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Oito anos depois dos grandes incêndios de Pedrógão Grande, o atual governo quer criar um novo regime estrutural e permanente de apoio a vítimas de incêndios. A ideia é que seja aplicado em todas as regiões do país e não caso a caso. Contamos neste explicador com Dina Duarte, presidente da Associação das Vítimas dos Incêndios de Pedrógão Grande. Entrevista conduzida pela Judite França e pelo Miguel Vieira.
Bem-vinda e obrigado pela disponibilidade e por ter acedido ao nosso convite. Começava por lhe perguntar se, em sua opinião e com base na sua experiência, faz sentido criar este regime, que pretende ser duradouro, com os mesmos critérios ano após ano, a aplicar de forma igual em todas as regiões do país.
Boa tarde e grata pelo vosso convite. Fará sentido para que não haja um atraso na aprovação do que quer que seja, para que as vítimas não fiquem à espera demasiado tempo de uma solução. Então que seja acionado de imediato qualquer mecanismo que venha a introduzir uma celeridade que seja positiva para as vítimas, porque é muito importante que isso suceda. Tendo em conta que uma vítima já está despojada da sua normalidade. É bom que se introduza alguma normalidade com a máxima urgência, porque foi um bocadinho isso que nós percebemos aqui quando foi dos incêndios de Pedrógão Grande em 2017.
Quando olhamos para casos, como falava agora, de Pedrógão Grande 2017, que excede todos os outros incêndios que infelizmente habitualmente nos deparamos nesta altura do ano, acha que deve haver uma bitola única? Não pode prejudicar os incêndios mais avassaladores?
Creio que em termos de área ardida, obviamente que não houve área ardida superior que ao incêndio de Pedrógão. Agora, em termos de número de vítimas, quer de feridos, quer de mortais, felizmente, este ano temos que nos congratular pelo fato de não haver ainda nenhuma vítima mortal. Infelizmente, há vítimas feridas. Eu falo nesse ponto de vista. Obviamente, que sentindo-se quem for ultrajado ou vítima de uma circunstância de um incêndio, que não está a ter correta a norma que irá entrar em vigência, deve obviamente ter a oportunidade, ou junto dos tribunais ou junto do Ministério Público, para que haja uma nova leitura sobre essa circunstância. Eu estou a lhe falar um bocadinho às escuras, no sentido de não sei concretamente o que é que foi aprovado. Porque infelizmente não estou permanentemente atenta a tudo que possa sair. Agora, aquilo que eu lhe posso verdadeiramente dizer é que tudo que seja uma resposta célere é sempre importante para as pessoas poderem retomar a sua vida o quanto antes, a sua normalidade.
Foi um problema no caso de Pedrógão, a falta de celeridade na concessão desses apoios?
De alguma forma, foi. Fundamentalmente na questão das vítimas dos incêndios, na questão dos próprios familiares da vítima, que perderam os seus familiares, e até mesmo os feridos. Levou algum tempo até que as pessoas tivessem uma resposta. Obviamente que o que venha trazer alguma celeridade é importante para o bem-estar e para a saúde mental e para o refazer das vidas de todos nós. De quem passa por uma perda, seja ela perda material, seja ela perda de animais, são sempre perdas. Isso obviamente que em termos de saúde mental, vai facilitar a recuperação de quem for vítima de perdas, de que âmbito for. Claro que a vida humana é a perda maior e obviamente que se leva muito mais tempo a recuperar dessa perda.
A Ministra da Administração Interna anunciou quais as prioridades na concessão dos apoios. Primeiras casas à cabeça, depois empresas e depois agricultores afetados por grandes incêndios. Concorda com esta ordem de critérios?
Depende muito daquilo que for efetivamente necessidade ou o que seja mais ativador da celeridade em termos económicos. Pode eventualmente ser mais importante que as pessoas retomem a sua normalidade em termos de trabalho. Então os fatores económicos ou o fator rural do pagamento de tudo aquilo que foi a perda de tratores ou de máquinas agrícolas ou até das culturas que as pessoas tinham, pode servir para as pessoas reporem a sua normalidade. A questão é sempre as pessoas terem a possibilidade de voltarem à sua rotina. Que é isso que as fará entrar novamente nos eixos, não recaírem, não deprimirem. Obviamente que a casa é a nossa base de tudo. Perdendo uma casa, e quem perde uma casa precisa obviamente que as coisas sejam novamente reajustadas. Porque quem perde uma casa, perde tudo, perde a sua história. Muitas das pessoas que perderam a sua casa em Pedrógão, era o problema "Eu perdi as fotografias, eu perdi as minhas fotografias, todas as que não estavam digitalizadas ou que não tinham em formato digital, eu não tenho". Ou seja, há um passado que se perde. Então, obviamente, para estas pessoas também é importante. Acho que tudo, não deveria estabelecer-se aqui uma prioridade, tudo é prioritário.
Mas o mais basilar é a casa, não é?
Eventualmente é a casa, porque é para onde nós voltamos todos os dias. É onde nós precisamos voltar. Era a grande necessidade. Estamos a falar com pessoas com mais de 60 anos, com pessoas até bem mais seniores. Perder a casa é perder o seu ponto de encontro. A casa é tudo. Então é obviamente fundamental. Agora, eu creio que quem vai tratar das casas não vai obviamente tratar da reposição das empresas, nem vai tratar da reposição do fator agrícola, pelo que eu acho que todo o momento, tudo isso deve ser prioridade. Deve ser efetivamente tudo analisado, porque não é analisada a questão da recuperação de uma casa, vai ser eventualmente analisada numa CCDR ou num IHRU, que seja, ou numa autarquia. O fator humano que vai estar alocado à análise daquelas situações não é o mesmo que eventualmente vai estar alocado à análise da questão da reposição das empresas ou da questão rural. Eu, sinceramente, priorizar, se for, porque é claro que há uma verba e a verba pode ser esgotável. Agora, neste caso, tendo em conta tudo aquilo a que nós estamos sujeitos, não fará sentido que alguém deixe de ter a reposição do que quer que seja, só porque não há dinheiro. Tem que haver efetivamente um esforço por parte de quem de direito para que efetivamente todos se sintam acolhidos numa solução.
Como é que tem corrido esta época de incêndios em Pedrógão e nos concelhos vizinhos?
Lamentavelmente, estamos tendo aqui uns pirómanos que por vias de alguma vontade têm lançado fogo nas horas mais inusitadas, às 04:00, às 03:00. Alguns já foram apanhados, mas obviamente continuamos com o coração nas mãos, porque esta temperatura não ajuda. Até ao dia 13 deste mês continuamos ainda com esta situação agravada. E quando vem vento no final da tarde, obviamente, para nós é sempre um fator de preocupação termos o coração na mão, porque percebemos que algo mau pode ocorrer. E infelizmente, parece que estamos na mão de gente muito malformada, que escolhe os momentos certos para pôr a vida de todos em risco. E infelizmente, tem que haver também por parte de quem de direito deste país, uma alteração da legislação, um repensar, um tornar, se calhar, as penas para os incendiários mais dissuasoras, no sentido em que não sejam depois considerados tontos ou o que seja, e voltem para casa e está tudo bem. Depois no ano a seguir estão cá fora, andam por aí, têm este fator de vontade, porque são pirómanos, gostam de ver o fogo, voltam a lançar o fogo um ano depois, dois anos depois, três anos depois. Estas pessoas têm que ser arrecadadas neste período de verão, neste período que é mais propenso aos incêndios, no sentido de criar confiança em todos nós, porque todos nós que vamos vivendo pelas aldeias, somos todos nós também um pouquinho agentes de proteção civil. Por quê? Porque estamos, e somos também vigilantes, porque também estamos atentos a um carro novo, que aquele carro que está ali, quem é uma moto passou aquela hora, temos que estar atentos, porque é um pouquinho este sentir que é tudo nosso. Fazemos parte do todo e temos que estar atentos para evitar que males maiores nos ocorram. E porque uma tragédia com tantas perdas de vidas humanas ocorreu com circunstâncias atípicas. E neste momento, todos os verões estão a se tornar atípicos. E esta vai ser a nova normalidade. Os verões vão ficando cada vez mais quentes, os incêndios cada vez mais incontornáveis. A prevenção tem que ser feita. Aquilo que eu vi em algumas imagens que passaram na televisão, deixou-me um bocadinho estarrecida, tendo em minha conta que não pode haver a separação entre o que é floresta e o que é uma aldeia. Não pode ter a floresta a chegar dentro da aldeia. Os condomínios da aldeia têm que ser uma realidade em todo o país, não é só na região de Pedrógão Grande, não é só Pedrógão, Figueiró e Castanheira que têm que ter esta atenção ou que têm que fazer estas limpezas, que nós vamos estando atentos e que vão sendo feitas. O país inteiro tem que perceber que Pedrógão foi um caso em 2017, mas depois houve 2018, 2019. Este ano, 2025, é demasiado penoso ver aquilo que se vê. Há também algo que me deixa um bocado triste, é verificar a quantidade de imagens, de tempo, vermos o fogo. O que nós pretendemos? Pretendemos o quê? Que as pessoas estejam permanentemente a ver imagens. Os pirómanos vão ficar, se calhar, com mais vontade de fazerem algo semelhante ou de propagarem este tipo de efeitos.
Acha que há um excesso de midiatização dos incêndios?
Há um excesso de imagem. Tem que se dar a informação e pronto. Não se pode andar no meio do fogo, mostrar mais aquela chama, mais a outra pessoa que está perfeitamente agonizada, que nem consegue dizer nada porque está em choque, e vai-se tirar proveito disso. Mas que raio, o que nós pretendemos? Queremos o quê? As pessoas estão a dar o seu melhor. Tem que haver aqui uma consciência, no meu ponto de vista, uma consciência de que todos somos agentes. Se somos todos agentes de prevenção, de prevenção de tudo isto, a comunicação social passa imagens, tem que ter uma consciência disso. O senhor Presidente da República também referiu isso. No meu ponto de vista, no nosso ponto de vista, em termos da associação de vítimas, é algo que nós comentamos, é demasiado tempo a ver o fogo. Tem que haver aqui um repensar, o que nós precisamos, o que é correto, o que não é. Percebe o nosso ponto de vista? É um bocadinho isto, é um exagero. Diga-se o que se tiver que dizer, dê-se a imagem que se tiver que dar. Acabou, não podemos estar aqui a explorar este tipo de situação. Para nós é obviamente lamentável que assim seja. Agora, cada vez mais O nosso ponto de vista tem sido sempre, por parte desta direção, fomentar a prevenção, que é fundamental. Tem que haver aqui uma abordagem, durante os períodos de inverno, dos agentes da autoridade, que têm que ir junto das pessoas e dizer: "Olhe, isto não está bem, aquilo tem que ser cortado, tem até tal data para o fazer". Tem que se fazer isto. E os próprios autarcas têm que fazer o seu trabalho. Há os condomínios da aldeia, há o PRR ainda com bastantes fundos, aproveitem-nos. Portugal precisa de ficar estruturalmente preparado para os verões que aí vêm.
No caso de Pedrógão e nos concelhos aí em redor, estão estes municípios mais bem preparados para enfrentar este flagelo dos incêndios? Há uma maior aposta na prevenção, depois da tragédia, que eventualmente também conduzirá a essa mesma preocupação?
Depois da tragédia, Pedrógão serviu para isto. Serviu também para olharmos para o território de uma outra forma, para todos os territórios. Eu pensaria que, se calhar, não seria só aqui, mas dadas as imagens que eu tenho visto, se calhar, há um maior foco aqui na nossa região. Há, efetivamente, essa preocupação da prevenção, da floresta não chegar dentro da aldeia, de fazer a sua separação. Efetivamente, isso cria em mim, enquanto moradora numa aldeia, uma sensação de segurança, que é completamente diferente de termos as árvores tocarem-nos as casas, numa proximidade demasiado exagerada. Este tipo de atitude, esta prevenção, não deve ser só na nossa região. Tem que ser no país, tem que se prever, tem que se trabalhar, tem que haver essa consciência. Estamos no período de eleições autárquicas. Eu peço uma reflexão dos senhores candidatos e das senhoras candidatas para esta circunstância, para perceberem que os incêndios não foram só em Pedrógão, continuam a abrasar o país inteiro. E isto não é algo que é passado. Não, continua a acontecer. Há um conjunto de circunstâncias que vão simplesmente agudizar-se com o passar do tempo. Os verões estão cada vez mais quentes. Isso é uma realidade, dificilmente vai deixar de continuar neste ciclo vicioso. Era muito bom que algo o contrariasse, mas não parece. Então a única situação que nós podemos fazer para evitar aquilo que temos visto dias e dias, e incêndios que têm semanas a consumir tudo, a consumir a maior riqueza, a paisagem. A paisagem é a maior riqueza que Portugal tem e está a perdê-la. Os espaços belíssimos, como nós temos no norte do país, que estão a ser perdidos, os animais estão a ser dizimados. Quer dizer, tem que haver uma consciência de prevenção em todos nós. Tem que haver, efetivamente, este pensar o território e dizer que nós não temos muito mais para dar, mas temos uma paisagem, temos um turismo que não é só Algarve, não é só Lisboa, que não é só o Porto, que não é só o litoral. É um turismo, há uma vivência de um país que é fora do litoral e que tem que ser respeitado e que tem que ser efetivamente prevenido. E prevenir é no inverno, não é em pleno verão, como eu vi a cortarem árvores, foi-me dado a ver na televisão, a cortarem árvores duas horas antes de fazerem a reportagem. Isto não faz sentido. Que prevenção é esta, não é? É um bocadinho isto que nos preocupa. Por isso, faço o apelo a quem lhe direi, que perceba que tem que olhar para o seu território de uma forma mais consciente e mais preventiva, no ponto de vista dos incêndios, porque eles estão aí e vão continuar. Infelizmente, antes não fosse esta a nossa realidade. Também acho que, já que me é dado este momento, eu queria simplesmente também alertar. Acho que não faz sentido que continue a haver fogos de artifício, quando põem em causa todo um conjunto de pessoas, quando põem em causa animais, vidas de animais, de pessoas, de tudo que seja. Tem que haver aqui um repensar este tipo de diversão, para que não haja efetivamente um risco maior. E creio que isso pode ser uma solução também que deve ser encontrada. Pelo menos aqui na nossa zona, desde o ano 2000 ou até mesmo antes do ano 2000, não eram autorizados os fogos de artifício na maior parte das nossas festas da aldeia e não percebo como é que noutras partes do país continua a ser permitido. Não faz sentido. Parece que somos um país com várias regras, vários regimentos.
Estamos mesmo a terminar, mas gostávamos ainda de fazer uma última pergunta. Há pouco, já deu um exemplo. Pergunto se as memórias dos incêndios de 2017 continuam a fazer parte do dia a dia da comunidade.
Sempre. E cada vez mais que eu acendo a televisão, que eu ligo a televisão e vejo os incêndios, é óbvio que sim. E aquilo é simplesmente esperar que não haja mortes, é simplesmente esperar que as pessoas se salvaguardem. E felizmente, nós conseguimos ver que a população continua a ser resiliente, combativa, que não ficamos à espera, mas é uma população que vive nas aldeias já envelhecida, que não tem grande capacidade. Felizmente, ainda há alguns jovens que se vão mantendo nas aldeias e que vão fazendo esse combate. E é esta luta que quem vive nas pequenas aldeias está sujeito, por vezes também nos cansa, não vermos que haja outro tipo de atitude das autoridades, no sentido de haver outro tipo de prevenção. E obviamente, para nós, enquanto elementos da AVPG, cada vez que há um incêndio ou cada vez que se inicia o verão, ficamos com o coração nas mãos. Esperamos que não morra ninguém, esperamos que não volte a acontecer. Mas é uma iminência, porque somos um país de fogo. Somos um país que está aqui, e que vai ficar sempre olhado a ele. Infelizmente, é esta a nossa realidade. Obviamente que dói. Todos os verões dói-nos ver aquilo que se passa neste país. Os incêndios continuam a fazer os estragos que continuam a fazer. Isso é, efetivamente, algo que nos entristece. De qualquer das formas, eu quero deixar aqui uma palavra de gratidão para todos os agentes, todos os que estão a dar o corpo ao manifesto e que estão a lutar e a prevenir, e a fazer um trabalho meritório de estar junto das populações, de as ajudarem, de as evacuarem com segurança e de não se esquecerem dos animais, obviamente. É importante perceber que estas pessoas também têm vida própria e que se calhar não descansam, se calhar não voltam à sua família há muito tempo. E para eles todos, uma grande palavra de agradecimento por parte da AVPG.
E assim terminamos. Agradeço-lhe, Dina Duarte, o testemunho e a partilha que aqui fez conosco e com os ouvintes da Rádio Observador. Dina Duarte, a presidenta da Associação das Vítimas dos Incêndios de Pedrógão Grande. Obrigado.