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Explicador da Rádio Observador, em dia de jogo também importa ouvir o que pensam alguns deputados da nação sobre o futebol, prognósticos antes do jogo, e esse é o nosso desafio hoje, de frasa.
É sim, e vamos fazê-lo a Cristóvão Norte, deputado do PSD, Ricardo Reis, do Chega, e Paulo Lopes Silva, do Partido Socialista. Vou começar, Cristóvão Norte, por si, para perguntar se vai ver o jogo com a bancada parlamentar ou se vai preferir sofrer sozinho.
Eu vou sofrer sozinho ou vou sofrer com a família.
Ok.
A bancada parlamentar não é, no meu ponto de vista, o melhor para ver o jogo. Não é por nada. É por uma razão muito simples: eu gosto de ver o jogo com muita atenção e quando se está a ver futebol, não se está a falar de outras coisas. E, por vezes, mesmo em momentos destes, resvala-nos sempre o pé para a política.
Ok.
E, portanto, o que é futebol é futebol, o que é política é política, embora de vez em quando se use umas analogias do futebol que servem para a política.
Ó Cristóvão Norte, estamos ali a ver se o Ronaldo está bem colocado, mal colocado, e de repente alguém diz: "E aquela coisa da PSU?" É isso, é chato, não é?
É chato. Olhe, por exemplo, uma analogia da política. Na quarta-feira, no debate quinzenal, todos, desde o primeiro-ministro a todos os líderes parlamentares, falaram da seleção e desejaram votos que a seleção tivesse êxito. Bom, mas na sexta-feira, na votação da reforma laboral, o país jogou um bocadinho como a seleção jogou. Jogou para o lado, para trás, não arriscou, não foi ambicioso, não foi ousado. E, portanto, se calhar, nós precisamos de mudança. Essas analogias ilustram bem também coisas que nós às vezes temos dificuldade em ver, ainda que essas decisões sejam necessárias para melhorar no nosso próprio desempenho.
Não resisto também a uma analogia: se continua a confiar naquele parceiro que tem à direita.
É verdade. Um dos problemas que eu verifiquei no primeiro jogo da seleção é que não havia um sentimento de equipa profundo. Ainda hoje, quem viu as imagens do pós-jogo da Noruega, viu uma simbiose incrível entre os jogadores a rufar os tambores e a remarem, e os adeptos. Todos em uníssono, num só. E por vezes, se não conseguirmos confiar uns nos outros e na palavra que damos, temos dificuldade em não estar sempre a olhar para o retrovisor ou olhar pelas costas. E essa desconfiança não faz uma boa equipa, nem se atingem bons resultados assim.
Vamos passar aqui a bola para o Ricardo Reis, do Chega. É mais fácil remar em torno da seleção do que em torno do código laboral ou da PSU, Ricardo Reis?
Muito boa tarde. Cumprimentos a vocês, os meus colegas aqui de painel e também a todos os que nos ouvem neste dia de seleção, este dia que nos une a todos. Mas relativamente às questões das analogias com o futebol, há duas às quais eu não posso fugir. A primeira das quais tem a ver com o subsídio de desemprego e se calhar com a necessidade de começarmos a pensar nessa aplicação para Roberto Martínez, que é uma posição que eu tenho já há algum tempo. A segunda tem a ver com a questão da mentalidade, que foi uma coisa tantas vezes falada, a tal mentalidade de Cristiano Ronaldo. Eu aqui diria que a seleção com o Congo jogou com a mentalidade M. Era mesmo o que eu diria, M de Martínez e M de Montenegro, porque quem está a ganhar 1 x 0, deixa-se ali andar, depois leva o gol do empate e ficamos assim. Hoje, se calhar devemos, continuando a analogia, jogar com a mentalidade V, de vitória e de Ventura, e ganhar por 4 ou 5, que é o que eu acredito que acontecerá.
Já agora, quem é que entra e quem é que sai? Tem palpites?
É assim, já há o 11 inicial.
Pois o 11 já saiu, mas ainda não consegui lê-lo.
Já saiu. No caso, entrou o João Félix pelo Bernardo e o Rúben Dias pelo Tomás Araújo. Creio que foi isso. Mas acima de tudo, eu acredito que nós temos uma seleção composta por jogadores fantásticos. Nós temos o melhor trio de meio-campo do mundo, composto talvez pelo melhor criativo do mundo, o melhor jogador a jogar na Premier League. Temos os melhores laterais do mundo, pelo menos o melhor lateral esquerdo do mundo e um dos melhores laterais direitos, e temos uma seleção absolutamente fantástica. O que falta e o que tem faltado tem sido uma ideia de jogo clara, que em três anos de Roberto Martínez não tem sido clara. Ou seja, nós olhamos para a França. A França sabe como é que pressiona. Ainda ontem a jogar com o Iraque, pressionava quando tinha dois jogadores no meio-campo e quatro numa linha da frente de pressão, que baixavam quando o Iraque saía. Nós não temos isso. Nós fazemos uma pressão frouxinha e depois em transição somos constantemente apanhados em antepé e depois temos estes resultados com seleções que não se admitem.
O Chega faz mais pressão logo ali sem deixar os adversários saírem, é mais em cima, é isso?
Nós acreditamos que quando há um objetivo, tem que ser pressionar alto até conseguir o gol.
Isto de pressionar alto faltava-me essa pressão.
A mentalidade Chega, a mentalidade Ventura é: está 1 x 0, vamos ao dois, está dois, vamos ao três. Sempre para mais, porque temos condições para isso, falta é vontade e quem comanda tem que ter essa vontade.
Ricardo Reis, deixe-me aproveitar para dar aqui o 11 de Portugal. Entretanto, ainda não anunciamos aqui na rádio, já estão escolhidos os 11 da equipa inicial. Diogo Costa, João Cancelo, Rúben Dias, Renato Veiga, Nuno Mendes, Vitinha, João Neves, Pedro Neto, Bruno Fernandes, João Félix e Cristiano Ronaldo. É este o 11 que vai arrancar no jogo daqui a pouco, daqui a uma hora e um quarto. Paulo Lopes Silva, deputado do PS, é um 11 que lhe agrada ou não?
Tenho pouco conhecimento técnico-tático para essas considerações, mas aquilo que me parece é que a Seleção Nacional, todos os convocados têm excelentes protagonistas e todos eles têm a capacidade de entregar bom futebol. Assim nós sabermos depois em campo demonstrar aquilo que estava a ser dito até agora e com o qual eu concordo, nós de facto temos uma geração fantástica a jogar nos melhores campeonatos do mundo. Todos esses jogadores estão habituados ao mais alto nível e, portanto, hoje é ver se em campo são capazes de demonstrar aquilo que são capazes de fazer. Algumas das alterações foram forçadas no último jogo, por exemplo, a reentrada do Rúben Dias, mas acima de tudo uma grande confiança de que a seleção possa fazer um bom jogo e deixar os portugueses bastante mais satisfeitos do que no final do último jogo que nos soube alguma frustração.
Noutro campo, deixe-me perguntar-lhe se concorda que estas negociações para a Prestação Social Única ficaram fora do escrutínio parlamentar por terem passado à especialidade sem votação.
Essa pergunta foi bastante mais direta e sem analogias políticas.
Foi um remate daquelas.
Só consegui dizer: "Noutro campo". Não consegui fazer mais.
Esse remate foi muito a direito. Eu pensei que, em primeiro lugar, a primeira coisa que eu gostava das analogias políticas, eu ouvi o Ricardo Reis a dizer que nós temos o melhor lateral esquerdo do mundo e, portanto, uma coisa nós sabemos, até na seleção, pelo menos à esquerda, estamos bem servidos e desse ponto de vista estamos satisfeitos. E ao mesmo tempo, quando nós temos o Chega à procura de soluções, normalmente é aquele trinco que é bem capaz de destruir e faz uma grande exibição a destruir, mas quando é preciso sair a jogar e apresentar alternativas, já aparece menos vezes. A PSU é mais um destes exemplos, não é o único que aconteceu durante esta legislatura, em que no fundo as medidas aparecem à Assembleia da República de uma de duas formas. A primeira, sem grande capacidade de diálogo prévio que garanta que à partida há um consenso parlamentar para fazer aprovar as medidas, ou então depois através, e este tem sido bastante recorrente, de uma autorização legislativa, no fundo o Governo a ir pedir ao Parlamento que lhe passe um cheque em branco para depois legislar. Ainda por cima da forma como apresentou esta própria PSU, remete um conjunto de decisões que são centrais na regulamentação da PSU para despacho por portaria. E naturalmente, os partidos que estão com assento na Assembleia da República querem, na capacidade que têm de transformar os diplomas, poderem ir o mais longe possível do ponto de vista da tradução daquilo que é o seu pensamento sobre o assunto. Portanto, parece-me que do ponto de vista da metodologia da relação com o Parlamento, este governo precisa também de jogar mais coletivamente, voltando às analogias.
Vou rematar a direito agora, Cristóvão Norte, porque o Chega exige cinco anos de residência e descontos antes de um imigrante aceder à PSU. Esta foi a única das sete exigências que o PSD não aceitou. É uma linha vermelha de princípio para o PSD ou apenas uma cedência que ainda não foi negociada?
Dizendo a brincar, eu não sei quantos anos é que o Roberto Martínez tem para poder receber prestações. Portanto, ir para o subsídio de desemprego talvez seja um bocado atrevido e não está completamente em coerência com as posições que o Chega tem assumido em relação a isso. Mas dito isso, obviamente que é razoável que as diversas forças políticas tenham posições que não sejam inteiramente conciliáveis em relação a várias matérias. Isso é aceitável. O Parlamento é o que é. Quem está no governo não dispõe de maioria absoluta e, portanto, está sempre obrigado a procurar junto das outras forças políticas, averiguar em que medida é possível chegar a uma síntese. Dito isto, essa síntese não pode, em circunstância alguma, pôr em causa princípios fundamentais, por um lado, e por outro lado, distorcer o objetivo fundamental que está inerente às propostas que são apresentadas. E portanto, eu julgo que, por vezes, aquilo que se verifica é que a legião da resistência é maior do que a legião da mudança. E paradoxalmente, há quem seja muito vocal a propósito da mudança, mas quando a mudança tem alguma resistência, como se verificou, de resto, no código laboral, através da CGTP e da UGT, aqueles que exigiram mudança, no mesmo repente são capazes de erguer o punho e considerarem-se no mesmo barco da CGTP nas derrotas do governo. Isso não nos leva a lado nenhum e os portugueses têm que saber distinguir a quem é que devem ser imputadas essas responsabilidades. O governo está obrigado a tentar concretizar essa mudança. Os outros partidos posicionam-se, seja por razões de oportunismo ou convicção ideológica, dessa forma. Agora, o governo, para dizer que concretizou uma dada medida, não a pode em algum momento desfigurar ao ponto dela estar completamente desligada com aquilo que são os fundamentos que conduziram à sua construção.
Cristóvão Norte, e vamos então agora ao prognóstico para o jogo daqui a uma hora e nove minutos.
Eu tenho aqui um grupo e pelos coisas Portugal ganhava 4 x 1. Eu não sou favorável, devo dizer isto, a que o Cristiano Ronaldo seja titular. Acho que ele estaria melhor se entrasse aos 60 minutos. Não sei se há condições para o fazer com aquilo que nós estamos criando. Vai jogar de início, eu sei que vai jogar de início, mas pelo menos espero que hoje seja o dia que noutras ocasiões designamos como ketchup, que seja o primeiro e que depois, porque a seleção precisa de confiança e precisa de uma coisa muito importante. Não é só o jogador dizer que o nosso lateral esquerdo é o melhor do mundo, o lateral direito é. Em muitos casos é e eu subscrevo o que o Ricardo disse. A questão é outra, é que há uma coisa maior, que é o espírito de equipe, estarem todos irmanados. E aquilo que me causou maior frustração no primeiro jogo é que eu vi os jogadores e a equipa desligados uns dos outros. Isso é um péssimo sinal.
Um carinha mórfona. Ricardo Reis.
E precisamos de uma vitória robusta para que haja essa convicção e até para coisas que talvez que nós não saibamos, mas que às vezes existem no balneário, nas concentrações, muitos dias juntos, sejam completamente afastadas e haja uma convicção global daquilo que se pode atingir.
Obrigado, Cristóvão Norte. Ricardo Reis, seu prognóstico.
Da mesma forma, também tenho aqui um grupo em que tentamos acertar resultados entre amigos. Aquilo que eu antevejo é um 4 x 0. Não vamos spray gol, mas acredito num 4 x 0. Acho que temos mais do que condições e mais do que equipa para golear o Uzbequistão.
E o Paulo Lopes Silva?
Eu vou apostar num 3 x 0 só para não repetir o mesmo resultado, assim podemos fazer uma aposta verdadeira, mas que Portugal acima de tudo possa ter aqui um resultado que lhe traga essa motivação para o resto do campeonato. O treinador nacional, ao que aparenta estar nas notícias antes desse início do campeonato, sairá no final desse torneio e desejavelmente que saia campeão do mundo, que era o que todos nós queríamos.
Bom, pelo menos aqui temos unanimidade no otimismo entre o Cristóvão Norte do PSD, o Ricardo Reis do Chega e o Paulo Lopes Silva. Muito obrigado a todos por terem estado neste Explicador da Rádio Observador.
Muito obrigado.