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Esta manhã, no explicador da Rádio Observador, fazemos um ponto de situação sobre o estado atual e o futuro da Groundforce e para discutir o tema, junta-se à equipe das manhãs 360, o editor de economia do Observador, Nuno Vinha, e é nosso convidado o antigo presidente da Comissão Executiva da Groundforce, Paulo Neto Leite. A moderação é do João Alexandre, a quem se junta a Judite França e no Porto, o Júlio Magalhães.
Tem sido este um dos temas quentes das últimas semanas e dos últimos meses, a situação da Groundforce. É um braço de ferro em torno da empresa, que está a gerar preocupações nos trabalhadores, mas de forma genérica também em toda a economia nacional. Ora, ainda ontem, depois da greve do último fim de semana, ficou a saber-se que há esta solução através da TAP, que vai pagar diretamente aos trabalhadores da Groundforce esses pagamentos em atraso, também, por exemplo, de subsídios de férias. Foi pelo menos aquilo que foi anunciado pelo Ministério das Infraestruturas. Ainda assim, mantém-se esse pré-aviso de greve para o final de julho e início de agosto. Muito bom dia. Paulo Neto Leite deixou o cargo de CEO da Groundforce em abril, na altura demitido por total quebra de confiança do chairman da empresa, Alfredo Casimiro, mas depois disso, a entrevistar ao Observador, dizia que tinha sido afastado porque também havia linhas éticas, morais e legais que não ultrapassava. Antes de irmos também à questão destes desenvolvimentos das últimas horas, deixe-me perguntar-lhe uma coisa: na altura em que deixou a Groundforce, já adivinhava que houvesse toda esta turbulência nas semanas e meses seguintes?
Bom dia. Efetivamente, o que nós estamos aqui a viver é uma situação em que não temos uma definição clara do caminho a seguir e quando não há uma definição clara e andamos a navegar à vista, dificilmente conseguimos chegar ao rumo e ao destino pretendido. Portanto, eu acho que é compreensível que todos nós estejamos a ser muito afetados e a imagem que passe seja de bastante desagrado por causa do impacto deste fim de semana e da greve, mas temos que compreender que qualquer um de nós aqui, que ao dia 22 não sabe se vai receber o salário, se vai receber a totalidade do salário, tem que manifestar alguma preocupação. Portanto, isto aconteceria e chegaria a este ponto com toda a certeza.
E pode voltar a acontecer no próximo mês. Nada nos garante que este pagamento feito através do Estado, através da TAP, seja para os próximos meses. Quer dizer, aquilo que se percebe das declarações do ministro é que é para agora.
É verdade. Vamos lá ver, nós assistimos à greve que acaba por se realizar porque tinha-se chegado a uma solução que permitiria o pagamento do subsídio de férias e optaram por não o fazer. Portanto, como é óbvio, temos que ter a garantia que esta solução é implementada e consegue seguir à frente.
Deixa-me só apresentar Nuno Vinha, editor de economia do Observador. Querias falar também sobre este tema. Depois vou pedir a tua ajuda para falar do Montepio, mas vamos então avançar por aqui.
Não, eu ia só perguntar ao Paulo. Obviamente, o que a Judite está a falar é que tudo isto parece ser mais uma solução provisória que deixa algum contentamento aos trabalhadores, à Comissão de Trabalhadores. Toda a gente já tem vindo a dizer que é uma lufada de ar fresco, é verdade, mas a solução definitiva continua, eu diria, encalacrada, uma palavra que eu gosto bastante. Portanto, se não se concretizar uma venda a privados e o Paulo tem uma oferta em cima da mesa para tomar conta da empresa, e eu agradeço-lhe porque é a única pessoa que aceitou falar entretanto aqui conosco precisamente sobre o que é que está aqui em causa. Tem uma oferta em cima da mesa, mas se não se verificar essa venda entre privados, que é aliás o normal, o regular funcionamento das coisas, tem que ser o Estado a intervir. De que forma é que o Estado poderia intervir? Porque isto parece que estamos a entrar num terreno ainda mais cinzento.
Estes privados que estás a falar, para as pessoas entenderem, é a entrada do Montepio aqui no meio do negócio. O objetivo é comprar a penhora das ações e isto significaria que é a entrada de um sócio com capacidade financeira.
Mas ainda não se sabe quem é que poderia ser.
Claro. Mas é um tema que o ministro Pedro Nuno Santos disse que tem já há vários meses e que é um processo que está a gerir há vários meses e que está a ser feito pelo Montepio de forma responsável, discreta e séria. Mas deixe-me perguntar-lhe, Nuno Vinha, pergunto-te a ti também já a seguir. Paulo Neto Leite, isto faz sentido? É uma coisa com muito tempo?
Vamos aqui de uma forma muito objetiva e muito pragmática, temos que ver aqui um ponto. A empresa, a Groundforce, tem problema de liquidez. Ponto. De uma forma muito pragmática. Tem um futuro pela frente, o setor aéreo não vai acabar, todas as companhias aéreas continuam a necessitar do handling. Portanto, neste momento a empresa tem problema de liquidez. O problema de liquidez resolve-se uma de duas formas: ou os acionistas injetam dinheiro, e um acionista já disse que não injeta dinheiro, ou a banca Acreditando no futuro da empresa e na capacidade que os acionistas têm de honrar o compromisso, caso a empresa não possa, faz um financiamento. Isso não foi possível também por razões mais que sabidas. Perante este cenário, eu acho que é mais que óbvio que tem que haver uma recomposição acionista rápida. E essa pode ser feita de uma duas formas: ou há uma venda direta da participação que o acionista majoritário, a Casavel, tem a um operador, e é natural que todas as pessoas estejam à espera que seja um operador internacional, que dê credibilidade ao processo, que dê garantias que esse processo vai até o fim, ou o Montepio, que tem a capacidade neste momento de efetuar essa transação, consegue encontrar um player com essa capacidade. É um processo demorado, sim, porque também tem tido aqui muitos percalços, eu ia chamar altos e baixos, mas não sei se consigo chamar altos e baixos.
Ou só baixos.
Tem tido muitos percalços, exato. A minha dúvida era precisamente essa.
Deixa eu só perguntar se concordarás que o Montepio está em condições de fazer esta participação sem dificuldade.
Aí é uma questão de perceber qual é o valor que o Montepio pretende recuperar do empréstimo inicial.
Mas estás a partir do princípio que é com uma redução da dívida. Partes desse princípio?
Não, nós também não podemos esquecer que o empréstimo inicial de Alfredo Casimiro, o crédito que ele contraiu inicialmente no Montepio foi pouco, face àquilo que seria o valor da Groundforce antes de toda esta pandemia. Fala-se em valores em torno dos 10 milhões de euros ou qualquer coisa do gênero. Mas de qualquer maneira, o que está aqui em causa é quanto o Montepio está disposto a perder na venda que vai fazer. As ofertas chegaram ao Montepio, ao leilão pela participação ou por esse lote. Quanto o Montepio estaria disponível a perder, se é que vai perder alguma coisa com isso, nessa venda. A minha questão principal ao Paulo, e era isso que eu estava a perguntar, é: o próprio ministro Pedro Nuno Santos admitiu na terça-feira no Parlamento e admite neste comunicado que vi ontem, que há uma possibilidade, que é séria, de o processo não ficar concluído entre privados, ou seja, de o Montepio não conseguir vender ou de existir algum outro interessado que esteja paralelamente a tentar negociar diretamente com Alfredo Casimiro, não conseguir concluir.
É o tal plano B, não é?
E o tal plano B, esse último reduto, que o ministro deixou duas vezes essa garantia clara de que o governo e a TAP estão preparados para fazer qualquer coisa, é isso que causa algum tipo de indefinição, que é: o que o governo estaria preparado para fazer? O que poderia fazer? Extinguir esta empresa, criar uma ao lado, entregar o handling da TAP à própria TAP, ou melhor, a TAP assumir esse próprio handling por si só, neste caso, o manuseamento de todo o que é o equipamento de terra e a história das bagagens, etc. Estaria disponível a fazer isso? O que poderia ser feito? O que estará na mente do ministro? E é isto que nós estamos a pensar e era por isso que eu perguntava ao Paulo o que o governo poderia fazer neste caso, o que seria viável e com menos litigância.
Em primeiro lugar, congratulo-me que haja um plano B, porque o que nós temos assistido até agora é que acabamos todos por acreditar que o processo está quase a terminar, mas descobre-se sempre uma nova etapa, um novo percalço. E eu acho que é claríssimo e é notório que o turismo não precisa, não pode suportar mais um outro fim de semana de greve deste e tem que se encontrar uma solução. As pessoas merecem, a TAP precisa.
E o país também precisa.
E o país precisa. Portanto, ter uma alternativa não é uma questão que nos deva preocupar, é uma questão que nos deva tranquilizar. Agora, qual é a alternativa? Aí realmente eu não consigo responder, mas acho que a alternativa, se não for um dos grandes players, há outras alternativas.
Mas Paulo Neto, deixa-me perguntar-lhe, o ministro das Infraestruturas, já que falávamos aqui de Pedro Nuno Santos, já deixou elogios à forma como o Montepio tem estado a tentar gerir também este processo. Pode ler-se até que elogia a forma responsável, discreta e séria, mas admite também que pode haver aqui uma intervenção do Estado. O Estado ou a TAP podem encontrar aqui uma solução. De que forma é que o Estado pode entrar aqui em tudo isso? Como é que antevê que o Estado possa encontrar aqui uma solução? E olhando aqui também para aquilo que são os problemas dos trabalhadores que de mês para mês nunca sabem qual será a solução encontrada para que sejam pagos salários e subsídios.
Eu acho que é muito óbvio. Vamos lá ver. O que nós temos que tentar é acabar, e a forma responsável e séria, que eu penso que o ministro referia, é porque nós assistimos a providências cautelares, a tentativas de resolver as questões nos tribunais que impedem que o negócio ande pra frente. E no fundo, o que nós assistimos é nem termos uma solução para dar continuidade, mas também se criam mecanismos e artifícios jurídicos para impedir que exista uma real alternativa. Portanto, se essa alternativa passa por ou realmente dar a continuidade ao processo de venda ou fazer uma venda direta, e eu acho Que é o que se está à espera, é que realmente se consiga ou a TAP consegue fazer a responsável de uma forma otimizada, dar a resposta a isso, porque a TAP tem 49,9% da empresa, mas acaba por ter pouca margem de manobra.
Sim, mas ao mesmo tempo, a TAP, sendo acionista com 49,9, pode ter a direção financeira da empresa, pode nomear esses administradores. Só para fazer aqui um pequeno contexto. Aquilo que a TAP vem dizendo, aliás, disse isso ontem ou anteontem, que o valor dos serviços prestados pagos pela TAP à Groundforce é superior às necessidades salariais dos trabalhadores da Groundforce. E o que isto quer dizer é que está a meter dinheiro a mais do que aquilo que são as necessidades de tesouraria para o pagamento daqueles salários.
É bom que vamos fazer aqui um paralelismo com a nossa casa. Isso era a mesma coisa que dizer que nós temos dinheiro para pagar a conta da luz, mas falta comer, falta comprar comida, falta pagar a água, etc.
Certíssimo.
O que nós temos aqui a ver é que, efetivamente, e eu respeito, aliás, o grande diferente que tive foi por causa da questão de pagamento de salários. Eu acho que não podemos brincar com a vida das pessoas e as pessoas não podem andar aqui com esta incerteza. Isto afeta muito a vida das pessoas. As pessoas não têm já créditos dos bancos aprovados, não conseguem ser fiadores de créditos, têm cartões de crédito recusados. Estamos aqui a falar de pessoas, mas há responsabilidades. A TAP nomeia o administrador financeiro, e que lá está nomeado, mas há impostos para pagar e temos que nos lembrar que a Groundforce tem cinco administradores. Três são nomeados pelo acionista militar e dois são nomeados pela TAP. Só foi possível haver o pagamento dos salários em março, porque um dos administradores nomeados pelo acionista militar, a minha pessoa, votou de outra forma. Portanto, a TAP não pode chegar lá e depositar dinheiro na conta e mandar processar o pagamento dos salários. Temos que ter atenção.
Mas aquilo que o ministro das infraestruturas diz é que a TAP abrevia o pagamento, definido contratualmente para saldar a fatura relativa a serviços prestados em junho. E, portanto, garante que a administração da Groundforce tem liquidez suficiente para pagar integralmente e atempadamente os salários relativos a julho. Portanto, isso fica claro que estamos a falar só de julho. E isto diz o ministro que é a solução encontrada para ultrapassar a recusa da administração da Groundforce em assentar a transferência da TAP.
Exatamente.
Aqui é que não se entende por que a Groundforce faz essa recusa.
Isso terá que perguntar a Alfredo Casimiro e à forma.
Infelizmente, não aceitou o convite para estar conosco.
A questão é, isso colocou-se já quando se colocou na questão da venda dos equipamentos. Também não quis aceitar e essa é a questão que nós temos que ter aqui de uma forma muito objetiva. E eu entendo porque é que o Eugénio Vaz, o representante dos trabalhadores, diz que vamos ver como é que isto se processa, porque isso é a mesma coisa que o seu banco sabe que não paga a conta da luz e liga para a EDP. "Olhe, não se preocupe, como eu giro aqui as contas dela, eu vou fazer o pagamento da transferência". Não é assim. A administração da Groundforce é soberana e tem que tomar essa decisão.
Certo, mas neste momento aquilo que nós temos é uma empresa privada a receber dinheiro para pagar salários. Apesar da participação do Estado, a Groundforce tem um acionista privado. Isto não é muito ortodoxo do ponto de vista da gestão empresarial.
O que nós estamos aqui a falar, nessa situação em particular, é o adiantamento de uma fatura de prestação de serviço. É uma coisa que qualquer empresa faz numa situação de grave crise de tesouraria. Portanto, o que nós estamos aqui a falar agora não é nada pouco ortodoxo. Eu tenho uma quebra de caixa nos próximos dias, tenho um cliente que me deveria pagar a fatura só daqui a 30 dias, eu peço-lhe, neste caso até não fui eu que pedi, foi o cliente que chegou-se ao pé de mim e disse: "Olhe, como eu sei que você está com problemas de tesouraria, eu vou lhe antecipar o pagamento para que você possa cumprir as suas obrigações". Ponto. Isto é uma solução, e dou os parabéns, porque é uma solução muito objetiva.
Deixe-me perguntar-lhe, já estamos a ficar com pouco tempo também no Explicador de hoje, enquanto antigo CEO da Groundforce. Já ouvimos, por exemplo, o porta-voz de um dos sindicatos, o Sindicato dos Técnicos de Handling, dizer que, por exemplo, Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente da República, poderia servir aqui como mediador nesta situação. Na sua opinião, nós já ouvimos o presidente da República mostrar-se satisfeito com esta solução agora que foi encontrada, ainda que possa ser uma solução temporária. O presidente da República poderia servir de mediador em toda esta questão? Poderia servir para aliviar alguma coisa nesta matéria ou nem por isso?
Eu acho que de uma forma muito objetiva, há uma expressão que foi utilizada: temos que ter os adultos na sala. O que se tem que fazer é concluir de uma vez por todas este processo. Não se pode à segunda-feira dizer que se venda, à terça-feira dizer que não se venda outra vez, a proposta já não é válida O que eu assisto neste momento e o que o ministro disse ontem é que há soluções e que elas vão ter que ser levadas até o fim. E portanto, o presidente da República estará a fazer o seu papel ao dizer que está preocupado com o país e com a situação e com o impacto. Eu acho que todas as pessoas estão a querer fazer o que têm que fazer, que é pôr pressão para que, seja de que forma for, seja por que canal for, a transação se realize.
Nuno Vinha, também muito rapidamente: faltam adultos na sala?
Muito rapidamente, eu continuo a ter muitas dúvidas. Eu compreendo que o Paulo diga que esta operação é normal, mas estamos a falar de um acionista privado maioritário, cujas ações entretanto passaram para o Montepio por execução de um penhor, que está neste momento a tentar vendê-las, mas ele continua o presidente da empresa e não foi feita nenhuma assembleia geral para renomear esta administração consoante aquilo que é as intenções dos novos acionistas ou dos acionistas que existem agora. Portanto, eu não percebo até que ponto é que ele, Alfredo Casimiro, ainda pode meter alguma areia nesta engrenagem para travar o que quer que seja deste pagamento direto, feito diretamente aos trabalhadores pela TAP. E sim, concordo, acho que faltam adultos na sala e acho que existe neste momento demasiada intervenção do governo em toda esta matéria desde o início. Se bem que isso dê algum conforto aos trabalhadores, deixa algumas sombras para o futuro.
Paulo Neto Leit, só 30 segundos para uma resposta final, depois também aqui das palavras do Nuno Vinha.
Eu acho que é preciso que tenhamos uma noção clara. É preciso mudar o acionista, ponto. Eu acho que isso já é mais que notório. E realmente, um acionista não pode ser acionista privado para receber dividendos e estar à espera da ajuda do Estado e colocar sempre a culpa nos outros. Isso tem que se resolver, a bem do país, dos trabalhadores, da TAP, porque a TAP precisa da Groundforce. Não há forma de assistir aviões sem ser com um operador de handling.
Fica clara essa posição. Agradeço Paulo Neto Leit, antigo presidente da Comissão Executiva da Groundforce, também ao Nuno Vinha, editor de economia do Observador. Estivemos aqui hoje a discutir a situação da Groundforce, o futuro e o presente da empresa.
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