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Está no ar o Explicador da Rádio Observador, hoje na edição das manhãs, 360 de fim de semana. Falamos sobre o 32º Congresso do CDS-PP, que decorre este fim de semana em Alcobaça. Para isso convidamos para estar conosco Diogo Feio, antigo deputado do CDS. A condução desta entrevista no Explicador é do Luís Soares. Bem-vindo, Diogo Feio, a este Explicador. Começava por lhe perguntar por que vai ficar ausente do congresso deste fim de semana.

Bom dia. Eu aqui começo por salientar que tenho resistido a falar sobre o CDS, a seguir a este simpático convite da Rádio Observador. E a minha decisão de não ir ao congresso, nem sequer me ter candidatado a essa possibilidade, tem uma base de natureza política. No plano pessoal, eu acredito que haveria quem me recebesse bem e com simpatia. Devo dizer que tenho estima e até admiração por quem tem tentado manter o CDS à tona, mas eu discordo da ideia de um CDS autónomo. Eu defendo a sua fusão com o PSD neste projeto AD e que fosse um elemento essencial para ajudar a federação do centro-direita moderado, que também incluísse a iniciativa liberal, que poderia ser um projeto maioritário no nosso espaço político. E aí eu julgo que o CDS poderia ser útil, ajudando a trazer uma lógica reformista na economia, na ideia de produtividade, na ideia de competitividade, virado para as exportações, no plano da reforma laboral, na saúde, na educação, na reforma do Estado, um partido europeísta. O CDS, por exemplo, poderia ser muito útil no lançamento da questão e da discussão sobre a regionalização em Portugal. E como é esta a ideia em que acredito, acho que não tem muito sentido estar a ir a um congresso em que a linha vai ser outra. É legítimo que assim o seja, mas eu tenho sérias dúvidas, como já se percebeu, desta ideia de que o CDS pode afirmar pelo seu próprio pé e com utilidade para o espaço centro-direita em Portugal, uma ideia de natureza política.

E é importante também essa discussão e também agradecemos o fato de se ter disponibilizado para nos ajudar também a perceber um pouco melhor esse seu ponto de vista. Diogo Feio, e partindo precisamente dessa sua ideia de uma fusão entre os dois partidos, sendo que o CDS é conhecido como um partido de quadros, mesmo sem ter uma representação parlamentar que já teve noutros tempos. Mas essa hipótese de uma fusão com o PSD não arriscaria afastar alguns desses quadros que eventualmente não se revejam nessa opção?

Não sei, não tenho a certeza disso. Aliás, quando o partido teve uma linha política que foi a de afastar os seus quadros políticos, de se radicalizar à direita, isso foi o fim do CDS autónomo. Pode parecer até cómico, tendo em atenção a evolução que as pessoas foram fazendo para os dias de hoje, mas esta ideia de um CDS acantonado, um CDS com o discurso muito anti-woke, muito doutrinário, sem mais, a que é que levou? A que o CDS deixasse de ter representação na Assembleia da República, momento que eu acho que simbolicamente marca precisamente esta alteração na natureza daquilo que o CDS deve fazer. Eu não estou a dizer que o CDS deve desaparecer do quadro político nacional. Por exemplo, nas autonomias, tem sentido a sua existência e tem sido feito um trabalho extraordinário nos Açores e na Madeira, na participação que faz no governo, eu tenho-a visto como positiva. Agora, o que o CDS tem é que se afirmar dentro de um espaço mais amplo, não tem que estar preocupado em dividir esse espaço. Até porque historicamente, sempre que saiu de uma coligação com o PSD, foi castigado nas urnas. Quando a base com que parte para a coligação é muito baixa, nem quero imaginar o que seria esse castigo.

Portanto, no fundo, podemos concluir que o que defende é que o CDS se transforme numa espécie de tendência dentro do PSD, podemos concluir isso?

Não é uma tendência. Eu acho que aquilo que é uma mudança de natureza e é precisamente o contrário daquele discurso que alguns fazem de um CDS transformado nos verdes da AD ou nos verdes do centro-direita, era no fundo a ideia de criação de um projeto político que fosse mais duradouro para este espaço, que é aquele em que eu me sinto bem, no centro-direita moderado, contra os radicalismos e com uma vontade de transformar Portugal. E portanto, o CDS pode ser um bom motor para essas transformações que são necessárias, trazendo ideias pela positiva, pondo-as à discussão na sociedade e, portanto, mudando aquela que é a sua natureza. Eu acho que esta ideia de que tem que se ter aqui de vez em quando um discurso maisRadicalizar, tocar os temas que o Chega hoje tem não é um bom caminho e felizmente também não tem sido generalizado por parte de todos os dirigentes do partido.

Ou seja, falta também um pouco aquele CDS que já houve em tempos com algumas causas muito próprias e com temas que defendia, e que se percebia exatamente quais eram os temas que eram mais caros ao partido?

Eu falei nisso, mas nos dias de hoje, eu acho que tinha sentido o CDS ser o partido em Portugal da regionalização, por exemplo, que é um tema que apenas em Portugal sucede que a direita é contra e a esquerda é a favor. Se olharmos pela Europa fora, é precisamente o contrário aquilo que vai acontecendo. Eu acho que na lógica de reforma do Estado, essa reforma seria bastante relevante. Por que não ser o CDS a pegar nesse tema? Aqui está. E aí estava-se a discutir se tem muita importância o CDS ser ou não um partido autónomo, estar a lutar por uns milhares de votos no todo nacional. Não, não se ia com certeza discutir isso e haveria uma ideia de que aparece um partido com ideias arejadas, fundamentadas, que é algo que tem acontecido várias vezes e com certeza divisivas, nem todos irão concordar sobre isso, mas acho bastante mais interessante esse tema do que outros, ou estar pura e simplesmente empenhado numa lógica de alterações constitucionais, por exemplo, que não me parece uma necessidade muito sentida pela sociedade portuguesa neste momento.

De resto, neste congresso, provavelmente e muito possivelmente vai-se discutir até por via das moções, se o partido deve ir a votos sozinho ou em coligação com o PSD em próximas eleições. Por exemplo, a Juventude Popular desafia o partido a ir a votos sozinho. Nuno Melo já deu uma entrevista e tem feito declarações a dizer antes pelo contrário, que não ir em coligação iria propiciar que o Partido Socialista governasse. Qual é que é a visão que acha que vai acabar por triunfar, tendo em conta o contexto que temos neste momento?

O que eu espero sempre é que triunfem as visões de bom senso. E a ideia de autonomia representada pela Juventude Popular como uma irreverência natural dentro dos congressos, serve apenas como uma linha de discussão, não mais do que isso, porque me parece impensável que estando as coisas a correrem bem como estão dentro da coligação, que essa possibilidade sequer se colocasse. E repare, para mim, que estou nos antípodas da divisão à direita, bem pelo contrário, quero que ela se agregue, este espaço de centro-direita, repito, moderado, que vai do PSD até à iniciativa liberal e que pode abarcar independentes, que foi algo que já sucedeu na nossa sociedade com sucesso nos tempos da primeira AD, eu acho que é perfeitamente repetível a partir do governo e com a liderança de Luís Montenegro, nosso primeiro-ministro. Portanto, é este o meu caminho, não é com certeza o caminho da autonomia do CDS para ir a votos e estar a lutar desesperadamente por um deputado no círculo de Lisboa. Não me parece boa ideia.

Diogo Feio, há nesta altura dois candidatos à liderança do CDS que vão a votos este fim de semana, Nuno Melo para um terceiro mandato, mas também Nuno Correia da Silva, que afirma que o CDS está acomodado dentro da AD. Já percebemos aqui que já de certa forma falou disso, daquilo que é a influência que o CDS pode ou não ter na governação. Acha que o partido pode ter um papel mais ativo na coligação e também na governação?

Isso com certeza que sim. É uma questão do próprio partido assumir essa vontade, coisa que eu acho que é perfeitamente possível, desde logo em relação às grandes discussões que se vão fazer nos temas relacionados com defesa nacional. Hoje, isto é um tema que ocupa grande parte dos jornais europeus a nível de investimento, a nível da opção que se faz, a nível de maior integração das forças nacionais. Até há quem já ponha em discussão a ideia de um exército, de forças militares europeias, noutras áreas, por exemplo, no controle de fronteiras mais relacionadas com a segurança por via da Frontex. Essa coordenação é cada vez mais de natureza operacional e de grande integração e o CDS tem que estar nestes temas, tem que apresentar uma visão moderna, moderada.

E é o líder do partido que está com essa pasta, inclusivamente.

Pronto, por isso mesmo é que eu falei deste tema. Poderia falar de outros também, onde o CDS pode, como é óbvio, ter a sua marca. São os meus iniciais, a competitividade, a positividade, a noção de que não é apenas uma reforma setorial que resolve este problema, que temos que caminhar para outras, a forma de funcionamento do Estado, que ainda é um Estado pesado e que se calhar pode ser um Estado bastante menos pesado e mais eficaz. Eu acho que aíTira a utilidade do CDS. Não é esta a ideia de que temos que ir pra rua com uma bandeira, marcar uma posição que retire espaço político ao partido à nossa direita. Esse deixá-lo fazer o seu caminho, que não é o nosso, e o CDS deve marcar a sua identidade. A sua identidade, curiosamente, neste momento, é da possibilidade de se ter uma força agregadora do espaço do centro-direita, que eu estou perfeitamente convencido que em próximas eleições legislativas poderá ser majoritária. Acho que há tempo para fazer toda essa estrada, mas que ela pode ter um grande sucesso. Olhe, seria muito útil que o CDS fosse o pivô em tudo isso.

Deixe-me fazer-lhe também uma pergunta mais específica, Diogo Feio, sobre a proposta de alteração aos estatutos do partido que Nuno Melo vai levar. Uma dessas propostas prevê que se possam suspender dirigentes do CDS que apoiem listas concorrentes em período eleitoral. Esta já é a segunda versão da proposta, porque a primeira foi rejeitada pelo Tribunal Constitucional. Parece-lhe uma proposta adequada ou pode ser vista como um ataque à liberdade dos dirigentes do CDS?

Repare, eu não tenho acompanhado muito essa matéria, como deve compreender. Este meu afastamento também leva a que não esteja propriamente a olhar para as questões estatutárias. Agora, eu acho normal que um partido queira que os dirigentes estejam nas forças partidárias em que participa, muitas delas de coligação. Até devo dizer que acho que durante estas eleições autárquicas, mais até do que essa questão, o CDS, por vezes, tomou algumas opções que não me pareceram as melhores, não fazendo algumas coligações em lugares que poderiam ter relevância para a vitória, no caso do PSD em coligação com o CDS, que tenho pena não tenham existido numa situação ou outra, teríamos mais peso ainda autárquico do CDS do que actualmente existe.

Só uma última questão, Diogo Feio. Qual é que poderia ser o seu papel nessa ideia de uma outra direita mais agregadora, nessa ideia que tem daquilo que poderia ser o posicionamento do CDS numa outra direita, como preconiza?

Eu sou um voluntário para ajudar. Assim o queiram, estou disponível, estou contactável para que seja possível manter e até fazer crescer o espaço em que me sinto bem no nosso país. Isto é, olhar para os resultados eleitorais, fazer algumas somas, ver o resultado que pode ter uma política reformista que também traz eleitores. E acho que se isso acontecer, deixamos de falar da ideia de que é inevitável o crescimento do Chega, por exemplo. Portanto, eu voluntário estou para se poder ajudar, mesmo que seja numa parte ínfima para esse projeto.

Diogo Feio, muito obrigado por ter vindo a este Explicador no fim de semana do Congresso do CDS para nos ajudar também a enquadrar aquilo que poderá ser discussões de fim de semana. Obrigado, bom fim de semana.

Obrigado.