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Explicador da Rádio Observador. A nova onda de calor está a atingir-nos com particular violência e, por estes dias, já temos consequências muito visíveis e também mensuráveis das temperaturas na casa dos 40, que se fazem sentir em todo o país. Há pouco ouvíamos aqui na Rádio Observador o relato do presidente da Câmara Municipal de Vouzela, que apontava já pra uma estimativa de 11 mil hectares ardidos naquela região. Junta-se a este explicador o professor Carlos da Câmara, climatologista, professor universitário, investigador. Muito bem-vindo, professor Carlos da Câmara. O que estamos a viver agora confirma os cenários feitos há alguns dias? Se está pior, se está melhor ou encaixa nas previsões.
Boa tarde, Ricardo. Como está? De facto, eu diria que as coisas até agora até estão a correr melhor do que eu antevia, porque temos este incêndio gravíssimo de Vouzela. Mas o meu medo é sempre que comecem a aparecer outros incêndios e haja uma dispersão de forças de combate, o que é necessário. De qualquer maneira, Portugal estava, está e estará até, com certeza, dia 7, sob influência de condições atmosféricas extremamente adversas, no sentido que as temperaturas extremamente elevadas, e não só durante o dia, mas também durante a noite. A pequeníssima umidade do ar, em que também não me parece que haja grandes modificações durante a noite, e o vento bastante forte, leva a que ignições que não sejam logo atempadamente dominadas se transformem em grandes incêndios. E este incêndio é extremamente grande.
Exatamente.
Falava-se há pouco em 11 mil hectares, eu nem sei se não será um bocado mais. As frentes são brutais, da ordem da vintena de quilômetros.
Exatamente.
As energias libertadas são muito grandes, tendo ultrapassado mil megawatts, e pra uma pessoa ter uma ideia do que é mil megawatts, é uma barragem de 25.
O professor tem monitorizado a energia libertada por estes incêndios. Fala aí acerca de mil megawatts. Isto quer dizer o quê? Que a força do incêndio é avassaladora. Ajude-nos também num termo de comparação, estes mil megawatts de energia libertados se podem comparar com uma barragem. Ajude-nos a perceber isso um pouco melhor, professor Carlos da Câmara.
Exatamente. Os megawatts é uma unidade de energia libertada por unidade de tempo. No fundo, não é só a quantidade total de energia, mas é a taxa a que ela é libertada. E para dar uma ideia, a barragem é um ótimo exemplo, porque a barragem da Aguieira, se formos ver as especificidades técnicas, diz que quando ela está em full power, liberta cerca de 350 megawatts. Estes valores de mais de mil são quase três barragens da Aguieira em full power. Ora bem, o que isto quer dizer, na prática, é que um fogo libertando esta quantidade de energia, não se consegue dominar. A única forma é tentar proteger bens e depois tentar antever a forma como ele vai evoluir, de forma a posicionar as forças de combate, mas não se combate diretamente.
Exato.
Muito menos se combate com aviões largando água. Também é uma outra ideia que as pessoas têm.
Até porque está muito calor, não é?
E mais ainda é que a água apenas abre janelas de oportunidade para que depois as forças possam atuar utilizando terra. De facto, um fogo rural combate-se com terra, com pás.
Tirando combustível ao fogo, não é?
E sobretudo tirando a oxigenação. A terra não só tira a oxigenação, como mantém esse estado, evitando que ele volte a recrudescer. Mas isso com mil megawatts não se consegue.
Claro, percebemos perfeitamente essa ordem de grandeza. Temos também conosco a Filomena Martins, jornalista, que acompanha com particular atenção a meteorologia. E Filomena, no texto que está agora em manchete no Observador, explica que temos aqui um forno ibérico, ou seja, uma muito rara junção de uma onda de calor com uma cúpula de calor, é isso?
Eu diria que o professor explicou isso muito bem no texto, realmente, que está em manchete, porque esta forte radiação solar típica de julho, com a persistência das altas pressões, com ventos fracos e com a escassa renovação da atmosfera, permitem que o calor se acumule dia após dia e E fica aqui dentro de um forno.
Dentro de uma espécie de uma cápsula, é isso? De um forno.
É certo, é exatamente isso, porque a superfície terrestre aquece muito durante o dia, liberta lentamente essa energia durante a noite, só que não consegue arrefecer, porque as noites estão quentíssimas, não consegue arrefecer de forma significativa e o dia seguinte já começa muito quente.
Muito quente. Professor, acho que podemos aplicar aqui a um cenário dantesco, mas como é que nos livramos disto?
Ora bem, uma das coisas que me faz impressão, mas que circula por aí, é dizer-se: "É verão."
Exatamente, é verão e estão 40 graus.
Exatamente. E depois toda a gente tem sempre exemplos fantásticos. "Eu vivo na margem esquerda do Guadiana e sei o que é que são 47 graus" ou "vivo na terra quente transmontana". O problema não está, de todo, aí. Esta forma de justificar máximos de temperatura invocando outros eventos, não é a forma de se poder entender o que se está a passar. Aquilo que é mesmo impressionante e anómalo do ponto de vista climatológico é, por um lado, a extensão da anomalia que está a cobrir todo o território de Portugal, para não falarmos já em Espanha. Por outro lado, é a duração, que é termos provavelmente 10 dias, se não forem 10, forem oito, é rigorosamente indiferente. E por outro lado ainda, é olharmos para as razões que estão por trás deste comportamento da atmosfera. E isso tem que ver, como dizia a Filomena há pouco e muito bem, com o fato de se estabelecer uma região de altas pressões em altitude, não em grande altitude, está mesmo por cima da depressão que está cá embaixo. E que a conjunção de uma depressão à superfície, com altas pressões por cima dela, faz com que torne uma máquina extremamente eficiente a aquecer o ar.
O professor até falava numa panela, não é?
Exatamente. O ar é trazido pela depressão do Norte de África e atravessa a Península Ibérica, tudo isto aquecendo e tornando o ar mais seco. E depois ainda temos um mecanismo de compressão que o torna ainda mais quente e mais seco. Ou seja, o ar cada vez com menos nuvens e, portanto, radiação a poder também contribuir para isto tudo. E ainda acresce o fato de este sistema não sair do mesmo sítio durante dias e dias. E isto tem que ver com o fato de termos um forçamento térmico do oceano, que faz com que esta perturbação ondulatória, usando uma terminologia mais técnica, mas se quiser, esta bolha de altas pressões, permaneça no mesmo sítio. E se olharmos para a Europa, ainda mais preocupados devemos ficar, porque se olharmos com atenção, vemos que esta zona de altas pressões instalou-se na Europa desde maio e não tem saído. E de vez em quando Portugal escapa-se, como aconteceu na onda de calor que afetou França e Itália, e nós ficamos muito contentes, a pular de alegria, porque, na realidade, não nos tinha afetado, mas em maio afetou, agora afetou. E se voltar a afetar, o que eu acho que é provável, oxalá não aconteça, mas é provável, vamos ter cada vez mais situações que levem ao desenvolvimento de grandes incêndios como este que se está a observar.
Podemos esperar este tipo de cenário mais vezes ao longo das próximas semanas ou meses?
Repare, o problema é que a predictabilidade da atmosfera é limitada e não por insuficiência técnica. Não é perfeito, mas é feitio. A atmosfera é exatamente assim, tem este comportamento que se costuma chamar caótico, mas pouco importa. O que quer dizer é que à medida que avançamos no tempo, cada vez há uma maior incerteza. Eu digo incerteza, não digo erro, porque um erro corrige-se, a incerteza faz parte mesmo da natureza do fenómeno. E, portanto, há que lidar com esta incerteza. Mas há um facto que é o pano de fundo. E o pano de fundo é que um Atlântico muito quente e um Mediterrâneo muito quente.
Bateram recordes agora, não foi, professor?
Exatamente. E o Mediterrâneo e o Atlântico não arrefecem de um dia para o outro. Não é como a atmosfera, em que uma massa de água substitui outra. Portanto, vamos ter aqui os mecanismos que estão, se quiser, a segurar as tais perturbações ondulatórias, as tais ondas, e há uma maior probabilidade de que se formem este tipo de sistemas. Repare, os incêndios grandes não têm sido só aqui. França está com problemas muito sérios neste momento e, portanto, no fundo, tudo isto--
Ainda falta a Grécia e Itália.
Exatamente, mas também lá chegaremos muito provavelmente. E não é por ser verão. O problema não é por ser verão, é porque, de facto, os verões, os mecanismos normais da atmosfera desta estação, estão a ter impactos muitíssimos mais reforçados devido a anomalias que acontecem como pano de fundo em função das alterações climáticas. E é isso que nós temos que perceber muito bem, porque como este pano de fundo não vai mudar num futuro muito próximo, deste ano para o ano, para o outro, vai haver maior probabilidade de termos perturbações, nomeadamente grandes incêndios, o que quer dizer, muito provavelmente, que eu virei cá mais vezes falar sobre o assunto.
Mas isto pra semana já vai baixar um bocadinho, não é? A partir de domingo, segunda-feira.
Esperemos bem que sim, mas o meu problema é que sim, senhor, vai baixar, mas as condições para que volte outra vez A termos uma onda de calor é grande. E, por outro lado, como as ondas de calor vão tornando o solo mais seco, o que vai acontecer é que vamos tendo cada vez mais o solo a ser sensível a essas ondas de calor, tornando-as muitíssimo mais intensas, mais mortíferas e mais propiciadoras de grandes incêndios.
Professor, deixa-me fazer aqui uma pergunta, se calhar vai ser uma pergunta muito ignorante, mas por isso é que conto com a Silvina e com a Filomena pra nos ajudar também a perceber tudo isto. Então e o nosso anticiclone dos Açores não pode soprar com isto daqui pra fora?
Não, esse ajuda a trazer.
Ah, é?
Vamos lá ver. Ainda no outro dia estávamos a falar, a Filomena e eu, acerca do assunto, que é o anticiclone dos Açores. O que ele tem obrigação de fazer, e que normalmente faz, é que se estenda em crista no verão sobre a Europa, e isso vai provocar, normalmente, é o responsável por haver uma nortada, sobretudo no norte do país.
Nos incomoda na praia.
Incomoda na praia, é uma bênção para os incêndios, que traz ventos com menores temperaturas e mais úmidos. Mas o problema é que esse mesmo sistema, ou seja, o anticiclone dos Açores, coitado, tem sempre a culpa de tudo o que nos acontece. Não está sozinho. Temos a chamada pressão térmica da Península Ibérica, que é muito simples, nós temos a Península Ibérica muito quente durante o verão, e isso leva a, induz, um remoinho, se quiser, na atmosfera, no sentido contrário aos ponteiros do relógio. Tal e qual como nós tirarmos o ralo no lavatório, mas só que agora temos que fazer a coisa de pernas pro ar.
Como se estivéssemos no hemisfério sul.
O eixo vertical vai pra cima e não pra baixo, mas não importa. O mecanismo é exatamente o mesmo. E, portanto, esse ar a circular vai reforçar ainda mais a nortada. Mas se essa depressão, como acontece agora, está para sul, basta você imaginar, se temos o centro da depressão bastante a sul da Península Ibérica, a parte mais a norte da depressão corresponde a ventos de leste. É a velha história de que Espanha nem bom vento, nem bom casamento. Neste caso, é mesmo o vento que está a trazer ar muito quente e muito seco e ainda para mais ventos intensos, são os três ingredientes pra que haja grandes incêndios. É isto que está a acontecer agora.
Muito obrigado, professor Carlos da Câmara, e também à Filomena Martins. É sempre um gosto falar convosco e tentar perceber melhor esses fenômenos. Obrigado, professor. Um abraço.
Muito obrigado, um abraço.
Um abraço.