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É uma das notícias que marcam esta sexta-feira. Joana Marques foi absolvida no processo movido pelos Anjos, que pediam 1 milhão de euros de indenização. A esta hora ainda não é claro se a dupla de cantores vai ou não recorrer da sentença, que foi conhecida esta manhã. Esta é também uma boa ocasião para discutirmos a liberdade de expressão e se deve ou não existir um limite para humor. Comigo está a Judite França e convidamos para esta edição, Judite, o Guilherme Fonseca.
Que colabora com a Joana Marques no programa "Isto é Gozar com Quem Trabalha" e no podcast do Observador, "Terapia de Casal". Guilherme, bem-vindo. Obrigada por ter aceitado o nosso convite. A decisão do tribunal, que chumbou sem margem para qualquer dúvida o pedido dos Anjos era expectável?
Muito boa tarde. Primeiro de tudo. Olá, como estão?
Boa tarde, Guilherme. Bem-vindo.
Olá! Como humorista, eu gostava de deixar desde já claro que eu não vou falar de nenhum aspecto judicial ou jurídico, porque não tenho qualquer formação ou capacidade de discutir miudências judiciais. Eu por aí não vou entrar. Agora, se era expectável, eu acho que havia um misto, pelo menos em mim, não quero falar nem pela Joana, nem pelos outros humoristas, mas havia um misto de era o que nós esperávamos que acontecesse, mas era o que nós tínhamos medo que não acontecesse. Há muita gente a discutir e a usar o termo: "Isto é uma vitória para os humoristas". Eu não sei exatamente se isto é uma vitória para os humoristas. Eu acho que o oposto seria uma derrota para o humor, no sentido em que se a decisão tivesse sido outra ou que envolvesse a Joana Marques pagar de algum gênero aos Anjos, eu acho que isso seria uma derrota. O que aconteceu foi só uma confirmação do que é normal na liberdade de expressão. Portanto, eu não vejo necessariamente como uma vitória, eu vejo como uma confirmação daquilo que era expectável num Estado de direito e com liberdade de expressão.
Mas Guilherme, pegando nisso que estavas a dizer, achas que esta decisão hoje conhecida, e ainda não sabemos a esta hora se haverá recurso ou não, mas esta decisão pode, eu vou usar aqui o termo tranquilizar os humoristas e os criadores e aliviá-los um pouco da autocensura, que acredito que todos sofremos?
Autocensura é bom que todos os humoristas tenham, não só os humoristas, como os canalizadores, os pintores, toda a gente. Eu espero que tenha essa autocensura. Em relação a tranquilizar, lá está, o meu ponto é exatamente esse, que é: eu não vivia intranquilo como humorista, até porque nós cá não temos casos de sentenças judiciais, como por exemplo, a do Léo Lins no Brasil, que essa sim, eu acho problemática. Nós cá nunca tínhamos tido exemplos práticos que me deixassem intranquilo nesse sentido. Portanto, a única coisa que aconteceu foi uma confirmação de: "Ok, está tudo bem". Se eu conseguisse transpor a sensação que eu tive durante este processo todo, e eu nem sequer sou a Joana Marques, eu nem sequer tinha que abrir a minha carteira, caso as coisas corressem mal, mas a minha sensação sempre foi: deixa ver se mantém tudo igual ou se vai mudar alguma coisa em relação ao discurso humorístico e aquilo que pode ser uma abertura de "eu não gostei, eu não concordo com esta piada, então vou abrir um processo judicial porque afinal eu posso ganhar em tribunal". Portanto, é mais uma confirmação de que está tudo normal, e eu acho que isso é bom.
Qual é a sua sensibilidade para a sociedade portuguesa compreender esta decisão do tribunal, porque a ideia de que o humor não tem limites também não é consensual.
Exato. Tenho visto algumas pessoas a dizer: "Pronto, este caso da Joana Marques acabou como devia ter acabado, mas ao menos abriu uma boa discussão sobre os limites do humor em Portugal". Eu gostava que as pessoas me enviassem os links donde essa discussão sobre os limites do humor em Portugal foi proveitosa, porque eu não ouvi uma única discussão sobre limites do humor em que ela tenha sido proveitosa. Eu acho que essa discussão foi toda bastante inócua. Mas para responder à sua pergunta diretamente, eu acho que este caso, e penso que o Manuel Cardoso hoje nas Telenotícias até disse isso e eu concordo com ele. Este caso, especificamente, na sociedade portuguesa, pareceu-me, fora alguns casos pontuais ou amigos dos Anjos, pareceu-me consensual do ponto de vista das pessoas perceberem que a Joana não tinha ou não teria de pagar porque o vídeo era bastante inócuo e era uma brincadeira de edição que ela pôs no Instagram. Ou seja, foi uma coisa bastante empolada do lado dos Anjos, o impacto que aquilo teria. E eu acho que a sociedade portuguesa, ou pelo menos a minha percepção foi essa, das redes sociais, dos comentadores, etc., era de que a Joana iria ganhar e que seria problemático se ela não ganhasse. Mas este caso também é um caso em que é particularmente fácil ficar do lado da Joana por isso, porque o vídeo é bastante inócuo. Porque quando são casos um bocadinho mais polêmicos, em que o humorista diz piadas um bocadinho mais polêmicas ou com temas um bocadinho mais sensíveis, eu gostava de imaginar que vamos ter, enquanto sociedade, a mesma capacidade de apoiar os humoristas nesses casos, como temos neste caso com a Joana Marques. Só para terminar. Eu acho este caso fácil de apoiar, e ainda bem, mas quando os casos forem mais complicados, como por exemplo, o do Léo Lins no Brasil, quando acontecer uma coisa desse gênero com piadas ou de humor negro ou um bocadinho mais agressivas, que as pessoas continuem a ter a capacidade de dizer Judicialmente isto não tem que ser punido, mas eu gosto ou não gosto.
Guilherme, tu fazes parte da equipa do "Isto É Gozar Com Quem Trabalha", todos os domingos, um sucesso grande na SIC ao domingo à noite. Vocês vão essencialmente a temas políticos. Isso também motiva grandes discussões, se calhar nem vale a pena entrarmos agora por aí, sobre as consequências que as vossas piadas podem ter ou não ter numa eleição. O Ricardo Araújo Pereira diz que não tem qualquer consequência. Guilherme Fonseca, mas aí o terreno é mais movediço, pegando nisso que estavas a dizer. Ou seja, pode ser mais complicado um caso que envolva um político ou que envolva alguém que está doente e há uma piada que é feita com essa doença. E todos nos lembramos também daquela cena na entrega dos Oscars, quando houve uma estalada em direto no palco da entrega dos Oscars. Isso que estavas a dizer, que este caso é mais fácil, antevês que possam existir outros casos no futuro aos quais o público pode não aderir tão facilmente?
Como é que eu hei de responder a isso? A mim chocou-me, na altura do estalo ao Chris Rock nos Oscars, porque para mim era bastante óbvio que o Will Smith tinha perdido a cabeça e que tinha feito um disparate. E depois a discussão ficou completamente polarizada e houve pessoas a defender o Will Smith, a dizer que o Chris Rock tinha ido longe demais e a dizer que era gravíssimo o que o Chris Rock tinha dito, portanto, uma estalada não era tão grave e até era merecida. E aí chocou-me que a discussão não fosse como esta da Joana Marques, me pareceu ter sido na sociedade portuguesa bastante óbvia de que: "Não, a Joana tem que ganhar, porque os Anjos não parece que tenham sentido, estão só magoados com o vídeo e têm todo o direito de estar magoados. Judicialmente, isto não faz sentido." Portanto, isto para dizer o quê? Já me perdi completamente, porque fiquei a pensar no estalo.
Estávamos a falar da polarização, no fundo, não é?
Em relação à política, exato, por causa do programa e da política. A política, na verdade, há essa discussão de que se o humor consegue ter força ou não ter força. O Ricardo usa uma expressão que eu gosto bastante quando fala deste género: nós somos um bocadinho o árbitro da política, porque somos sempre culpados. Quando fazemos piadas com a esquerda, é porque somos do grande grupo da SIC e como é do Balsemão, nós estamos a fazer o que a direita quer. Quando atacamos temas que têm a ver com a direita e falamos de políticos de direita, é porque o Ricardo Costa trabalha na SIC e é irmão do ex-primeiro-ministro, que era de esquerda. Ou seja, nós somos usados para aquilo que dá jeito. E isso também é um sinal de que nós não conseguimos ser colados nem à esquerda nem à direita. O que é bom, porque o humor tem que ter exatamente essa maleabilidade, acho eu, e essa capacidade de não ser colada nem a um lado, nem a outro.
Essa distância.
Essa distância, exatamente.
E por falares há pouco desta ideia do mundo cada vez mais polarizado, estamos a perder a capacidade de nos ouvirmos uns aos outros, sobretudo quando discordamos dos outros.
Eu não, eu não te ouço bem, que esta chamada está ótima. Mas sim.
Estás a ouvir-nos bem, Guilherme. Boa.
Eu estou a ouvir bem, sim. Eu tenho imensa capacidade de vos ouvir.
Também bem.
Mas eu acho que as redes sociais vieram, sem dúvida, polarizar um bocadinho o discurso e já não há bem espaço para nuance ou para cinzentos nas discussões na internet. Mas também, isso só acontece se as pessoas só discutirem na internet. Experimentem sair da internet e falar com os vossos amigos e discutir as coisas com os vossos amigos. Eu conto esta história no meu stand-up, conto esta história há uns tempos, em que eu dizia que vi um comentário da minha mãe a uma notícia e a minha mãe estava violentíssima a dizer: "Como é que é possível esta pessoa estar a dizer isso? Esta pessoa tem que ser afastada." E uma hora depois, sentei-me para almoçar com a minha mãe e disse assim: "Mãe, o que é que tu estavas aqui a comentar esta notícia?" E ela disse assim: "Pois, é que eu não concordo muito com o que ele estava a dizer." E então, de repente, o tom ficou completamente diferente, mas a opinião da minha mãe manteve-se. E eu acho que é um bocadinho essa a diferença entre as redes sociais e quando nós discutimos as coisas com nuance e com cinzentos. A grande questão aqui é o que é que é sagrado para nós, porque os Anjos cantaram e desafinaram a cantar o hino nacional. E o hino nacional é sagrado para algumas pessoas. A imagem dos Anjos para os Anjos é sagrada e eles ficaram magoados com a maneira como a Joana podia ter prejudicado a imagem e o valor deles. E o humor para mim é sagrado e eu fico contente com esta decisão judicial, porque nós continuamos a poder fazer o nosso trabalho sem uma pressão à nossa liberdade de expressão. Portanto, coisas sagradas que as pessoas vão defender, haverá sempre. Agora, é preciso é haver ou continuar a haver aquilo que me parece que a decisão judicial de hoje confirma, é que em Portugal há espaço para se poder dizer aquilo que nós pensamos.
Guilherme, há um pormenor interessante na sentença. No fundo, a juíza diz que o processo que foi movido ajudou a ampliar o caso e que isso é responsabilidade dos Anjos. Achas que os Anjos acabaram aqui por cometer um erro que pode efetivamente prejudicar-lhes a carreira ao avançar este processo?
Eu não sei se pode prejudicar a carreira, porque não sei até que ponto é que a carreira já não estaria prejudicada e eles estariam a tentar colar isso à Joana Marques, porque eles alegam perderem valores em concertos e em parcerias, etc. E tentaram, sem sucesso, colar à Joana Marques neste processo judicial. Tem no documento que não fica provado que foi por causa do vídeo da Joana Marques que esses valores se perderam. Portanto, em relação à carreira dos Anjos, eu não sei se isso vai prejudicar ou manter igual, ou sei lá, até poderia, por outro lado, também melhorar e eles arranjarem mais público por se vitimizarem em relação ao vídeo da Joana Marques, eu não sei. Agora, que é, acho eu, inegável e até provável em tribunal, caso isso seja necessário, que a atenção mediática que isto teve foi por causa dos Anjos e do próprio processo judicial, é o efeito Barbra Streisand, que já várias pessoas mencionaram na comunicação social. Isso é inegável, porque o vídeo dos Anjos a cantar o hino, que estava no YouTube, se eu não estou em erro, o original, e que começou a ser partilhado e que a Joana usou penso eu para fazer a edição que depois põe no seu Instagram, esse vídeo tinha 70 mil ou 80 mil visualizações e a partir do momento em que os Anjos processam a Joana Marques, ganhou 300 ou 400, acho que quase 500 mil visualizações no YouTube. A atenção que este caso ganhou, ganhou-a por causa dos próprios Anjos e não por causa da Joana Marques.
Guilherme Fonseca, obrigado por teres aceitado aqui o nosso convite. Já agora, promovemos também a terapia de casal, que sai à segunda-feira aqui no Observador, é o podcast do Guilherme com a mulher, com a Rita da Nova. E este domingo já vai haver isto, "Egosó com quem trabalha"?
Vai haver, sim, senhor. Estávamos neste momento a preparar o programa, mas pronto, entretanto distraímo-nos com esta coisa da Joana ter vencido.
Portanto, vão todos jantar fora hoje.
Sim, isto agora é festa até segunda de manhã e eu não sei como é que se vai fazer o programa.
Obrigado, Guilherme. Um abraço. Obrigado por teres estado aqui em direto na Rádio Observador. Este foi o Explicador da tarde de política.