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Começa agora mais um Explicador da Rádio Observador, esta manhã sobre os casos de hantavírus e para isso é nosso convidado o epidemiologista Manuel Carmo Gomes.

Ontem a DGS publicou orientações para a gestão de possíveis casos suspeitos de hantavírus em Portugal, como indicação dos hospitais de referência para tratamento desses eventuais casos no nosso país. Manuel Carmo Gomes é epidemiologista, muito bem-vindo a este Explicador, obrigado por ter aceitado o nosso convite. Estas orientações ontem divulgadas pela DGS são as adequadas em este momento?

Bom dia. Eu penso que sim, isto são orientações normais para uma doença transmissível, com indicação de quais são os procedimentos que as pessoas devem fazer e também para os profissionais saberem para onde é que as pessoas devem ser encaminhadas. Agora, deixa-me dizer que eu penso que apenas se justificam dado o alarme, que o hantavírus, este caso levantou, porque em Portugal não há casos de hantavírus e nem sequer existem cá aqueles ratos que são o reservatório desta estirpe de hantavírus, que é a estirpe dos Andes. Nem em Portugal, nem na Europa. Embora os hantavírus estejam presentes na Europa, nomeadamente na Escandinávia, no Norte da Europa e na Europa Central, esta estirpe dos Andes não existe na Europa. Só casos importados, como foi agora o caso deste navio. Portanto, não há razão para estarmos alarmados com a possibilidade de virmos a ter aqui uma série de casos, uma epidemia de hantavírus, em particular deste dos Andes.

Mesmo havendo esta transmissão entre humanos, ao contrário do que acontece com outras estirpes do vírus.

É verdade. Agora repare uma coisa, em primeiro lugar, já foi feita a sequenciação genómica destes casos do navio e verificou-se que não existem diferenças significativas entre estes vírus dos Andes e aqueles que nós conhecemos desde há 50 anos na Argentina e no Chile. O que isso significa? Significa que o vírus tem muita dificuldade em transmitir-se entre humanos, embora o possa fazer em condições muito especiais, mas não melhorou a sua transmissibilidade. Isto é, nós não temos que ficar preocupados que agora vamos ter aqui um hantavírus dos Andes com uma capacidade de transmissão que seja capaz de criar cadeias de transmissão e dar origem a uma epidemia. Isso não vai acontecer.

Portanto, as circunstâncias, o fato de ter havido esse primeiro contágio num cruzeiro, aumentaram a perigosidade naquelas circunstâncias específicas.

Exatamente. Este vírus, por várias razões que eu posso enumerar, tem dificuldade em transmitir-se entre humanos. É evidente que se houver situações em que as pessoas estão com uma grande proximidade física prolongada, situações em que partilham, por exemplo, condutas de ventilação, por onde o ar é comum a toda a gente, tomam refeições num espaço confinado, mal arejado, é evidente que isto acontece e é de esperar que venha a surgir mais casos, porque a incubação, como se sabe, deste vírus é prolongada. Mas são condições muito especiais. Houve vários estudos que já se fizeram na América, onde se analisou qual era a capacidade que o vírus tinha de se transmitir, por exemplo, em casas, em famílias que vivem em comum, uma vez introduzido o vírus. E verificou-se que só as pessoas que tinham contactos íntimos entre si é que transmitiam o vírus umas às outras. As outras pessoas que estavam lá em casa raramente contraíam a infecção. E já agora, para desdramatizar isto, é bom que as pessoas saibam que os surtos causados por este vírus dos Andes, este hantavírus dos Andes, são muito comuns na Argentina, no Chile e na América. A Argentina, por exemplo, desde junho de 2025, declarou 101 casos conhecidos. E estes casos nunca dão origem a cadeias de transmissão e a epidemias, dão um caso esporádico aqui, outro ali, etc. E depois, como o vírus tem muita dificuldade em transmitir-se, quando as autoridades tomam medidas de localização dos contactos e quarentenas, isto tudo para. E é isso que vai acontecer agora na Europa.

Então este é um vírus já conhecido há algum tempo da comunidade sanitária, Manuel Carmo Gomes. Começou este Explicador por dizer que, de facto, estamos aqui a falar disto por causa do mediatismo também desta questão concreta. É só isso que distingue o que se está a passar agora daquilo que se tem passado nos últimos anos com este vírus?

O que distingue foi essencialmente o facto de isto ter ocorrido num navio cruzeiro. É uma situação muito incomum. Eu devo dizer que se eu tivesse que fazer 100 cenários para tomar precauções, eu nunca colocaria um Andes vírus num cruzeiro. É uma situação muito rara. E de facto, nesta situação muito particular, houve transmissão, houve uma série de pessoas que foram infetadas. É isso apenas que distingue. Eu, por exemplo, recordo, não sei se se lembram que o ano passado a mulher do ator Gene Hackman morreu com um hantavírus. Portanto, ela foi com certeza varrer uma arrecadação onde tinham estado ratos. Os ratos libertam dejetos que estão contaminados pelos hantavírus. As pessoas quando varrem, levam as poeiras no ar e depois inalam e, evidentemente, podem acontecer óbitos e já aconteceram várias vezes.Mas o que distingue esta situação particular foi o ambiente confinado onde foi introduzido o vírus e depois as pessoas a contactarem umas com as outras dias seguidos, estando o vírus presente naquelas instalações. É isso a única coisa que distingue.

E as reações, quer da DGS em Portugal, e também da Organização Mundial de Saúde internacionalmente, estão um pouco marcadas também pela nossa experiência recente com uma pandemia.

Sem dúvida. Eu acho que nós estamos todos, eu inclusive, toda a gente está a sofrer um bocadinho de trauma, de síndrome pós-traumático depois da Covid. Portanto, as pessoas estão particularmente sensíveis a notícias deste tipo, sem dúvida. Compreende-se perfeitamente.

A DGS também fez aqui uma distinção entre casos suspeitos e casos prováveis. Pode-nos ajudar a perceber melhor esta distinção, que é feita para o caso de surgirem estas situações no nosso país?

Um caso suspeito é um caso em que a pessoa tem um conjunto de sintomas que, neste caso, são muito inespecíficos, parece uma gripe. A pessoa pode ter febre aguda, dores musculares, náuseas, vômitos, cefaleias, etc. A pessoa tem sintomas gripais, digamos assim. Não tem que ter todos, basta ter, por exemplo, uma febre aguda e um mal-estar, etc. E simultaneamente, a pessoa esteve presente num transporte, navio, avião, etc, onde tenha estado um caso confirmado. Isso é um caso suspeito. Portanto, a pessoa tem sintomas e entretanto vem-se a saber que esteve presente num transporte e nesse transporte tinha estado um caso confirmado. Isto é um suspeito. O que é que é um caso provável? Um caso provável é que a pessoa também tem os sintomas, mas teve uma ligação de proximidade muito maior com um caso que foi confirmado. Viajou, por exemplo, ao lado da pessoa no avião ou estava duas filas pra frente ou duas filas pra trás. Houve ali um contacto prolongado com um caso que depois se verificou que era confirmado. O que é que é um caso confirmado? É um caso em que houve detecção laboratorial do vírus na pessoa.

E como é que se produz o contágio deste vírus?

Ora bem, há várias maneiras. Uma maneira é a pessoa estar infectada, espirra, tosse, etc., e há gotículas que saem e que vão se depositar em objetos sólidos à nossa volta. Se eu estiver ao pé dessa pessoa e colocar a mão num desses objetos contaminados e levar a mão à boca ou aos olhos, eu sou infectado. Outra maneira é o vírus desloca-se pelo ar a uma distância curta e eu inalo uma partícula que está no ar em suspensão e que está infectada com o vírus. Agora, há que distinguir aqui uma coisa. Este vírus é pouco eficaz a multiplicar-se nas mucosas de revestimento do trato respiratório superior dos humanos. Ele não se multiplica com a eficácia do vírus da gripe ou da Covid. Portanto, multiplica-se pouco, porque o objetivo dele não é a mucosa, é entrar nos órgãos internos, na corrente sanguínea e provocar uma infecção sistémica. Quando estamos infectados com este vírus, não temos aquela carga viral na nasofaringe, que se tem, por exemplo, com uma Covid. Essa é a primeira dificuldade que o vírus tem. A segunda dificuldade é que ele não se sustenta em partículas muito pequeninas, menos de cinco micra, que ficam em suspensão no ar durante bastante tempo e que nós depois possamos inalar, o chamado aerossol. Por exemplo, o sarampo e a Covid fazem isso muito bem. Esse é o problema, é que as partículas são muito pequeninas, estão desssecadas, não têm água, ficam em suspensão no ar e qualquer um de nós entra na sala, inala aquela partícula e é infectado. Este vírus não faz isso. Outra dificuldade que ele tem é que, ao contrário, como eu dizia, da gripe, da Covid, por exemplo, ele tem muito maior dificuldade em responder à nossa resposta imunitária quando somos infectados, nas zonas a partir das quais ele se pode transmitir, que são o revestimento do trato respiratório superior, nariz, orofaringe, nasofaringe, etc. Portanto, este vírus tem várias dificuldades nesse aspecto. Não quer dizer que ele um dia não possa ultrapassar estas dificuldades.

Pode evoluir.

Pode evoluir, mas para isso tem que ter muitas oportunidades. Por exemplo, o nosso medo com a gripe das aves, é que a gripe das aves tem tido tantas oportunidades de infectar humanos, que vai evoluir ou pode vir a evoluir no sentido de se tornar muito transmissível entre humanos. Ainda não aconteceu, felizmente. Este vírus não tem tido essas oportunidades e não vai ter, com certeza.

Manuel Carmo Gomes, para fechar mesmo, uma vez confirmado um caso, qual é o tratamento? Há vacina, não há? E qual é a taxa de mortalidade, já agora, dos casos confirmados?

Vacinas. A Coreia e a China têm vacinas para os hantavírus. Simplesmente há muitos hantavírus e estas vacinas asiáticas têm uma eficácia duvidosa com os hantavírus da Ásia e podem não ter eficácia nenhuma com os hantavírus europeus e da América. Portanto, vamos pensar que não há vacinas. Não há também tratamento específico para uma infecção com hantavírus e esse é o drama. O vírus, depois daquele período de incubação, começa a dar sintomas. Há dois tipos de vírus destes, há os da América, que afetam principalmente os pulmões, portanto, penetram nos alvéolos pulmonares e nos vasos sanguíneos à volta dos alvéolos e depois há os hantavírus europeus e asiáticos que afetam mais o sistema renal. E não há tratamento específico, o que se faz é dar suporte às pessoas em condições hospitalares de cuidados intensivos, porque o vírus provoca uma quebra de tensão muito grande. Portanto, é necessário manter a pressão arterial da pessoa normal. É necessário oxigenar, dar suporte de oxigênio, porque no caso em que ele afeta os pulmões, a pessoa fica com imensa dificuldade em respirar. Essencialmente, o que há é suporte de vida. Não obstante, mesmo em condições hospitalares, a mortalidade é elevada. Os números variam muito, mas coisas entre 5% a 30% é perfeitamente normal. Há bocado citei o caso da Argentina, que teve 101 casos desde junho de 2025, cerca de um terço das pessoas faleceram. Não obstante o suporte, que repito, não é específico, é para manter a pessoa viva sem atacar diretamente o vírus, ainda não há meios para isso, não há drogas, digamos assim, que afetem diretamente a isso, não há antivirais específicos para o hantavírus ainda. Não obstante, as pessoas morrem, especialmente se as pessoas já tiverem fragilidades. Repare aquele casal holandês que infelizmente morreu, eram pessoas com 70 anos.

Como acontecia, aliás, com o Covid também. Muito bem. Manuel Carmo Gomes, obrigado pela disponibilidade para nos fazer aqui o ponto de situação e informar sobre estes casos de hantavírus. Bom dia, obrigado.

Ok, agradeço. Bom dia.