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Está no ar o Explicador da Rádio Observador. Esta manhã falamos sobre a composição do novo governo e as dificuldades que os novos ministros enfrentam. Para isso e para partilhar a sua experiência, convidamos para se juntarem a nós, e já estão aqui conosco em estúdio, José Vieira da Silva, antigo ministro do Trabalho e da Economia, e Pedro Mota Soares, antigo ministro da Solidariedade, Trabalho e da Segurança Social. Para além da rádio, pode também acompanhar-nos no Facebook e no YouTube. Resta dizer que a moderação deste Explicador é do Paulo Ferreira e do Júlio Magalhães.

Bom dia, bem-vindos. É um gosto recebê-los aqui no estúdio da Rádio Observador. Vamos, sobretudo, falar sobre a vossa experiência governativa numa altura em que há um dia em que chegam ministros novos, pessoas que se estreiam nessa função. José Vieira da Silva recorda, certamente, do dia em que tomou pela primeira vez posse como ministro, porque antes teve funções há mais tempo como secretário de Estado. Que receios é que havia nessa altura?

Muito bom dia. Aquilo que disse faz alguma diferença, que quando o ministro chega a essa pasta e já teve experiência governativa como secretário de Estado, que foi o meu caso, as coisas são um bocadinho mais fáceis, porque já se conhece como é que funciona a administração, como é que funcionam os gabinetes, qual é o tipo de relação que se tem com outros membros do governo. Apesar de ser sempre diferente, porque não é apenas uma dimensão, chamemos, hierárquica, é um tipo de relação com as decisões que é distinta de um ministro para um secretário de Estado. Depende muito. Eu fui ministro em duas situações, ou em três situações, em três legislaturas diferentes, e a conjuntura que vivemos influencia muito a forma como assumimos o lugar. E depois há outra diferença que é fundamental. Eu tive a oportunidade de viver nas minhas experiências as duas situações, que é quando um ministro chega com uma rutura política, com uma mudança, uma alternância política, ou quando chega no quadro da continuidade de uma política, de um governo. Acho que isso faz uma diferença muito grande, porque nestes dias há uma questão que é fundamental, que é a chamada transição. Eu fiz isso aqui com o nosso convidado de hoje. E aí há um diálogo, normalmente é um diálogo muito elevado. Também o fiz para outras pessoas que me substituíram noutras alturas. Quando é uma situação de continuidade, a proximidade é maior, há sempre pessoas nos gabinetes que estiveram no gabinete anterior e, portanto, é mais simples. As dificuldades são todas, são principalmente aquelas que advêm das conjunturas políticas e os desafios que se têm.

Claro, são diferentes. Pedro Mota Soares, uma experiência mais recente também. Que receios é que há nesse dia? Já vamos falar da transição entre os dois.

Antes de mais, muito bom dia, cumprimentar também de uma forma ainda mais especial o José António Vieira da Silva. Só pegar aqui neste ponto que me parece muito importante. Não é comparável um governo que começa todo novo, porque houve uma alteração de ciclo político, um partido perdeu as eleições, outro partido ganhou as eleições.

Foi o seu caso em 2011.

Foi o meu caso. Aconteceu em 2011 e que depois aconteceu em 2015.

E depois também agora em 2015 com Vieira da Silva.

Com Vieira da Silva em que há essa transição mesmo de pasta de um governo que, de alguma forma, continua. Para alguns ministros, se calhar, quinta-feira é igual a terça-feira. Estou a exagerar aqui um bocadinho, porque ainda por cima nós vivemos num cenário de uma enorme volatilidade. Quem é que há seis meses achava que ia governar com inflação? Não nos passava pela cabeça. Hoje é a notícia do dia e é uma circunstância completamente distinta e, como é óbvio, há sempre aqui enormes desafios. Mas quando se chega de novo, como foi o meu caso, a uma pasta, eu acho que é absolutamente essencial que nós tenhamos a cabeça muito bem organizada. Se nós não soubermos logo de cabeça, no início, o que queremos fazer, se começamos a tentar aprender um bocadinho, e claro que se aprende no cargo, não estou a dizer isso, mas se nós não chegamos a um cargo com a cabeça muito formatada sobre o que queremos fazer, muito rapidamente passou um ano, passou dois anos, muito rapidamente estamos no final da legislatura e quando se olha para trás, o tempo passou. E depois, claro que há toda aquela, eu não quero dizer choque, mas é a palavra que me ocorre, com a administração, choque com os serviços. Muitas vezes, quando se quer pôr uma ideia nova em cima da mesa, quando se quer marcar um rumo que não é exatamente o rumo que vinha de trás, há muitas vezes essa fricção com a máquina que está formatada num determinado sentido. No caso da Segurança Social, estamos a falar de uma máquina que tem um peso muito efetivo no Estado e na vida das pessoas. E portanto, acho que o mais importante para um ministro que entra hoje, quer que seja um ministro de continuidade, quer seja um ministro novo, é saber muito bem o que quer fazer nos seus primeiros 100 dias, o que quer fazer nos seus primeiros seis meses, se calhar, o que quer fazer no seu primeiro ano, porque se ele não souber, vai andar quatro anos um bocadinho sem rumo.

Essa formatação e esse querer saber o que é que vai nos 100 dias é antes de falar com o ministro anterior ou depois?

É muito importante que já se tenha na cabeça o que se quer fazer.

Mas há surpresas nessa passagem de pasta, não?

Pode haver surpresas nessa passagem de pasta. O Estado tem um princípio que é um princípio de continuidade. O Estado não começa de novo, não começa no dia zero. Mas normalmente as pessoas conhecem o que está a acontecer. Eu lembro-me quando nós tivemos a transição de pasta, provavelmente o António Vieira da Silva conhecia grande parte dos dossiês, sabia quais é que eram as questões. Se calhar, ainda recebeu coisas que tinha herdado do seu próprio passado, porque os problemas não se resolvem todos. Certamente que, às vezes, pode haver aqui algumas questões que, do ponto de vista das prioridades, podíamos não achar que é tão relevante, mas há um prazo, há algo que vai acontecer. Mas normalmente as pessoas quando entram numa pasta conhecem, sabem um bocadinho ao que é que vão, conhecem um bocadinho os cantos da casa. E eu não tive grandes surpresas quando recebi a transição de pasta da minha antecessora. O José António Vieira Silva falará por ele. Acho que não teve grandes surpresas também quando recebeu uma pasta que é um dossiê com imensas folhas.

É uma pasta mesmo.

Da ações legislativas que estão a acontecer.

Agora estão a ser mais puxados os informações.

Mas como é que isso funciona? Fizeram os dois em 2015, há uma conversa entre os dois, sentaram-se, reuniram uma vez, várias vezes, e o resto do gabinete também?

Se bem me recordo, há sempre uma dupla dimensão, que é uma reunião que por vezes é, eu tenho noção que nós fizemos isso, que é uma reunião só dos ministros e depois há uma reunião de equipas. Porque os secretários de Estado têm os seus dossiês próprios, que são mais detalhados, e que os transmitem, que depois têm reuniões também próprias aos secretários de Estado. Nem sempre coincidem exatamente o perímetro das pastas. Eu acho que, em geral, tive várias experiências dessas, quer do lado de quem sai, quer do lado de quem entra. E são diferentes. Mas em geral, julgo que há uma cultura democrática muito grande do ponto de vista das transições.

A prática é essa.

A prática é de uma transparência grande. Lembro-me que o Pedro me disse: "Olha, temos aqui este problema, aquele e aqueloutro, com aqueles concursos que estão a ter dificuldades", de uma forma muito clara. Algumas coisas eu não sabia, outras sabia, porque eu era deputado, eu acompanhava estas áreas. Mas normalmente tem havido exceções. Não quero falar delas.

Mas passou a sentir alguma exceção?

Pessoas que tiveram menos interesse, quer em receber as pastas ou não tiveram tempo ou foram convidados muito rápido. Por exemplo, neste governo que entra, como eu já disse, acho que as coisas são minimizadas, como disse o Pedro Mota Soares, é um governo de continuidade do ponto de vista do primeiro-ministro, de vários ministros, da orientação política. Mas mesmo assim, há pessoas que provavelmente foram convidadas há meia dúzia de dias.

Isso é que eu gostava de perguntar pra satisfazer alguma curiosidade. Quando um governo é anunciado, surgem as críticas, dizerem que há ali um ministro que não está talhado para aquela pasta, devia estar noutra, vamos falar agora de exemplos. Estão agora a dizer que António Costa não devia estar na Economia, porque é o homem dos fundos, o ministro da Cultura não teve nada a ver com a cultura. Enfim, no vosso caso, há capacidade das pessoas dizerem: "Eu posso ir pra ministro, aceito o cargo, mas é só para esta pasta ou não, estou à disposição do primeiro-ministro"?

Eu acho que isso depende do primeiro-ministro, depende das pessoas.

No vosso caso, como é que foi?

Eu certamente não estaria talhado para pastas que não acompanhava, que não dominava as matérias. Eu acho que é uma discussão que pode ser um pouquinho interessante entre perceber se um governo deve ser composto essencialmente por uma dimensão política, admitindo que um político tem maior capacidade de adaptação a um conjunto de matérias ou numa dimensão técnica, sendo que um governo equilibrado provavelmente terá de ter aqui as duas coisas. Mas eu, honestamente, se me tivessem convidado pra uma pasta que eu não sentia nenhuma ligação, teria dito que não, porque acima de tudo, sinto que não faria um bom trabalho, que não teria aqui um bom desempenho. E se calhar, isso até me aconteceu ao longo da vida nalgumas matérias. Acho que não se consegue ser um bom ministro da Cultura ou um bom ministro da Agricultura. São coisas muito opostas nesse mesmo sentido.

Mas soa bem.

O quê?

Soa bem.

Sim, cultura, não, mas são evidentemente as pastas mais opostas que podem existir.

Soa bem e às vezes acontece.

Aí isso acontece muito mais do que em Portugal.

E admito que um político que tem dimensão política até possa fazer bem as duas pastas. Eu sinceramente não conseguiria, se calhar, fazer algumas matérias para as quais não tenho apetência. Portanto, acho que um político que não consegue dizer que não a um primeiro-ministro é à cabeça um mau político, porque é um prisioneiro da política, é alguém que está muito dependente do seu partido. Eu prefiro ter políticos mais independentes, que pensam pela sua própria cabeça e que têm essa liberdade, que é dizer que não. É às vezes mais difícil do que dizer que sim.

Estou de acordo. Agora não tenhamos a ilusão de que isso corresponde a ministros com filiação partidária, a ministros sem filiação partidária. Esta reação de alguma incapacidade crítica ou incapacidade de autoavaliação, tanto existem pessoas que vêm dos aparelhos partidários como vêm da chamada sociedade civil.

Tem mais a ver com traços de personalidade.

Também tem a ver com as características das pessoas, também tem a ver com as características dos primeiros-ministros. Obviamente, no meu caso, quando recentemente fui para uma pasta onde já tinha estado. A minha questão foi aceitar ou não aceitar o convite que me foi feito. Noutras situações, nomeadamente quando estive noutras pastas, da Economia.

Esteve na Economia em 2009, 2011.

Certo. E aí houve uma redefinição do perímetro do ministério. Por exemplo, eu tinha comigo nessa altura os fundos comunitários. Não digo que foi uma condição.

Como é que se chamava aquele jovem secretário de Estado que tinha os fundos comunitários?

Pois, agora sei é ministro das Finanças.

O Vítor Medina, na altura. O Vieira da Silva trabalhou com três primeiros-ministros. Ou melhor, integrou governos de António Guterres, José Sócrates, António Costa. Não lhe vou aqui pedir em confiança de perceber com quem é que tem mais margem, qual dos três é que aceita mais nãos ou não. Mas o ambiente no Conselho de Ministros, e depois uma pergunta para os dois também, a discussão é aberta ou há muitas pinças quando se contraria o primeiro-ministro, há muito confronto ou não?

Vamos lá ver. Ao contrário do que se possa pensar, não sei se essa experiência foi do Pedro Mota Soares, mas suponho que sim, um Conselho de Ministros tem alguma formalidade. Ou seja, as pessoas não chegam lá, tocato, mesmo que sejam pessoas amigas há longa data ou conhecidos há 30 anos. Ali o ministro se fica e diz senhor ministro ou senhora ministra.

Não se tratam por tu, mesmo que cá fora se tratem por tu, por exemplo.

Tenho ideia que não. Às vezes num debate mais acalorado pode acontecer, mas não creio que seja esse o hábito e a nossa tradição. Há um respeito. As pessoas entram na sala do Conselho de Ministros e automaticamente percebem que estão ali a desempenhar um papel. Mais do que ser o Francisco, o António ou o Pedro, é alguém que tem aquela função. Depois, a pergunta mais concreta, eu acho que depende muito dos ministros e das ministras, depende muito das pessoas. Há pessoas que têm mais à vontade ou têm mais conhecimento transversal, têm mais experiência e é mais natural que tenham uma intervenção mais presente. Não se passou comigo, mas conta a história, não sei se muito rigorosa, senão, que já houve situações em Portugal em que o primeiro-ministro dizia: "O senhor é ministro da Educação, não fala de ciência." Ou, nesse caso, dei um mau exemplo, não fala de defesa. As pessoas normalmente falam das suas áreas, mas em muitos debates relevantes há um debate aberto. E as pessoas sentem não só a necessidade, como o dever de dar opiniões sobre questões estratégicas. Agora, quando estamos a discutir um diploma muito concreto da área da Segurança Social, são poucos os ministros que se sentem muito à vontade. Ser ministro é uma coisa muito absorvente. A pessoa está muito marcada pelo dia a dia, pela necessidade de dar respostas, pela relação com a máquina dos ministérios e, portanto, o tempo para perceber bem. Agora, é evidente que, acho que é o sentido desta conversa, todos os ministros têm alguém nos seus gabinetes cuja responsabilidade é acompanhar o processo legislativo geral, e essa pessoa normalmente sabe o que se está a falar quando vem um diploma do outro. Tem que ver se há alguma coisa ali que tenha a ver conosco. Ali na área da Segurança Social, o Pedro aí vai concordar ou não comigo, há muitas áreas em que iniciativas de outros ministérios têm a ver com a Segurança Social e, portanto, a pessoa tem que estar atenta. Mas, por outro lado, fornecem-lhes informação. Acho que isso deve funcionar assim e acho que funciona assim. Funcionou assim, de certo, com o Pedro, que era além ministro, era um senhor influente do ponto de vista da coligação e que tinha uma relação próxima com o primeiro-ministro, tanto quanto sei, não estou a dizer nenhuma inconfidência. Mas essa realidade é mesmo assim, as pessoas têm que estar preparadas para primeiro preocuparem-se com a sua área, mas terem capacidade de perceber o que está à volta, porque senão ficam ali muito-

Ficam isoladas numa bolha. Ficam autoisoladas no ambiente do Conselho de Ministros e a capacidade para dizer não.

Separando aqui dois aspetos que me parecem importantes. Primeiro, se calhar a esmagadora maioria das decisões do Conselho de Ministros são decisões eminentemente técnicas, sobre processo legislativo, que já foram discutidas no Conselho de Secretários de Estado anteriormente e, portanto, muitas vezes nós chegamos com um diploma e sabemos muito bem o diploma que queremos apresentar ou o diploma de um colega nosso com o qual nós não concordamos com um ponto. E portanto, isso é grande parte da ação, a maioria do que são os Conselhos de Ministros. Agora, como é óbvio, há momentos em que há discussões que são discussões mais abertas. Estou a pensar, por exemplo, no caso de um orçamento de Estado. Certamente que temos que discutir o articulado do orçamento de Estado, os cento e tal artigos, mas há sempre momentos para ter um campo um pouco mais aberto de discussão. E acho, pelo menos só posso falar da minha experiência, senti sempre espaços de liberdade dentro do Conselho de Ministros e eu até diria com o primeiro-ministro, até admiti eventualmente com o ministro das Finanças. O conflito, muitas vezes, de grande parte dos ministros, não é com o primeiro-ministro, conflito entre aspas, mas como é óbvio, mas há sempre questões mais diretas com o ministro das Finanças. Tinha um amigo meu que dizia com alguma graça que estar no governo são 11 contra o ministro das Finanças e no final o ministro das Finanças ganha. Portanto, é uma forma com alguma graça de reduzir aqui a questão. Esse sim, é um conflito que é muito mais permanente. Imagino a pasta da Economia, por natureza, é uma pasta que tem sempre alguma fricção com as Finanças. Muitas pastas setoriais têm. E essas discussões também são tidas em Conselho de Ministros. E da minha experiência, sempre senti que foram discussões muito abertas, muito livres, como é óbvio, dentro de enormes limites de respeito. Nós estamos a falar de um cargo que é um cargo institucional.

Tratavam-se por senhor ministro também no Conselho de Ministros?

Sim, a regra que eu tenho era essa regra, é um ambiente que tem formalismo e faz sentido que tenha formalismo.

Nem entra toda a gente na sala quer, por exemplo.

A sala é uma sala, aliás, no regulamento do Conselho de Ministros diz-se quem é que tem acesso à sala do Conselho de Ministros. Certamente que tem os ministros, pode ter um secretário de Estado, que é o secretário de Estado adjunto ou da presidência, pode ter um chefe de gabinete do primeiro-ministro. Não há uma sala propriamente em que se entre e saia, não funciona assim.

Há aqui uma dimensão, não me recordo bem, certo que isso vem nos jornais, mas não me recordo muito bem. Ainda recentemente foi alvo de debate mediático, que é a existência ou não de uma dimensão de coordenação, como muitos chamam o núcleo duro. Essa existência ou não existência e o tipo de existência que existe marca muito o funcionamento dos Conselhos de Ministros. Porque uma coisa é haver uma relação individual do primeiro-ministro com cada um dos ministros, no Conselho de Ministros, são relações bilaterais. Outra coisa é quando existe uma preparação dos principais dossiês, não tanto legislativos, mas dossiês temáticos, dossiês críticos, haver um debate prévio numa estrutura de coordenação de governo, que é uma estrutura informal, em Portugal não há tradição. Obviamente que já houve situações com a existência do vice-primeiro-ministro, penso que foi o caso, e admito que nunca participei num governo que existisse essa situação, mas admito que haja uma ou outra exceção.

Era uma grande coligação.

Sim, é mais natural que exista nas coligações. Mas a existência desse espaço de coordenação Eu acho que influencia significativamente o funcionamento do Conselho de Ministros.

Qual é o maior receio de um ministro de manhã? É ver o nome na capa de um jornal quase que negativa ou um escândalo da sua pasta?

É uma pergunta que ainda vale a pena fazer pra quem está aqui num órgão de comunicação social, e num órgão de comunicação social como é "O Observador". Obviamente que a primeira coisa que uma pessoa faz, acho eu, e mal é quando não faz, é ver quais as notícias do dia. Até porque o ciclo é muito conhecido: os jornais fazem manchetes, a rádio pega nelas, os partidos pegam a seguir e quando isso acontece, já sabemos. O dia está feito, essa é a notícia do dia. Se tem a ver conosco, a preocupação é maior.

Eu tenho o hábito de me deitar cedo. Sempre fui assim, e me levantar muito cedo. E portanto, quando estava ministro, pegava no telemóvel e via de fato a capa dos jornais.

Tem os briefings preparados dos gabinetes, não é? Com os títulos.

Eu confesso que como acordo cedo, às 6h00, a primeira coisa que eu fazia era pegar no telemóvel e a capa dos jornais informava-me diretamente. E de fato, marca-nos logo o dia, porque eu tenho um dia programado, que tenho que fazer várias coisas e de repente, se vier na capa do jornal uma coisa qualquer, já sei que o dia é desformatado, porque vamos ter que reagir a esta notícia. Se eu tiver uma visita, porque estou visitando, sei lá, no caso da Segurança Social, vamos fazer uma visita a uma instituição social, vamos estar com um parceiro social, vamos visitar uma empresa. Eu já sei que as perguntas que a comunicação social vai fazer vão estar muito direcionadas para, se calhar, aquele caso, que pode ser o caso do dia, e nós temos que ter essa capacidade de resposta. E portanto, há uma dupla dimensão quando se está ministro, que é esta: é a dimensão um pouquinho mais estrutural de desempenharmos, de tentarmos entregar um programa de governo, o que estava de fato delineado para fazermos na nossa pasta e depois a dimensão da gestão do dia a dia. E de fato, estou a falar especificamente no caso da Segurança Social, todos os dias há qualquer questão que aconteceu, há uma rotura aqui, houve um problema ali. Portanto, temos que ter a capacidade de dar resposta, como é óbvio, a essa questão, e isso marca-nos muito, de fato, o dia.

Mas é o maior receio esse que acompanha um ministro, mais do que, sei lá, embates com a oposição, por exemplo, ou com o Presidente da República, eventualmente?

Principalmente quando é algo que não é esperado. Um debate com a oposição, uma iniciativa da oposição, normalmente tem-se sinais, é possível preparar. Acontecimentos que se vão acumulando, sei lá, um crescimento do desemprego, as pessoas estão preparadas, sabem que a tendência é aquela. Agora, também com a comunicação social, umas vezes mais, outras vezes menos, há o princípio de que uma notícia que afeta o funcionamento ou o desempenho de um qualquer ministério, não digo que todos os órgãos de comunicação ajam da mesma forma, é normalmente feito um contato. Não escondo que às vezes é feito meia hora antes de fecharem as edições. Não escondo isso, porque isso é uma realidade.

E alguma vez isso tirou-lhe o sono de uma noite, e a si também? Saberem que no dia a seguir iam sair a manchete de um jornal.

Isso depende das pessoas. A mim é fácil tirar-me o sono.

Eu sou exatamente o contrário, a mim é difícil tirarem-me o sono, portanto durmo sempre normalmente bem.

Tem mais a ver com as pessoas do que com as coisas. Se o Sporting jogar um jogo importante amanhã, isso tira-me o sono. Não é preciso numa questão política assim tão...

O Benfica joga na terça-feira e eu durmo tranquilamente.

Isso também é compreensível.

Desculpa.

Força. Ia perguntar isto: lembram-se qual foi o Conselho de Ministros mais duro, até porque tiveram em momentos importantes com José Sócrates, foram momentos duros na parte final, e com Pedro Passos Coelho, momentos duros naquele ano. Há um Conselho de Ministros que se lembrem, que foi particularmente difícil e duro e que saíram de lá com vontade de abandonar o governo?

Com vontade de abandonar o governo, nunca saí de nenhum Conselho de Ministros. Os Conselhos de Ministros mais difíceis, duros não quero chamar, mas mais difíceis que tivemos, provavelmente, eram os Conselhos de Ministros do Orçamento de Estado. No meu caso, estamos a falar de reuniões que chegaram a durar 12 horas, 14 horas. São reuniões muito demoradas, com escolhas que são escolhas difíceis e portanto são Conselhos de Ministros nesse sentido, e numa altura de crise econômica, de uma crise bastante profunda, onde tínhamos que fazer muitas escolhas que eram escolhas francamente difíceis, onde tínhamos muito pouca margem de manobra, estávamos formatados por um memorando de entendimento e portanto, a margem de manobra dentro do memorando de entendimento era muito curta, em que tínhamos que fazer muitas coisas que não eram a nossa opinião, mas era uma obrigação contratual do Estado português, e de fato, fazer aquelas escolhas todas no que é o Orçamento de Estado, eram sempre reuniões mais difíceis. A comunicação social relatou isso na altura. Lembro-me particularmente de um dia em que vim de uma viagem longa, de um voo de Moçambique, e aterrei num Conselho de Ministros que durou 12 ou 14 horas. E portanto, são Conselhos de Ministros que não são propriamente a normal quinta-feira em que estamos a debater algumas iniciativas legislativas. São Conselhos de Ministros, como é óbvio, mais relevantes e mais difíceis.

Eu tenho aqui uma opinião ligeiramente diferente, porque é verdade que os debates orçamentais são debates exigentes e duros. As pastas que nós compartilhamos têm uma dupla característica, e isso ajuda a perceber também como é que funciona o Conselho de Ministros, que é: são muito sensíveis na área do orçamento, mas também são pastas com Poder, com capacidade de negociar, porque a Segurança Social tem uma boa parte das receitas do Estado. Também tem uma boa parte das despesas, mas isso dá-lhes uma autonomia estratégica que provavelmente nenhum outro ministério tem.

Tem, aliás, um orçamento à parte. As pessoas esquecem-se que tem um orçamento próprio.

E que é gerido muito pelo ministério.

E que é quase sagrado o orçamento da Segurança Social, porque são verbas que pertencem aos trabalhadores.

Obviamente, quando estamos num período, temos estado quase sempre, um período de restrições. Quem está no ministério que gera receitas tem uma capacidade de negociação diferente, porque assim: "Está bem, querem que eu corte aqui 100, mas se eu aqui tiver receita de 200, não preciso de cortar os 100 e ninguém tem capacidade de resposta". Portanto, há um poder negocial destas áreas que não é a mesma coisa que outros ministérios, que são mais dependentes no seu funcionamento do Ministério das Finanças. Para mim, as coisas que marcam mais na minha memória, se é possível dizer isso, não sou muito dessas coisas, mas são situações de constrangimentos externos conjunturais muito fortes. Eu estava no governo, já passou tantas coisas e tantas crises, nós já não nos lembramos disso, naquilo que foi chamado na altura a Grande Recessão, 2008, 2009, e tive conselhos de ministros em que o que se discutia é se o sistema financeiro português, e não só, ia implodir. Há um célebre relatório do Senado norte-americano que relata uma situação em que 13 dos 14 maiores aglomerados financeiros estavam à beira da falência. E isso também foi uma situação que se viveu em Portugal. O risco de debacle ou falência, se quiserem, ou de quebra no sistema financeiro é uma coisa que num Conselho de Ministros estar a discutir isso é algo que nos marca muito, porque a margem de manobra é muito reduzida, porque as decisões não são, em muitos casos, tomadas cá. Para mim, esse tipo de crises externas são as coisas que eu retenho mais.

Porque não controlamos de maneira nenhuma.

Essa tira-lhe o sono mesmo.

Deixa-nos com uma sensação, ao mesmo tempo de uma grande responsabilidade, é uma situação histórica, mas também de uma pequenez face à dimensão dos problemas. Não estava no governo, mas admito que com a situação da pandemia se terá passado algo semelhante. Aquilo é tão esmagador que as pessoas sentem-se muito pequenas.

A condição é muito grande e de alguma forma impotentes para lidar com isso. Estamos mesmo a chegar ao fim deste nosso explicador. Querem deixar um conselho a quem hoje ou no futuro inicia funções governativas, Pedro Mota Soares? Qual é aquela dicazinha?

É por natureza transitório. As pessoas que se lembrem sempre disso. É um enorme privilégio nós podermos desempenhar funções em nome do Estado português e darmos o melhor de nós próprios para o nosso país. Acho que é muito importante que qualquer pessoa que desempenha funções perceba que não se é ministro, está-se ministro. Não se é deputado, está-se deputado. É sempre transitório pela natureza da função.

José Vieira da Silva.

Estou de acordo. Isso é algo que praticamente todas as pessoas sentem. Só uma pessoa que tenha, de facto, uma difícil relação com a realidade é que não sabe que no dia seguinte pode já não estar no sítio onde está. Quando falamos de precariedade, não há nada tão precário como o exercício. Eu não vou dar conselhos, quem sou eu para dar conselhos, mas acho que há uma coisa que é muito importante, que é tentarmos, ao limite, sermos fiéis a nós próprios. Ou seja, podermos chegar ao fim do dia e dizer: "O que eu fiz era aquilo que eu queria fazer, não consegui, porque não fui capaz, mas foi o que eu quis fazer, porque era aquilo que eu pensei, é aquilo com que eu me sinto bem, me sinto tranquilo". Isso é extremamente importante.

Já agora, só uma última pergunta, porque se fala isso de alguma maneira no sentido pejorativo e que é rápido, estamos mesmo a terminar. Dizem que é melhor ser ex-ministro que ministro.

São duas coisas completamente diferentes.

Desempenhar funções em nome do país é um enorme privilégio e não é comparável com o que é antes ou depois. Como é óbvio, a pressão de ser ministro é uma pressão difícil. Acordar todos os dias de manhã e ter que estar a responder, tem esse grau de dificuldade, mas não são mesmo coisas comparáveis.

Muito bem, Pedro Mota Soares, José Vieira da Silva, obrigado a ambos por terem estado nesta manhã da Rádio Observador e pela partilha dessas, não são memórias, mas essas experiências governativas.

Foi uma perspetiva diferente.

Uma perspetiva diferente. Isto num dia em que obviamente vamos ter a tomada de posse do novo governo. Obrigado a ambos.

Obrigado pelo convite.