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Muito bom dia, Miguel Prudêncio. Bem-vindo a este Explicador. Três anos depois, tivemos este fim de semana a Organização Mundial de Saúde a decretar o fim da pandemia causada pelo coronavírus. O que é que, na prática, isto significa?

Bom dia, muito obrigado pelo convite. Na prática, isto significa que a Covid-19, não tendo desaparecido, passa a ser encarada como mais uma doença respiratória com a qual nós temos que lidar de forma sazonal, à semelhança de outras doenças respiratórias com que nós já nos habituámos a lidar, como a gripe, por exemplo. Não significa isto que o vírus que causa a Covid-19 foi erradicado, isso não aconteceu, nem é previsível que vá acontecer. Significa, antes, que neste momento, a nossa capacidade de lidar com o vírus é muito diferente da que era há três anos e isto deve-se, em grande parte, a dois fatores essenciais. Por um lado, as vacinas, que vieram criar uma barreira de proteção imunitária contra as consequências mais graves desta doença. E, por outro lado, o facto de, ao longo destes três anos, ter havido muita gente que contactou com o vírus e que adquiriu por essa via imunidade naturalmente adquirida. E a combinação da imunidade vacinal com a imunidade naturalmente adquirida cria um cenário em que o contacto com o vírus já não terá as consequências que tinha numa altura em que nós não tínhamos qualquer tipo de proteção contra esta infeção.

Claro. Tornou-se endémico, digamos assim. Não é?

Exatamente, tornou-se endémico.

Que era, já agora, um objetivo chegar lá rapidamente à endemia, um objetivo declarado pelas autoridades em todo lado, desde o início da pandemia.

Desde o início que se falava no desejo de chegar a uma situação de endemia, que é uma situação em que há um equilíbrio entre a presença do vírus e a população. E isto é o que acontece com outras doenças respiratórias também, do conjunto das quais, neste momento, a Covid-19 também faz parte.

Aliás, o Miguel Prudêncio disse há pouco que não significa que o vírus não continue por aí. Continua. Aliás, o diretor-geral da OMS, quando decretou o fim da pandemia, disse também e deu esta estatística, referindo-se a valores da semana passada, que a cada três minutos havia uma morte em todo o mundo causada ainda pelo vírus. Portanto, ele continua presente. Não é de todo inofensivo, isto é, continua a provocar mortes. Mas a grande questão, Miguel Prudêncio, é que, de facto, isto agora é controlado e estas mortes serão residuais e de quê? De pessoas mais vulneráveis, de alguma maneira, tal como acontece, por exemplo, com a gripe sazonal?

Sem dúvida. Este é um vírus cujas consequências mais graves são em grupos da população que estão bem identificados, nomeadamente as pessoas mais idosas e as pessoas que têm algum tipo de comorbilidades que as colocam num risco maior de terem consequências graves da doença. Portanto, essas pessoas continuarão a ser os grupos mais vulneráveis ao vírus. Mas, efetivamente, a situação é muito diferente de há três anos, quando não havia qualquer imunidade na comunidade perante o vírus. Efetivamente, como disse, o vírus não desapareceu. Aliás, não é expectável que desapareça ou que desapareça nos tempos mais próximos. Portanto, não se trata de erradicar o vírus, trata-se de, de alguma forma, aprender a viver com ele. E felizmente, nós em relação a este vírus, temos uma ferramenta que não existe para todas as infeções respiratórias virais, que são as vacinas. E as vacinas continuam a ser importantes, sobretudo nesses grupos da população mais vulneráveis, para manter os níveis de proteção elevados e suficientemente elevados para prevenir as consequências mais graves da doença. Eu faço notar que, por exemplo, nós também temos vacinação sazonal para a gripe e essa vacinação sazonal para a gripe também não é generalizada a toda a população. É focada em determinados grupos, os grupos que se sabe serem mais vulneráveis às consequências da gripe. E da mesma forma, penso que aquilo que muito provavelmente irá acontecer é que nós passaremos a ter uma vacinação sazonal também contra a Covid-19, dirigida aos grupos em que esta doença é mais perigosa.

Exato. Tocando nesse ponto, precisamente. O que nós devemos fazer? Nós Estados e nós, se quiser, indivíduos, nesta fase. Deixe-me perguntar-lhe muito diretamente: perante sintomas que podem indiciar estarmos com Covid, nós devemos continuar a fazer o teste em casa ou é desnecessário, de alguma maneira?

Vamos ver. Nós, neste momento e nesta nova fase em que nos encontramos, como eu dizia há pouco, a Covid-19 é mais uma doença respiratória e como qualquer doença respiratória viral, ela pode ser transmitida às outras pessoas através das gotículas que são expelidas, por exemplo, quando tossimos ou quando espirramos. E se nós temos sintomas de uma doença respiratória, se estamos com tosse, se estamos com febre, se estamos a espirrar, independentemente de se tratar de Covid, ou de gripe, ou de outra doença respiratória viral, nós devemos tomar precauções para evitar contagiar as outras pessoas. E, portanto Eu não acho que nós tenhamos que ir a correr fazer um teste de Covid, a partir do momento em que temos sintomas de uma constipação, mas devemos ter cautelas, obviamente, para evitar transmitir o vírus que, porventura, nos infectou, qualquer que ele seja, pode não ser Covid-19, pode ser outro qualquer, mas, seja ele qual for, se nós estivermos na proximidade de pessoas idosas, de pessoas doentes, de pessoas vulneráveis, devemos evitar, obviamente, transmitir o vírus, qualquer que ele seja, a essas pessoas. E se há coisa que aprendemos ao longo destes três anos, é como é que se pode evitar fazer essa transmissão. E pode-se evitar com aquelas precauções que todos aprendemos, de colocar a parte interior do cotovelo à frente da boca quando espirramos. Em alguns casos, eventualmente, com pessoas acamadas, com pessoas mais idosas, com pessoas mais vulneráveis, se estamos doentes, se estamos a sentir-nos constipados, se estamos com febre, podemos perfeitamente utilizar uma máscara na proximidade dessas pessoas. Volto a frisar, independentemente de ser Covid ou não, é muito provavelmente um vírus que pode ser transmitido àquela pessoa, que pela sua fragilidade pode ter consequências graves dessa infecção. Portanto, se há forma de o evitar, acho que é o que devemos fazer. Outro contexto em que, para mim, faz todo sentido, e há muito tempo que eu digo isto, que faz sentido que passe a ser a norma a utilização, por exemplo, da máscara, é num contexto de umas urgências hospitalares, às quais se dirigem muitas pessoas, muitas delas idosas, muitas delas com grandes fragilidades. E se estamos naquele ambiente em que há muita gente num espaço confinado e algumas pessoas podem estar, até sem saber, infectadas com o vírus respiratório, qualquer que ele seja, e podem estar a tossir, a espirrar, etc. Eu acho que ali é um contexto onde faz todo sentido que se continue a utilizar a máscara. De resto, obviamente, a nossa vida regressa à normalidade e com o conhecimento que entretanto adquirimos e com as estratégias, com as formas que entretanto viemos a conhecer, de como é que podemos evitar transmitir infecções às pessoas que nos estão próximas.

Ou seja, devíamos normalizar mais o uso da máscara, normalizar em relação ao pré-pandemia, atenção, àquilo que tínhamos pré-pandemia. Devíamos usar mais vezes, mesmo perante uma gripe ou uma doença do gênero, para evitar, de facto, que a doença se espalhe.

Só em contextos muito específicos. Na minha opinião, não faz sentido nós passarmos a andar de máscara de forma generalizada, mesmo estando constipados. Quer dizer, eu estava a me referir a situações muito concretas.

Urgências e locais mais vulneráveis.

Urgências hospitalares e se temos, imagine, um familiar mais idoso que está, porventura, acamado ou que está numa situação de grande fragilidade, é evidente que não é prudente estar muito próximo daquela pessoa quando se está a espirrar ou a tossir e, portanto, aí nesse caso, ou evitar a proximidade ou então, se não é possível evitar a proximidade, a utilização da máscara nesse contexto específico, não me parece que seja desadequada. Agora, na generalidade do nosso dia a dia, não acho que faça sentido.

Muito bem. Em relação à vacinação, Miguel Proença, já disse há pouco que, de facto, a vacina Covid deverá entrar naquilo que é a nossa prática de vacinação sazonal, tal como a da gripe. É isso que é, de facto, recomendado e o Estado, o SNS vai por aí, de facto, incluir esta vacina no plano regular, normal de vacinação para grupos mais vulneráveis?

Eu estou a crer que é isso que irá acontecer. Não tenho conhecimento específico de que haja planos já concretos e definidos em relação a essa decisão, mas faz-me todo sentido que assim seja. De resto, recordo que já no ano passado, quando foi a época de vacinação para a gripe, se fez coincidir a vacinação para a gripe e para a Covid-19, até porque os grupos-alvo são muito semelhantes, praticamente se sobrepõem, e até de um ponto de vista logístico, faz todo sentido que as duas vacinas sejam administradas. Nós hoje sabemos que não há problema rigorosamente nenhum em fazer a administração das duas vacinas no mesmo dia. E, portanto, acho que até do ponto de vista logístico, faz todo sentido que isso passe a ser a prática comum.

Para todos nós, no fundo, ficar à espera também que as autoridades de saúde nos digam então qual vai ser o plano. Não precisamos de nós próprios-

Não.

Diga, diga.

Não, eu peço desculpa de o ter interrompido. Eu acho que para o resto da população em geral, nós continuamos a nossa vida como dantes e, evidentemente, que se houver razões cientificamente demonstrado que faça sentido alargar essa vacinação a outros grupos da população, evidentemente, devemos acatar aquilo que são as indicações das autoridades sanitárias, mas para já, não me parece que seja esse o caso. Para já, penso que estaremos numa situação de restringir essa administração das vacinas aos grupos mais vulneráveis da população.

Miguel Proença, deixe-me também pedir um comentário sobre uma notícia que está hoje no Público, diz-nos que Portugal deitou fora, deitou para o lixo, literalmente, três milhões e meio de vacinas Covid. Isto, de facto, pode impressionar, mas no fundo, isto faz parte da gestão normal destes processos, não?

É óbvio que esses números, ditos dessa forma, não deixam de ser chocantes, sobretudo quando nós sabemos que há zonas do globo, países para os quais o número de vacinas que foi disponibilizado ficou muito aquém daquilo que seria o ideal, daquilo que seria o desejável. E, portanto, obviamente, que é de lamentar.

Era preferível que não tivesse acontecido.

Ao mesmo tempo, era preferível que não tivesse acontecido.

Mas que tivessem sido dirigidas em tempo útil para populações que delas precisavam.

Exatamente. Porventura, do ponto de vista logístico e do ponto de vista dos acordos estabelecidos, poderia haver algum tipo de dificuldade em fazer esse redirecionamento das vacinas para esses locais, mas eu penso que teria valido a pena fazer um esforço nesse sentido. De resto, evidentemente que a partir do momento em que as vacinas atingem o seu prazo de validade, não há outra opção senão descartá-las.

Destruí-las, claro.

Pior seria estar a administrar vacinas que tivessem passado do prazo de validade e obviamente que isso não poderia ser feito.

Miguel Prudêncio, quase a fechar. Investigador do Instituto de Medicina Molecular, conhece bem estes temas. Portanto, mais de três anos depois, está decretado o fim da pandemia. Do conhecimento que tem destas matérias, isto foi uma grande vitória da comunidade científica, da indústria farmacêutica, das autoridades de saúde em todo o mundo, comparando com casos que podem ser comparáveis do passado?

Sem dúvida que foi, do ponto de vista científico, do ponto de vista da investigação científica, do ponto de vista das conquistas científicas, foi um marco histórico. Aquilo que se conseguiu fazer, nomeadamente no desenvolvimento de vacinas em tempo recorde contra a Covid-19, foi realmente uma conquista científica ímpar, e que eu gosto sempre de frisar que não aconteceu de um dia para o outro, porque muitas vezes as pessoas ficam um pouco surpreendidas: como é que foi possível desenvolver esta tecnologia tão rapidamente? A verdade é que ela vinha a ser desenvolvida há décadas e, portanto, a capacidade que houve de utilizar esta tecnologia do RNA mensageiro, nomeadamente para criar estas vacinas, essa capacidade assentou num corpo de conhecimento que foi construído ao longo de décadas. E aquilo que foi possível fazer foi utilizar esse conhecimento, direcioná-lo para um fim muito urgente e muito bem definido. E isso, sem dúvida, que foi uma conquista científica ímpar e com implicações muito importantes para o futuro, uma vez que esta tecnologia, tendo sido validada à escala a que foi, agora abrem-se as portas para que ela possa ser aplicada a um conjunto de outras doenças, de outras doenças infecciosas ou não, e nomeadamente, novas vacinas para doenças que ainda não têm vacina ou mesmo outras aplicações da tecnologia do RNA mensageiro, penso que é muito previsível que venham a existir no futuro.

Muito bem, isso merece sempre ser sublinhado. Miguel Prudêncio, que aliás, ao longo destes três anos, foi uma presença constante aqui também na antena da Rádio Observador, para nos ir explicando a pandemia. Aqui também agora a fazermos o balanço três anos depois, quando é decretado o seu fim. Miguel Prudêncio, bom dia, boa semana e obrigado por ter estado connosco.

Muito obrigado e bom dia. Muito obrigado.