. A investigação está ainda no início. Zapatero, há poucos minutos, pediu que fosse adiado o dia em que presta declarações à Justiça.

Está previsto para o dia 2 de junho.

Sim, estamos no início de um processo muito longo. Agora, o documento feito pelo poder judicial espanhol, onde essencialmente são apresentadas as provas, é um documento demolidor, porque é escrito com muito cuidado, com muita parcimônia, com cuidado muito grande em deixar claro os factos e não entrar em grandes considerações sobre os factos. E os factos que constam destes documentos são muito complicados. E mesmo que não haja nenhuma implicação criminal, e chegados aqui tenho muitas dúvidas que não haja, parece-me evidente que foram cometidos crimes e alguns bastante graves. Do ponto de vista político é mortífero, porque neste caso de corrupção, tráfico de influências, branqueamento de capitais, onde Zapatero está envolvidoUma das conclusões a que chegamos é que nada disto teria sido possível sem, pelo menos, a complicidade do governo de Pedro Sánchez. E, portanto, este caso de corrupção, como outros que cercam o atual presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, são muito complicados e que ainda que, do ponto de vista judicial, estejamos no início de um longo processo, as consequências políticas serão imediatas e, aliás, já estamos a ver algumas consequências políticas.

Ou seja, consequências políticas tanto de um lado como do outro?

Sim, duas coisas relevantes que aconteceram nos últimos dias têm a ver com o Partido Nacionalista Basco e com o Partido de Coligação Canária. Pedro Sánchez, o atual presidente do governo, tem o seu poder assente num acordo parlamentar entre vários partidos, partidos muito diferentes. Um desses partidos, o Partido Nacionalista Basco, já veio dizer que essa situação é insustentável e que não é razoável que o governo dure até o fim da legislatura, isto é, 2027. Portanto, dito de outra forma, o Partido Nacionalista Basco veio dizer que são necessárias eleições antecipadas. O Partido de Coligação Canária, que também é um outro apoio parlamentar de Pedro Sánchez, veio dizer que a legislatura chegou ao fim. Há um outro partido ainda, catalão, os Junts, que não tem feito declarações públicas, mas de forma muito cirúrgica, tem passado à imprensa que está extraordinariamente incomodado com o sucedido e que lhe parece insustentável a manutenção do governo. A isto acresce que o histórico socialista, o mais importante socialista, Felipe González, veio ontem claramente dizer que Pedro Sánchez devia marcar eleições antecipadas e é a primeira vez que Felipe González diz isso. Felipe González tem sido muito crítico de Pedro Sánchez, mas nunca tinha pedido eleições antecipadas até ontem. Portanto, de facto, do ponto de vista político, estão a acontecer coisas, declarações, que mostram que um governo que já não governava há um ano, Pedro Sánchez está praticamente há um ano sem conseguir governar, mas que a manutenção no poder de Pedro Sánchez estará a chegar ao fim.

Diogo Noise, muito obrigado por ter se juntado a nós neste episódio.

Muito obrigado