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Companhia das manhãs 360 e já de seguida temos o Explicador desta terça-feira. O Explicador da Rádio Observador hoje centra atenções no atual momento do CDS. Depois de um fim de semana agitado, vamos daqui a pouco, também com a ajuda do Paulo Ferreira, percorrer os principais momentos dos 46 anos de história deste partido e também tentar perceber quais são os principais desafios que enfrenta em 2021. E para isso, Carla Jorge Carvalho, temos alguns convidados.

Temos alguns convidados para ouvir na próxima meia hora. Daqui a pouco contamos estar com o vice-presidente do CDS, Miguel Barbosa, mas para já, vamos ao encontro do deputado João Gonçalves Pereira, que é também vereador, é líder da distrital de Lisboa, crítico assumido da atual liderança. Muito bom dia, João Gonçalves Pereira.

Bom dia.

Valeu a pena este desafio à liderança de Francisco Rodrigues dos Santos? O que se ganhou com o Conselho Nacional deste fim de semana?

Muito bom dia. O que se ganhou, vamos lá ver, cada vez que há um debate no CDS, que há um debate de ideias, que há um questionar do rumo, o partido cresce com isso.

Parece-lhe que deu uma imagem positiva do partido e, no fim, passou uma imagem de união?

Houve um debate que todos tiveram a oportunidade de acompanhar. Houve quem concordasse mais com isso ou menos, mas o que é certo é que houve um debate interno franco, aberto, leal, e isso eu acho que é positivo, onde as pessoas puderam fazer a sua análise e houve uns que acham que existe um rumo e um balanço daquilo que foi a atividade do partido no último ano e desta liderança, que é positivo, e há outros que entendem que há algo a melhorar, e muito.

Portanto, concordaram que discordam.

Desculpe?

Concordaram que discordam.

Que há discordâncias internas, como é evidente, isso foi patente seja nas semanas antes do Conselho Nacional, seja no próprio Conselho Nacional. E há muitas questões, devo lhe dizer, que eu mantenho exatamente. Não foi por causa do Conselho Nacional que eu não tenho dúvidas e reservas sobre aquilo que tem sido o desempenho da liderança. Diz-me assim: "Bem, mas o Conselho Nacional, pode haver aqui um virar de página". Bem, vamos acreditar que sim. Duas semanas depois do congresso do CDS, há um ano, eu dei uma entrevista. E nessa mesma entrevista disse que entendia que poderia haver aqui um problema de maturidade política nesta liderança. E esperava estar enganado. Na minha resposta eu disse: "Eu espero estar enganado, porque se eu estiver enganado, isso é bom para o CDS". O que é certo é que um ano depois, o balanço que eu posso fazer, e que eu disse, é que o CDS perdeu relevância, o CDS definhou, o CDS esmoreceu, e se me pergunta se eu fico agradado com isso, com certeza que não. Repare o seguinte: ficar calado é o pior que pode acontecer. Quando me dizem que eu sou crítico, nem gosto muito da palavra, mas quando sou crítico, a crítica é construtiva, porque cada vez que há um apontar de um erro, de um caminho que possa estar a ser seguido, isto obriga a própria liderança a ser melhor. Ouça, quem acredita na economia de mercado e na lei da concorrência, como deve calcular, isto aplicado à política, eu penso que a direção só pode ver isso também como algo positivo. Agora, vamos esperar. Ouvi a intervenção final do seu presidente do partido. Vamos aguardar as próximas semanas com o espírito aberto. Olhe, eu da minha parte sempre estive, embora criticando quando entendo dever criticar, e já o disse, se o caminho continuar o mesmo, com certeza que serei e continuarei a ser uma voz crítica. No entanto, dizer que há uma disponibilidade, como é evidente, para um diálogo institucional.

E está disponível.

Eu que estou no Parlamento, estou na Câmara de Lisboa, sou presidente da distrital de Lisboa do CDS. Sempre estive aberto para o diálogo com a direção. O senhor presidente teve poucas iniciativas nesse âmbito, mas eu acredito que, a fazer fé nas palavras dele, nas próximas semanas haverá...

Vai sentir mudanças na estratégia e na forma de intervenção do presidente do partido. Deixe-me chamar o vice-presidente do CDS, Miguel Barbosa, que também já nos está a ouvir. Muito bom dia, obrigada também por estar conosco. Estávamos aqui a falar das consequências da reunião do Conselho Nacional de sábado. Foi muito dura e todos nós pudemos assistir a momentos de grande exaltação. Ao fim das 17h de discussão, considera, Miguel Barbosa, que a casa ficou arrumada?

Olá, bom dia a todos, muito obrigado pelo convite. Bom dia ao João Pedro Gonçalves Pereira.

Bom dia, Miguel.

O Conselho Nacional do CDS foi, para usar as palavras de um destacado militante do partido, uma válvula de escape do partido, como é regra geral em todos os partidos. E um partido como o CDS não procura unanimidade, procura unidade. E unidade também se faz da discórdia, da troca de pontos de vista, das discussões mais acesas. Não que tenha sido um exemplo de virtudes, mas foi, sobretudo, um exemplo de realidade, da realidade do combate político. E a verdade é que em 16h ou mais de Conselho Nacional, mais de dois terços foram discutir o que interessava e o caminho do partido, que modelo de partido pretendemos e que posicionamento pretendemos para o CDS. E no fim, o Conselho Nacional foi soberano, os conselheiros Foram soberanos, puderam pronunciar-se sobre a confiança que têm ou não no rumo que a direção defende para o partido. Fizeram-no em liberdade, mais do que em liberdade, fizeram-no através de voto secreto e, portanto, o que o partido tem hoje é uma oportunidade. Este Conselho Nacional acaba por ser uma oportunidade. Eu acho que a semana que o antecedeu e estes dois dias que lhe sucederam permitiram que possamos dizer claramente que o CDS está de volta e que o país já sabe disso.

Miguel Barbosa, deixe-me só perguntar-lhe o seguinte: estava a dizer que foi um Conselho Nacional importante em que se discutiram coisas importantes. O que passou cá para fora é que os ânimos estiveram exaltados, que os militantes estiveram aos gritos, que a direção do partido também esteve aos gritos, que os opositores estiveram aos gritos e que não se discutiu nada daquilo que é preciso discutir para o país. Portanto, voltando um pouco à pergunta da Carla, isto valeu a pena? A imagem que passou cá para fora valeu a pena?

Osnita, eu acho que fui relativamente honesto na análise que fiz. Acho que estes momentos nunca são apenas exemplos de virtudes, mas a verdade é que a maior parte do debate se centrou mais do que na fulanização desta liderança ou daquela solução, no posicionamento que o CDS deve assumir. E eu creio que ficou claro que neste momento, nesta fase da vida política, se defende para o CDS um posicionamento do lado da direita social e conservadora, em alternativa a um modelo que já foi testado e que não deu propriamente bons resultados.

Miguel Barbosa, a que altura do CDS é que se refere quando diz que foi testado esse modelo?

Refiro-me aos últimos anos do partido, aos últimos quatro, cinco, seis anos, pelo menos, em que o panorama político acaba por se alterar por força das circunstâncias e não apenas do CDS, mas também muito autorizado por um posicionamento do CDS que foi um bocadinho de tudo e do seu contrário, e isso confundiu os eleitores. O partido não teve um posicionamento claro e isso, confundindo os eleitores, tornou-se um bocadinho irrelevante e o caminho tem se vindo a estreitar para o CDS. Não é de agora, não é desta direção. Infelizmente, antes fosse. Isso queria dizer que o problema estava claramente identificado e seria, porventura, de fácil resolução.

Miguel Barbosa, deixe-me chamar aqui o João Gonçalves Pereira ao debate. E eu pergunto-lhe se concorda com esta afirmação de Miguel Barbosa.

Repare, eu sou um bocadinho avesso a estas discussões que às vezes vejo no partido e que eu penso que não contribuem para coisa nenhuma. Quando nós começamos a discutir que ia tentar entrincheirar uns do lado dos liberais, outros do lado dos conservadores. O CDS e a democracia cristã em Portugal é a prova de que sempre conseguiu acolher as diferentes correntes. Repare, nós já tivemos um presidente do partido liberal, Francisco Lucas Pires, já tivemos vários conservadores, e eu confesso-lhe que acho que esta discussão é uma discussão que não faz grande sentido. Quando ouço críticas relativamente à anterior direção, também fico estupefacto.

Mas deixe-me perguntar só uma coisa. O que o CDS é agora? É conservador? É conservador liberal? É conservador mais ou menos? É mais ou menos liberal?

Repare, o CDS ao longo da sua história, seja na sua história, seja à data de hoje, é a junção de diferentes protagonistas com ideias dentro daquilo que é o perímetro democrata cristão, onde acolhe os tais liberais e os tais conservadores. Agora, repare o seguinte, eu acho um bocadinho estranho quando vejo ataques à anterior liderança, à anterior direção, quando muitos dos protagonistas hoje, a começar no presidente do partido, que foi número dois no Porto nas últimas legislativas, o presidente do Conselho Nacional, que foi número um em Viana do Castelo, um dos vice-presidentes foi número dois em Aveiro, e que fizeram parte da anterior direção, alguns deles até na Comissão Executiva, e que hoje não têm nenhum pejo em, de alguma forma, dizer mal de tudo aquilo que se passou, quando durante todo esse período, nos conselhos nacionais e nas comissões políticas, não se ouvia nenhuma voz crítica. Portanto, se queremos virar a página e neste discurso, ouvindo agora o Miguel Barbosa, com toda a simpatia e amizade, conhecemo-nos há mais de 20 anos, não é construtivo, não é bom para o partido, até porque, deixe-me dar outro exemplo, relativamente à doutora Assunção Cristas. Nós ouvimos a direção muitas vezes dizer: "A doutora Assunção Cristas e aquilo que foi uma tragédia, que deixou o partido no estado em que deixou", com todos estes protagonistas que eu referi agora, que também estiveram todos lá e todos calados, coniventes, aí nem lugares, aí nunca houve objeções. E fazem estas críticas todas e depois no momento seguinte dizem: "É a melhor candidata para a Câmara de Lisboa." E o Conselho Nacional ainda há bocado perguntou da imagem que passou para fora. Eu repito aquilo que o Nuno Melo disse ontem e disse muito bem, que eu ouvi na televisão. E o Nuno dizia o seguinte: o que acontece numa reunião interna de um partido, seja do CDS, seja do Partido Socialista, do Partido Comunista nós não conhecemos, ouvimos pouco, mas seja do PS, seja do PSD, é este tipo de intervenções. E umas vezes mais de ordem interna, outras mais de definição estratégica e de alinhamento daquilo que deve ser a proposta política para o país ou para as cidades, etc. Mas isso é normal. Claro que isto teve um custo.

Portanto, não fere a imagem do partido.

Claro que sim. Só quem não tiver noção nenhuma do que é política é que não percebe que há um custo, e houve um custo político externo deste mesmo Conselho Nacional.

Miguel Barbosa e João Gonçalves Pereira, peço desculpa, deixem-me só chamar outros convidados que temos também em linha. O Ricardo Marques é um historiador que se tem dedicado a estas questões, à análise das direitas radicais na democracia portuguesa. Ricardo, bem-vindo também a este Explicador. Estamos aqui a assistir a lutas internas dentro de um partido. Estas matérias favorecem os partidos da direita mais à direita?

Bom dia, obrigado pelo convite. É bastante evidente que o Conselho Nacional do CDS manteve aberta a janela de oportunidade que o Chega aproveitou desde outubro de 2019, ou seja, desde a eleição de André Ventura ao Parlamento Português. O Chega, neste momento, está a viver com alegria, diria até, estas vicissitudes do CDS. Qualquer coisa que tivesse acontecido neste Conselho Nacional era positiva para o Chega. Por um lado, porque a confirmação de Francisco Rodrigues dos Santos com 54% dos votos, dá uma imagem externa de uma liderança, principalmente, que ainda tem alguma dificuldade a reunir o partido à volta do projeto do líder. O CDS aparece como um partido com facções divididas em lutas no seu interior. É verdade, como foi dito há pouco, que o CDS sempre se caracterizou pela convivência de correntes diferentes, a corrente liberal, a corrente democrata cristã, a corrente e alma conservadora, mas até agora estas três almas diferentes sempre conviveram bastante bem, apesar do debate interno. Nunca criaram ruptura dentro do partido. No momento em que surgem, à esquerda e à direita do CDS, concorrentes conservadores, como no caso do Chega, e concorrentes liberais, como no caso da Iniciativa Liberal, fortes, que podem ir buscar o eleitorado mais sensível a essas três correntes, essas três correntes começam a debater dentro do CDS, apresentando projetos diferentes para tentar ganhar posições. Portanto, neste momento, a relação entre essas três correntes internas do CDS já não é tão pacífica, ou a convivência já não é tão pacífica como era antigamente. Por quê? Porque estamos perante uma reconfiguração da direita portuguesa. Portanto, para o Chega, é bom ter a liderança de Francisco Rodrigues dos Santos com os problemas que lhe são criados dentro do partido, mas, por outro lado, teria sido bom também para o Chega uma hipotética liderança de Adolfo Mesquita Nunes, porque a liderança de Adolfo Mesquita Nunes iria criar um problema na direita interna do CDS, que é exatamente a área onde o Chega quer pescar.

Portanto, qualquer das facções traria vantagens ao Chega. Está a falar aqui do Iniciativa Liberal, Ricardo Marques, e chamo o comentador do Observador, politólogo, especialista em sondagens, Jorge Fernandes, que também tem olhado muito para esta transferência de votos à direita. Jorge Fernandes, bom dia. CDS, Iniciativa Liberal e Chega estão todos a lutar no mesmo campo eleitoral?

Bom dia, obrigado pelo convite. O Ricardo já deixou aqui bastantes pistas que são bastante interessantes. Bem, é preciso deixar aqui alguns dados para partirmos para a análise. Em primeiro lugar, de facto, o CDS partiu para esta legislatura bastante fragilizado, depois de ter tido um resultado eleitoral ligado com a PAF, dentro da PAF, que ninguém sabe verdadeiramente o valor do CDS, mas o CDS partiu para esta legislatura, depois de um resultado muito fraco, de 4.22%, e um grupo parlamentar bastante diminuído, uma dívida gigante, que é muito difícil de gerir por parte de um partido político, e a liderança de Francisco Rodrigues dos Santos, naturalmente, está fragilizada. Mas é importante reparar que este tipo de movimento já foi feito no passado. Em 2005, por exemplo, Paulo Portas demite-se, Ribeiro e Castro está lá durante um ano ou dois e ao fim de algum tempo, Paulo Portas volta e torna-se crítico da liderança e regressa à liderança. O que estamos a ver agora, é preciso é a tirada papel químico da coisa, não sendo Paulo Portas a pessoa que está a fazer a crítica e a tentativa de regresso à liderança, mas sendo, no fundo, os herdeiros do portismo e as criações políticas do antigo líder do CDS, neste caso Adolfo Mesquita Nunes. No entanto, eu vou um passo mais longe daquilo que o Ricardo foi, porque de facto existem vasos comunicantes fortíssimos entre o Chega, o Iniciativa Liberal e o CDS do ponto de vista do eleitorado. E o perigo maior que o CDS enfrenta neste momento, ao contrário do passado, o CDS sempre foi um partido que aumentou e diminuiu de tamanho, foi um partido sempre bastante elástico. Teve momentos de ser o táxi, depois teve momentos em que cresceu bastante, até ter 19 deputados com Paulo Portas.

E já vamos recordar isso tudo, Jorge Fernandes. Sim, temos visto aqui um partido muito elástico, estica e encolhe, eleitoralmente falando.

Mas a diferença neste momento, de fato, não é só a existência do Iniciativa Liberal e do Chega. O que acontece é que o fato de esses partidos existirem, eu estou a falar dos eleitores, não estou a falar tanto das elites. Os eleitores podem sair para esses partidos, começar a criar um hábito de votar nesses partidos e depois podem não ter rigorosamente nenhum incentivo, nenhuma vontade de voltar para o CDS. E portanto, o perigo neste momento é que, de fato, esta elasticidade do CDS pode estar finalmente a ser quebrada

Porque esses partidos vão não só estar ali à espera desses eleitores, como de alguma maneira cristalizar essas votações e vão criar hábitos de voto, seja mais à direita, seja mais à esquerda, seja uma perspectiva mais liberal, seja uma perspectiva mais conservadora. E isto é bastante importante para se perceber a dinâmica interna do CDS.

Muito bem, Jorge Fernandes, obrigada. Estamos aqui a falar do potencial eleitoral do CHEGA. Miguel Barbosa, não seria mais claro se alguns militantes do CDS que se opuseram tão claramente à atual liderança se deslocassem para outros projetos políticos?

Nem pensar nisso. O CDS precisa de todos e todos fazemos falta a este momento do partido, sobretudo quando vamos enfrentar um desafio com a dimensão do desafio autárquico e das eleições autárquicas. Todos somos poucos para a dimensão deste desafio. O CDS sempre teve debates internos muito acesos. Tem efetivamente agora desafios à direita. Eu acho que ainda está para provar se a IL, de facto, se acantona deste lado do campo político. Está para provar que a IL seja de direita. Eles próprios dizem que o liberalismo não é de direita nem de esquerda. Sabemos que é contra a vida, isso ficou claro como água na semana passada quando votaram a eutanásia. E todos somos poucos para o desafio que o CDS tem. Repare que o país vive a pior crise sanitária da história que nós conhecemos, pelo menos, da história que nós vivemos, pelo menos. Tem uma crise social e uma crise econômica em evolução que vão precisar de soluções muito pragmáticas e eu não vejo no Partido Socialista e neste governo, o músculo nem o talento para relançar o partido. Nós temos, aliás, sinais indiscutíveis de fim de ciclo na capacidade de intervenção política do governo. Nós temos um orçamento de Estado.

E, portanto, precisam de todos. Deixe-me só chamar o João Gonçalves Pereira para lhe perguntar se lhe parece que o CDS está a tirar consequências destas deslocações de eleitorado lá à direita, de que ouvimos quer o Jorge Fernandes, quer o Ricardo Marques falar.

Tem que tirar conclusões, necessariamente.

Mas está a tirá-las já?

Eu espero que sim. Eu acho que o próprio Conselho Nacional até dessa forma também abordou um pouquinho esse aspecto. Há uma concorrência hoje à direita que não existia no passado. Eu ouvi falar aqui de 2005 e em 2005 não só não havia a concorrência à direita que há hoje, como em 2005 o CDS não estava a lutar pela sua sobrevivência, nem tinha, nas sondagens... nós tivemos um resultado nas últimas legislativas que conduziu à saída da líder do partido, um resultado que não foi positivo, 4,2%. O que é certo é que as sondagens hoje são sondagens muito preocupantes, 0,3, 0,8, 1%, 2%. Portanto, é preocupante. E há claramente aqui um novo contexto, há um contexto de um partido em particular, e o CDS não pode ignorar isso, que é o CHEGA. É um problema para o CDS, é um problema para a direita, é um problema para o país. Estamos a falar de um partido de extrema-direita e o CDS sempre repugnou, sempre rejeitou qualquer tipo de aliança com este tipo de partidos extremistas. E portanto, neste novo contexto, há que encontrar um espaço, e esse espaço existe. Não tem sido conseguido, é verdade. Deixe-me dizer que, como é evidente, tenho esperança que este próximo ano, os próximos meses, o CDS consiga encontrar esse espaço. O que é certo é que neste ano não conseguiu afirmar uma proposta, um programa, uma alternativa dentro do espaço da direita, uma alternativa ao Partido Socialista, que os eleitores consigam perceber como é.

E há esse desafio já breve das autárquicas. Deixe-me só interrompê-lo, porque estamos a falar aqui de um partido com uma história de 46 anos, nasceu no espaço político da democracia cristã e da direita conservadora, mas Paulo, como já ouvimos também, já deu muitas voltas.

Deu muitas voltas. Se fosse um artista, o CDS bem que poderia ser o camaleónico David Bowie, por exemplo, e as várias peles que vestiu ao longo da sua carreira. E se fosse um animal, podia ser um gato, porque já teve várias vidas. E nesses 46 anos que leva de vida, o CDS já foi muitas coisas. Já foi europeísta e eurocético, já foi o partido da lavoura e o partido dos reformados, já foi o partido do Paulinho das Feiras e o partido de alguma elite urbana também. Há até quem diga mesmo que é o partido dos Betinhos. Mas também foi um partido com uma forte expressão no interior rural e conservador, e aí chegou a ter muita força autárquica, esteve 20, 27, mesmo 36 câmaras municipais. Já participou em governos de coligação com o PS, mas também com o PSD, e já sofreu algumas reviravoltas ideológicas e dissidências importantes.

Há outros exemplos. O fundador, líder histórico, Freitas do Amaral, acabou a carreira política como Ministro dos Negócios Estrangeiros do governo socialista, do José Sócrates, e outro destacado fundador e dirigente histórico é hoje presidente da Câmara de Sintra pelo Partido Socialista. Trata-se de Basílio Horta.

Basílio Horta, que já agora uma pequena curiosidade, na nota biográfica que tem no site do município, apagou qualquer referência à sua militância no CDS. Mas adiante, o CDS nasceu CDS, mas também já foi Partido Popular, para depois dar um passo atrás para um conciliador CDS-PP, mas em 75 tudo começou assim.

O acórdão do juiz do Supremo Tribunal de Justiça mandando inscrever o CDS no livro de registos de partidos políticos do Supremo Tribunal de Justiça. Somos o primeiro congresso de um partido na legalidade.

Era Adelino Amaro da Costa a anunciar ao primeiro congresso do partido que a legalização tinha acontecido horas antes. Isto foi um congresso histórico. Foi feito no Palácio de Cristal, no Porto, onde se verificou um cerco violento por militantes de esquerda, mas lá dentro Freitas do Amaral definia logo claramente a matriz ideológica do partido.

Como partido de inspiração cristã que somos, defendemos em política o primado absoluto da dignidade da pessoa humana e da sua liberdade.

Este foi um período de ouro do partido, que chegou a ter bancadas parlamentares com mais de 40 deputados. Quarenta e seis foi o máximo que conseguiu em 1980, isto numa altura em que participava numa coligação permanente, estável, com o PSD de Sá Carneiro e com o PPM de Gonçalo Ribeiro Telles, era a Aliança Democrática, mas a digestão de poder, da instabilidade governativa que se seguiu e da crise econômica foi difícil e nos anos 80 o CDS foi definhando.

E as lideranças sucediam-se ao sabor dos desaires eleitorais. Lucas Pires, Adriano Moreira e, de novo, Freitas do Amaral foram os presidentes que se seguiram, mas sempre dentro da matriz da democracia cristã e europeísta.

Sempre nessa matriz e de crise em crise, no final dos anos 80 o CDS estava já reduzido ao tal partido do táxi. Por quê quatro deputados apenas na bancada parlamentar? Porque o partido ao lado, o PSD, o eucalipto político Cavaco Silva, acabou por chegar e secar o pequeno parceiro à direita. E por essa altura, já um jovem jornalista andava a fazer das suas para um reposicionamento de CDS. Paulo Portas era diretor do Independente, tinha o PSD de Cavaco como alvo e foi a partir desse seu posto que ajudou a construir um novo líder. Era Manuel Monteiro, que chegou à liderança em 1992.

Sou um político de direita, quero um partido popular e assumo o desafio histórico de fazer do CDS o partido novo de que Portugal precisa.

Um partido novo, um partido popular. Estava feito então o rebranding do CDS, que então adotou uma linha de eurodesconfiado e exigiu um referendo ao Tratado de Maastricht, criticou a classe política e isso começou a render votos. Das eleições seguintes, em 95, que marcaram o regresso socialistas ao poder com António Guterres, o CDS subiu e conseguiu 15 deputados. Estava, no fundo, feito à prova de vida, mas foi sol de pouca dura. Em 97, uma derrota pesada nas autárquicas levou Manuel Monteiro a admitir-se a convocar um congresso para legitimar a sua liderança, e o golpe de teatro aconteceu nesse Congresso de Braga.

Decidi candidatar-me à presidência do CDS, partido Popular.

Paulo Portas desafia, Manuel Monteiro responde.

Eu aqui estou, sem fugir, sem renunciar, sem desertar. Aqui estou para assumir o que se passou, para assumir os erros, para assumir as falhas, para assumir os problemas.

Foi um congresso muito quente. E se não, ouçam só o tom das intervenções que vamos ouvir por esta ordem: Naranjo, Ceró, Maria José Nogueira Pinto e Luís Nobre Guedes.

Tenho a liberdade de criticar o partido. Amanhã hei de criticar Portas, Nobre Guedes, Maria José Nogueira Pinto, cada um de vocês, diz, escreve, não diz mais.

E o senhor doutor Lobo Xavier sabe que eu sei, que o senhor sabe que eu sei. E isso, doutor Lobo Xavier, é uma grande vulnerabilidade que o senhor neste momento tem.

Pelo amor de Deus, acabem com o ataque, acabem com o insulto. Respeitem, pensem no futuro, pensem em nós e não percam a cabeça, porque senão perdemos todos.

E agora o discurso de vitória de Paulo Portas, um pequeno excerto.

Com Paulo Portas não haverá portismo. Quero um só partido.

Portas iniciava aqui uma liderança de dez anos, o Paulinho das Feiras e da Lavoura recuperou então a sigla tradicional CDS, a que juntou o PP de Partido Popular, fez o aggiornamento para um partido europeísta e tornou-se o aliado governamental do PSD.

Sim, já neste século, primeiro esteve no governo com Durão Barroso e Santana Lopes e depois com Passos Coelho, nos anos de chumbo da Troika. Pelo meio, Portas saiu para regressar dois anos depois. Nesse período, o CDS foi liderado por José Ribeiro e Castro.

E com o regresso da esquerda ao poder, agora liderada por António Costa, Portas deu por terminado o seu ciclo. Deixou o partido com 18 deputados. Assunção Cristas sucedeu-lhe até a nova derrocada eleitoral em 2019. O CDS voltou então a ser praticamente o partido do táxi. E mais de 20 anos depois do embate entre Portas e Monteiro, o partido volta a deitar-se no divã. Afinal, o que é o CDS?

Bom, estamos aqui a fazer um olhar por 46 anos de vida do partido em quatro minutos e isso leva-nos agora a Miguel Barbosa e João Gonçalves Pereira. Uma questão final muito rápida, mesmo telegráfica para os dois. Conseguem responder o que é afinal este partido CDS? Miguel Barbosa, quer responder primeiro?

Posso tentar responder. O CDS é o partido, como ouvimos nas palavras do seu fundador, é o partido das pessoas e das liberdades. E isso implica ter escolhas muito finas relativamente a uma direita social que não falha a quem mais precisa e um combate frontal a um socialismo que atrofia o país, atrofia a economia, toma conta do Estado, toma conta dos negócios e envergonha o país lá fora, como temos visto nos últimos tempos. Eu acho que são três prioridades muito claras: estar com quem mais precisa, não falhar à economia e ao crescimento econômico e pôr o país a crescer e devolver dignidade à vida pública em Portugal. Eu acho que são três causas que não são pequenas e que nos dão a todos, a todos dentro do partido, muito que fazer.

A todos, penso que inclui também, e como já explicou, aliás, inclui também João Gonçalves Pereira. Reconhece neste CDS cuja viagem histórica fizemos aqui?

Olhe, ouvir nestes minutos aquilo que é o legado do CDS só me pode encher de orgulho. O CDS teve momentos altos, momentos baixos. Agora, há uma certeza que eu tenho: no atual contexto, se calhar, mais do que nunca, o CDS é importante no sistema político. É importante pra direita, é importante pro país e é importante pra travar o extremismo que infelizmente está a escalar, seja à direita, seja à esquerda. E, portanto, o CDS é muito importante pra isso.

João Gonçalves Pereira e Miguel Barbosa, muito obrigada-

Obrigado.

Por terem estado aqui a discutir o rescaldo do Conselho Nacional do CDS-

Obrigado.

Que decorreu este fim de semana. E agradeço também ao Ricardo Marques e ao Jorge Fernandes por terem estado neste Explicador.

Este foi o Explicador desta manhã de terça-feira dedicado ao atual momento do CDS. Daqui a pouco podem voltar a escutá-lo e partilhá-lo através do nosso site em observador.pt.

Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.